quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Elogio da loucura - versão católica

Agrada-me a profusão postal deste divertidíssimo blogue, mas raramente tenho a elevação espiritual adequada à escrita - cadenciada, leve e inteligente, o que por pouco dava uma ordem alfabética, e daí não custa nada: cadenciada, inteligente e leve - sobre coisas úteis. Ainda hoje, por exemplo, acordei com muita vontade de falar sobre preservativos com aromas (não se pode bem chamar àquilo sabores), mas não encontrei ninguém que apreciasse começar o dia a falar da sexualidade do morango.

Desde jornais em papel higiénico a sindicatos para sedutores, não faltam no tal blogue (viva o científico distanciamento crítico!) sugestões de grande inteligência e rigor intelectual - eu sei que isto não é um elogio, mas passei o dia todo fechada num escritório a sonhar com o mundo lá fora e preciso de parecer minimamente afecta às convenções sociais.

O Womenage A Trois recebeu um prémio: é um saudável blogue com grelos. Não tenho nada contra o prémio, até acho lindamente, mas causam-me urticária as manifestações feministas, as próprias feministas e imaginem que tenho ainda menor apreço pelos homens que se dizem feministas.

Ora, todos reconhecemos (fica sempre bem um toque académico) que uma feminista já não tem utilidade nenhuma nos dias que correm. No estado em que a nossa atmosfera está, sou da opinião de que as burcas deviam vender-se em farmácias e em supermercados sem sujeição a receita médica. Quanto aos homens feministas, pouco mais há para dizer: são rebeldes sem causa ou rebeldes por causa, se é que me estão a entender; enfim, homens que estão sindicalizados no Sindicato dos Sedutores, e só Deus sabe como eu aprecio os sindicalistas.

O que é importante nisto tudo - se apenas ler este parágrafo já leu o essencial e escusa de perder a telenovela - é que na Avenida da República, do lado da Versailles (que tem um belo chocolate quente), há uma loja muito simpática, com cozinhas giríssimas, chamada Forlady. Do lado oposto da rua, o do Galeto (o melhor banana split e a terceira melhor salada de frutas Ipiranga do mundo), há a Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres - a CIDM, tratemo-la por tu. Vou, pois, armar-me em jornalista e acabar a notícia:

Em declarações à Agência Tusa, o Presidente da CIDM (Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres), António Batenela, disse ter proposto à Presidência do Conselho de Ministros aquela localização para a instituição por ter gostado das áreas dos gabinetes e pelo facto de a entrada do edifício ter «muito bom aspecto e umas plantas bem tratadas». António Batenela alegou ainda que «não houve, aquando da aquisição do andar onde viria a funcionar a CIDM, qualquer provocação à empresa espanhola Vivir Forlady, até porque as cozinhas Forlady têm os nomes dos modelos bem mais pronunciáveis do que as do IKEA, já para não dizer que são de melhor qualidade». No entanto, o presidente da delegação portuguesa da empresa já se manifestou contra a localização da CIDM e diz só estar «à espera do aval da sede espanhola para mover uma acção judicial contra a ousadia e impetuosidade da Presidência do Conselho de Ministros». A Forlady é uma empresa conceituada, certificada pelo ISQ (Instituto de Soldadura e Qualidade) e está em funcionamento há mais de 40 anos.

Balada para quem levita

Não desças mais aquela avenida
sem dizer um palavrão.
Di-lo com satisfação, mas não o grites:
deixa só que outros o ouçam.

Não desças mais aquela avenida
sem desejar que ela te leve a uma casa onde não vives.
Deseja, arde:
hás-de ferver, água, assim que chegares aos cem.

Não desças mais aquela avenida
sem ser aos ziguezagues.
Ziguezagueia feliz, se conseguires:
anda aos encontrões a quem não conheces.

Não desças mais aquela avenida
sem parar em todos os semáforos.
Pára:
só assim e a ferver chegarás aos cem.

Não desças mais aquela avenida
como se já a tivesses descido.
Nasce todos os dias.

Não te esqueças de nascer todos os dias.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Está um dia lindo.

Oxalá não demore muito para chover.

Everybody digs a swingin' cat

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Dislexia de fim de mês

Ler "disponível" em vez de "contabilístico".

