sábado, 30 de junho de 2007

Prioridades

Hoje havia Gulbenkian na orquestra.

Lembro-me perfeitamente

do dia do funeral da Princesa Diana. Não houve desenhos animados.

Será que esta também vai ser exonerada?

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Este senhor repara em tudo.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Em contrapartida

não bebo café. É óptimo, mas faz-me tremer.

Eu sabia que isto nunca havia de resultar.

A alternativa - para tudo -

é ter sorte.

Aviso de casting

Não me levem a mal. Eu acho a formação musical muito importante, mas não percebo aquelas pessoas que acham que conseguem aprender a cantar. O problema nem sequer é a voz - o ter voz ou não parece-me inútil para distinguir um bom de um mau cantor. Saber cantar é outra coisa, mais da ordem da glossolalia do que da ordem do talento. Quem sabe cantar não sabe porquê e, muitas vezes, não sabe por que razões começa a cantar - podia saber e nunca ter começado. Não sabe, mas eu sei: foi porque houve alguém que começou por quem não sabe. Há, no cantar, um não sei quê de vírus e de vício insuportável, é como falar sozinho e, para desespero dos outros, obter sempre resposta. Quem canta não sabe bem cantar para os outros. Canta primeiro para si, como a Gal Costa menina, com a panela na cabeça; aprova-se a si próprio e depois decide se exerce a sua influência - para usar um eufemismo - sobre o juízo dos outros. Quem decide aparecer, materializar-se em coisa-que-canta, não deixa de ser cantor, mas comete um crime grande e grave: torna-se a si mesmo obrigação e, caso cante e não se torne nisso, nunca terá dinheiro suficiente.

the thought of you does things to me

parece ser mesmo a melhor forma de dizê-lo.

Jazz com Pretas [8]

*Este post não faz a vontade ao sexismo da língua portuguesa que, quando pluraliza, arrasta sempre um certo género atrás do outro.

Última comunhão

Não quero cá estar quando abrirem a vala comum.

Primeira comunhão

O mundo está como está porque alguém se lembrou de trocar um n por um e. Veio outra pessoa (um tipógrafo ancião, talvez) que achou que as duas letras não ficavam bem juntas e assim se perdeu uma grande oportunidade para se perceber que a única coisa que existe e que já estava planeada é o sagrado no profano.

Profissão

Admiro muito as pessoas que querem coisas impossíveis: só essas é que me inquietam.

kokona koma putra

ratara ratara ratara
atara tatara rana
otara otara katara
otara retara kana
ortura ortura konara
kokona kokona koma
kurbura kurbura kurbura
kurbata kurbata keyna
pesti anti pestantum putara
pest anti pestantum putra

Depois de ler, não se esqueça de rasgar.

Só lamento

que X e Y nunca tivessem entrado nos eixos.

Ouço X dizer a Y, em jeito de desespero:

- Se os exames fossem quecas eu já tinha acabado o curso.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

responsabilidade da revelação

Agradeço moderadamente (que isto são sempre incursões na nossa privacidade) ao Irmão Lúcia a responsabilidade da revelação dos últimos segredos de Fátima da minha biblioteca:

Rei Édipo, Sófocles (este conta?)
The Figure in The Carpet, Henry James
O Labirinto, Panos Karnezis
O Último Justo, André Schwarz-Bart
Balada para Sérgio Varella Cid, Joel Costa

Passo a responsabilidade da revelação aos seguintes bloggers, todos muito do meu agrado, antes que mais alguém o faça: Laura Abreu Cravo, Francisco Bairrão, Tiago Galvão, Nuno Miguel Guedes, Branco Leone.

Foda-se, Vasco!

«Viver sem fumar é como escrever sem pontuação. Pelo menos, para mim.»

Vasco Pulido Valente, hoje, no Público

Tem chovido pouco

Notas sobre a mitologia dos gregos (2)

O amor de Zeus e Hera era, como disse uma vez um amigo meu sobre Nietzsche, o paiol da aldeia a arder antes da festa.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Recursos Humanos

A vida hoje é muito mais fácil do que no tempo dos nossos avós. Um carrasco, nos dias que correm, chamar-se-ia Técnico de Recursos Humanos.


















«4500 euros por mês, sem sair de casa, dobrando circulares»,

na companhia do Pai Natal, já agora.

Exemplo

«Quer casar e ser feliz? Peça a lista de senhoras distintas.»

Só agora reparei

que as putas que anunciam no Público são todas de alto nível.

Ainda Joe Berardo

Desconfio que o melhor de Belém continua a guardar-se numa caixinha de seis com um saquinho de canela, mas pelo menos hei-de lá passar para ver os Magrittes.

Breve maltratado das coisas que não existem [20]

- Sei precisamente o que estou a fazer.

Cada um por si.

Se todos fôssemos autistas isto teria muito mais piada.

Eu tenho, tu tens, ele tem, nós temos.

O Dr. Phill recebeu hoje um casal. O homem tinha sido infiel e tinha comunicado o sucedido à mulher. Disse-lhe que se tinha apaixonado por outra mulher e que se queria divorciar. Acabaram juntos, sem terem tomado nenhuma decisão, no Dr. Phill, com a outra mulher ao telefone, em directo. Tive pena do homem, da mulher e da outra mulher, porque Dr. Phill fala das pulsões humanas como se elas fossem todas controláveis e inteligíveis. O Dr. Phill é o tipo de homem que nunca atirou a primeira pedra, embora tivesse tido sempre muita vontade de o fazer.
Para o Dr. Phill era claríssimo que o homem tinha culpa porque se tinha apaixonado, que a outra mulher tinha culpa porque se tinha metido com um homem casado, e que a mulher (legítima) tinha culpa porque tinha deixado a vida na mão do marido e esperado que ele fizesse com ela aquilo que bem entendesse. O Dr. Phill é a sociedade, quero dizer, a cereja em cima do bolo da sociedade: quando todos pensam que não é possível haver mais culpa, ele encarrega-se de depositar essa culpa nos ombros desses que se atreveram a pensar. No fim do programa fiquei sem saber se me preocupava mais a existência de uma criatura como o Dr. Phill, um caso perdido no arquivo dos actores sociais, do que a atitude do homem, que aceitou a crítica do outro e ainda acabou por dizer que não queria mais a outra mulher, a mulher que ele tinha amado.
Para mim nenhum deles é culpado de nada, a não ser de ter estado no Dr. Phill. São todos vítimas de um plano maior e mais bem elaborado do que o do livre-arbítrio. Um plano maquiavélico, concebido no meio de um matadouro por homens-deuses ou deuses-homens violentos e sujos de sangue. Um plano que nos incha de culpa, até transbordarmos de nós mesmos. Ter culpa é ter-se numa conta muito alta, quase sempre sem se dar por isso e achando que o que acontece é exactamente o contrário.

