quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Há aquela ideia segundo a qual um blogue tem de ser uma coisa pessoal. Concordo, em certa medida. Um blogue que não é o naufrágio de quem o escreve não é um blogue, é uma seca tremenda, um paraíso para a opinião - quase sempre desprezível e despropositada - e um resort de luxo para quem não sabe nada sobre si mesmo e, em sentido idiossincrásico, talvez nem exista. Há certas coisas que, segundo consta ou parece, as pessoas que escrevem blogues nunca fazem. Por exemplo, uma pessoa que escreve um blogue, a não ser que seja muito ordinária, nunca tem diarreia nem se peida, o que me faz achar, na maioria das vezes, que essa pessoa é tão desinteressante quanto o seu blogue. É claro - podem reparar - que há pessoas tão interessantes que não precisam de falar de merda para que os seus blogues sejam bons e, ainda assim, este factor, próximo da tarimba da decência, parece-me um bom indicador do nível de entusiasmo que um blogger pode causar. É fácil escrever algo de pessoal no blogue, principalmente se formos muito aborrecidos e mal-educados. É imprescindível que aquilo que escrevemos de pessoal nos nossos blogues seja tão lugar-comum como, voilà, o próprio peido. Ser filantropo, em certa medida, é admitir que só serve para nós aquilo que também serve para os outros. As experiências que relatamos em estado gasoso não são experiências, são segredos. Não faz sentido nada que não seja partilhado - se bem que, por força das convenções sociais, um peido e uma diarreia nos saibam muito melhor em privado. Leio posts onde tudo é de uma volatilidade tal que, parece-me, nem quem os escreveu viveu aquilo. Já escrevi posts assim e, reconheço, devia tê-los apagado. O modelo do livro aberto é, para mim, uma ofensa que lembra aquela que certo jornal nova-iorquino quis evitar quando, num dia de 1829, pediu desculpa aos seus leitores por trazer uma notícia na primeira página, isto é, no exterior do jornal*.

* lido em O que é Jornalismo, Nelson Traquina, Pág. 45