quinta-feira, 31 de maio de 2007

Qual Blue Note, qual quê!






O Quim Barreiros com o selo da Motown. Isso sim, era um feito.

I know that a man ain't supposed to cry [série Motown kicks - 1]

O que é um blogue?

Isto.

Breve maltratado das coisas que não existem [15]

O Sorumbático é um animal que se esqueceu de pagar a conta à EDP.

Voz de jacarandá ao vento (repost)

O que é um blogue?

Isto.
Isto.
Isto.
Isto.

Semiótica do Povo

Recebi agora um e-mail com uma suposta crónica de Eduardo Prado Coelho no Público (daquelas que eu só leio quando estou mesmo muito bem disposta e me apetece ficar ainda mais bem disposta) em que ele fala - só fixei esta parte - dos funcionários de empresas que levam (roubam) material de escritório para os filhos - terá sido isto? - e ainda se sentem bem com isso. Enfim, se isto for verdade, finalmente EPC conseguiu o que sempre quis: tornar-se um herói popular.

Sem título

- Quero uma mulher que não tenha medo de parecer ridícula, que não se importe de abrir a porta de casa de pijama, que chore em público sempre que lhe apeteça.
- E onde é que vais encontrá-la?
- Aqui não é, de certeza.

Não era ali, de certeza. Rui e Eduardo estavam numa festa ridícula, daquelas típicas de um romance light, onde ninguém se diverte e toda a gente está preocupada, apenas e em exclusivo, em encontrar o amor da sua vida ou, em último caso, alguém com quem possa passar uma noite agradável. Enquanto Rui procurava a mulher da sua vida, Eduardo procurava a queca da semana. Não eram os melhores amigos, porque um homem para ter um melhor amigo precisa de o ter conhecido a vida toda ou, pelo menos, de estar com ele como se o tivesse conhecido a vida toda. Na verdade, Rui tinha feito 35 anos havia dois dias e Eduardo, quarentão orgulhoso, recuperava do fim do seu último casamento (sim, o último, porque daí a uma semana ele seria atropelado na Avenida do Brasil por um Renault Clio branco, de 1995, de matrícula desconhecida), não porque estivesse triste, mas porque o último casamento o tinha cansado muito.

No outro extremo da grande sala moderadamente bem decorada – entenda-se por moderadamente bem decorada a total ausência de bibelôs e a extravagância desnecessária de uma parede pintada de vermelho escuro, onde existia um móvel de madeira clara (bétula, talvez) com uma televisão e vários outros aparelhos de utilidade desconhecida – , sentada num sofá castanho em estilo pele de pêssego, estava Isabel. Isabel já tinha dormido com Rui e tinha sido embaraçoso: estava bêbeda nessa noite, e a única coisa que Rui queria era aproximar-se da melhor amiga de Isabel, uma engenheira que desenhava hélices de grandes cruzeiros (tarefa que deve ter uma designação mais específica) para uma empresa alemã. Rui sempre sonhou estar com uma mulher que soubesse falar alemão, pois era a única maneira de dar uso ao curso de Línguas e Literaturas Modernas que tinha tirado – tinha arranjado trabalho como copywriter numa agência de publicidade (os romances light têm sempre de ter um copywriter). Só que Isabel, pobrezinha, só sabia ocupar os seus fins de tarde no curso de hebraico da sinagoga de Lisboa e estava a preparar-se para começar a estudar Yiddish por conta própria; além disso, ainda não tinha percebido os benefícios das declinações para a saúde gutural, e muito menos estava a par da alegria que dava a um homem se dissesse donaudampfschiffahrtsgesellschaftskapitän durante o broche.

Em suma, o homem mais bonito e interessante da sala chamava-se Gustavo (um nome perfeito e indispensável para um homem num romance light). Era o único que Isabel conseguia ver na sua cama (porque tinha olhos azuis ou verdes claros, é tudo a mesma coisa) e na sua vida. Como é óbvio, Gustavo tinha de ter um senão para Isabel: era gay. E, num romance light, o único papel disponível para um gay é o de melhor amigo da personagem principal, que será necessariamente uma mulher (a Luísa, que enquanto a festa decorria, estava a dar de comer aos gatos), pelo que Isabel não chegou a apaixonar-se por ele.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Aborto

Uma coisa vos digo dos romances light: é muito mais fácil lê-los que escrevê-los.

Gravidez inesperada

Comecei há 10 minutos a escrever um romance light, mas já estou enjoada.

