terça-feira, 31 de julho de 2007

Castelhano, pois, até amanhã.

Por falar em Hitchcock, lembro-me bem do dia em que acabei de sacar - sim, sacar - Vertigo de um desses programas de downloads ilegais. Qualidade irrepreensível, daquelas que saem tão direitinhas no DVD-R como os cagalhões dos macrobióticos entram nas suas retretes. Embevecida pelo Technicolor, acabei por me lembrar de que Hitchcock realizou o primeiro filme sonoro do Reino Unido. Não estava, portanto, e com alguma certeza, perante um filme mudo. Liguei as colunas e quase morri - nem sei por que razão Deus não me concedeu a graça de morrer, uma vez que os segundos seguintes seriam dolorosíssimos para mim; e daí talvez fosse porque, nessa altura, eu era ateia. As personagens falavam espanhol. Um espanhol perfeito, em perfeita sincronia com os movimentos dos lábios dos actores. Mas era espanhol, espanhol, espanhol, espanhol, espanhol... não, Saramago não sabe.

Breve maltratado das coisas que não existem [28]

A expressão discordo contigo às vezes é muito adequada.

O meu primo pré-adolescente usa a expressão artista de cinema. Está cada vez mais parecido com o nosso avô.

Pelas minhas contas, daqui a um bocadito morre Hitchcock. Ah, tens razão, esse já se foice.

A frase burguesa e protestante que permitiu que apenas dez adolescentes se tornassem adultos de sucesso

O teu quarto é a única área da casa que não se encontra sob a minha jurisdição.

O beijo roubado é tão imoral quanto a respiração boca-a-boca sem consentimento prévio. Daí que seja aconselhável irmos sempre à praia com alguém que já nos tenha roubado um beijo.

O coração também tem linguagem: várias sístoles, outras tantas diástoles e, talvez, alguma fibrilhação ventricular e uma ou outra paragem cardiorrespiratória. Uma carta de amor é o mais parecido que se consegue com a tradução literária de um electrocardiograma.

Algumas considerações sobre a nossa galáxia (1)

A cor de Júpiter é tão entusiasmante como um sul-americano vestido de linho.

Vou começar a levar os meus manuais de italiano para ler no autocarro, a caminho do emprego de Verão. Qui Italia - 1. Lingua e grammatica e O Italiano Sem Mestre. Repito, Estate sei calda come i baci che ho perduto.

Inconfidência

Dizias-me, há uns dias, que és um ignaro. Vamos formar um clube. Lá, não fumaremos charutos nem beberemos uísque velho, mas falaremos dos livros que não lemos, dos filmes que não vimos, dos discos que não escutámos, da filosofia que não percebemos, dos namorados e namoradas que não tivemos, dos pratos que nunca provámos, das notícias das quais não ouvimos falar, dos amigos que não temos e que conhecemos tão bem, de países pelos quais nunca viajámos, dos meios de transporte que nunca utilizámos (eu, por exemplo, nunca andei de avião, que é o meu meio de transporte favorito), das bebedeiras que não apanhámos, dos concertos aos quais nunca assistimos, das contas que não pagámos, das casas que não comprámos, dos carros que não conduzimos, das responsabilidades que não temos, dos animais de estimação que nunca nos ofereceram, dos instrumentos que nunca aprendemos a tocar. Para isto, usaremos todas as palavras que não conhecemos e ainda algumas que não pronunciamos correctamente e não fazemos a mínima ideia de como se escrevem. Ninguém precisará de geometria ou de álgebra para entrar no nosso clube, nem sequer de ser baptizado, basta que, assinando com asseio no final da folha, coloque a cruz na parte da proposta de adesão onde se lê «Declaro que sou um palhaço retórico mas fui salvo da inocência a tempo de não me arrepender de nada.»

Vida

Inspirada por este interessante post - não me venham depois dizer que interessante é a tal palavra que serve toda e qualquer possibilidade de sentido no discurso-, peço perdão, sob a pena previsível de ser ridícula, mas digo que a morte e a velhice são coisas horríveis (e o bold é de uma indelicadeza tacanha). A morte só é boa e alivia porque há vida, e a velhice só conforta quem nunca viveu. Acho preferível, depois de ter achado o contrário durante muito tempo, o lutozinho à distância hermenêutica. Comover-se como os outros (ainda por cima com duas criaturas bonitas - um sueco e um italiano) é saudável e só quem se suicida e quem morre de medo de morrer é que merece, da minha parte, o reconhecimento verdadeiro de um ânimo superior perante a puta da morte - poderia acrescentar nesta categoria as pessoas que morrem a mudar uma lâmpada dentro da banheira, mas nem sempre é bom confundir o suicídio com a estupidez; e não, as pessoas que tentam e não conseguem não se integram na categoria - faço, por isso, minhas (oh!, viva a mestria na presunção e o vermelho sou eu a mandar-me à merda) as palavras de Álvaro de Campos. Só é bom envelhecer quando não há um retrato atrás do biombo. O problema é que ele está lá sempre, mas só alguns é que o sabem.

Andam a morrer demasiados cineastas. É nestas alturas que devemos ter medo do cinema: quando ele está mais próximo da vida.

Uma certa hipocrisia

No autocarro sento-me sempre ao lado da pessoa que parece ter acabado de tomar banho. Ou da pessoa que não leva Kuduro no leitor de mp3.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

24 Horas

é o jornal para o qual Bergman nunca morre.

Bergman

Tenho a alegre impressão de que hoje até a Morte deve estar inconsolável.

domingo, 29 de julho de 2007

Caminho para a salvação


*pode ouvir-se completamente aqui.