Joe Berardo

«E quem quer todas as notas, mi sol si , fica sempre sem nenhuma, fique numa nota só.» é a mentira do século.

Apelo

Na sequência da publicação recente de um post sinceramente jaculatório e de manifestações de afecto por parte de dois (um - dois) dos meus dementes leitores peço, a quem se interessar, que me forneça palavras acabadas em "onte", para que a continuação da série de posts «O Fio de Qualquer Coisa Acabada em Onte» seja possível, uma vez que o dicionário de rimas que frequento online só me dá conjugações de verbos na primeira e na terceira pessoa do singular do Presente do Conjuntivo .

terça-feira, 26 de junho de 2007

O Fio de Caronte

«Há pouco tempo fui entrevistado para a revista Sábado por uma excelente jornalista, Rita Garcia, e gostei imenso. A Rita tinha-se informado sobre a minha vida, tinha ouvido amigos meus, lido entrevistas anteriores a que me remetia para explicações mais convincentes. Procurava ouvir-me, não "entalar-me". E o resultado foi magnífico.»
EPC, hoje, no Público

turn around, you fool [ou das coisas que eu gosto de dançar - 6]

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Sumário

Se o tempo passasse, já tinha passado.

Vinte-e-um

Bato, racho, dobro, não estaco. Às vezes vive-se; à tua, Heráclito!


Dostoievsky de cordel

Querida babulinka,

Sou uma jogadora. Jogo tudo e arrisco-me sempre a perder. Se não acredita, verifique o meu último post. A culpa é toda sua, isto é, a culpa é toda da puta. Da puta da hereditariedade, isto é, toda sua.

Um abraço aos meus leitores

Aprecio muito as pessoas que se identificam com aquilo que escrevo. Fazem-me sentir que não fui a única pessoa no mundo a ser agraciada pela demência.

Porque gostava de ser jornalista

Porque acredito muito na eficácia do direito de resposta.

Porque gosto do Correio da Manhã e porque não gosto da actualidade (versão radical, subversiva, injusta e desencantada)

Nos jornais "de referência", o jornalista, o bom jornalista, cumpre a sua função primordial, a que a ideologia manda cumprir: a função que usurpa, no sentido platónico, as funções dos outros. O bom jornalista não se limita a ser jornalista: é cientista, médico, filósofo, teórico cultural, músico, cineasta. O bom jornalista sabe, é intelectual. Ora, a função do intelectual é pensar, a função do jornalista é agir. O jornalista tem de viver com o tempo, com a falta do tempo. O jornalista escreve como se não pensasse, como se visse, ouvisse e sentisse só, como se tudo no mundo se explicasse, como se tivesse a certeza de tudo - mas não deixa que isso se manifeste naquilo que escreve. O jornalista não é um homem público. Tem direito a ser outros, todos os que quiser, na vida privada. As pessoas deviam ofender-se com o bom jornalista, o jornalista que sonha, porque o jornalista que sonha, o bom jornalista, não acredita na inteligência dos outros. O bom jornalista é como um homem que explica todas as piadas que diz, é um homem que acredita na sua própria existência e fala na dos outros como se ela não fosse real. É, em última análise, um grande chato.

Unsinn (mesmo definitivo)

A coisa que eu mais aprecio nas coisas inúteis é a minha incapacidade para lhes perceber a utilidade. É bom não saber.

Unsinn (definitivo)

A coisa que eu mais aprecio na filosofia é a sua inutilidade.

Hello, I love you, won't you tell me your name?

Está uma menina a falar no telejornal da SIC, para aquele programa com aquele homem que está sempre a sorrir e tem uma voz muito aborrecida, e também tem o hábito de falar por metáforas e comparações. A menina diz que se sente estranha no meio das pessoas. Adoro crianças, enquanto ainda não são pessoas.

Santo António já se acabou

As sardinhas assadas são como os grandes amores: quando acabam, a ausência física é quase sempre definitiva, mas o cheiro insiste e permanece.

Feng Shui

Evito ver-me ao espelho. Não gosto de me sentir observada.

Só existem dois tipos de pessoas:

as que estão vivas e as que já morreram.

?

Hoje, parece-me, não há nada capaz de me irritar, de me deprimir, de me fazer chorar, de me preocupar, de me ofender, de me afligir e aborrecer. Estarei morta?

Espécie de metáfora potencialmente ofensiva

Lembro com assustadora nitidez a noite em que, procurando um posto de rádio com uma música ou um programa interessante, esbarrei numa voz que dizia «Vamos passar à distribuição do saquitel de mirra na terapia do amor». H., que ia atrás, não ouviu; eu não contive uma gargalhada que se afigurava eterna e S., que ia a conduzir, já estava com dores na barriga, de tanto rir. Assustei-me porque, habitualmente, não ando de carro com gente embriagada.

Quando ganhar o Euromilhões, a primeira coisa que vou fazer é....

domingo, 24 de junho de 2007

Há gente que não percebe mesmo nada.

«(...)ninguém pode servir dois senhores. E como serão compatíveis a luz e as trevas, como se pode[m] conciliar a vida e a morte?»
Tertuliano, De Spetaculis, poucos anos depois de Cristo

Fêmea

better get yourself where you wanna be



* esta é a minha música favorita do George Michael.

O inferno são os outros.

O céu também.