Bonga

Ó Rui, pelo menos uma vez na vida sou obrigada a concordar contigo, e com a lágrima ao canto do olho.

desbaratina

terça-feira, 29 de maio de 2007

Quando o DN-Tablóide entrevista Ricardo Araújo Pereira

Maria João Espadinha - Dizem que é uma espécie de plágio. Como reage?

R.A.P. - Com o dicionário. Plágio é a apropriação do trabalho alheio sem indicação da origem. Quando apresentámos o genérico à imprensa, indicámos a origem da ideia e a razão pela qual mantivemos o Un, deux, trois, quatre. Não há referências a Claude François porque a canção que ele canta é, basicamente, a conhecidíssima música tradicional inglesa Three Blind Mice. Sendo uma música popular, o autor é desconhecido. Como foi o maestro Ramón Galarza a fazer os arranjos, é ele que assina. Já agora, poupo trabalho futuro ao DN: também não compusemos a música do genérico do nosso programa da Radical. E os Painéis de São Vicente, que usámos na série da RTP, não foram pintados por nós. E também não pedimos autorização ao autor para os usar. Uma coisa garanto: no dia em que queiramos fazer-nos passar por compositores, com todo o respeito pelo François, optaremos por Bach.

(o resto está aqui, mas depois do Bach, eu diria que não vale a pena ler mais nada)

Blue Post

Como o momento Jazz com Pretas deste blogue está a ficar sem opções youtubáveis, pensei em criar um momento Toma lá, Jacinta. Mas depois não me apeteceu postar videos da Lena d'Água.

É melhor parecer ser uma coisa que não se é, ou não parecer ser uma coisa que se é?

- Tu pareces serena, mas não és.
- Mentira. Eu só não pareço nervosa.

Último conto da Tia Júlia

X e Y só se sentiam bem nos braços um do outro. Não tinham percebido muito bem quando aquilo começara, mas sabiam que a cronologia não lhes era útil para descobrir o momento. A verdade é que não sabiam a data em que se tinham conhecido e, por isso, festejavam aquele amor (ou aquilo que se convenciona ser o amor) durante um mês inteiro. Discoradavam muito, mas divertiam-se sempre. Sabiam que tinham, um no outro, o sossego do caminho mais fácil. Viveram felizes para sempre, até um deles morrer.

Primeiro conto da Tia Júlia

X e Y perderam-se um do outro sem terem deixado de se amar. Não era um amor qualquer, nem se sabe se era um amor. Eram um daqueles casais (que não se sabe se eram casais) sem música. Daqueles que não podiam dizer "Ouves? É a nossa música." Viveram infelizes para sempre, porque todas as músicas lhes pertenciam. E tudo o que lhes acontecia, mesmo que não fosse música, também pertencia aos dois. Morreram muito velhinhos, com pena de nunca terem tido Alzheimer para se esquecerem um do outro.

Breve maltratado das coisas que não existem [14]

Um misantropo é um homem como os outros, só que vive melhor.

Posso devolver o draft autosaver, ou é como os bolos?

Agora que o Blogger salva os rascunhos, tenho vários posts que poderiam ter existido.

Breve maltratado das coisas que não existem [13]

O silêncio.

Requerimento número um

Não finjas que me entendes, ouve-me só.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Há coisas

que só nos deviam acontecer a partir dos 50 anos. Para, pelo menos, nos apanharem na ilusão de já estarmos preparados para elas.

Fim do mês

Dia 30 há greve geral. A Feira do Livro vai estar a abarrotar.

Buh

Aquelas pessoas que vão para as revistas dizer que ainda não encontraram o amor vão apanhar um grande susto quando perceberem que elas é que vão ser encontradas pelo amor. E talvez se assustem mais quando perceberem que essa situação é absolutamente irreversível.

Verdade e Luz

É a isto que eu chamo um post que ilumina.

O casamento ideal

Eu, você, nós dois
Aqui neste terraço à beira-mar
O sol já vai caindo
E o seu olhar
Parece acompanhar a cor do mar
Você tem que ir embora
A tarde cai
Em cores se desfaz
Escureceu
O sol caiu no mar
E a primeira luz lá embaixo se acendeu
Você e eu

Eu, você, nós dois
Sozinhos neste bar à meia-luz
E uma grande lua saiu do mar
Parece que este bar
Já vai fechar
E há sempre uma canção para contar
Aquela velha história de um desejo
Que todas as canções têm pra contar
E veio aquele beijo
Aquele beijo
Aquele beijo

Tom Jobim, Fotografia (1959)

(post inspirado neste post tão bonito e no casamento no tapete da casa de jantar do Rei e da Bela Acordada, da Adília Lopes)

Verde, mas sem Esperança

Hoje vi um homem morto. Todos os homens que alguma vez vi estavam mortos. Tenho saudades deles.

domingo, 27 de maio de 2007

Mais uma das melhores canções de sempre (e é para aí a 5ª vez que posto isto)

Nostalgia

Da insaciabilidade

Quanto faltará para chegarmos ao nirvana?