Bergman sabia que o xadrez é uma seca de jogo e ninguém é capaz de me provar o contrário. Só o jogo da apanhada é que é bom de jogar com a morte - cansa, satisfaz, diverte. Como é bom morrer no coito. Um, dois, três, metafísica não salva ninguém.

É pai e quer ter uma vida tranquila? Regra: nunca ofereça à sua criança um brinquedo que faça barulho ou, se não puder evitá-lo, tire-lhe as pilhas rapidamente e, quando receber as queixas, diga que se avariou.

No filme The Hitchhiker's Guide To The Galaxy, há um planeta de burocratas onde, sempre que dizem "eu acho", "eu penso" ou "eu tive uma ideia", as pessoas levam com pás (que se erguem do chão) na cabeça. Não sei se o que ofende esses burocratas é o pensamento ou o pronome, mas tenho alguma urgência em mudar-me, de nave, para esse planeta.

Nunca se ouve ninguém dizer que faz qualquer coisa por "uma questão de fins". Quem manda são sempre os princípios. As pessoas apreciam muito o passado, eu aprecio mais a possibilidade e a probabilidade do acidente. Mas também acho que a vida não tem de ser emocionante, nós é que temos a obrigação vital de nos emocionarmos.

Sou uma pessoa possessiva. Quero ter-me a todo o custo.

Citar Oscar Wilde pode ser um lugar-comum ou um churrasco entre amigos. Tudo depende do nível de cheiro a esturro.

Há uma coisa horrível que acontece frequentemente às pessoas interessadas no que os outros têm a dizer: são obrigadas a abandonar as suas influências.

Vantagens do paratexto

Ontem vi um filme péssimo, com um enredo convencional mas muito confuso. Aos oitenta minutos lembrei-me de ler a contracapa do DVD ; foi aí que consegui, finalmente, perceber a história.

Sou contra as benzodiazepinas. Acho que todo o doente depressivo devia ter direito à sua parcela de amor desmedido sem esperar nada em troca, de Count Basie Orchestra a tocar no quarto ao lado e de esparregado e batatas fritas com filé mignon e molho tártaro.

Conheço algumas pessoas que dizem ter perdido o interesse pela vida. Essas pessoas não sabem, mas foram contempladas com a forma mais elevada de interesse que se pode ter pela vida: sabem vivê-la como se não a vivessem. Isto é saber tudo. Gosto muito de gente que sabe tudo, mesmo quando essa gente aprendeu tudo isso com uma depressão.

Tenho grandes projectos para realizar, só me faltam algumas noções de filosofia descritiva.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Há uns dias, diziam-me que a coisa principal que os velhos perdem com a velhice é o bom senso. Discordo: o que eles mais perdem é o consenso e, consequentemente, acabam por ter de carregar o peso de ter sempre razão.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Do fastio

Apetecia-lhe sempre recusar uma maçada de peixe.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

(te) na cidade

Se eu tivesse uma tenaz

Volto ao doutor X, só para explicar que ele atendia os pacientes por ordem diabética e que, devendo eu estar a dormir, estou capaz de matar a família toda do andar de cima com uma tenaz.

Pensar

I sink
You sink
He sinks
We sink
You sink
They sink

«À esquerda da duquesa achava-se o Sr. Erskine de Treadley, velho de considerável encanto e cultura, que se enfronhara, porém, em maus hábitos de silêncio, tendo, como ele um dia explicou a Lady Agatha, dito tudo o que tinha a dizer antes dos trinta anos.»

O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde, tradução de Januário Leite, D. Quixote.

Não vejo, em todo o mundo, mérito melhor do que o silêncio.

Vida e obra do Senhor José Silva









Jazz com Pretas [9]


Para ti.

Breve maltratado das coisas que não existem [27]

Pudor à primeira vista.

Filosofalo.

As opiómanas iranianas fodem à frente dos seus bebés. Compram ópio em vez de leite para os seus bebés. Muitas mães de muitos meninos iranianos são mães de todos os vícios. Nada me preocupa no aquecimento global a não ser o facto de ele não ser feito de calor humano.

O post anterior tinha o número 666. Tive uma grande amiga que me tratava por "besta". Tenho saudades dela.

Fulano vende saúde. É uma forma de suicídio muito oportunista.

Canal Odisseia

No Irão, há opiómanas que se casam durante seis meses por duzentos euros. Parece-me uma sociedade bastante evoluída: na Europa, as mulheres casam-se achando que é para sempre e não recebem nada em troca. E os antidepressivos são mais caros do que ópio.

O televisor é o objecto mais repugnante que existe, logo a seguir ao telecomando.

Manifesto sei lá

Vivam os ascetas, morram os patetas.

Este ano vais de féeries?

Notas sobre a mitologia dos gregos (5)

Atena era uma Minerva daninha.

Sei muito pouco de hospitais, mas acho sempre melhor recuperar a saúde do que mantê-la. Por causa das flores.

A enfermeira etérea achava o doutor X um verdadeiro traumatismo.

X era médico. Ter a enfermeira etérea na cama era, para ele, uma urgência.

X apaixonou-se por uma enfermeira etérea.

Lewis Carroll e uma menina

A poesia é um tema que não domino.
A poesia é tudo.
Tudo é um tema que não domino.
Tudo é tudo.
Tudo é poesia.
Tudo é tudo o que eu não domino.
Tudo o resto é tudo.
Não domino nada do resto.
Eu evito sempre um canguru.

Quando ela se punha a pensar, chegava à conclusão de que, por mais que se esforçasse, não podia converter o ateu que amava. Chegou a dizer-lhe «Não vês? Se Deus não existisse como é que era? Eu e tu não existíamos.» Foi em vão: ela ainda não tinha percebido, à boa maneira neoplatónica, que é mais fácil amar sem se existir.