Um homem existencialista cai que nem uma sande mista

«Il y a la danse de l'épicier, du tailleur, du commissaire priseur, par quoi ils s'efforcent de persuader à leur clientèle qu'ils ne sont rien d'autre qu'un épicier, qu'un commissaire priseur, qu'un tailleur. Un épicier qui rêve est offensant pour l'acheteur, parce qu'il n'est plus tout à fait un épicier. La politesse exige qu'il se contienne dans sa fonction d'épicier, comme le soldat au garde-à-vous se fait chose-soldat avec un regard direct mais qui ne voit point, qui n'est plus fait pour voir, puisque c'est le règlement et non l'intérêt du moment qui détermine le point qu'il doit fixer (le regard "fixé à dix pas").
Voilà bien des précautions pour emprisonner l'homme dans ce qu'il est. Comme si nous vivions dans la crainte perpétuelle qu'il n'y échappe, qu'il ne déborde et n'élude tout à coup sa condition. Mais c'est que, parallèlement, du dedans le garçon de café ne peut être immédiatement garçon de café, au sens où cet encrier est encrier, où le, verre est verre. Ce n'est point qu'il ne puisse former des jugements réflexifs ou des concepts sur sa condition. Il sait bien ce qu'elle "signifie": l'obligation de se lever à cinq heures, de balayer le sol du débit, avant l'ouverture des salles, de mettre le percolateur en train, etc.»
Jean-Paul Sartre, L'Être et le Néant, Gallimard, pág. 95

Há lugares assim, e parece-me que alguém os faz de propósito (Sortelha, Dezembro de 2005)

Breve maltratado das coisas que não existem [19]

Incomodam-me a especificidade e a vagueza dessa coisa a que chamam crime passional. Porque tudo o que é passional já é, só por si, um crime.

Notas sobre a mitologia dos gregos (1)

Príapo até era bom rapaz, mas dava muito nas vistas.

Screamin' Jay Hawkins - que dirá a Wikipedia?

Alguém me explica quem é este gajo?

sábado, 23 de junho de 2007

Água


- Mandrake, suponho que nunca lhe ocorreu que, enquanto estamos aqui a conversar tão descontraidamente, está a ser tomada uma decisão pelo Presidente e pelos membros do Estado Maior na sala de guerra do Pentágono. E quando eles perceberem que não há possibilidade de fazer a Força Aérea voltar, só haverá uma linha de acção aberta: o comprometimento total.
- ...
- Mandrake, recorda-se do que Clemenzo disse sobre a guerra?
- Não, penso que não, Senhor.
- Ele disse que a guerra era muito importante para ser deixada aos generais. Quando ele disse isso, cinquenta anos atrás, podia ser que estivesse certo. Mas hoje a guerra é demasiado importante para ser deixada aos políticos. Eles não têm o tempo, nem o treino, nem a inclinação para o pensamento estratégico. Não posso continuar sentado e permitir a infiltração comunista, a doutrinação comunista, a subversão comunista e a conspiração comunista internacional para drenar e impurificar todos os nossos preciosos fluidos corporais.
(...)
- É incrivelmente óbvio, não é? Uma substância estranha é introduzida nos nossos preciosos fluidos corporais, sem o conhecimento do indivíduo e, certamente, sem qualquer escolha. É assim que o vosso núcleo duro comunista funciona.
- Jack... Jack, ouça, diga-me... quando é que começou, enfim, a desenvolver esta teoria.
- Bem, eu... eu apercebi-me disto, Mandrake, durante o acto físico do amor.
- ...
- Sim, uma profunda sensação de cansaço, seguida de um sentimento de vazio. Por sorte, consegui interpretar estes sentimentos correctamente: perda de essência.
- Sim...
- Garanto-lhe que não voltou a acontecer, Mandrake. As mulheres... as mulheres sentem o meu poder, e depois procuram a essência da vida. Eu não evito as mulheres, Mandrake, mas é certo que lhes nego a minha essência.
- Heh heh... Sim.

Peter George, Stanley Kubrick e Terry Suthern, argumento do filme Dr. Estranho-Amor ou de como eu aprendi a deixar de me preocupar e a amar a bomba, tradução minha (sofrível)

The Lovers (R. Magritte, 1928)

A nossa segunda vida

não é, necessariamente, aquela que não tivemos. É, antes, aquela em que depositamos todas as esperanças.

Todos temos uma segunda vida

E eu cá só me metia num jogo chamado "Third Life".

Gosto de gente inconveniente (e do som do vibrafone)

«A Polónia tem o mesmo complexo de mulheres sem seios, pela razão inversa. Por aquela falta, elas não se queixam de assédio. A Polónia queixa-se.»

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Ando a treinar para quando for carteira.

Hoje fui passear por Lisboa. Da Avenida de Berna passei para o jardim da Gulbenkian, que agora tem umas almofadas nos bancos e na relva para nos sentarmos e uns suportes com jornais (nacionais e internacionais) prontos para a leitura. Depois, quando dei por mim estava no Marquês de Pombal, e quando dei outra vez por mim estava a subir aquela calçada íngreme que, de perto do Instituto Cervantes, nos leva ao Campo dos Mártires da Pátria, o meu sítio favorito na cidade, onde chego sempre cansada e com as costas suadas da mochila, mas a brisa passa o tecido e não demora até eu ter frio e me sentir como se tivesse acabado de tomar um banho de água fria lá para as três da madrugada de uma madrugada de Agosto.
Daí, sei que fui de propósito para os Anjos, seguindo a seta respectiva, passei pelo Beco do Petinguím e vi uma casa muito velha com umas cortinas branquíssimas, como eu acho que nunca tinha visto. Cheguei aos Anjos propriamente ditos, subi para seguir uma série de árvores (parecia um bosque dentro da cidade) que cortava o horizonte. Entretanto, não encontrava o caminho para as árvores e parecia que estava em África: Rua de Angola, Rua de Cabo-Verde, Rua das Novas Nações e outras ruas, todas com prédios engraçados e bem pintados. Comprei um litro e meio de água fresca numa pastelaria, quem me atendeu não respondeu ao meu "bom dia" nem ao meu "obrigada", nem sequer ao meu "tenho os vinte cêntimos, se quiser". Estou bem disposta, não quero saber de más criações.
Quando dei por mim estava na Rua Maria da Fonte, mas não havia revolta, só putas no fim da rua, putas como eu nunca tinham visto, eram muitas, encostadas aos carros, algumas olharam-me de cima para baixo e de baixo para cima, e eu baixei os olhos com medo que me comessem, e olhem que eu não sou preconceituosa, só tenho medo. Um chulo que também estava encostado fez-me uma vénia malandra com a cabeça, eu acelerei o passo e retribuí, não gosto de ser antipática para as pessoas, mesmo para as pessoas sujas como ele estava.
Depois já estava no Martim Moniz e havia tanta gente, e um senhor muito preto de sorriso muito branco deu-me um anúncio do Mestre Kalifa, «Hoje em dia considerado um dos melhores de toda a África e Europa. Se tem algum problema do género, Amor, negócios e outros, se sabe que a sua vida corre mal faça com que ela corra bem. Procure o Mestre Kalifa, porque ele resolverá todos os seus problemas, uma Mulher ou Homem que encontre a sua cara metade e não é correspondido, venha ter com o Mestre Kalifa. Qualquer pessoa que queira concretizar o seu sonho, tipo ser jogador ou outras aspirações. Rua dos Anjos N.º34 - C/Esq. 1050 Lisboa Tlm.:969 736 421»
Depois quis ir ao centro comercial da Mouraria, mas lembrei-me de que há uns tempos um homem gentil me aconselhou a não lá ir sem ser acompanhada por ele ou por um seu semelhante, não fossem lançar-me um feitiço qualquer que eu ainda não conhecesse. A praça da Figueira não tem piada nenhuma, a não ser aquelas pensões que eu adorava conhecer, mesmo sabendo que têm baratas e percevejos, porque eu não tenho nada contra os bichos, desde que eles não me incomodem.