Mais uma razão para morrer

O Pingo Doce já vende morangos em conserva.

O passado é um país distante, para onde não há voos low-cost ou comboios directos. O passado dos outros é sempre um mistério, como a Ilha de Páscoa é um mistério, só porque nunca lá estivemos. Quando chegamos à fronteira, nunca nos permitem entrar: falta sempre um carimbo no passaporte e exigem-nos vacinas impossíveis. A língua é indesvendável: os retratos - os que são a preto e branco, sobretudo - e os relatos não são tradução suficiente, só aumentam a curiosidade e a vontade de passar a fronteira. É pouco prudente tratar o passado como se ele não fosse sagrado, como se não lhe fosse devida qualquer satisfação, mas fazemo-lo amiúde. O passado é uma espécie de pai severo. O meu pai nunca foi severo e é por isso que eu às vezes sinto que me faz muita falta um passado.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Pergunta intrigado um leitor neurologista que não perde um programa de José Duarte

Mas não é Parkinson que tem swing?

Alzheimer - a cura definitiva

Ella Fitzgerald é a minha velhinha mais entusiasmante do que Agustina Bessa-Luís. Com a única desvantagem de não estar viva, mas eu sempre me dei bem com os mortos (sobretudo consigo, caro leitor). Não nasceu velha, não morrerá criança e nem sequer chegou a nascer. Adoro muito esta mulher que nunca aprendeu a falar. E que se esforçou por fazê-lo apenas quando era absolutamente necessário; sempre com a boa vontade de um pigmeu. Por falar em pigmeus, parece que a diabetes lhe cortou as pernas. Eu sempre disse que não é por acaso que as cordas vocais não são vizinhas do perónio. Vejam a minha Ella. Ouçam-na aqui em baixo, tão nova que nem sempre foi jovem, ouçam-na e vejam-na acolá, tão sábia que não sabia ser velha, a perder a capacidade de síntese e, assim, a ficar interessante como se, só por isso, lhe concedessem a graça de ser eterna. Concederam-lhe a graça de ser terna e recordável como uma paixão de três dias. Lembro-me bem do Gustavo, lembro-me tão bem e tinha só doze anos. Talvez nunca o esqueça.



Com especial ênfase no E de Ella Fitzgerald.

Se bem que,

admito, Deus está no alfabeto todo.

Il buono, il brutto, il cattivo, il Grande Mascalzone

È duro averlo duro che duri e ninguém me desconvence de que as aliterações em D receberam bênção divina.

Conselho Impressionante que não tem tanto swing como a Glenn Miller Orchestra

Se eu fosse a ti não gostava tanto de mim. Mas ia-te na mesma. Abram alas.

Editorial Nietzschiano que não chegava a dar uma boa fita de Sergio Leone [apesar de não lhe faltarem porcaria e sujidade]

Morra o Deus, morra! Pim!

Breve Depressão que não chega a ser como a boa poesia modernista

Houve alturas nas quais eu consegui escrever sobre coisas úteis. Houve alturas nas quais eu consegui escrever sobre coisas. Houve alturas nas quais eu consegui escrever. Houve alturas nas quais eu consegui. Houve alturas nas quais eu. Houve alturas nas quais. Houve alturas nas. Houve alturas, houve.

Notas sobre a mitologia dos gregos [6]

Narciso apenas sofreu as consequências de uma dieta vegetariana.

Verão em Dessau

Um arquitecta que deixou o homem da sua vida porque ele não lhe dava perspectivas.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Para todas as crianças.

Eu percebo bem esses impulsos destrutivos em relação aos milheirais. Digam-me onde estão plantadas as couves-de-Bruxelas, a ver se eu não lhes vou lá fazer uma visita.

Johnson's e um patinho de borracha

Se eu tivesse outro blogue não me linkava.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Não sei se já alguém escreveu sobre isto,

mas eu tinha de o fazer. Melhor, não vou escrever sobre isto, vou apenas mencionar o assunto e esperar que outros discorram a seu respeito. O novo anúncio do Pingo Doce. Pronto, já disse.

Bota Sinatra - a bota que cobre o tornozelo e a alcatra.