Tenho, recentemente, a ideia de que acreditar em Deus nos dá uma superioridade desconfortável. A menos, é claro, que estejamos a discutir com um ateu - nesse caso, a superioridade é desconfortável e opressora, um estar a falar para a parede. Deus não tem argumento possível, eu sei, mas eu também não tenho.

Ora essa, não tem importância alguma.

Diga, diga...

Qual?

Não se deve brincar com certas coisas.

O mal é esse.

Pedofilia.

O meu lado feminino

Tenho um fraquinho por homens que choram.

No entanto,

não dou grande valor ao que tenho. Não dou grande valor à fealdade. É bonito quem quer ser. Quem não quer também pode ser, mas para isso é preciso sorte e convicção.

A beleza é o melhor argumento para usar com aquela pessoa que só em último caso consideraríamos bonita, aquela pessoa que é tudo para nós antes de ser bonita. E graças a Deus que é assim; caso contrário, aquela pessoa seria apenas mais uma pessoa.

Um homem só é verdadeiramente bonito quando ainda é criança. Quando se faz homem, é apenas um homem e se, por sorte, conserva alguma coisa - uma expressão, um sorriso ou uma tolice desatenta - de quando era criança, não chega a ser bonito, é apenas um homem especial.

Eu, homem, crucificada por milhões de mulheres interessantes e outras nem tanto

Alain Delon é bonito como uma mulher com cara de cavalo.

Admirar a inteligência

sexta-feira, 20 de julho de 2007

É só fazer as contas

A vida esgota-se na razão inversa do meu uso de palavrões.

Manifesto sexual existencialista

Se é absurdo existir, há que foder até partir.

Os preliminares para os idealistas e os existencialistas que fodam.

Não acredito em tesão sem o reconhecimento da inteligência da pessoa por quem nos entesamos, mas acredito em amor, que é o momento em que o tesão deixa de estar relacionado com a inteligência e passa para o domínio egrégio da ontologia.

É um erro filosófico achar que o tesão não tem nada que ver com a inteligência. Tem tudo: alguns ganham-no da inteligência, outros da falta dela, mesmo assim, tão especificamente.

De onde viremos quando nos vimos? Será de nós mesmos?

A minha série favorita e o fascínio dos homens pelas hospedeiras

Breve maltratado das coisas que não existem [26]

Beijar um desconhecido é impossível. Se o beijo for bom, pelo menos para chegar à cama, alguém há-de querer apresentar-se.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

A ideia dela sobre a promiscuidade

Estar na boca do lobo é quase tão bom como beijar um desconhecido.

Tenho de parar de me sobrevalorizar

O meu blogue parece uma caixa de comentários do blogue de Alexandre Soares Silva.

dejar que el agua corra

Educação ferroviária

Toda a condução é ofensiva.

Gosto da vida assim como ela é: agridoce.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

O filho dos vizinhos ainda não se deitou. Se fosse meu filho... não, não é. Amén.

«Vocês têm de parar de se meter na minha vida.»

Ou um ser humano com complexo de tartaruga.

A mulher i nunca tinha vertigens. Detestava competir consigo própria.

Há uma coisa assustadoramente grosseira nos romances de Eça: os apaixonados, quase sem excepção, tratam-se por "filho" ou "filha". "Filha isto", "Filho aquilo", «Ai Filho, trago o coração negro como a noite», "Ai filha, não te rales mais", e anda tudo numa promiscuidade incestuosa que mete medo ao susto. Acho Eça maravilhoso - apesar de ser tão mau como quase todo o escritor português a pintar cenas de sexo -, mas isto é uma piroseira do pior. Pergunto-me se será de propósito, se já estou na idade de entender ironias assim. Não, não me parece que seja de propósito, nem me parece que haja ironias assim - se houver, nunca viverei o suficiente para as compreender. Alguém que chama "filho" ou "filha" à pessoa amada só pode ser pirosíssimo, grosseiríssimo, muito pouco criativo.

«É o que a gente leva de melhor deste mundo.»

E, quando lá chegamos, guardamos o que levamos de melhor, religiosamente, no nosso cacifo.

terça-feira, 17 de julho de 2007

A inveja de Totó

Amélia e o Padre Amaro, na casa do sineiro, «vêm ambos, sobem para o quarto, fecham- se por dentro; são como cães!» É isso que os apaixonados são, cães felizes e pouco discretos.

Breve maltratado das coisas que não existem [25]

Precisamente, as coisas que não existem.

Sugestão para uma declaração de amor um pouco além da vida

A primeira vez que vi umas sobrancelhas como as tuas foi no Renascimento. É só por isso que hoje te reconheço.

Mathilda e o melhor tipo do mundo

Dizia «É um bom garfo»

como se a alarvidade à colherada fosse menos delicada.

Escuro como Breu

E o racismo é muito feio.

É uma grande ingenuidade da minha parte achar que conversas destas só se têm nos filmes, e só depois de o realizador avisar 30 vezes para não se improvisar.

Ó sacana do velho, que coisa mais linda!

Desculpe? (parte II)

A guitarra foi roubada por um estudante italiano em Portugal no âmbito do programa Erasmus, mas como J. Palma leu o «Elogio da Loucura» já está tudo mais ou menos perdoado.

Desculpe?

«– Nunca acordava teso no dia seguinte?

– Muitas vezes. Mas tinha crédito no hotel. Acordava tarde, descia cá abaixo e tomava um pequeno-almoço que na verdade era também o almoço: comia geralmente uma omelete de cogumelos com fiambre e bebia um panaché – uma mistura de cerveja com Seven-Up. Eles sabiam que ao fim do dia vinha com dinheiro e pagava sempre.»

- 20 mil abortos por ano... é obra.
- E todos feitos por gente que ainda não nasceu.