Uma grande canção (em duas versões - mas eu tenho um fraquinho por trompetes com surdina)


Amor

A minha irmã teve "Bom" nas duas provas de aferição. Está a crescer, já só lhe faltam as maminhas.

Ψ

Se o mundo fosse um jornal, eu seria um suplemento: dispensável para uns, indispensável para outros, mas haveria sempre alguém para quem eu seria só mais um carrego.

Eu preciso aprender a ser só

Eu sou mais Father McKenzie: «Writing the words of a sermon that no one will hear».

Ainda Flaubert (mau gosto número 827)

O cadáver de Bovary nunca seria adiado. O arsénico demora muito pouco a comer tudo o que está vivo.

Si ma mare fos Espanya jo seria un fill de puta.

Plogués tant que l'aigua arribés al cel i els peixos piquessin els collons de Sant Pere, pensant-se que són molles de pa.

Para os meus amigos Erasmus: ouvi dizer que na Pompeu Fabra se fala bom chinês.

Primeiro e último post feminista deste blogue

Quando um homem é banana é muito fácil deixá-lo split.

O grande e bom Homais

Farmacêuticos do mundo, uni-vos!

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Para as Bovarys de trazer por casa (ou de como se institucionaliza um romance perfeito)

Não sei para que é que uma mulher interessante quer ter amantes: eles nunca farão parte da sua biografia oficial.

lápis azul

Hoje censurei-me. Nunca tinha tido tanto poder sobre mim própria.

Jazz com Pretas [7]

Cole Porter explica-se numa frase:

É música no sistema linfático e o dicionário de rimas arrumado na prateleira, obviamente cheio de pó. *

Le mot juste

A literatura é avó do socialismo utópico.

Post de superior mau gosto, se relacionado com os posts anteriores:

Nas últimas páginas de sua vida, Emma Bovary já não podia ser considerada uma mulher volátil. Era, isso sim, tóxica.

Post de mau gosto, se relacionado com o post anterior:

- Isto até que nem sabe mal...

Cafarnaúm (nem Flaubert faria melhor)

quarta-feira, 20 de junho de 2007

A porta verde e redonda

Confesso que várias vezes me ocorreu que J.R.R. Tolkien bem podia ter chamado àquele hobbit Dildo Baggins.

O Senão

Hoje passei uma hora maravilhosa a passear por Lisboa, a pé e muito bem acompanhada. Infelizmente, escolhi os sapatos errados.

É oficial:

A Alexandra e a Acrasia são as minhas melhores amigas.

terça-feira, 19 de junho de 2007

Ooh, le due cupole grandi della cattedrale di Milano!

* não encontrei o John Cleese a falar russo.

Não digam a ninguém que me obrigaram a comprar 1500 exemplares.

Amanhã às 18.30h vou estar na FNAC do Chiado a apresentar o meu primeiro livro, A Angústia da Polifonia - aforismos completos (1902 - 2007), da editora Boca de Cão Que Ladra Não Morde Macaco Em Pé de Ferro com Tatuagem de Tinta da China que Borra Livros de Areia. Pedro Mexia, Vasco Pulido Valente, João Pedro George e Eduardo Prado Coelho (os dois últimos devidamente açaimados) vão fazer a análise introdutória da minha genialidade retórica e literária, segundo as categorias de Aristóteles Onassis. Os 43 editores farão striptease ao som do 56º concerto para piano de Rachmaninoff (numa gravação de Sérgio Varella Cid, por ele tocada aos 3 meses, e com apenas um dedo) e deixarão que a Ministra da Cultura, convidada especialíssima, leve para casa a última peça de roupa de cada um (o que já deve dar para compor mais ou menos o guarda-roupa do Jarbas). Serão servidos cocktails e acepipes. Apanharam-me, estava a brincar.

Strukturwandel der Öffentlichkeit. Untersuchungen zu einer Kategorie der bürgerlichen Gesellschaft

Li, há uns anos, o «Não Há Coincidências», de Margarida Rebelo Pinto, de uma ponta à outra, em pouco mais de três horas. Acho que foi exactamente pela mesma razão que continuo a frequentar uma licenciatura da qual não gosto: o medo do inacabado. Felizmente, no que diz respeito ao livro, não me lembro de nada. Mas confesso que de Habermas sempre me ficou qualquer coisa.

Não acha, Dr. Freud?

Sexo que é sexo é sempre implícito.

Bem-vindo a Carne Assada

Sinal luminoso de cor vermelha

Pode passar, desde que a pessoa que vá magoar não lhe seja muito cara.

Projecção de gravilha

Ficar em casa escondido pode evitar muitas pedradas no charco.

Sobre os veículos prioritários

A vida, mesmo quando circula com as luzes de perigo desligadas, tem sempre prioridade, tanto nos cruzamentos sem sinais luminosos como à entrada das auto-estradas. Só a perde nas vias de sentido reversível.

Stop

Está na altura de tirar algum tempo livre para cumprir as minhas obrigações.

Je suis snob

Hoje, o manjar não-macrobiótico da cantina da minha Faculdade chamava-se "carnes frias guarnecidas". Não resisti e rejeitei, à primeira leitura do cardápio, o "empadão de seitan". Arrependi-me.

Solidariedade (atrasada e sexista)

Apesar de ser mulher, a Ministra da Educação é um objecto sem grande utilidade.

Sim, tendes razão. A intertextualidade é apenas uma categoria da transtextualidade.