I dreamed of you amid the flowers

Domingo

Não há nenhum blogue que me faça pensar ou que me faça pensar muito. Porque a vantagem de ler blogues é descobrir quem pense por nós ou, melhor do que isso, descobrir quem diga por nós aquilo que nós pensamos e não conseguimos dizer. Eu só tenho um blogue porque há coisas que ninguém consegue pensar ou dizer por mim. E porque sou altruísta o suficiente para achar que alguém vai, ao ler alguma coisa que eu escreva, pensar: "Bolas, era mesmo isto que eu diria, se já não tivesse dito outra coisa."

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Uma estátua

para quem inventou os "bolos de noivo".

A primeira manifestação multimédia foi

o riso.

A estupidez continua ou o pequeno-almoço perfeito

É que a vida e a morte não são água e azeite, muito pelo contrário. Era um galão e uma torrada, se faz favor.

Estupidez minha

Não, nas rugas há mais vida do que nas cicatrizes. Só que as rugas já não têm suspense. As rugas só nos dão a curiosidade e a certeza de saber que nada do que se vai passar deixa rugas como o que já se passou. As rugas são a curiosidade do passado, cheiram a arquivo. As cicatrizes são o suspense, isto é, a curiosidade do futuro. As rugas são muito melhores do que as cicatrizes, mas é assustador ter de falar bem de uma coisa que ainda não se tem. Estupidez e cobardia minha.

Já me esquecia:

eu por acaso gosto mais de cicatrizes, porque nas rugas há sempre mais morte que vida. Mas claro, tudo isto depende de quem tem as rugas (ou as cicatrizes).

A estrada de tijolos amarelos

Antes de começar a ler blogues pensava que era a única pessoa capaz de misturar Beckett e Artaud ou Ella Fitzgerald com Claude François - presunçosa. Depois percebi que não sou a única pessoa a não saber em que lado da barricada ficar. Vou saltitando de um lado para o outro. Pode ser que um dia tenha a sorte de ser baleada para voltar à experiência do corpo.

Uma questão de gosto.

Preferir as rugas de Beckett às cicatrizes de Artaud.

je te mangerai crue si tu n'me retiens pas [ou das coisas que eu gosto de dançar - 5]

quinta-feira, 24 de maio de 2007

O trabalho liberta

Depois de dois dias de trabalho físico intenso, tenho o corpo tão pesado que já não me sinto nele. É como se o meu corpo tivesse fugido e a única coisa que me restasse fosse a alma. O problema é que, na alma, a única coisa que ainda resta é o cansaço. Por sua vez, o que resta do cansaço é apenas o sono, e o que resta do sono é o dia seguinte. No dia seguinte há trabalho. O trabalho liberta, desde que nos livramos dele até o retomarmos. É como a noite, que nunca dura o suficiente para fazer a felicidade dos vampiros. A parte boa é que só nos ocorrem estas coisas no final de um dia de trabalho. Se gostarmos do que fazemos, podemos sentir-nos livres em part ou full time.

Boa notícia

Diz o DN que vamos (nós, portugueses) passar a ter o maior centro comercial da Península Ibérica. Ena, já só nos falta um país a sério para o podermos construir.

A vida

é uma oportunidade para que tudo corra mal. Ou para que tudo corra bem. Você decide. "Você"? "Você" é estrebaria.

O cansaço

é o que permite a quem acha que não tem talento começar a agir como se tivesse.

A abnegação

é a doença de que sofrem todas as pessoas que têm talento.

A hipocondria

é o que gera os textos e as coisas do mundo. Porque a pessoa que a tem acha sempre que essa coisa da inspiração lhe pode estar a acontecer a ela.

A inspiração

é daquelas coisas que só acontecem aos outros.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

«Madame não gosta que ninguém sambe.»

No outro dia sonhei que alguém dançava ao som de jazz. Já não me lembro, mas bem podia ser ao som de "Yardbird Suite" do Parker. Foi tão bonito... porque é que já ninguém faz isso?