Post com mais ou menos direitos de autor

O amor é uma espécie de Síndrome de Estocolmo.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Copinho de leite (a história da lactose)

Devo começar por esclarecer que nunca deixo de usar palavrões. Sempre que tenho oportunidade uso um, ou vários de rajada, mais ou menos calculadamente, consoante o fodida que esteja. Aproveito ainda para, em jeito de biografia - mas nada de muito familiar, já que os meus irmãos ainda não têm legitimidade intelectual para utilizar os palavrões adequadamente e dentro de um contexto mais ou menos a propósito - perguntar algo à minha coníssima melhor amiga, P.: será, minha querida santa puta (não vale lembrarmo-nos de Pasolini só quando o rei faz anos e vai nu de cenoura espetada no cu) que fomos nós que passámos ao lado do distintíssimo director do Sol (jornal que eu nunca leio, apesar de estar gratuito online, a não ser quando certa e determinada pessoa me avisa de coisas que lá valem a pena), soprando algumas valentes e delicadas caralhadas ao vento que passava?
Pois é, parece que José António Saraiva tem uma grande aversão a palavrões. Acho óptimo, visto que também eu tenho uma enorme aversão a J.A.S. Parece também que, quando quer que um dos jornalistas da sua redacção se despache, em vez de «Anda lá com essa m…..», J.A.S. dirá, com certeza, «Anda lá com essa gaita» o que, do ponto de vista vocabular, é absolutamente obsceno. Eu cá, tenho uma ligeiríssima aversão às pessoas que não chamam as coisas pelos seus nomes. Aquelas pessoas que nunca sabem o nome de ninguém e que, em vez de dizerem «Mande-me cá ao gabinete a desgraçada da Joaninha» dizem qualquer coisa no género de «Deixe cá ver a estagiária», como se não fosse menos ofensivo chamar desgraçada à Joaninha. Se eu quero dizer que X é um merdas, não direi com certeza que é um pulha ou um biltre. É um merdas, simplesmente. Os outros que se fodam. Claro que não uso palavrões perto de determinadas pessoas, mas só porque é humilhante utilizar palavrões comuns, como os poucos que eu sei, à frente de pessoas que têm idade para os ter inventado.

O outro

Não te mexas, não faças nem digas nada. É quase dia, vamos aproveitar.

O deus

Entre a vida e a morte, escolho o exílio.

O médico

Entre a vida e a morte, escolho a vida dos outros.

O militar

Entre a vida e a morte, escolho a morte dos outros.

A mulher moderna

Entre a vida e a morte, escolho um cabriolet.

O homem de gravata no crash de vinte e nove

Entre a vida e a morte, escolho o suicídio.

O romântico

Entre a vida e a morte, escolho o casamento.

Hoje de manhã vi que já não me lembrava do aspecto do meu blogue. Agora já me lembro. Até amanhã.

Afirma Dr. Freud, o melhor ortopedista do bairro.

Não gostar de leite é como não gostar da própria mãe.

Intolerância à lactose

A terceira bolacha de um pacote entreaberto é a única porta aceitável para um pacote de leite.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Acho o aviso de recepção das cartas um dispositivo de vigilância totalitária da pior espécie. Mas, pelo menos, ainda confere ao destinatário uma certa liberdade: uma pessoa pode receber uma carta e não a ler, rasgá-la, pegar-lhe fogo, comê-la ou enfiá-la na caixa de correio de alguém quando vai a caminho do trabalho. Com as mensagens electrónicas é ligeiramente diferente e, convenhamos, muito pior: elas podem vir com um recibo de leitura. Ora, não imagino uma prepotência maior do que a de se querer obrigar alguém a atestar que leu uma mensagem. Um recibo de leitura é um atentado contra as liberdades e os direitos individuais dos destinatários. É uma ousadia, como oferecer propositadamente um livro a um analfabeto: o analfabeto, ou qualquer pessoa ofendida, sente, perante a ofensa, vontade de transgredir. Ao receber um livro, o analfabeto terá uma vontade enorme de aprender a ler para, voilà, transgredir, para se tornar diferente daquilo que os outros pensam que ele é. Alguém que recebe um e-mail com um recibo de leitura, sabendo ler, tem também o direito de se sentir ofendido: vai, se for suficientemente endotérmico, transgredir, não ler, não enviar o recibo de leitura e, se for também suficientemente educado, mandar a pessoa que lhe mandou a mensagem com recibo de leitura à merda.

Um inimigo da lucidez

é um filosófico não praticante.

Um filosófico

é um crente da grande igreja da Filosofia e proclama-se amigo da lucidez.

Quando se dão bem consigo mesmas as pessoas não são pessoas: são opiniões favoráveis.

As pessoas dão-se muito melhor umas com as outras quando não têm paciência umas para as outras.

Trabalho

A única coisa melhor do que não se estar informado é não se estar informado e ter um pretexto para isso.

terça-feira, 10 de julho de 2007

A primeira página do último Avante! diz «CDU é a solução para os problemas da capital». Não, não vou comprar, já tenho uma senhora que me oferece todos os dias folhetos publicitários para uma clínica dentária.

Tenho muita dificuldade em fazer coisas que são precisas para ontem. O grande problema é que quando as coisas são para hoje eu espero sempre por amanhã para fazê-las.

Tenho de reconhecer

que Eduardo Pitta é um charme a dar receitas de culinária.

O primeiro dia de um emprego de Verão. Sorrir, cumprimentar pessoas com apertos de mão demasiado firmes para o calor e a vontade da sesta, duas horas no autocarro do regresso, do lado do sol, a sensação de que algo de muito grave está a começar a tomar forma na minha vida, amanhã entro às oito e meia, pico o ponto, que é como quem diz, porque eu dou é à máquina a minha impressão digital, às oito e meia, sem apelo nem agravo. Estate sei calda come i baci che ho perduto.