Estou indecisa

entre o olho de Genette e o sorriso de Kristeva. E daí, talvez não: Kristeva fuma.




Descoberta estival

A beira-mar é o reino do palimpsesto.

Quatrocentos posts

e ainda nada de original. É a ordem do discurso.

metatatatatísica

Oh não, os brasileiros estão a mudar os móveis de sítio.

metatísica

Parece que é hoje que o meu vizinho de cima mata a mulher.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Máxima

Vive o presente com entusiasmo, mas nunca te esqueças de que daí a cinco minutos ele será passado e pode bem fazer-te sentir ridículo.

Um post sobre gente

As palavras escolhem-nos muito mal.

Breve maltratado das coisas que não existem [18]

Um chá dançante é uma grande paneleirice.

Breve maltratado das coisas que não existem [17]

Fúchsia não é uma cor, é um acto protocolar.

Palavra.


Como eu gosto deste blogue.

Finalmente

Agora que Žižek já não está na moda posso gostar dele?

Deus existe e quem existe sempre aparece.

A tua bênção, Rita, porque «a vida é a arte do encontro/embora haja tanto desencontro nessa vida».


´´´´´´´´´´´´´´´´

Comprei uma camisola meio ocre, mas não era mediocre.

Loronix>efectuar busca por La Fusa>Favor sacar os dois primeiros resultados

Não, não tenho para mim, sei. Mas se acharem que isso me desprestigia ou, pior, me prestigia, façam de conta que eu não disse nada.

Tradução ou original?

Não sei. Mas tenho para mim que são ambas originais.

domingo, 17 de junho de 2007

Tradução, saravá!

«Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza, qualquer coisa que chora, qualquer coisa que sente saudade: um molejo de amor machucado, uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher, feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor e pra ser só perdão.»

A palavra saudade, parecendo que não, faz toda a diferença.

Outra razão para achar que fui homem noutra vida

«Una donna deve avere qualche cosa in più della bellezza. Qualche cosa che piange, qualche cosa che ha malinconia: un'aria di amore tribolato; una bellezza che viene dalla tristezza di sapersi donna, fatta per amare, per soffrire d'amore e per essere solo perdono.»

Vinicius de Moraes (Samba da Bênção, 1962)

Uma razão para achar que fui homem noutra vida

Sempre gostei de pessoas que não querem saber o que os outros pensam delas, mas quando vejo mulheres gordas de calças apertadas e fio dental, tenho de fazer um esforço para continuar a acreditar nisto.

Honestidade

Nunca pretendi ser original. Mas só agora é que me dá jeito dizê-lo.

Breve maltratado das coisas que não existem [16]

Dança apache em estilo parisiense.

Segredo

Já não gosto de Wittgenstein. Parece que agora está na moda.

Lady Chatterley - o pior trailer de sempre

Isto é curioso. Não podiam ter chamado alguém que fosse capaz de dizer mal do filme, mesmo sem o ter visto?

Uma série de posts sobre gente que não sabe nada de música (1)

«Maria Creuza era uma das cantoras preferidas de Vinicius, fato que por si só ajudou bastante em sua carreira.» É óbvio que quem escreveu isto nunca ouviu a Creuzinha cantar. Ou então ainda não percebeu que ela é uma daquelas três pessoas no mundo que canta a sorrir.

ei!, você que reza e não crê

Ontem fiz um samba com um poema do Vinicius sobre o Holocausto. Depois arrependi-me. Ele não teria gostado. Pior, talvez me tivesse enviado, e com toda a razão, prà tonga da mironga do kabuletê.

Detesto pôr as pessoas contra a parede.

Sempre preferi uma cama coberta de almofadas ou um bom tapete persa.

Dr. Freud

Gostava de saber, Dr. Freud, até que ponto a educação que nos foi dada é determinante para aquilo que, quando adquirimos uma certa consciência de sermos, somos. Sabe, Dr. Freud, é que eu quero muito acreditar que aquilo que eu sou é da minha escolha e responsabilidade. Quero acreditar que ninguém me fez assim e que aquilo que eu tenho e que não me pertence é só aquilo que eu ainda não tive oportunidade de devolver ao seu proprietário.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Ora bem:

embora eu não ache que as palavras sejam a única maneira, embora estime a utilidade das palavras em situações de pouca urgência para a vida, e embora ache que Magritte nunca deu a ninguém um daqueles abraços apertados, acho isto um post maravilhoso.

C'est seulement une lapalissade

Tive uma professora de História para quem tudo era uma situação. Tínhamos situações de teste, situações de ficha de leitura, situações de trabalho de grupo. O Mapa Cor-de-Rosa culminou em situação de ultimato, os Távoras foram postos em situação de execução e, no dia 1 de Novembro de 1755, Lisboa esteve em situação de terramoto. Mais recentemente, a Bauhaus esteve em situação de vanguarda e Portugal não entrou directamente em situação de Segunda Guerra Mundial. Mas a situação que eu lembro com maior carinho, não tanto pela situação em si, mas mais pela hilaridade da situação, partilhada com os meus colegas de turma, foi aquela em que a minha professora analisou um quadro de Gustave Courbet chamado Un Enterrement à Ornans. Para a minha professora era claro: no quadro de Courbet, um pintor realista do século XIX, as figuras estavam em situação de enterro.

Dúvida

Parece que Bárbara Guimarães, Catarina Furtado e Fernanda Serrano engravidaram todas ao mesmo tempo. Ou teria sido por ordem alfabética?

Da perda de tempo

Às vezes arrependo-me das coisas que digo, mas depois passa, isto é, arrependo-me.

O Fio do Mastodonte, isto é, do mamífero proboscídeo fóssil

A crónica do Professor Prado Coelho no Público só pode ser lida através da funcionalidade "clip". Isto não evita que citemos EPC - penso que era esta a intenção da modalidade de visualização -, mas pelo menos traz menos vontade de nos darmos a esse trabalho.

Cheiro

Não me agrada muito a coroa de louros. Prefiro Pantene ou Foz.

Preguiça

Pedro Mexia não gosta «de gente que dispõe sobre a vida dos outros.» Eu não me incomodo se dispuserem da minha, desde que o façam de forma a não me dar nenhum trabalho viver.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Relatividade (para não usar mais um ismo)

A minha melhor amiga hoje estava muito em baixo. Nem reagiu quando lhe chamei "gaja boa". É curioso ver como os melhores dias de uns podem ser os piores dias de outros.