Jazz com Pretas [6]

Consideração insignificante sobre a semiótica das paixões

Os linguistas deviam ter menos currículo e mais biografia.

Jakobson, meu herói.

A função poética é aquela que usamos quando precisamos de pretextos para não nos calarmos.

Mil louvores, Jakobson

A função metalinguística é aquela que se usa quando se chega à conclusão de que o melhor é não dizer nada.

As homenagens a Jakobson nunca são de mais

A função fática é aquela que se usa quando se pretende... é melhor ficar para outra altura.

Outra homenagem a Jakobson

A função emotiva é aquela que se usa quando se quer... pois, não me parece.

Homenagem a Jakobson

A função conativa é aquela que se usa quando se quer... bom, talvez não.

terça-feira, 22 de maio de 2007

A solidariedade não me comove.

Gostarmos uns dos outros não é natural, foi inventado pelos homens. A coerência também.

Já o granizo é diferente.

Levar com um calhau na cabeça só desperta em nós o pior da nossa natureza humana. Antes de descobrirmos que é granizo, só queremos saber quem foi o sacana que o atirou.

O guarda-chuva

é uma invenção fabulosa. Dá-nos a ilusão de estarmos abrigados, quando nos faz chegar ao nosso destino sempre no mais sublime estado de liquidez. O problema é que, quando estamos molhados, também nos sentimos no meio de um naufrágio. Enquanto a roupa não seca, tudo é pretexto para pensar a vida.

Se não nos chovesse em cima

estaríamos sempre enxutos. E a verdade é que toda a gente gosta de ser espremida.

O que é bonito

é ver alguém submetido à erosão, mesmo que essa pessoa sejamos nós.

Não,

o suicídio não. Não tem piada quando nos dão algum tempo de avanço.

Leveza que seja insustentável,

só conheço a do estar. E ela só não permanece porque, a bem dizer, já se tornou um peso para mim.

Ciúme

Acontece muito com esta gente.

Núnemo

As ganzas provocam dislexia.

Um jornalista não é um detective: deve sempre esperar pelos factos para não ser surpreendido.

«O brigadeiro Nestor andava às voltas na sala e as paredes nuas ecoavam o som das suas botas no soalho.
- Se eu puser as mãos no homem que soltou o cavalo não sei se lhe hei-de dar um tiro ou uma medalha - concluiu.
O correspondente de guerra coçou o queixo.
- Estou a perceber... Os seus soldados seguiram a pista dos cascos do cavalo.
Estava enganado. Em muitos sítios tinha sido impossível seguir o rasto do cavalo porque um vento traiçoeiro o apagava.
- Não, por acaso seguiram a pista da bosta - reconheceu modestamente o brigadeiroNestor, explicando que o cavalo o tinha ajudado involuntariamente, deixando para trás os seus excrementos a intervalos regulares.
- Graças a Deus não sofria de prisão de ventre - acrescentou, erguendo os braços no ar. - Caso contrário, tínhamos acabado todos devorados pelos abutres.»

Panos Karnezis, O Labitinto

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Magia

Breve maltratado das coisas que não existem [12]

Desconfio sempre de quem usa a palavra "ecléctico". Tanta coisa para falar de alguém que apenas gosta de variar.

domingo, 20 de maio de 2007

Conjugação do verbo "domingar" no Presente do Indicativo

Eu pijamo
Tu pijamas
Ele pijama
Nós pijamamos
Vós pijamais
Eles pijamam

Prova oral

- Para além da presunção dos filósofos, que mais distingue a doxa da episteme?
- Assim de repente, não estou a ver...

Nunca mais é domingo.

Com um provedor assim, o Público bem podia limitar as suas edições a um número por semana; no resto dos dias, publicava-se um caderno com os reparos dos leitores e os comentários do provedor.

Birra de sono

Alguém já disse isto de certeza. Ainda assim, sinto necessidade de afirmar que Nietzsche é o Oscar Wilde da filosofia (como se a boa literatura não tivesse de ser filosofia ou como se a boa filosofia também não tivesse de ser literatura). Às vezes até sinto a tentação de pensar que eles bem podem ter sido a mesma pessoa. Quando penso nisto penso também em como tenho sorte. Sou comum: não tenho a responsabilidade de ter sempre razão. Aliás, essa é a única responsabilidade que não tenho.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

O Vaticano por Tom Lehrer

(Ou aqui.)