Os comentários do Público.PT estão a ficar assustadoramente parecidos com os do Correio da Manhã. Oh não.

Leio sempre o meu horóscopo porque sempre gostei de saber como andam os outros.

E a Via Láctea é cloaca mais eficiente de todo o Universo.

A Viena de Wittgenstein não tem serviço de recolha de lixos

Isto não é um blogue, é uma merda.

O desencanto de Wittgenstein

De boas intenções está o abstraccionismo cheio.

Também nunca terei um quadro de Bandarra e a razão principal para isto diz respeito ao facto de Bandarra ter sido sapateiro e p(r)o(f)eta.

Provocação

Também nunca terei um quadro de Rothko e, neste caso, a razão é clara: não me atrevo a achar que o que ele pintava eram quadros e, sobretudo, que os quadros que ele pintava valem o que se anda a pagar por eles.

Há uma razão bastante óbvia pela qual eu nunca hei-de ter um quadro de Magritte: o dinheiro, ou seja, o dinheiro. Também há uma razão evidente para o facto de eu nunca vir a ter um quadro de Velázquez: é que eu prefiro Goya. E a razão indubitável pela qual eu nunca terei um quadro de Goya é o dinheiro, isto é, o dinheiro.

Breve maltratado das coisas que não existem [24]

«Você abusou/Tirou partido de mim, abusou» é a vitimização perfeita. «Que me perdoem se eu insisto neste tema/Mas não sei fazer poema ou canção/Que fale de outra coisa que não seja o amor» é um disparate pegado, porque tudo o que tem poesia fala ou não fala, isto é, cala sobre o amor. Quanto a «É tão normal ter desamor/É tão cafona sofrer dor/Que eu já nem sei/Se é meninice ou cafonice/O meu amor», sinceramente: os outros que se lixem.

Nunca gostei de violência nos desenhos animados. Mal os Power Rangers cerravam os punhos, já os seus adversários estavam a cair no chão, que faiscava com um atraso de 10 segundos em relação aos tiros que recebia. Os Transformers também eram muito barulhentos e os bonecos do Dragon Ball tinham a sua maior violência no facto de se poderem passar três episódios sem que uma luta entre eles tivesse um desenvolvimento maior do que o mexer de um único dedo (palmas, no entanto, para o Tartaruga Genial, que tinha voz de bagaço e gostava de meninas novinhas). Só a marcialidade artística das Tartarugas Ninja (e o pormenor incrícel de se chamarem Leonardo, Michelangelo, Donatello e Raphael) e as motas dos MotoRatos me comoviam alguma coisa, e as primeiras conseguiram o feito inadmissível de estar no rótulo de um leite com chocolate em garrafa de litro como eu nunca mais bebi nem encontrei nenhum igual. Ren e Stimpy eram maravilhosos de tão nojentos (peidavam-se, vomitavam, arrotavam, bebiam água da retrete e insultavam-se), mas o que eu não perdia mesmo eram os episódios, aos sábados de manhã, do Doug Funny (e da sua namorada, a Patty Maionese), que era um miúdo tão normal e previsível que, quando abria o armário, tinha a roupa toda igual. Também era desastrado e não me lembro de o ver bater em ninguém, embora me lembre nitidamente de como se irritou naquela caça aos gambozinos.

Canal Panda














Doraemon e Nobita, os meus desenhos animados favoritos - e nem me incomoda que falem espanhol. Hoje, pintar um pássaro de azul dava-lhes 15 minutos de felicidade.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Sou pela violência nos filmes. Sou pelo sangue a jorrar de maneira impossível, pelas lâminas encostadas aos pescoços de donzelas, pelo desmembramento, pela porrada no melhor amigo em jeito de passatempo. Sou pelos carros que voam no meio das cidades, sou pelos vidros de janelas atravessados por homens de músculo, sou pelas explosões ruidosas e pelos tiros de metralhadora. Sou pelos franco-atiradores mortos à pancada quando faltam as balas, pelos atropelamentos e pelo tic-tac das bombas que já estão quase. Sou pelo vídeo, não sou pela vida.

Não resisti

Apostar na formação

Anda para aí alguma polémica sobre um curso de Verão que a FCSH está a tentar vender, o curso de Geografias da Sedução na Lisboa à Noite - nome demasiado académico para ser levado a sério. A propósito disto, só tenho a dizer que é um curso perfeitamente inútil, uma vez que estudos deste tipo, relativos pelo menos aos animais heterossexuais, já foram feitos pelo eminente etnógrafo David Vaittenborough, no seu programa Herman Geographic. Parece impossível, mas depois de muito procurar, encontrei o referido programa no You Tube. Espero que vos satisfaça e possam, assim, poupar do bolso os 100 euros e da vista a imundície (física, não intelectual) da FCSH.

Pequeno-almoço na Versailles

O comércio online para os ingénuos

Na modalidade Pay Pal é sempre um amigo que paga.

Um livro que nunca mais acabamos de ler é demasiado parecido com um homem para ser um livro.

Quando a realidade e a ficção se confundem, quem manda é a realidade.

Um post sem título não deixa de ser um post, mas piora a coerência do ta imperial.

Nada me comove mais do que de tudo um pouco.

Pequena homenagem ao inefável

domingo, 8 de julho de 2007

Viva o avô!

- A gente de trabalho tem os cravos nos dedos, não é cá na lapela!

