quarta-feira, 18 de julho de 2007

Há uma coisa assustadoramente grosseira nos romances de Eça: os apaixonados, quase sem excepção, tratam-se por "filho" ou "filha". "Filha isto", "Filho aquilo", «Ai Filho, trago o coração negro como a noite», "Ai filha, não te rales mais", e anda tudo numa promiscuidade incestuosa que mete medo ao susto. Acho Eça maravilhoso - apesar de ser tão mau como quase todo o escritor português a pintar cenas de sexo -, mas isto é uma piroseira do pior. Pergunto-me se será de propósito, se já estou na idade de entender ironias assim. Não, não me parece que seja de propósito, nem me parece que haja ironias assim - se houver, nunca viverei o suficiente para as compreender. Alguém que chama "filho" ou "filha" à pessoa amada só pode ser pirosíssimo, grosseiríssimo, muito pouco criativo.