Constantinopla

Setecentos e oitenta e sete, o ano em que aconteceu o Segundo Concílio de Niceia, não foi exactamente o "Ano Europeu para a Igualdade de Oportunidades": bastava ser-se cego ou distraído para se ser iconoclasta.

Os limites da fé

A consubstanciação não é exactamente um fenómeno da natureza.

A minha escala Warhol (estadocivil.etcetc.com)

Deus conta como personalidade internacional? É que nós somos unha com carne.

Bambi

Josué C. contesta a grafia veado - referindo-se a um homossexual - que está indicada nos dicionários. "A grafia correta deveria ser viado, pois vem da palavra transviado - não concorda comigo?"

Meu caro Josué: não, porque não vem de transviado. Vem do veado, mesmo. É comum chamarem-se os homossexuais por nomes de animais mais "delicados". Em muitos países do mundo, por exemplo, o desenho Bambi, de Walt Disney, tornou-se sinônimo de veadagem, e eu desconfio que tenha sido essa uma das causas da escolha deste animal como símbolo pejorativo para referir-se aos homossexuais. Minha turma de ginásio usava o ofensivo marreca, mas tenho certeza de que haverá outras variantes, por esse imenso Brasil. A forma *viado foi usada por alguns - como O Pasquim dos anos 70, por exemplo - como uma deformação ortográfica baseada na maneira como nós, os brasileiros, pronunciamos a primeira sílaba de veado. No entanto, a grafia com "I" não tem razão de ser.

Abraço. Prof. Moreno

Ora bem:

gosta de música brasileira? Acha que percebe alguma coisa de música brasileira? Já ouviu falar num tipo chamado Milton Banana? Nunca ouviu falar num tipo chamado Milton Banana? Não tem vergonha de nunca ter ouvido a bateria do Milton Banana? O Carnegie Hall diz-lhe alguma coisa? Chega de Saudade (o disco) diz-lhe alguma coisa? Does Getz/Gilberto ring a bell? Ai não? Então daqui a umas horas, quando já se tiver dado conta da sua pelintrice, fale comigo.

PS: pode passar a sua vida toda no Loronix e perder a família, os amigos e o emprego sem sentir um peso na consciência. É que a maioria destes discos já não circula comercialmente e, mesmo que algum circule, não podendo ser encontrado em Portugal, pode ser descarregado e guardado a sete chaves.

Brush up your italian!

terça-feira, 15 de maio de 2007

A prova de que Velázquez era republicano.

Não sei se já vos disse isto,

mas vale a pena ver a novela "Vingança" só pelos diálogos da personagem do Nuno Melo com a personagem da Custódia Galego ou, vá lá, dos diálogos da personagem do Nuno Melo com qualquer outra personagem da telenovela que não seja uma besta. Deixo-vos alguns exemplos:

«Levas uma lamparina que te saem os dentes pelas orelhas!»
«Sua desgraçada, és uma boca de trapos!»
«Filho da mãe, só lhe faltava a facada aqui no pescoço que era para sangrar como um porco. Que cara é essa, atão?! Se a pessoa não levar isto na boa também não dá!(...)Também não era preciso matá-lo?! Poi'não, fazia-se fricassé!»

Breve maltratado das coisas que não existem [11] (mas mesmo assim são belas ideias)

Paz Perpétua.

Sapere aude

Não consigo dormir sem as luzes acesas.

Königsberg

Santinho.

Crítica da Razão Prática

Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz...

Crítica da Razão Pura

Gugudadá.

Crítica da Faculdade de Julgar

Chiu.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Vienna: Philosophy's Red Light District

Uma das justificações que a minha professora de filosofia dava para Wittgenstein ser o seu filósofo favorito tinha que ver com o facto de ele ser «o único filósofo giro». Foi com ela que eu aprendi que, mesmo para se fazer filosofia, é preciso sex appeal. "E Kant?", perguntam vocês. Kant era o sexo em pessoa: com ele até os orgasmos eram categóricos.

Atchim - il virus è arrivato.

Hoje descobri que, em italiano, tanto faz ser neto como sobrinho, isto é, há uma única palavra para designar "neto" e "sobrinho": nipote. A minha primeira reacção a esta descoberta foi rir, rir muito. Depois voltei à melancolia lusitana e fiquei sem saber se isto revela falta de riqueza vocabular da parte da língua italiana ou sentido de utilidade. Depois lembrei-me de que os italianos também não têm uma palavra genuinamente italiana para "pipocas": as pipocas deles são popcorn. E que a "pausa para café" deles, não sendo coffee-break, é uma pausa-caffè.

domingo, 13 de maio de 2007

Aspirações dramatúrgicas

Comecei a escrever uma peça com um tenor chamado Vaporetto Titano.