Pedir desculpa nem sempre resulta.

Sou perita em não cumprir promessas. Mas não é feitio, é um exercício de estilo.

Um breve passeio pela minha biografia

X passava a vida a dizer-me que eu estava deslumbrante. Mandei-o dar uma curva. Sempre achei que a paixão devia causar, nos homens, alguma perda de vocabulário.

Programa Saldanha

Anteontem tinha decidido ir comer sardinhas para o bailarico da Bica. Mudei de ideias e fui radical: lulas douradas e um banana split no Galeto. Depois fui ao cinema ver o último "Piratas das Caraíbas". Diverti-me à grande. O prazer gastronómico aliado à sucessão cadenciada de erros históricos devia ser elevado a património da UNESCO.

Inês

Aprendi a andar de bicicleta aos 10 anos. Era o dia 25 de Dezembro. Na noite anterior, a minha mãe e o seu marido tinham-me oferecido uma bicicleta linda, cor-de-laranja e branca, com rodas todo-o-terreno, modelo masculino (característica que me fez magoar muitas vezes nas partes baixas, sobretudo quando descia a rampa das garagens), um selim muito confortável e sem campainha. Fui sozinha para as traseiras do prédio e comecei a tentar pedalar - não queria rodinhas, afinal eu já tinha 10 anos - e não tive muito sucesso. De vez em quando olhava para as janelas dos prédios que davam para aquela rua e, num desses soslaios, vi que estava uma menina a rir-se muito à janela do último andar de um prédio cor-de-rosa.
Já a tinha visto várias vezes, costumávamos trocar olhares, eu da minha janela e ela da dela. Tinha um ar muito inteligente e eu não tinha amigos de fim-de-semana. Naquele dia, ela ria muito e eu fiquei irritada e perguntei-lhe, acidentalmente sentada no alcatrão, por que razão estava ela a gozar comigo, parecia que tinha nascido ensinada. Ela, na sua generosidade natalícia, disse-me que vinha já ensinar-me a andar de bicicleta. Passados uns minutos, estava a Inês à minha beira, com a sua bicicleta, a mostrar-me os movimentos básicos de uma actividade que, como todos dizem - e eu acredito nesta sentença do senso comum - eu nunca mais havia de esquecer. Fiz uma amiga com quem comunicava por Código Morse à janela, ficando, por vezes, até à meia-noite à procura do sinal de um O.V.N.I. a pairar sobre a Serra da Malveira. Quando a minha mãe comprou aquela televisão enorme, utilizámos a esferovite para criar um posto de comando de uma nave espacial.
Especialmente aos sábados, tirávamos a manhã para eu arrumar o quarto dela e, à tarde, ela vinha a minha casa arrumar o meu - não tínhamos paciência para arrumar os nossos próprios quartos. Uma vez escapámo-nos de bicicleta para a praia sozinhas (coisa que, mesmo nos anos 90, augurava um castigo mortal) e, sem fatos-de-banho vestidos, decidimos tomar banho com a roupa que tínhamos no corpo - uns calçõezitos e uma t-shirt fininha. Pedalámos muito ao sol para nos secarmos e, quando chegámos, cada uma a sua casa, tomámos banho para ocultar o sal do corpo e das roupas. À noite, como seria de esperar, ela jantou na minha casa ou eu na dela e vimos filmes de terror ou jogámos monopólio no chão até à meia-noite.
Em nenhum daqueles fins-de-semana me lembro de ter feito trabalhos de casa. Nenhuma de nós tinha consolas de jogos e o computador não nos interessava para nada, a não ser para fingir que víamos o cadastro de um criminoso que, enquanto detectives, nos interessava capturar (sim, eu aproveitei para, nas férias grandes dos meus 10/12 anos, ler quase todas as histórias do Erle Stanley Gardner). Há uns tempos voltei a encontrar a Inês. Estava na praia e convidou-me para ir a uma rave com uns amigos dela, beber uns copos e tal. Na brincadeira, perguntei-lhe «Bom, ao menos ainda não fumas... ou fumas?»; ela respondeu-me, na maior: «Cigarros sim, ganzas só às vezes.»

Não é bem como andar de bicicleta

Antes de publicar este post, apaguei dois que não estavam em condições. Acho que estou a perder o jeito.

Adeus, linhas de cobre da PT

Neste maravilhoso dia, no qual choveu muito e Filipe La Féria conseguiu realizar o seu sonho de estrear o musical "Jesus Cristo Superstar" que, como o nome indica, se baseia na vida de «um dos homens mais importantes da história da humanidade» (mais ou menos as palavras de La Féria), estou, aqui, de volta à abundância das palavras. Agradeçam (ou entendam-se com) à NetCabo.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Que fazer num computador sem internet?

Na ausência do advento da plena interactividade, sempre se pode jogar ao solitário.

Mas os trolhas reparam em tudo

Hoje, um passeio (rápido) pela blogosfera e, mais precisamente, pelo meu próprio blogue, dá-me a ilusão de ter atingido o meu ideal de vida: passar despercebida.

O grande problema

é que, quanto mais leio, menos vontade tenho de escrever ou, dito por outras palavras, mais vergonha tenho de escrever.

Este blogue não morreu

nem comeu maionese estragada. Quem o escreve é que ficou sem internet, sem telefone fixo e, como não podia ser tudo mau, com muito mais tempo para ler.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Always look on the bright side of life

Ter cãibras durante a noite é muito bom. Aliás, é muito bom quando a dor aparece para nos demonstrar empiricamente que ainda estamos vivos.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

No início

este blogue era muito menos autobiográfico. Ah, as mulheres que gostavam de ser homens, tão cheias de si!

