terça-feira, 31 de julho de 2007

Inconfidência

Dizias-me, há uns dias, que és um ignaro. Vamos formar um clube. Lá, não fumaremos charutos nem beberemos uísque velho, mas falaremos dos livros que não lemos, dos filmes que não vimos, dos discos que não escutámos, da filosofia que não percebemos, dos namorados e namoradas que não tivemos, dos pratos que nunca provámos, das notícias das quais não ouvimos falar, dos amigos que não temos e que conhecemos tão bem, de países pelos quais nunca viajámos, dos meios de transporte que nunca utilizámos (eu, por exemplo, nunca andei de avião, que é o meu meio de transporte favorito), das bebedeiras que não apanhámos, dos concertos aos quais nunca assistimos, das contas que não pagámos, das casas que não comprámos, dos carros que não conduzimos, das responsabilidades que não temos, dos animais de estimação que nunca nos ofereceram, dos instrumentos que nunca aprendemos a tocar. Para isto, usaremos todas as palavras que não conhecemos e ainda algumas que não pronunciamos correctamente e não fazemos a mínima ideia de como se escrevem. Ninguém precisará de geometria ou de álgebra para entrar no nosso clube, nem sequer de ser baptizado, basta que, assinando com asseio no final da folha, coloque a cruz na parte da proposta de adesão onde se lê «Declaro que sou um palhaço retórico mas fui salvo da inocência a tempo de não me arrepender de nada.»