Quem não chora dali, não mama daqui, diz o ditado

Ontem, um taxista não nos quis transportar pela Segunda Circular por causa das 7 Maravilhas. A conversa começou no trânsito e foi, como seria de esperar, parar às 7 Maravilhas. O taxista era uma simpatia, mas tive muita vontade de lhe explicar que os jardins suspensos da Babilónia nunca foram descobertos. Acabei por não o fazer: a julgar pelo entusiasmo com que ele falava da beleza dos jardins, tive medo que reagisse como a minha irmã quando lhe contei que o pai Natal não existe.

Notas sobre a mitologia dos gregos (4)

Dioniso era um pateta alegre.

Sem sangria, só Sumol.

Está um senhor na RTP2 a falar apaixonadamente sobre vinho. Eu não bebo vinho, sou pouco dedicada à tradição.

Perdidamente

Os taxistas com GPS são muito mais perigosos do que os outros.

Paris

Não percebo como é que o Gato Barbieri passa assim despercebido.

Cinema

O que dá valor aos beijos de Bogart é o facto de sabermos que neles há, com sombra e sem dúvida, uma língua que mais ninguém percebe.

van Eyck não esteve aqui (graças a Deus.)

Da primeira vez que a viu achou-a ligeiramente hieroglífica. Com o adensar dos encontros, chegou a acreditar que ela tinha sido feita à imagem de uma mulher pintada no Quattrocento, porque ela tinha aquele mistério das mulheres que não existem, aquelas mulheres que são menos plausíveis na realidade do que na tela.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Saudades

O Azia ressuscitou. Já não era sem tempo. Mas garantiram-me que no Chile só se come marisco e pêra-abacate (palta) e que, maravilha!, os peixes já vêm sem espinhas.

Não tenham medo, amigos:

a cobardia não é coisa que se perca com a mesma facilidade com que se perde a virgindade.

Vou morrer um bocadinho, volto amanhã se as coisas correrem mal.

A quantidade de posts que escrevi hoje só pode significar uma coisa: falta de vida ou falta de vontade de viver. Cafarnaúm.

Enfim.

Pedro Mexia usa a palavra hiato. Eu já suspeitava.

Dar graças

Se Góngora nunca tivesse existido, seria muito menos interessante insultar algumas pessoas com adjectivos que, verdade seja dita, não chegam sequer aos calcanhares de gongórico.

Breve maltratado das coisas que não existem [23]

Proponho que se troque «só acredito nisso quando vir uma vaca tossir» por «só acredito nisso quando vir um juiz cagar uma sentença».

Há que estar com atenção às conversas e aos gestos que traem as conversas.

A única resposta aceitável para «Desculpe, o que é que quis dizer com isso que disse?» é «Exactamente o que disse.»

Como é que disse?

Certa vez, ouvi uma discussão entre um homem visivelmente (não pude evitar a comunidade deste advérbio de modo para amparar palavra que vou escrever a seguir) irritado e uma senhora indignadíssima. Lembro-me de pouco, mas sei que ela lhe disse que o que ele estava a fazer era «uma falta de desrespeito». Até hoje, e isto piora com a ausência da bengala do contexto, não percebi muito bem o que é que a senhora quis dizer com aquilo .

se há coisa que detesto é a falta de eficiência

EU NÃO ACREDITO - O FUSO HORÁRIO DE LISBOA ESTÁ ATRASADO UM MINUTO!

Em directo de Lisboa - enviada especial de Abidjã

Isso mesmo, são exactamente duas horas e dez minutos da madrugada.

Diário de uma abidjanense - a prova do crime

Não, não é Alcobaça.

O mui querido autor do excelente blogue O Velhinho alertou-me para o facto de o atraso no horário dos meus posts poder ser causado pela escolha inadequada de um fuso horário. E não é que o sacana do velho tinha razão? Mas confesso que nada me faria prever que tinha o blogue no fuso horário de Abidjã. Eu nem sei onde raio fica Abidjã!

É moderadamente bom

não ter vergonha. Porque uma pessoa que não tem vergonha tem sempre desculpa para se comportar como alguém sem vergonha.

É preciso pouco para que alguém se distinga.

O mau gosto e a falta de vergonha, quando nascem, não são para todos.

Explicação dos Papagaios

Eu sou a favor da violência doméstica como o Boris Vian é contra os feios: apenas sob pseudónimo.

O uísque quer-se como a violência doméstica: com duas ou três pedrinhas de gelo.

Sem sentimento

Quando te olhares ao espelho e tiveres medo de ti próprio, orgulha-te disso. Conseguiste, finalmente, entrar dentro de ti.

Do Consentimento

Só nos casamentos das telenovelas é que existe alguém que reage ao «fale agora ou cale-se para sempre». Na vida a sério ninguém faz nada. Filantropos de merda.

Momento Júlio Isidro

Um candeeiro em forma de feijão também é uma leguminosa.

Sugestão de SMS para senhores

Gostava de te ter aqui. Esturriquei os bifes todos.

Sugestão de SMS para senhoras

Gostava de te ter aqui. Nunca fui grande coisa na bricolage

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Está na hora do recreio.