Quando eu era pequenina o meu pai ouvia umas coisas de jazz. Coltrane, de vez em quando, uns devaneios de Jaco Pastorius (óptimos, por sinal) e um ou outro disco de free jazz que, confesso, me aborrecia de morte. Quando descobri o único disco de Chick Corea que o meu pai tinha e - penso que já o referi neste ou noutro blogue - lho roubei, descobri o que era verdadeiramente o jazz. O problema não está, como viram, no facto de eu ter começado por ouvir coisas más no jazz, porque Coltrane não é nem nunca será mau. O problema é que eu estava na infância (pensava como uma velha, mas ainda assim, era uma criança) e faltava à minha infância o jazz de luz. Aquele Chick Corea que eu ouvi naquele disco estilo "nice price" tinha o jazz que me fazia cócegas nos cantos dos lábios, que me dizia para fechar os olhos como se fosse só eu e ele, era o jazz que eu compreendia. Tinham-me oferecido o meu primeiro discman e eu caminhava a seguir o swing e o balanço do Chick Corea quando devia estar a decorar as letras dos Backstreet Boys. Foram os dias mais felizes da minha vida. Quando pensava que não ia voltar a ser criança, ou seja, que a música não me faria muito mais feliz, João Gilberto apareceu-me com a sua aura e o seu sorriso à porta da sala, pediu para se sentar e tocar um bocadinho - muito baixinho, para não me incomodar o ouvido. Eu sabia que, embora ainda houvesse muito a descobrir, não precisava de muito mais para me lembrar do que era ser feliz. Ontem o Milton Banana bateu-me à porta com um disco que não lembra ao diabo. Não percebo se (1965) do Milton Banana Trio é jazz, se é bossa, mas sei que gosto. Delirante, arrebatador, difícil e simples, tão apolíneo quanto o meu primeiro Chick Corea. Aqui.

O Fio do Bisonte

«(...) o meu estatuto de autor.»

Oh não!

Proposta ao Governo

E se, em vez de um aeroporto, se construísse uma Casa da Música em Lisboa, por exemplo na Rotunda do Marquês? Gastava-se quase o mesmo dinheiro que se gastaria com o aeroporto e o tempo de execução podia ser igualmente longo, mas ao menos ficávamos com um sítio na cidade com uma acústica em condições.

Eficiência

O DN é um jornal tão bom tão bom que por volta das duas da manhã já tem sempre publicada a edição online, exactamente com a mesma qualidade com que sai em papel, por volta das 5 da manhã.

Algum vocabulário (por ordem de importância)

Texto
do Lat. textu
s. m., tecido idealizado por profissionais na área da engenharia de materiais que não se sabe bem de que é feito, onde começa, onde acaba e que utilidade tem.

Escritor
do Lat. scriptore
s. m., operário da indústria têxtil.

Editor

do Lat. editore
s. m., empresário da indústria têxtil.

Projectos para amanhã

Não perder tempo.
Não ser medíocre.
Não ser ambiciosa.
Não fazer projectos.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Entrecampos

Hoje vinha a ler o jornal no comboio e quando acabei a notícia que me interessava para voltar ao Rei Édipo (naquela magnífica tradução do Agostinho da Silva, da Inquérito) reparei que a rapariga que estava à minha frente estava a olhar para as notícias de capa do meu jornal. Trocámos olhares e eu voltei a olhar para o jornal, com medo que ela me roubasse a alma. Decidida a perguntar-lhe se queria ficar com ele, quando voltei a olhar a jovem estava a falar ao telemóvel. Perdi a coragem de lhe oferecer o jornal. Depois voltei ao livro e quando a Jocasta disse ao Édipo que não falava mais com ele («Desgraçado, oxalá nunca saibas quem és!» - e "oxalá" era uma palavra estupenda para a ocasião) reparei que a rapariga estava a falar em italiano. Imaginei que estava a ler o Die Welt e isso aliviou a minha culpa. Não gosto de ler nem de comer nos transportes públicos: é ridículo partilhar a caldeirada com as sardinhas.

Não conhecer o Aníbal Freire era, até hoje, o meu crime do acordeão

Este post do Registo Civil deu-me a conhecer um músico extraordinário. E olhem que eu, que achava que isto de acordeão e bandoneón era só para o Piazzolla (no céu) e para o Richard Galliano (sozinho, na terra) fiquei entusiasmadíssima. E nem houve tango por aí além - bastou-me um mozartzito. São estas coisas que nos ensinam que um instrumento é um instrumento (uma tautologia, viram?) e quem sabe dominar um instrumento não precisa de mais nada, a não ser, obviamente, de se deixar dominar por ele. Relembro ainda, caros leitores, as palavras que António Carlos Jobim escreveu na contracapa do primeiro LP de João Gilberto (já cá faltava), Chega de Saudade:

«João Gilberto é um baiano, "bossa-nova" de vinte e seis anos.
Em pouquíssimo tempo, influenciou toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores. Nossa maior preocupação, neste "long-playing" foi que Joãozinho não fosse atrapalhado por arranjos que tirassem sua liberdade, sua natural agilidade, sua maneira pessoal e intransferível de ser, em suma, sua espontaneidade. Nos arranjos contidos neste "long-playing" Joãozinho participou ativamente; seus palpites, suas idéias, estão todas aí. Quando João Gilberto se acompanha, o violão é ele. Quando a orquestra o acompanha, a orquestra também é ele. [a frase mais importante do texto e a mais adequada ao meu ponto de vista] João Gilberto não subestima a sensibilidade do povo. [Não gosto desta frase, não gosto do materialismo histórico levado à prática, porque há coisas que ficam melhor nas prateleiras, e se eu soubesse que a minha infância ia ser chata como foi, não me tinha dado ao trabalho de ler O Capital aos 12 anos ou coisa que o valha, tinha-me contentado com A Lua de Joana]
Ele acredita, que há sempre lugar para uma coisa nova, diferente e pura que - embora à primeira vista não pareça - pode se tornar, como dizem na linguagem especializada: altamente comercial. Porque o povo compreende o Amor, as notas, a simplicidade e a sinceridade. Eu acredito em João Gilberto, porque ele é simples, sincero e extraordinariamente musical.
P. S. - Caymmi também acha.»

Pois, é isto. Homens como estes sabem e não sabem o que fazem, e não têm medo de saber e de não saber o que fazem. Se fosse música que corresse nas veias de todos nós, não haveria bons nem maus: existiriam os modernos, os antiquados, os pirosos, os góticos, os clássicos, os eclécticos e os excluídos - sim, eu conheci duas ou três pessoas que afirmaram não gostar de música. Uma delas, pelo menos, já mudou de ideias.

Liberdade

Fazer bem é sempre, no limite, fazer as coisas à nossa maneira, ou seja, é fazer mal, mas com o consentimento dos outros.

Quatro? Mas eles nem dactilografavam!

