quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Uma mulher egoísta

não tem satisfações a dar.

Amizade

- Então, tudo bem?
- Não.

Conversa

Vamos primeiro ao que não interessa.

Cama

Foi a conversa mais produtiva que não tivemos.

Police à paisana

Ainda não vi um comentário negativo ao concerto dos The Police. Parece que vou ter de ser eu a fazê-lo. Fui, confesso, muito desconfiada para o Estádio Nacional. Sting consegue ser, em palco, um músico muito bom mas também muito chato - provou-o no Rock in Rio onde, pela primeira vez na minha vida, estive capaz de adormecer em pé, graças a uma versão de Roxanne que durou, à vontadinha, mais de 20 minutos. Várias coisas correram mal. Primeiro, os Fiction Plane. Sabia-se que Fiction Plane é a banda do filho de Sting. Não era preciso que se soubesse. O rapaz não o disse ao público nem o cantou num refrão, mas mesmo que estivesse a tocar todo encardido no metro de Moscovo, qualquer pessoa reparava que, em casa daquele rapaz, se ouve muito Sting. Apesar de não ter grande voz e de não conseguir evitar imitar o estilo do pai, pareceu-me muito bom baixista. Para alguma coisa há-de servir a técnica. Também não acho que seja bom sintoma de amizade paternal levar um filho para tocar na nossa própria digressão: sujeita a criança (de pelo menos 25 anos, no caso) a receber comentários deste género: «Vai chamar o papá!», sempre que acaba uma canção. Depois, nunca tive tanto frio na minha vida, mas isso não é culpa do Sting e nem sequer de S. Pedro, mas da minha t-shirt e do meu casaquinho de malha. Adiante, pois. Não me agrada que uma banda com grandes canções como The Police faça versões dos seus próprios temas. Uma coisa é uma interpretação ao vivo de um tema gravado - é sempre diferente e, para mim, sempre potencialmente interessante. Outra coisa é uma interpretação ao vivo soar como uma versão (uma cover, como queiram). O que eu ouvi ontem à noite, no Estádio Nacional, não foi uma grande banda a tocar os seus temas. O que eu ouvi foram as versões de Sting das músicas dos The Police - e não deve haver muita gente por aí que tenha ouvido tanto e tão obsessivamente Sting e The Police como eu. Sting tem uma voz especialíssima e, façamos justiça, muito bem conservada. É, provavelmente, o único louro giro que conheço, um baixista fabuloso e um criador inspirado e original, mas consegue monopolizar um espectáculo e exigir, com tudo aquilo que sabe, a convergência das atenções para a sua pessoa - apesar de ter referido várias vezes o nome dos colegas e de ter pedido, para eles, a atenção do público. Stewart Copeland continua um tipo divertido e um baterista brilhante e conseguiu, muitas vezes, trocar o passo para acompanhar Sting nos seus fervores monopolizantes. Andy Summers pareceu-me ter evoluído como guitarrista - comparo com os antigos concertos da banda que cheguei a ver no VH1. Os Police estiveram à paisana, com um vocalista que parecia já não se lembrar das músicas que ele mesmo inventou: Don't Stand So Close to Me, mesmo se considerarmos a deprimente versão de 86, esteve incantável. Nem a referência a Nabokov me animou. Mesmo em Every Little Thing She Does is Magic, o meu tema favorito, não houve magia. No entanto, nada disto deve ser levado a sério, pois parece que só eu é que não gostei - eu e a pessoa que arrastei para me fazer companhia. Mas o que é mesmo importante é que se salvem os índios e as florestas tropicais.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Não há nada melhor do que uma noite mal dormida. Uma pessoa acorda capaz de tudo, de dizer tudo, mesmo que não acredite no que diz, mesmo que depois se arrependa. Não confio nas pessoas que não ficam transtornadas pela falta de horas de sono. Não confio nas pessoas que não se transtornam, que evitam transtornar-se. Nem confio nas pessoas que não se arrependem. Estão demasiado conscientes da morte para viver e a consciência da morte é uma má consciência. Uma pessoa que não se esquece dos seus limites pelo menos duas vezes por dia não tem caminho por onde seguir: já é uma alma penada. É possível habituarmo-nos à ideia da morte dos outros? Talvez. E à da nossa? É, mas só até morrermos. Tenho tanto sono.

Procura-se vivo ou vivo

Quem quer casar com a repórter?