Há uns anitos, eu jogava bastante um jogo chamado The Sims. Um simulador de vida, com casas com jardim, onde as personagens tinham de comer, tomar banho, divertir-se e trabalhar para viver decentemente e conseguir os bens essenciais e algumas regalias aparentemente mais supérfluas. Mas eu não gostava de ver as personagens viver, interessava-me mais por construir as casas e decorá-las, e cheguei a ter tantos objectos que, sem exagero e graças ao meu velhinho computador, o jogo demorava 40 minutos a carregar (com as extensões todas até ao Sims em Férias). Arranjei os códigos para ter sempre dinheiro, as minhas casas eram vilas romanas com uma piscina e um belo churrasco no meio do pátio. Escolhia as alcatifas e os soalhos ao pormenor, sempre a combinar com as cores e os padrões das paredes, arranjei cortinados bonitos e estores japoneses, sofás de todas as espécies e feitios e as cozinhas eram sempre maravilhosamente equipadas. Raramente brincava mesmo com as personagens e, quando o fazia, gostava que se apaixonassem umas pelas outras e tivessem filhos, às vezes acordava-as tarde para ver o que faziam quando perdiam o emprego e o autocarro para a escola ou não as deixava estudar os livros de culinária, para as ver depois a morrer carbonizadas no fogão antes de chegarem os bombeiros. Era só um jogo. Mas o Second Life assusta-me tanto que me vim embora da primeira vez que lá pus os pés. Quando o lúdico se confunde com o real, é fácil ver qual dos dois ganha. António Costa anda a fazer campanha no Second Life e não me parece que quem quer viver uma segunda vida se deva conformar com isso.

Nice work if you can get it


quarta-feira, 4 de julho de 2007

Breve maltratado das coisas que não existem [22]

Um costumer care agent é uma espécie de prostituta com diploma.

Terror e Piedade

Ontem, X falava-me da tragédia do quotidiano e de como, na tragédia do quotidiano, aquela hora inteira a lavar a louça lhe tinha sabido a catarse. Achei que não podia haver nada mais aristotélico do que aquela alusão de X, mas afinal havia. Acordei de manhã e a cozinha estava um caos. Não, um caos, não; a cozinha estava o caos. Aristóteles tinha razão. A tragédia traz a catarse, mas é na anagnorisis que se chega ao cocuruto. O reconhecimento da pilha de louça para lavar é a concretização material da tragédia quotidiana no ser humano, a prova da sua irreversibilidade. A catarse não apaga os efeitos da tragédia, é o momento em que o homem se conforma com ela. Partir os pratos todos só acrescenta à falta de pratos a merdificação soberana dos azulejos.

Política

O melhor a influenciar as massas continua a ser o azeite.

Bunda Desenhada

(y)

terça-feira, 3 de julho de 2007

Loja do Cidadão

Poucas coisas me impressionam mais do que aquelas velhas que passam à frente das pessoas nas filas. Não é que não seja legítimo que elas passem à frente, afinal são velhas. Não me irrita que elas o façam, impressiona-me só. Sempre achei que as pessoas só ficam verdadeiramente interessantes quando começam a ficar velhas. Principalmente as velhas que passam à frente nas filas. Porque passam à frente e não dizem nada; se alguém lhes diz que passaram à frente, elas raramente dizem alguma coisa. Agem como se tivessem perdido a capacidade de falar, como se tivessem desaprendido a falar de propósito, como se isso fosse a condição da sua existência naquela actualidade, a da velhice delas. Depois há as que estrebucham. Essas ainda são novas, não aprenderam nada, nem sequer a ser manhosas.

PS:

Nos dias que correm, ser educado é sempre ser demasiado educado. E ninguém devia ser elogiado por cumprir a sua obrigação.

Sem outro assunto no momento, despeço-me com os melhores cumprimentos.

A insegurança é a grande bitola da humanidade.

Afastai o génio palavroso

A abundância é uma virtude muito medieval.

Breve maltratado das coisas que não existem [21]

A coerência. Porque o Homem também é um palimpsesto, embora ainda não se tenha acostumado com isso.

O Fio de Ayamonte

«Concluiremos amanhã.» Mal posso esperar.

o que não lhes apetece

Lá em baixo ainda anda gente
apesar de ser tão noite
há quem tema a madrugada
e no escuro se afoite
há quem durma tão cansado
nem um beijo os estremece
de manhã acordarão
para o que não lhes apetece
e há quem imite os lobos
embora imitando gente
há quem lute e ao lutar
veja o mundo a andar para a frente

E tu Maria diz-me onde andas tu

qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro

...

Lá em baixo,
Sérgio Godinho

segunda-feira, 2 de julho de 2007

A Hard Rain's A-Gonna Fall


Uma canção e um poema brilhantes, de Bob Dylan, na versão incrível e delirante de Bryan Ferry.

Obrigada, Senhor, pois sois infinitamente bom!

Descobri agora (poucas horas atrás) que Carlos Vaz Marques fez uma entrevista maravilhosa a Ruy Castro (a minha enciclopédia pessoal de Bossa Nova e um grande bocado mais do que isso). Aprendi tanto, gostei tanto. Foi exactamente a mesma coisa* *.

No me gustan los profesionales.

domingo, 1 de julho de 2007

Dia santo

Bryan Ferry é sempre bom, mesmo num concerto de homenagem à Princesa Diana.

Panóptico (tão pan que abrange o olho do cu)

Não há prisão pior do que a de ventre.

Ahahahahahahah!

Online Dating
No bad words were found.
Mingle2 - Online Dating

Vai, vai, vai, vai ou a teoria explicada às crianças

O homem que diz "dou" não dá,
porque quem dá mesmo não diz.
O homem que diz "vou" não vai,
porque quando foi já não quis.
O homem que diz "sou" não é,
porque quem é mesmo é "não sou".
O homem que diz "tô" não tá,
porque ninguém tá quando quer.

Canto de Ossanha, Baden Powell e Vinícius de Moraes


Lévi-Strauss

Ainda bem que, geralmente, a vergonha é coisa que só se tem na cara. Se a tivéssemos no resto do corpo não seríamos homens, seríamos camarões.

Limão

A palavra humildade é como todas as palavras que começam por h: tem sempre qualquer coisa de impronunciável. Como designadora de uma qualidade, a palavra humildade faz-se igual a todas as qualidades acabadas em dade: é impraticável. Basta achar-se que se é para não se ser. Há palavras que, ao serem ditas e pensadas, fazem logo azedar os conceitos.