Intimidade

Milton Banana Trio ficava muito bem num filme de Woody Allen, mas só se fosse num daqueles quase sérios, quase a preto e branco.

Se eu tivesse um moleskine, muitos dos meus quase-posts não se perderiam. Mas iriam perder-se, com certeza, o meu orgulho e a minha dignidade. Que se foda, logo à tarde vou comprar um moleskine. Ou talvez um caderninho preto, daqueles que adoro.

Convicções de um mineiro metafísico

Toda a mulher precisa de uma substiputa.

A filosofia de Wittgenstein é a filosofia do silêncio para além da matemática. Dizem que a filosofia de Wittgenstein é terapêutica e eu percebo isso; dizem-no porque a terapia se aplica, em regra, depois da doença, e toda a filosofia antes de Wittgenstein é patológica, afectada, irresoluta, falsamente modesta, envenenada e excessivamente palavrosa. Acredito, porém, que devia encarar-se a filosofia de Wittgenstein como uma filosofia preventiva - previne o homem de ser homem em excesso. O super-homem, por exemplo, é o homem (ou o deus) da sede e da insatisfação, é o homem por excelência que só tem um atributo: estar vivo. O homem-silêncio de Wittgenstein é que é um novo homem: inquieto mas discreto na sua inquietude, o homem que, como eu o imagino, só se revela na cama e na filosofia.

Literatura

O que nós queremos do amor e o que os outros querem do nosso amor é que ele nos agarre pela mão e nos diga: «Anda, eu sou a solução para todos os teus problemas.» Quando nos dirigimos a um amigo ou a alguém da nossa confiança e dizemos «Estou apaixonado.» - assim, tão afirmativamente -, não é comum que nos perguntem o essencial sobre o nosso amor. Perguntam-nos que coisas faz na vida, se é bonito, se é um bom partido, se é bom na cama, que idade tem, se já coleccionou outras pessoas antes de entrarmos na sua caderneta ou, em última análise, se gostamos dele - a pergunta que fazem sempre os amigos mais verdadeiros. Nunca nos perguntam: «E ouve lá, isso é publicável?», que é o mesmo que perguntar se o nosso amor tem literatura suficiente para chegar a ser livro. Não me parece que «Sim.» seja a resposta ideal. Raramente a literatura tem algo de insondável e, mais importante do que isto, aquilo que há de insondável na literatura compete com a nossa vontade de a explicarmos. O verdadeiro amor é, pois, aquele que não é publicável, que não é amor-narrativa, o amor sem espaço, sem tempo, sem demasiada acção ou demasiado enredo. É, quem sabe, o amor que, quando acaba, não nos deixa nada para além dele mesmo, ou seja, é o amor que não acaba.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Algumas considerações sobre a nossa galáxia (2)

Em Mercúrio eu já teria 82 anos e só teria vivido cento e vinte e três dias. E talvez cheirasse a torrada queimada.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

A partir do dia 1 de Setembro vou começar a ler um jornal todos os dias do princípio ao fim, numa estratégia preventiva de autoflagelação - consta que o Inferno é um forno e eu dou-me melhor na chuva e no nevoeiro. Mas como sou batoteira vou escolher uma edição boa do 24 Horas e lê-la todos os dias.

Lembro-me de todos os elogios que me fazem. As pessoas acabam sempre por descobrir a verdade e é bom, nessas alturas, ter alguma coisa para lhes deitar em cara.

mais ou menos Jazz com Pretas [10]

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

A Ti, Grande Sacana, que sabes sempre o que fazes

Obrigada por esta chuva, pelos narizes bem delineados e pelos risos de boca bem aberta. Obrigada pelos pescoços cheirosos, pelos pestanejares intensos, pelos acordes dissonantes e pelos gelados de três sabores. Obrigada pelas viagens de comboio e pelos livros que não se lêem enquanto se vê a paisagem e, sobretudo, estou agradecida pelo facto de a vida não ser sempre obrigatória. Gosto de sentir que estou viva porque quero, que escolhi a vida, que a escolho todos os dias, que acordo porque escolho, sendo que, na verdade, só escolho porque acordo. Louvada seja a imperdoável mentira do livre-arbítrio.