Disponível aqui para download completo e legal.

domingo, 23 de setembro de 2007

Ode respeitosa à unilateralidade do pensamento

Acho, presunçosamente, todo este texto compreensível. Para mim - não resisto, por medo de represálias, a alguma subjectividade cartesiana - escrever num blogue é uma libertação imediata. Aqui, nada parece, à partida, impossível de dizer. Decido que vou escrever sobre uma coisa e, se não desistir antes, escrevo. Desistir é também uma libertação; apagar, deixar um post nos rascunhos, à espera de não ser publicado, só porque se decidiu assim. No fim, mesmo que se escreva, fica tudo por dizer, mas isso é só porque achar que se pode dizer alguma coisa também é uma presunção. O que interessa na escrita de um blogue, creio, é a fé. A fé na nossa compreensibilidade e na compreensão do outro. O desejo de sermos aceites, ao mesmo tempo, como somos e como gostaríamos de ser. Porque o que gostaríamos de ser e o que não gostaríamos de ser também é o que somos. Aliás, talvez o que somos seja sobretudo isso. Já achei embaraçoso que pessoas que me conhecem em vez ou para além da blogosfera lessem o meu blogue. Censuro-me, às vezes por mim, outras vezes por elas. Mas não deixo de escrever, muitas vezes sem me censurar. Como se fosse escrita, como se não escrevesse. O vocabulário do pensamento não tem muito que se lhe diga: é um recurso sempre disponível, uma farmácia de serviço. Acho - e aqui reside grande parte da minha presunção - que escrever num blogue, em qualquer blogue (mesmo num blogue secreto ou num diário que se descobre depois de o autor ter morrido), é um acto de coragem. Um blogue, para quem se perde e naufraga nas palavras que encontra ou que o encontram, não é muito diferente de uma mensagem na garrafa. No mar, são precisas duas fés: uma, para que alguém receba a nossa mensagem; outra, para que quem a receba a consiga entender. Na blogosfera, a probabilidade de quem nos recebe falar a nossa língua é grande, mas isso não é - e às vezes é bom que não seja - uma vantagem para a comunicação.

Avellaneda e eu

Não me beijou. Eu também não tomei a iniciativa. O rosto dela estava tenso, endurecido. De repente, sem aviso prévio, todos os seus recursos pareceram afrouxar-se, como se houvesse renunciado a uma máscara insuportável e, assim como estava, olhando para cima, com a nuca encostada à porta, começou a chorar. E não se tratava do famoso choro de felicidade. Era aquele choro que sobrevém quando nos sentimos opacamente infelizes. Quando alguém se sente brilhantemente infeliz, então sim, vale a pena chorar com acompanhamento de tremores, convulsões e, sobretudo, com público. Porém, quando para além de infelizes nos sentimos opacos, quando já não nos resta lugar para a rebeldia, o sacrifício ou o heroísmo, então há que chorar sem ruído porque ninguém nos pode ajudar e porque temos consciência de que isso passa e que por fim retomaremos o equilíbrio, a normalidade. O choro dela era assim. Nesta matéria ninguém me engana. «Posso ajudar-te?», disse eu, contudo, «posso fazer alguma coisa para remediar isto?». Perguntas vãs. Descobri ainda outra, bem no fundo das minhas dúvidas: «O que é que se passa? Queres que nos casemos?». Mas a nuvem estava longe. «Não», disse. «Choro porque é tudo uma pena.» E é tão verdade. É tudo uma pena; que não tivesse havido apagão, que eu tenha cinquenta anos, que ela seja boa rapariga, que os meus três filhos, que o seu antigo namorado, que o apartamento... Tirei o lenço e limpei-lhe os olhos. «Já passou tudo?», perguntei. «Sim, passou tudo.» Era mentira, mas ambos compreendemos que fazia bem em mentir. Com o olhar ainda convalescente, acrescentou: «Não julgues que sou sempre tão tonta.» Não julgues, disse; tenho a certeza de que disse não julgues. Tratou-me por tu, então.
A Trégua, Mario Benedetti, 2007, Cavalo de Ferro

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Missa cantada

Ufana nas alturas.

Um homem bonito de sorriso impossível e uma mulher impossível de sorriso bonito

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Belleville Rendez-Vous

ou Les Triplettes de Belleville é um belíssimo (absolutamente genial e encantador) filme de animação canadiano. Está a uns 5 euros na FNAC. Achei, durante os primeiros momentos do filme, que o DVD estava avariado, porque as legendas não funcionavam. Percebi, mais tarde, que não era necessário haver legendas, uma vez que as personagens falavam muito pouco. E espantei-me de morte quando percebi que o máximo que no filme se fala ou, melhor, se canta, é em português. Gosto muito de língua nenhuma.