Não ser livre é f.

Para mim, ser-se ordinário, vulgar do ordinário, como diz uma pessoa que eu conheço, é como ser-se inteligente: é inato. Uma pessoa passa a vida toda a contrariar mas não consegue. É tão bom dizer uma asneira de vez em quando. É tão bom ter um blogue para dizer uma asneira de vez em quando. Bom, o que é mesmo bom é poder dizer uma asneira sempre, sempre que apetece, poder dizer uma asneira como se a asneira fosse uma palavra como as outras e foda-se, todos sabemos que ela é e não é uma palavra como as outras. O palavrão é o único texto verdadeiramente autónomo, na medida em que não o dizemos, ele escapa-nos. Se eu fosse o Umberto Eco, estava capaz de dizer que é legítimo qualquer uso do texto e, uma vez que o palavrão é um texto, é legítimo qualquer uso do palavrão, mas o problema é que o palavrão não é verdadeiramente um texto porque não se usa, o palavrão escapa-nos. Aproveito a felicidade de não ser o Umberto Eco para dizer, como me apetecia há tanto, que o palavrão é, evidentemente, da mesma ordem do peido.

Como ter sucesso nos domínios da heterogeneidade textual

Parece que Ricoeur fala da inteligência inata da narrativa. Viva a inteligência inata da narrativa, vivam todos os regimes semióticos da ordem do teórico-coiso, que eu nunca vi uma inteligência que não fosse inata, mas se ele viu, que Deus o tenha em boa conta, que Deus o ajude lá na vida dele, não tenho nada contra ele, até acho que ele merecia uma entrada maior na Wikipedia. Parece que há um gajo da Escola de Genebra que acha que a inteligência não é inata, então viva esse gajo, uma vez que quem sai aos seus não é de Genebra e visto que se ele é de Genebra, não sai a ninguém, nem sequer a si mesmo e por isso tem todo o direito de dizer o que diz da inteligência. Acho o Google um perigo. No Google é possível provar a eficácia da laicização hermenêutica do caralho, que é uma coisa muito interessante mas que se assemelha, numa perspectiva especulativa, a subir o Evereste de chinelos. E também acho que em teoria tudo é possível, desde que se cite algum autor da Escola de Paris, nem precisa de ser com propriedade, basta escrever o nome dele na folha de ponto e ponto, está tudo dito, tem-se 20.

Notas sobre a mitologia dos gregos (3)

As Sibilas passavam demasiado tempo à janela.

Já posso dormir descansada.


E não percam isto, pelo amor de Deus.

Era um homem tão pragmático

tão pragmático que escolheu a casa pelo Código Postal.

mundanal afeiçom

A minha felicidade está no Harlem e tem jardim.

Para que conste

O elemento não desfocado de que vos falava era a linha amarela pintada no chão.

Sorte

Não sou grande fotógrafa. Não tenho, aliás, grande talento para a maioria das coisas que faço. Mas tenho algo absolutamente singular e que às vezes me parece exclusivo (embora eu saiba que não é e fique contente com isso): sorte. Tenho muita sorte. Estou rodeada de pessoas de quem gosto muito e que gostam muito de mim (não sei muito bem porquê), tenho amigos encantadores e conhecidos muito interessantes, o meu vizinho de cima não bate na mulher há uma semana e, pelo menos há três dias, o menino de quatro anos do casal do lado deita-se antes da meia-noite. O senhor da papelaria (que muda de gerência na segunda-feira) fala-me muito bem, o varredor dá-me sempre os bons dias e não tenho perdido os comboios por estar na palheta com ele. Ganhei sete euros e cinquenta e nove cêntimos no Euromilhões da semana passada e apostei apenas dois. Arranjei trabalho para as férias, pagam bem e saio cedo, não me sinto doente - mas a verdade é que ainda não fiz análises este ano. Comi uma melancia doce, fresca, comi-a quase toda. Tenho sorte. Hoje, depois de esperar horas pelos transportes públicos (que se evaporam ao sábado em certas zonas da cidade), sentia-me miserável, apetecia-me fugir para um deserto sem rede de telemóvel nem cabines telefónicas. Depois agarrei na máquina fotográfica e aconteceu-me isto que podem ver ali em baixo. E anda para aqui uma pessoa a queixar-se.


*Vendo bem, não está grande coisa. Mas eu gostei tanto e isto de apanhar na fotografia pelo menos um elemento que não esteja desfocado é tão raro para mim...

Axiologia

O meu primo de 16 anos está muito apaixonado, mas só agora passou para o sétimo ano.

Trouxe-te uma lembrança de Entrecampos

1 de Julho ou uma ou outra razão para estar online mais uns minutos

O relógio do Blogger está sempre atrasado uma hora. De maneiras que este post já devia ter a data de amanhã (i.e., de hoje).

00:45

- Non è bocciatura.
- Tens razão, querida. E a chuva não bate assim.

Sexo

«Dpef e pensioni, la Ue all'attacco Padoa-Schioppa:"Non è bocciatura"»

Enfim, sempre se conhecem novidades.

«Gatto torna a casa dopo 10 anni» - oh não!, o La Stampa tem um "jornal animal". Vamos ver o que diz o La Reppublica.

Auto in fiamme si schianta contro il terminale

Vou lendo o La Stampa. Não percebo metade das palavras, mas ao menos assimilo a actualidade com algum exotismo.

Programa: nem de televisão.

Ultimamente, quando me perguntam o que vou fazer no sábado à noite, nem respondo que fico em casa: digo que fico no blogue. Isto é um bocado doentio, mas consola-me saber que ao menos tenho uma cadeira. O Pessoa escrevia de pé.