Acabo de provar a veracidade de uma coisa que sempre defendi e a propósito da qual nunca ninguém me deu ouvidos: Ramalho Ortigão e Eça de Queirós (só para não vir sempre o Eça primeiro) eram ambidestros. Não, não eram ambos destros, como muitos têm sugerido, eram ambidestros. A prova está no Cinecartaz do Público, onde se podem ler, na apresentação do filme O Mistério da Estrada de Sintra, os seguintes dizeres: «Uma adaptação do policial escrito a quatro mãos para o Diário de Notícias por Eça de Queirós e Ramalho Ortigão.» Se fossem apenas ambos destros nunca poderiam ter escrito um policial a quatro mãos. Mas para que é que fui buscar este disparate?

Futuro

Quando a palavra "temporário" deixar de designar algo transitório e o trabalho for só time em vez de part time ou full time, não terei muitas saudades dos fins de semana, desde que a quarta feira se passe a chamar domingo e que, nela, Deus me deixe adoecer à minha (ou à Sua) vontade.

Não sou poeta nem tenho boina

Não tenho orgulho nenhum em ser noctívaga e se pudesse dormir das 9h às 17h também o faria.

fastidioso

Querido leitor,

Nunca te aconteceu ter de escrever, nalgum momento, uma palavra que nunca antes tivesses escrito? E quando isso acontece não ficas desorientado como se o simples articular daquelas sílabas no papel fosse a maior responsabilidade do mundo? Não achas inacreditável que nunca tenhas tido de escrever aquela palavra, uma palavra tão simples que, não fosse a previsibilidade do nosso vocabulário quotidiano, qualquer pessoa deveria já ter escrito? Há muito tempo que isso não me acontece, mas quis partilhar contigo a minha vontade de aprender outra vez.

Mais umas considerações sobre a crítica

Quando leio o que Aristóteles disse sobre Sófocles, só me vem à ideia a imagem de um homem de meia idade, de barba e cabelos grisalhos, fato claro (de linho, pode ser de linho), sentado à sua secretária arrumada, com uma máquina de escrever, algumas folhas brancas de um lado e poucas folhas dactilografadas de outro. Dentro da minha cabeça, Aristóteles vai escrevendo à máquina e depois rasurando o que não lhe interessa com uma caneta de tinta permanente azul escura. Depois volta a escrever aquelas páginas, com a preocupação de torná-las claras e fáceis de ler e, ao mesmo tempo, tão sofisticadas como qualquer coisa que (vejamos se isto serve) James Joyce poderia ter escrito. À noite, depois de ter escrito o dia todo, Aristóteles abandona a sua sala cheia de livros, muitos deles espalhados pelas mesinhas e pelas cadeiras - mas sempre arrumados -, coloca o chapéu à Pirandello (estão a ver o estilo?) e sai de casa. Quando sai, já não sei bem onde é que ele está. Podia, realmente, estar numa rua de Buenos Aires ou então no centro de uma ilhazinha grega, muito amada pelo Sol - o que seria demasiado banal para um homem que, sendo mediterrânico, percebe o suficiente dos latinos para explicar a vida deles aos outros. Está em Londres, afinal. Aristóteles vai da sua casa no Soho até ao número um de Pennington Street a pé (não sei se isto é possível, nunca estive em Londres, mas imagino aí uma distância de 5 agradáveis quilómetros). Vai entregar os textos ao The Times Literary Supplement e, de vez em quando, também tem uma amiga (Antígona, 20 anos mais nova que ele, pelo menos) que lhe envia os textos por e-mail, devidamente digitalizados, para a The New York Review Of Books. O Aristóteles da minha cabeça é crítico literário e é dos bons. Não conseguiu ser escritor e nunca quis ser filósofo.

Biografia

Édipo foi um rei amaldiçoado e demasiado curioso para ganhar alguma coisa com o que quer que chegasse a saber. Órfão de pai, era irmão dos seus filhos e pai dos seus irmãos. Herói trágico, um bocado ateu para chegar a algum lado, foi fundador da delegação de Tebas da ACAPO. Conseguiu decifrar o enigma da esfinge, não por possuir alguma capacidade ou talento especial, mas porque Sófocles precisava de suicidar uma esfinge, coisa que, depois dele, mais ninguém se lembraria de fazer em toda a literatura ocidental. Mas foi, sobretudo, homem, isto é, inverosímil como uma personagem de ficção.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Miragem

Num destes dias tive a impressão de ter passado pelo Marcelo Rebelo de Sousa na Feira do Livro, que vinha na minha direcção, arrastando uma daquelas malas com rodas (que parecia pesada). Mas depois vi que era só franchising.

Chamem-me pirosa (mas este homem já cantou com o Sinatra)

aqui com o Sinatra.

Um desafio para Portugal

Que se faça crítica literária sem usar, em cada texto, a palavra "pastiche". Muito menos em itálico, isto é, em francês.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Há ou não esperança para as que fazem histerectomia? (peço perdão pelo título Cosmopolitan)

No YouTube houve alguém que comentou este video da Elis Regina com as seguintes frases: «(...) essa mulher canta com o utero.A filha nem chega aos pés.» Então afinal onde é que fica o álbum de família?

dallo studio 3 [ou de como o Toquinho é bonito]

Álbum de família

A minha irmã de 9 anos hoje perguntou-me se eu sabia onde é que, no corpo humano, ficava o álbum de família. Eu respondi que não sabia - era verdade, não sabia. Ela apontou para o pipi e disse «Aqui.» Fiquei sem palavras, literalmente. Quis saber quem lhe tinha ensinado aquilo. Não me disse. Felizmente, depois de horas a pensar no assunto, convenci-me de que ela não percebeu aquilo que disse e que, inexplicavelmente, alguém lhe contou. No meu tempo não era assim. E o meu tempo foi só há 10 anos.

Unsinn

Só eu é que acho que isto não faz nenhum sentido?

Fazer amor

não é bem foder. É mais não sair de cima, mas com afecto.

Desculpem,

se nem foder se fode da forma mais gráfica possível (ainda que se foda e foder seja, em última análise, foder - sempre).

Como é possível escrever sobre sexo da forma mais gráfica possível

se nem o sexo se faz da forma mais gráfica possível?

Blasé, diz o José Mário Silva ou Uma conversa com o Gustavo (ver o post Sem título)

Eu até lia o "Cidade Proibida", mas cheira-me que nenhuma das personagens gosta de Barbra Streisand.

Este blogue não morreu,

só comeu maionese estragada.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

she's sooooo fine, she's aaaaallright [da série Motown kicks - 2]

*canção escrita por Berry Gordy, o fundador da Motown.