*Atenção à Josephine Baker e ao Fred Astaire.

Este mundo é cão. E eu que gosto tanto de pessoas.

O Luís Filipe McCann,

cá para mim, deu um murro na menina. Acidentalmente.

Ainda mais popular

Fui a Belas ver as belas e em Belas belas vi ,mas em Belas, dentre as belas, a mais bela eras ti.

*rectificação de um querido leitor, «p'causa da métrica».

Popular

Estavas tu, minha donzela, no alto do teu castelo; quem me dera que me contemplasses como eu te contempelo.

Não tenho disponibilidade para ter um blogue. É por isso que o meu blogue me tem.

Frase de merda

A minha capacidade de raciocínio teórico falha redondamente quando me dou conta de que não consigo analisar factos históricos sem os submeter à luz da contemporaneidade.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

O jogo das profissões (2)

É fascinante o momento em que um criminoso se entrega às autoridades. Bom dia, boa tarde ou boa noite, aqui estou eu, matei um homem, assaltei um banco, façam de mim o melhor que puderem. A reacção sistemática das autoridades, pelo menos no cinema, é a desconfiança. Tem a certeza de que matou uma pessoa? Olhe que você não tem ar de quem tenha assaltado um banco! Não é, dirão, lógico que se confie em alguém que pode ter cometido um crime; e por que razão se acredita em quem, podendo ter cometido um crime, parece não o ter feito? O criminoso que se confessa oferece-se à vontade dos outros embrulhado em verdade e é rejeitado como uma notícia de um jornal conhecido por citar fontes pouco credíveis. Como reage uma fonte oficial, uma autoridade, à solenidade emocionada de uma confissão? Não é preciso vestir fato e gravata nem usar de outras formalidades para se dizer e ser crido quando se diz: «Eu matei um homem.» Nem é necessário dizê-lo com as mãos sujas de sangue para que tenha sentido. Há alguma legitimidade no pensamento daqueles que não acreditam no homem que talvez tenha matado um homem, ou no homem que talvez tenha assaltado um banco. Ele diz que fez uma coisa que só ele sabe se fez. As palavras só valem no dicionário, quando passam de líquido a sólido, de som a registo. A confissão, para as autoridades, é um gás - explosivo e inflamável assim que se queira. A confissão é passado, está num lugar e já não se constrói; só é aviso e criação se alguém confessar: «Matei um homem de hoje a oito dias.» A verdade, essa, é uma manta de retalhos que só vale se for alinhavada com presteza e simplicidade - é de coser, não é de fiar.

O jogo das profissões

Uma mulher prevenida tem sempre um fiel de armazém.

Só eu é que acho que acho que isto não é normal vírgula asneira começada por F?

«O ex-porta-voz do Governo britânico, Clarence Mitchell, acaba de anunciar que se demitiu das suas funções e será o novo assessor de imprensa do casal McCann.»

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Hoje passei por uma pastelaria chamada Simbiose. Ou muito me engano, ou os brioches estavam no forno.

domingo, 16 de setembro de 2007

Pela estrada de tijolos amarelos

Já escrevi, decerto, sobre o fascínio que sinto pela Technicolor. É isso mesmo: um fascínio tão grande que, por mais que tente, nunca hei-de conseguir escrever sobre ela mais do que duas ou três palavras.

Chinatown
















Sou contra a criação de uma Chinatown em Lisboa. Sem o Jack Nicholson, não teria piada nenhuma.

48 horas depois - quase em Canto de Ossanha

Deus é um amigo porque se reconhece com facilidade num amigo. O único senão é saber como, na verdade, se reconhece um amigo. O querido leitor, se me diz que sabe, não sabe. Se acha que sabe, talvez saiba. Se tem um amigo e é só pelo nome que o reconhece, então sabe.

encerramento oficial do assunto divino, pelo menos durante as próximas 48 horas

Há pessoas que, como Deus, se querem revelar e não conseguem. Pessoas que, abrindo as janelas da vida toda, ficam sempre atrás da cortina, do nevoeiro. Pessoas que, como Deus, também precisam de pessoas. Deus é um amigo, não é um recurso. O recurso, o primeiro, o último e o intermédio, são as pessoas.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Aconchego

