segunda-feira, 21 de maio de 2012

You're adorable.

Velhice

Não sei lidar com a frustração. A dedicação que ponho em tudo o que faço (e não faço) é de tal maneira obsessiva que o mínimo desvio me faz exasperar -- meu, dos outros, do destino. É, pensarás, sinal da imaturidade de que tenho falado, uma imaturidade patológica e académica, tão ordinária que não se vai nem tão-pouco se vem -- finge ir-se e vir-se porque se fez pensamento, já se acha instituição. Seja. Mas tudo isto me leva a perguntar se há uma relação entre a imaturidade e a inocência; entre o capricho e a castidade; entre a birra e a injustiça no seu estado mais puro -- aquele em que é sentido, seja qual for a sentença.

Pouco há a dizer da tua chegada. Da tua estadia. Da minha partida e da tua, de já não te encontrar onde te deixei. Aquilo que para os outros são duas vidas parece-me uma vida e uma injustiça. Fazes o que queres, ou o que podes dentro do que queres, e eu sigo-te. Felizmente para a minha biografia (sempre fica mais interessante), sou mais livre do que pensas: apesar de as minhas pernas não se moverem muito, de as minhas viagens se contarem pelos dedos de uma mão, sou livre e não sigo ninguém. É por isso que barafusto. Porque continuo dentro de mim. Dentro de mim, ainda não parti de e para lado nenhum. Não fiz nenhuma viagem. Não vi nada que me fizesse crescer para além da frustração. Não vi nada que já não soubesse. Até essa coisa de a felicidade ser possível eu sabia antes de aqui chegar, mas de que ela não é possível apesar de ser possível também eu suspeitava. E como saber se essa suspeita não é responsável pela impossibilidade, mais do que pela frustração?

É de uma prepotência gigantesca, dirás, ir pelo mundo e não admitir ter visto alguma coisa de novo, de surpreendente. Digo-te antes que é triste ter o mundo inteiro fechado dentro de nós. A velhice, prematura ou não, é uma doença incurável.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Pensar

«There is neither good nor ill but thinking makes it so». Como se faz, Hamlet?

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Hopper

O cansaço e o desespero apesar de, lá fora, ser um dia de Verão. Esta mulher com ombros mas sem rosto contrasta com as outras mulheres de Hopper, que enfrentam o dia frente a uma janela aberta. Este quadro não é dos seus melhores, mas toca-me hoje como nenhum. Porque também eu quero ser uma daquelas mulheres. Por que não sou, não sei, mas estou cansada e o dia ainda mal começou.


sexta-feira, 6 de abril de 2012

Romantismo

Era tão romântica que considerava dormir nu quando se está só um desperdício de pele.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Pela mão

Li uma frase de Kafka -- «o que não existe é o que não foi suficientemente desejado» -- que me lembrou outra que D. costumava citar, de Maurice Blanchot -- «o desejo é a distância tornada sensível». Passo a vida a falar de como não quero falar, só sentir, e a vida prega-me partidas: desejo o que está distante e, pior ainda, não sei o que mais desejar. Gostava de que um dia o caminho fosse, para mim, mais importante do que a meta, mas para isso é preciso que me levem pela mão e me calem com um beijo. Leva-me pela mão e cala-me com um beijo.

domingo, 1 de abril de 2012

«We are made of star-stuff»


Carl Sagan

Uma certeza e uma esperança para o meu irmão, que faz hoje seis anos.

sexta-feira, 30 de março de 2012

A bênção

«A tristeza tem sempre uma esperança/De um dia não ser mais triste, não»