«O Jorge não tem categoria para vender sabonetes, quanto mais para ser editor de alguém.»
*ou de como matar alguém em vida.
Sábado, 21 de Janeiro de 2012
Epitáfio*
Inteligência (outra vez)
Ele diz-me que tenho uma tendência desagradável para tornar a nossa relação numa meta-relação, i.e., acrescento eu, numa ralação. É verdade, é absolutamente verdade - embora eu nem por um segundo lho pudesse admitir, sabem como é. Tenho muita dificuldade em afeiçoar-me a coisas sem possibilidades meta - por exemplo, não consegui ainda trocar este blogue por outro, que era o que devia fazer, ou pelo menos mudar a decoração. Ora, isto é uma contradição pura, e o pior de tudo é que sou temerária, sei bem os riscos que corro e as conclusões a que chego, invariavelmente, quando tento explicar alguma coisa que é, na sua essência, inexplicável como o amor. Quero tornar inteligível uma coisa que, quando tornada inteligível, perde o encanto e o sentido: o encontro íntimo e primitivo, em certa medida, de dois seres fundamentalmente diferentes. Esta é a primeira prova da minha imaturidade: ainda não aprendi a ver a inteligência como um instrumento. Para mim a inteligência é um fim em si, eu sou o seu instrumento. É, talvez, mais primitiva do que o amor. Senão, por que nos atormentaria a consciência o pecado, quando nos damos a quem não somos devidos?
Por me deixar manipular pela minha primitividade encolho-me, envergonho-me. Até um homo sapiens sapiens felpudo, com uma erecção à vista de todos e a comer de boca aberta o que caçou é mais inteligente do que isto.
Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012
Um dia são dias
Não pretendo dar-lhes uma novidade, e muito menos ser derrotista (como diria Maggie Smith, "é muito classe média", segundo uma captura que vi há dias no Facebook). Sei lá, aliás, o que pretendo. Talvez pretenda tudo e não pretenda nada, ou vice-versa. Enfim, o habitual. O que quero dizer-lhes é que nada é como nos contaram. Não basta vir para as Caraíbas para ser feliz. Não que fosse isso que eu esperava quando, no primeiro dia do ano, aterrei em Antígua e Barbuda por amor - próprio e impróprio, embora acredite que todos os amores impróprios são próprios e todos os amores, próprios ou impróprios, são apropriados. Amar é bom. Só que amar-se é ainda melhor e se alguém descobrir como se faz o meu número de telefone é...
É exactamente esse o problema ou, para ser menos classe média, o desafio. Amar-se. A propósito, chamar aos problemas desafios é uma invenção da literatura de auto-ajuda que ajuda. Chamando ao problema desafio ele parece-me menos problema, mais ultrapassável, do mesmo modo que, tendo problemas nas Caraíbas eles me parecem mais despropositados, mais desafios. Como me atrevo a ser infeliz com este mar azul-Photoshop à minha frente?
Já o escrevi aqui uma vez e, feliz ou infelizmente, ainda o penso: o inferno não são os outros, somos nós. Como se não tivesse ardido já o bastante, apanhei um escaldão no meu primeiro dia de praia. Nunca ir à praia com sono é aquilo a que eu chamaria um bom conselho. Para mim, basta uma ligeira variação, que consiste em apagar as duas últimas palavras. Eu e o sono somos sinónimos. Por enquanto, não trabalho e tenho dormido bastante. Por mais prazer que sinta a dormir (ou, melhor dizendo, a acordar de um sono bom), não consigo deixar de achar o sono uma perda de tempo. Mas consolo-me sabendo que, se estivesse acordada, não faria nada de significativo de qualquer maneira. O problema.
Escrevo e espreguiço-me à sombra de um gazebo encantador, numa espécie de hotel chamado Reef Gardens, impecavelmente mantido por uma adorável americana chamada Connie. À minha frente tenho o tal mar onde, nas minhas horas vagas, o meu amor impróprio navega. Estou a ler pela primeira vez um "livro de mar" de Jack London (O Lobo do Mar), e já invejo quem embarca, pela placidez necessária para aguentar a beleza e a adversidade que o mar contém (ou liberta?). Sei que a serenidade é muito boa, se aprende e leva tempo. Quero, por isso, aprendê-la o mais rapidamente possível. Curiosamente, é quando somos jovens que mais o tempo parece faltar-nos; é daí que vêm as asneiras, mas também, talvez, as maravilhas - por exemplo, Glenn Gould tinha 25 anos quando gravou com uma perfeição avassaladora o Livro II do Cravo Bem-Temperado. Seria sereno já? Como se explica que esta gravação se ouça com tanto prazer em qualquer lugar, numa capela em talha dourada ou numa casinha de madeira e telhados de chapa como a que tenho atrás de mim?). O paraíso são os outros.
Sei que já não sou Holden Caulfield, cresci um bocadinho, mas ainda não gosto do que sou. O que faz, afinal, uma pessoa aceitar-se? É o tempo? A vontade? O Rum punch (que é bom que se farta)? Psicoterapia?