O curso de Comunicação Social da Escola Superior de Educação de Setúbal tem uma cadeira chamada "Matemática, Cultura e Realidade". Acho eu que a única realidade que existe nessa cadeira se chama Matemática. Do mesmo modo, a única cultura que lhe diz respeito chama-se Realidade. E a única matemática que por aí anda está, a bem dizer, texto censurado.

Julgar um livro pela capa é absolutamente legítimo. Se os livros fossem todos bons como eram há cem anos, nem sequer tinham capa. Nesse tempo, os homens também eram livros.

Julgo sempre um livro pela capa. Se a capa for má, prefiro tirar fotocópias.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Miguel Torga

Nunca se diz nada que preste de um homem, nem de dois, nem de três.

Às vezes apetece-me intrometer-me em certas coisas e dizer, num tom de voz que não é bem o meu: «vamos mas é acabar com esta palhaçada!» Isto só me dá quando me esqueço da quantidade de divertimento que os outros me podem proporcionar. El gran teatro del mundo afinal existe mesmo.

Quando crescer, quero ser o meu próprio ecossistema.

Acho o Algarve (tirando um ou outro casinhoto na Manta Rota e uma pensão cinematografíssima que conheço em Vila Real de Santo António) insuportável. O barulho, o movimento e a abundância de pessoas irritam-me, porque dos não sei quantos mil milhões de pessoas que existem só há umas vinte dúzias que se aproveitam. Não aprecio o litoral e, por gostar de mar, desconsola-me que não haja um mar suficientemente ermo para se parecer com uma árvore no meio de uma planície. Um limoeiro, pode ser um limoeiro, que os limoeiros crescem em todo o lado.

Com este blogue tenho aprendido várias coisas. Várias, mesmo. Mas a principal coisa que aprendi é que a generosidade e a falta de gosto não têm limites. Provo tudo com exemplos, não importando para nada a ordem em que aparecem:
- 1
- 2
- 3
E uma ou outra cacetada a quem ainda não percebeu que tísica em vez de física é rigorosamente de propósito.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Hoje, no autocarro que me trouxe a casa, havia duas senhoras que conversavam, cada uma na sua ponta do autocarro, e conversavam alto como se houvesse uma parede a separá-las. Ao lado de uma dessas mulheres, um assento livre pedia que a outra se deslocasse e se inclinasse apenas um pouco para continuar a conversa com algum conforto e privacidade. Atrás, outro assento vazio pedia sussurro, boca no ouvido, mistério e recato. Mas elas falavam alto e falavam uma com a outra de coisas, decerto, interessantíssimas. Não falavam do tempo, não falavam de sexo, não falavam de política ou de Maddie McCann, nem sequer de metafísica. Não sei do que falavam, mas sei que não era de nada disto. Se eu conseguisse ter entendido, talvez pudesse depois escrever um romance policial, transformar aquelas histórias que elas contavam - que elas pareciam contar - em pensamento suspenso, em inteligência pendurada com molas da roupa, sempre a ameaçar cair, sobretudo se os últimos dias têm sido abundantes em rabanadas. Aquelas mulheres eram vulgares e mal-educadas, mas eu salvei-as. Swing nos auscultadores, dentro de um autocarro sem ar condicionado, alucina. Há um contorno de cadáver em cada rotunda e quem fala alto, como se não temesse nada, é sempre o principal suspeito. Foi o meu swing no volume máximo que nos salvou. Salvou as mulheres do meu policial e salvou-me a mim de uma tremenda dor de cabeça.

Como pedir a mão de alguém em casamento se estiver apaixonado e for um executivo de sucesso

Aposto que o teu retrato fica muito bem em cima da minha secretária.

domingo, 12 de agosto de 2007

Breve maltratado das coisas que não existem [30]

Dizer que fulano «não sabe o que faz» é ignorar os mistérios essenciais da existência. Se fulano soubesse, não fazia. Fulano somos nós.

ideologia.doc

Os comunas alinham o texto à esquerda. Os fascizóides alinham o texto à direita. Os socialistas e os social-democratas centram o texto. Os dissidentes, quer tenham centrado ou alinhado antes, preferem sempre justificar.

Tenho um fraco por blogues começados por tê. Isto é, por todos excepto o Teu.