Pragmatismo (II)

Passando despercebido ninguém precisa de ter vergonha de nada.

Superdúvidas

Uma gramática pode ser uma leitura agradável?

Notas para uma cartografia do Inferno

A partir do momento em que Sócrates bebeu a cicuta, ser solidário passou a ser foleiro. E, como toda a gente sabe, também não há muitos intelectuais pirosos.

Eu também tenho muita pena

da menina que desapareceu. Mas no outro dia a Oprah fez uma reportagem no Gana sobre uns miúdos que são vendidos pelos pais para serem escravos de pescadores. Por umas centenas de dólares.

Nacional Situacion"ismo"

Fado, Fátima, Futebol e Madeleine.

Tenho saudades dos meus 8 anos.

Agora já não posso usar suspensórios e ser levada a sério.

Ulisses

Os anos 80 são as sereias da Humanidade.

Breve maltratado das coisas que não existem [10]

O termo Internacional Situacionista é um sinónimo de caldeirada?

Na noite passada music fell like rain to the streets

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Às vezes

acho que a blogosfera é uma espécie de Gulag, mas com menos frio.

A música é filha de João - e única, ao que parece.

Querida Mónica,

Mesmo que eu tivesse a voz da Bebel (que é uma cópia imperfeita da voz da Miúcha) e o meu pai fosse o João Gilberto, a última coisa que eu conseguiria fazer na vida seria cantar. Já assim, sem sermos parentes, até no duche tenho vergonha de abrir a boca...

Rei Édipo por Tom Lehrer

(Ou aqui.)

Breve maltratado das coisas que não existem [9] (da Magnum Photos)




(enfim)

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Wagner

Finalmente, em Lisboa, a obra de arte total, a superação do binómio arte/vida ou arte/natureza. Vamos todos ver cadáveres dissecados como se do David ou do Le Penseur se tratasse. Michelangelo e Rodin: agora sim, tendes sucessores à vossa altura. E como diz o Diário Digital, «A China foi a cidade de onde vieram os corpos», corpos de sem-abrigo. Se calhar vieram foi de Chinatown.

Pragmatismo

O DN publicou hoje uma notícia sobre um dialecto índio que só usa seis consoantes e três vogais e não tem vocábulos para números, pronomes, tempos verbais, orações subordinadas ou cores. O investigador que descobriu este dialecto, Daniel Everett, afirma não haver «entre os piraãs [nome da tribo] memória individual ou colectiva para além de duas gerações e nenhum consegue recordar os nomes dos seus quatro avós». Everett diz ainda que estes índios «restringem a comunicação à experiência imediata», e a jornalista do DN, Sónia Santos, acrescenta que o povo «não consegue abstrair-se e criar ficções, por isso mesmo não têm [tem] qualquer vocação para a arte.» Ó Wittgenstein, não era disto que estavas à procura, pá?!

Não me posso esquecer

da expressão "vou lavar a patareca".

terça-feira, 8 de maio de 2007

Não imaginam

os posts que se perdem no meio do meu dia. E mesmo assim eu não me importo nada.

Filigraana e as gajas

Gostei muito desta discussão. Não é que a minha opinião seja relevante, mas eu costumo dizer que gostava de ser homem e, se fosse homem, seria gay. Por várias razões: primeiro, a menstruação é um nojo; depois, para os homens é tudo muito mais fácil e, em geral, acho o feminismo (principalmente no Ocidente e nos dias que correm) uma forma muito eficaz de segregação.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Post foucaultiano

Tudo o que aqui está escrito pode ser reproduzido na primeira pessoa por qualquer pessoa, sem referência a quem o escreveu e sem qualquer medo de se vir a ser acusado de plágio, pois nada aqui é original.

Advertência: se as pessoas cujos ditos eu copiei decidirem acusar quem reproduzir as suas/minhas palavras de plágio, estão no seu direito. Resta-vos esperar que eu seja a primeira a ser processada, porque as notícias correm depressa.

Só porque consomem recursos.

«Pornografia comercial. Nós não permitimos a hospedagem de sites cuja principal finalidade é gerar tráfego comercial por meio de pornografia. Tais sites tendem a consumir uma quantidade desproporcional de recursos. Para mantermos um serviço gratuito e aberto para a maioria de nossos usuários, nós optamos por proibir a pornografia comercial no Blog*Spot.»