É o que lhes dizia: as Caraíbas não são um pó colorido dentro de um pacote com "Felicidade instantânea!" no rótulo. Tantas vezes, antes de partir, ainda sem ter decidido fazê-lo, pensei ou fui levada a pensar na sorte que era ter a possibilidade de estar aqui; que tantas vezes disse, fechada num escritório, que o que queria era estar nas Caraíbas (apesar de não gostar de praia e sempre me terem fascinado as atmosferas dickensianas). Percebo, fascinada, que muita da sabedoria popular sobre esta região é verdadeira - apesar de os entendidos serem rápidos a asseverar que todas as ilhas são bastante diferentes. Os maravilhosos anúncios do Malibu (compilei os sete que consegui encontrar) são quase paradigmáticos: nada é tão urgente que não possa ser adiado, a calma é dominadora e um sorriso luminoso, por mais nevoeiro que esteja cá dentro, não demora muito a aparecer.
A beleza do que me rodeia e o sorriso dos outros, que puxa o meu das profundezas, torna os meus problemas, mais do que insignificantes, inefáveis. Aquilo de que não se pode falar existe? A resposta a esta pergunta entusiasma-me tanto quanto me assusta. O que sou eu sem os meus problemas? O que serei? Tudo o que é humano me é estranho, afinal. Sou um bicho do mato.
Faço, também, parte daquele grupo de pessoas que tem tido o mau gosto de achar a felicidade desinspiradora. Porque creio que é preciso um talento especial para tornar as coisas simples e bonitas dizíveis. Eu não sei falar do que sinto quando percorro este jardim descalça, ou quando o Sol se põe à minha frente e o vejo como se fosse a primeira vez, sempre a primeira vez. Nem consigo descrever a estranheza que me provoca a enorme quantidade de galos nestas ruas, ou a maneira suicida como os pelicanos mergulham (sobre isso prometo um post detalhado), ou o medo que sinto ao andar de autocarro, "a ver a vida a andar para trás" a cada razia do motorista ou do carro que nos tenta ultrapassar. Nem prometo que consiga falar da educação amigável mas pouco efusiva de quem aqui nasceu ou explicar, com justiça, o facto de nada, absolutamente nada ser ou parecer verdadeiramente desagradável neste lugar, tal a leveza dos dias tão curtos e das noites tão boas que só por capricho deixam saudades - de tão curtas, tão dias que são. Os dias aqui são circunferências, dias O, e lembram-me uma canção que é o meu espanta-espíritos. Esta:
Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011
Ordem: Align="left"
Parecia-lhe que a única maneira de deixar de se justificar era escrever textos não justificados. Mas centrou-os tanto que perdeu a graça.
Assunto, critério
A máquina pergunta-me se quero mandar o e-mail "sem assunto", e eu respondo que ela não tem critério nenhum, que nunca escrevi nada com tanto assunto como tudo o que escrevo "sem assunto".
Fim?
Hoje rompi uma relação. Toda a gente sabe que há maneiras e maneiras de romper relações, umas de maneira a que acabem (custa muito), outras de maneira a que nunca acabem (custa menos, mesmo que custe muito).
Não dei a esta relação tempo para que se desenvolvesse e sinto, como a outra parte, que a rompi quando ela estava a ficar mais útil e interessante — damo-nos com pessoas úteis para nós e por isso boas para nós nalgum momento da vida. É, penso, também por isso que não acredito em caridade: somos bons porque isso nos traz algum benefício, nem que seja o de não sentirmos culpa. A pureza de um sentimento está no significado que ele tem para nós e não na solidariedade que ele representa. A solidariedade é uma necessidade biológica e a culpa uma armadilha mental: não sobrevivemos sem o outro, mas custa-nos admitir que é para sobreviver que o queremos por perto. Quando o outro deixa de nos fazer bem deixamo-lo, damos lugar a um outro que faça; mal é que o tempo de deixarmos o outro não coincida com o tempo de ele nos deixar a nós, e assim vamos perpetuando a culpa, mas também a sobrevivência (a nossa, pelo menos).
Rompi hoje uma relação com alguém que me ajudou a sobreviver. Reconhecê-lo é reconhecer a minha importância — não apenas a do outro. Pela primeira vez, não rompo uma relação angustiada por estar a forçar um fim, mas confiante no caminho que escolhi e naquilo que me ensinou a relação que decidi romper. Não sei se esta relação acabou mesmo, mas sei que pela primeira vez não me justifiquei, não senti culpa nem remorso, fiquei só com a parte boa, que é estar viva e estar grata por estar viva, ao outro e a mim mesma.
Se isto não é uma coisa muito próxima da felicidade, a infelicidade não existe e eu nunca lá estive.
Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011
Zelo
A namorada virtual era tão perigosa que, para comunicar com ela, iniciava sempre o PC em "Safe Mode".
Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011
Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011
Coisas sem sentido
As escadas rolantes estão avariadas e a velha corre 10 metros para não deixar que a porta do elevador se feche.
Terça-feira, 6 de Dezembro de 2011
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