Ai Sellers? Olha que eu compro.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Fui, durante anos, exímia na arte de escrever muito sem dizer nada. Sou, agora, aprendiz dedicada da arte de não dizer nada em poucas palavras. Usa-se menos vocabulário, mas sobra muito mais tempo para viver.

Como diz um bom amigo

Tens mesmo de te convencer de que és o máximo, principalmente porque não vou ser eu a assumir essa responsabilidade.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

A menina chora da estação de comboios até à rua, não quer que a tia se vá embora. A tia tem de ir, vai trabalhar. A menina não quer que a tia vá, mas a tia vai. A menina faz birra até à rua, chora e chora muito, a mãe vai explicando as coisas para a menina ter calma, até que se zanga muito e perde a paciência. Pede-lhe para parar com a birra, fala grosso, faz cara de má. A menina soluça e sabe que já não tem hipóteses. A mãe vai à frente da menina, quase a correr, a empurrar um carrinho de bebé, de um outro bebé mais pequenino, e a menina tenta alcançar a mãe e como não consegue chama-a. Mãe, mãe, mamã, mamã... A mãe mamã pára e pergunta o que é. Beijinho, mamã. A mãe tira as mãos mais generosas do mundo do carrinho do seu outro bebé e abraça esta menina, dá-lhe beijinhos. Beijinhos, beijinhos!

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Para todos os mostrengos, de Norte a Sul do país, do mostrengo Quim Barreiros ao mostrengo D. Dinis

ils pissent comme je pleure

Gosto de crianças e de gente bruta. Há algo de sublime e delicado no não saber pensar. No não pensar há um conforto, mas no não saber pensar há a presença divina, que só conforta quem a sente porque precisa dela - pois há quem a sinta sem precisar dela. Dizer coisas da boca para fora é só, simplificando, antecipar o gesto (sempre divino), isto é, deixar que ele ocorra em nós antes do pensamento. Ver muito e nunca ver o suficiente, como as crianças, os brutos e os outros animais inconvenientes fazem é saber tudo sem o desconforto de saber alguma coisa. Quem sabe alguma coisa e não sabe tudo nunca se conforma com o facto de haver sempre alguém a saber tudo e, sobretudo, com a existência de dois ou três gatos pingados que, não sabendo tudo, sabem alguma coisa. O não saber pensar é, para as pessoas normais - as que, não sabendo nada, sabem algumas coisas e parecem saber tudo -, o mesmo que receber nos anos uma coisa que não tem para elas qualquer utilidade. Mergulham no dilema de não saber se aprendem para que serve essa coisa ou se a deixam numa estante a enfeitar. O que distingue o bruto da criança é o facto de ser a criança a aprender e o bruto a enfeitar. A excepção redentora são as crianças brutas e os brutos que o são por nunca terem sido crianças.

Quase um repost

Nunca soube bem o que Jacques Brel acha de Amesterdão, mas foi com ele que aprendi que a verdade é mais aquilo que vemos do que aquilo que pensamos.

Perseguição - devidamente fodida - a uma ou outra besoura

Trabalho na Abóboda, moro algures na linha de Sintra e tenho uma relação para lá de afectuosa com a Bobadela. Não me classifico humana nem propriamente marciana, como este blogue, mas sempre estive curiosa para saber o que sou. Não sendo racista e apesar de ter sido, na infância, insultada por vários pretos pelo simples facto de ser branca-de-lividez-vitoriana (estudava muito perto da Pedreira dos Húngaros), parece que sou mostrenga. Resta-me despedir-me, pois vou ter de ir ali à mercearia comprar os manuais de Sânscrito. Aproveito para vos contar, como quem não quer a coisa, que o sítio mais próximo da Lapa no qual poderia ter escrito este post é um cibercafé no Martim Moniz e, se falássemos de Cascais, a verdade é que só tenho guarida em S. Domingos de Rana - e sem Internet.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Agora, por causa de Woody Allen, já não se pode gostar de Barcelona tanto como eu gosto. Vou ficar com Praga e com as suas duas mulheres.

Não há nada mais filosófico do que o sofrimento dos outros.

Não sou ecologista. O meu único desejo é que isto tudo passe depressa.