Post sobre agricultura.

Detesto aquelas pessoas que consomem cultura para se sentirem cultas, para fazerem o seu papel de enciclopédia, cada vez que alguém lhes concede um minuto de paleio. Tudo o que faz parte da minha cultura é aquilo que me dá prazer: eu não veria um filme de Bergman até ao fim se ele não me interessasse, comovesse, divertisse (bom, vi «O Bom Alemão» até ao fim, mas isso foi só porque andava a precisar de gozar com alguma coisa). A chatice nisto tudo é que a cultura é que nos persegue. Somos obrigados a emitir pareceres sobre coisas das quais não gostamos porque nos perguntam ou porque, sem querer, começamos a falar daquela coisa, ou ainda porque queremos mostrar que, apesar de não termos gostado de alguma coisa, temos conhecimentos em relação a ela.

Desde gaiata que acho a cultura uma obrigação, pois sempre que os adultos com quem convivia estavam a falar de alguma coisa que eu não sabia o que era e perguntava, a resposta era "não conheces" - como se isto fosse resposta. Dos dois ou três adultos que, gentilmente, me explicavam essas coisas que eu não sabia, só um quarto não respondia como se eu fosse um ser desprovido de quaisquer capacidades intelectuais. É por isso que gosto de saber muitas coisas e é também por isso que não gosto da cultura no seu sentido "social". Não conheço pessoas cultas. Conheço pessoas informadas e algumas pessoas que sabem muito sobre determinados assuntos e são autênticas náufragas noutras. As pessoas cultas, no sentido "social" do termo, são aquelas que sabem um bocadinho de todas as coisas, de maneira que têm sempre conversa para quem, como elas, sabe um bocadinho de todas as coisas ou, na melhor das hipóteses, as que têm sempre conversa para quem não sabe nada do assunto sobre o qual se está a falar. Como diria Boaventura de Sousa Santos, quem é culto não passa de uma espécie de "ignorante especializado" - categoria na qual, verdade seja dita, devemos incluir o próprio Boaventura de Sousa Santos.

Depois, há outro tipo de cultura: a cultura da linguagem, a cultura da manha e da subtileza (ou da violência, depende da estratégia de cada um) retórica, que é a minha cultura preferida. A cultura de quem, sem nunca se apalavrar, sabe que nada sabe mas nunca admite que não sabe nada e consegue, numa conversa e só com a meiguice da palavra, fazer quem sabe sentir que não sabe e duvidar de que sabe. Esta é a casta dos malandros à qual, por falta de talento inato, nunca pertencerei. Quando tento parecer culta assim, desta maneira, toda a gente topa. Que dizer das outras, pelas quais nem sequer nutro qualquer afecto?

sábado, 5 de maio de 2007

Post 200

Um profeta
profiterole
andava pelo hall
a tentar pisar um caracol
atleta.

Breve maltratado das coisas que não existem [8] (em jeito platónico)

A auto-estima. Ninguém se estima. Uma pessoa pode estimar apenas a ideia de si mesma, mas só quando está rodeada de pessoas muito desinteressantes ou, como é óbvio, quando está deprimida.

Auto-estima (2)

- O que é que fazes quando já está em ponto de rebuçado?
- Recomeço.

Optimismo (forçadíssimo)

O Firefox apagou todos os meus favoritos. Ora aqui está uma bela oportunidade para, desta vez, pôr nos favoritos mesmo só os que são favoritos.

Em bom rigor semântico

todas as minhas relações são afectivas, menos aquelas que tenho com quem não me afecta nada.

Sein und Zeit - versão deturpada e condensada (ou versão deturpada e deturpada, ainda por cima em forma de folhetim barato)

Eu não percebo nada de alemão. O blogue - que alguns gentis linkadores chamam "terapia metafísica", corrompendo o propósito propositadamente propositado de o t estar lá em vez de f de propósito - é que fala alemão e, pelos vistos, muito fluentemente.

