quinta-feira, 12 de julho de 2007

Acho o aviso de recepção das cartas um dispositivo de vigilância totalitária da pior espécie. Mas, pelo menos, ainda confere ao destinatário uma certa liberdade: uma pessoa pode receber uma carta e não a ler, rasgá-la, pegar-lhe fogo, comê-la ou enfiá-la na caixa de correio de alguém quando vai a caminho do trabalho. Com as mensagens electrónicas é ligeiramente diferente e, convenhamos, muito pior: elas podem vir com um recibo de leitura. Ora, não imagino uma prepotência maior do que a de se querer obrigar alguém a atestar que leu uma mensagem. Um recibo de leitura é um atentado contra as liberdades e os direitos individuais dos destinatários. É uma ousadia, como oferecer propositadamente um livro a um analfabeto: o analfabeto, ou qualquer pessoa ofendida, sente, perante a ofensa, vontade de transgredir. Ao receber um livro, o analfabeto terá uma vontade enorme de aprender a ler para, voilà, transgredir, para se tornar diferente daquilo que os outros pensam que ele é. Alguém que recebe um e-mail com um recibo de leitura, sabendo ler, tem também o direito de se sentir ofendido: vai, se for suficientemente endotérmico, transgredir, não ler, não enviar o recibo de leitura e, se for também suficientemente educado, mandar a pessoa que lhe mandou a mensagem com recibo de leitura à merda.