Não me canso dos lugares-comuns. Bancos de jardim, transportes públicos, pastelarias, coisas que já toda a gente sabe. Canso-me de mim. Oxalá isto nunca mude, isto é, tomara que não demore muito a mudar.

Vou falar de sono, a sério. Há uns meses, todos os meus sonhos eram Fellini, Fellini a preto e branco, eram estranhos, morria muita gente de uma morte mais ou menos morta, eram absurdos, estúpidos, comoventes, graficamente bonitos, algumas vezes sujos mas sempre Fellini, sempre uma estrada curta e uma curta estrada e as bochechas da Giulietta Masina. Agora, todos os meus sonhos são uma ou outra parede branca, uma ventoinha que dá ruído a um escritório abafado, uma barriga que dá horas, tic tac tic tac, uma folha de cálculo vazia, ena olha a quantidade de rectângulos vazios à espera de sentido, duas ou três anedotas e a boleia de um senhor muito sorridente que ouve e assobia a Romântica FM com devota diligência. Ultimamente, como vêem, sonho com o meu trabalho. Hoje, neste Verão part-time, os meus sonhos são Manoel de Oliveira: intermináveis.

Uma coisa de cada vez

ona.

Se me quiseres ofender, nunca me chames azeitona.

Profissão? Escolho a de fé. Sua-se pouco e nunca se corre o risco de vir a ser uma personagem de Adília Lopes.

Há mulheres para as quais qualquer homem é servente.

Cenas da vida conjugal

Um relojoeiro cornudo que chegava sempre atrasado.

E os dinamarqueses não foderão, com certeza, em sofás.

Nem todo o africano fode em bold.

O revisor exige à senhora que, para ser devidamente fodida pela parte traseira, se ponha em itálico.

Declaração de amor confundido com desejo de talhante

Quero ilicitar no teu leilão.

Breve maltratado das coisas que não existem [29]

Superioridade numérica. Tudo o que tem matemática já ultrapassou, há muito, a atmosfera.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Há aquela ideia segundo a qual um blogue tem de ser uma coisa pessoal. Concordo, em certa medida. Um blogue que não é o naufrágio de quem o escreve não é um blogue, é uma seca tremenda, um paraíso para a opinião - quase sempre desprezível e despropositada - e um resort de luxo para quem não sabe nada sobre si mesmo e, em sentido idiossincrásico, talvez nem exista. Há certas coisas que, segundo consta ou parece, as pessoas que escrevem blogues nunca fazem. Por exemplo, uma pessoa que escreve um blogue, a não ser que seja muito ordinária, nunca tem diarreia nem se peida, o que me faz achar, na maioria das vezes, que essa pessoa é tão desinteressante quanto o seu blogue. É claro - podem reparar - que há pessoas tão interessantes que não precisam de falar de merda para que os seus blogues sejam bons e, ainda assim, este factor, próximo da tarimba da decência, parece-me um bom indicador do nível de entusiasmo que um blogger pode causar. É fácil escrever algo de pessoal no blogue, principalmente se formos muito aborrecidos e mal-educados. É imprescindível que aquilo que escrevemos de pessoal nos nossos blogues seja tão lugar-comum como, voilà, o próprio peido. Ser filantropo, em certa medida, é admitir que só serve para nós aquilo que também serve para os outros. As experiências que relatamos em estado gasoso não são experiências, são segredos. Não faz sentido nada que não seja partilhado - se bem que, por força das convenções sociais, um peido e uma diarreia nos saibam muito melhor em privado. Leio posts onde tudo é de uma volatilidade tal que, parece-me, nem quem os escreveu viveu aquilo. Já escrevi posts assim e, reconheço, devia tê-los apagado. O modelo do livro aberto é, para mim, uma ofensa que lembra aquela que certo jornal nova-iorquino quis evitar quando, num dia de 1829, pediu desculpa aos seus leitores por trazer uma notícia na primeira página, isto é, no exterior do jornal*.

* lido em O que é Jornalismo, Nelson Traquina, Pág. 45

Pensando bem, a razão pela qual não gosto da morte é muito simples de entender: na sua aparência terrena, a morte é definitiva e eu tenho horror ao definitivo. Quero mudança, nem que seja para pior, porque isto de viver todos os dias pode tornar-se muito chato.