No entanto, percebo alguma coisa de inglês. Uma coisa que me preocupa no inglês é o facto de Ser e Estar coabitarem no mesmo verbo. Não consigo imaginar relação mais difícil e melindrosa. Ser, o mais teimoso do casal, não desiste de nenhum dos seus hábitos seculares em proveito do bem comum e ocupa o seu to be com a disposição de quem paga as contas. Sempre sentado e sempre quadrado, pálido e conservador, comporta-se como um calhau vivo, alguém tão fecundo de cosmogonias e mundividências que, da sua própria matéria, poderia esculpir-se a lápide para ilustrar a sua sepultura. Estar, feminino, ébrio e volátil, vive ao sabor dos temperos que lhe dão: passado, presente e futuro, sempre confundidos, sempre a efervescer no caldeirão da Terra, onde chove e troveja todos os dias, menos nos dias em que não chove e também não troveja.

Como qualquer casamento, feliz ou infeliz - não importa -, Estar não é sem Ser, mas não se sabe bem se Ser é sem Estar (apesar de muita gente desconfiar que não é mesmo). Heidegger (1) deve ter sentido bem isto quando disse, provavelmente, que o homem, enquanto ser, "está à morte" e não que "é um ser para a morte". Estar à morte é, necessariamente, parece-me, estar à vida. Mas parece-me ainda mais que estar à morte, neste sentido de sujeição tempestiva à morte, é ser para a vida que, infelizmente, não está sempre à nossa espera.

O meu melhor post,

que ainda está para vir, há-de reconhecer-se à distância. Vai estar, como não podia deixar de ser, em branco.

got canned heat in my heels tonight [ou das coisas que eu gosto de dançar - 4]

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Presente de fim de semana para os amados leitores


Compilação leviana, absoluta e descaradamente ilegal.
Como é óbvio, deve ouvir-se por ordem.

Yahoo Messenger numa sexta à tarde - e beijos para A.

Kalashnikov: adoro-te tanto
Kalashnikov: até chego a sentir vergonha pá
Kalashnikov: penso, esta gaja há-de pensar que a quero papar
Filigraana: Mas no fundo, o que é que tu achas que eu ando aqui a fazer? Ando a papar-te e a deixar que me papes, a amizade é isso.

Ouvi contar este fim de semana

que as acções de formação com títulos no género de «Gestão do Tempo» são uma perda de tempo.

Bartleby, the Scrivener

Hoje fiz um teste com uma questão na qual devia comentar uma passagem desta novela de Herman Melville. Estive mesmo para responder «I would prefer not to».


Auto-estima

Só quem é outra pessoa é que pode nunca ter querido ser outra pessoa.

O que é um Livro?

Um Livro é um livro que nos faz chorar muito no final. Que permanece em nós poucas horas depois de o termos lido e, depois, nos faz chorar ainda mais - até que os olhos nos doam, na cama, para acordarmos com eles inchados no dia seguinte. É um livro que nos segue vários dias depois de o termos lido. Que nos faz repugnar, até o digerirmos, toda a literatura, ou todo o uso da literatura para além dele. Um Livro é um livro que custa a cicatrizar e que, sabemo-lo bem, não vai demorar a fossilizar-se em nós. Eu acabei, há dias, de ler este Livro ou um destes livros. Ainda não passou. Quando passar conto-vos como foi.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Este blogue

não tem caixas de comentários. É que as caixas de comentários são um convite à manifestação de opiniões. E quanto menos opiniões os meus leitores manifestarem, mais eu gosto deles. Porque as opiniões são tão privadas que me sinto a invadir o espaço dos meus leitores quando as leio. Mas confesso que, quando recebo um e-mail dos meus leitores, fico muito contente.

Este blogue

não tem contador de visitas. É que eu não gosto que os meus leitores se sintam observados.

Fantástico

Rui, outro dia vi, numa montra, uma t-shirt que dizia « :) I smile because I have no idea what's going on.»

Sabes que mais,

meu amor? Quando não estás comigo, todas as luzes são de ausência.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

E esta senhora,

não se vê logo que nasceu no Quénia?

Mentira, mentira, mentira:

quem fez a revolução francesa, quem foi? A gente da Guatemala?

Quero lá saber das eleições francesas,

o único francês de quem gosto é o Jacques Brel. Ah, pois, o Brel era belga e tinha pai flamengo.

Pois não.

Exortação dos Turistas

Que outra região, para além do Minho, tem um rio chamado Cabrão?

Não encontrámos Brufe no mapa,

que parece que tem um restaurante fantástico. E apetecia-nos tanto comer um brife.

Quando se vem do Minho

fica-se sem inspiração nenhuma. Melhor, fica-se com vergonha de ter inspiração. Porque a verdadeira inspiração foi a de Deus, que fez aquilo tudo. E pensar que pode ter sido "sem querer". Se calhar foi.