Eu cá sou dos Fonsecas
Eu cá sou dos Madureiras
De ferro e puro sangue
O que me corre nas veias
Nasci da paixão temporal
Do parto dos vendavais
Cresço no fragor da luta
Numa força bruta
P'ra além dos mortais
Mas tenho muitas saudades
Certas penas e desejos
E aquela louca ansiedade
Como um pecado
Meu amor se te não vejo
Olha o fado
Ora é tão vingativo
Ora é tão paciente
Amanhã é comedor
Hoje abstinente
Mentiroso, alcoviteiro
Doce e verdadeiro
Uma vez conquistador
Outra vez vencido
Amanhã é navegante
Hoje é desvalido
Sensual, aventureiro
Doido e bandoleiro

Somos capitães
Somos Albuquerques
Nós somos leões
Os lobos do mar
De olhos pregados nos céus
Em cima dos chapitéus

Somos capitães
Somos Albuquerques
Nós somos leões
Dos lobos dos mares
E na verdade o que vos dói
É que não queremos ser heróis

Olha o Fado,
Fausto, Por este Rio Acima - a resposta mais pertinente do mundo.


Diz que é uma espécie de indecência.

Isto.

A Deus

Hoje, nos meus sonhos, vou estar na casa de Deus. Imagino-Te, ó Grande Sacana, num apartamento confortável e luminoso, com vista para o Tejo e para o Alto de S. João. Divertes-Te. É preciso tirar os sapatos para entrar em Tua casa. Tens uma grande sala escondida, do género de um escritoriozeco, com umas gajas giras e morenas, sentadas em secretárias arrumadas. Dactilografam com velocidade epístolas e missivas para os apóstolos em Macintoshs de última geração, branquinhos como a Tua camisa e o Teu sofá de esquina. Suponho que, no meu sonho, me vou zangar conTigo porque não Tens caixa do correio. Passas a vida a escrever aos outros e ninguém Te pode alcançar. Os génios que fulminaste - os das músicas que não esqueço, por exemplo - são meros apartados. Escrevi-Te uma carta muito bonita com a minha caneta da sorte. Espero que, no caso de não a leres, seja feita a minha vontade. É verdade quando me dizes que nunca Te falo senão para pedir favores, mas estou farta de dobrar circulares.

to ever be - to ever be

Gosto tanto de quem me faz chorar.

palavra de incentivo aos utentes da unidade de terapêutica cardiorrespiratória

É possível amar menos do que súbita e irracionalmente. Menos do que na ordem do ataque cardíaco, do infinito e dos números primos que ainda não foram descobertos. Menos do que muito. Há os amores terapêuticos, os amores poucochinhos, os que nos mantêm vivos e conversáveis, os que duram e duram, e duram e duram. Os amores de fotografia de carteira - olhe aqui, está a ver o meu repolho? Não é lindo? -, que valem a pena toda. Apetece-lhe um amor desses? Não? Então sente-se na cadeira da sala de espera. Não rasgue ainda este papel. Respire fundo, inspire tudo. Depois grite. É verdade que pagou uma pipa de massa, mas nós não temos solução. Nem Ele.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Tratemo-nos por tu ou da ousadia por alíneas

a) Miss Woody, eu não devia dizer-te isto, mas digo: acho, e tenho pena, que me vês com muito preconceito - mais humano do que intelectual, sem ter nada que ver com os trens regionais ou com a linha de Sintra. Acredito, até certo ponto (refiro-me, sobretudo, ao de ebulição), que as palavras é que nos escolhem e, por isso, não te censuro por teres sugerido que, num divã, se pode dissecar mais do que se trata. Como qualquer pessoa que vive muito e estuda pouco ou, se preferires, como qualquer pessoa que gosta muito de pessoas, não sei escrever sem o auxílio dos outros. Se conseguir, serei justa: neste aspecto tão insignificante da minha vida, tu, a Allen e a Ana de Amsterdam têm sido autênticas missionárias. Como foi Eduardo Prado Coelho, muito embora eu pudesse ter sido bastante mais simpática com ele do que sou convosco.

[Breve interrupção para apanhar a roupa da corda. Chiça, como troveja!]

b) Não acertaste totalmente nos intentos do meu tricô - eu bem sei que as agulhas de tricô não picam nada, mas são essas que costumo usar. O ténis não é, para mim, motivo de inspiração. No entanto, o teu post sobre o ténis foi inspirador, apesar de me cheirar que, no teu blogue e na verdade, ninguém consegue ser tão imprevisível como o Woody Allen de Matchpoint. Nem todos os tenistas que conheci eram betos mas, para mim, naquele tempo em que joguei ténis, eram todos betos, todos insuportáveis. Insuportáveis como foram os meus chefes dos escuteiros. Como foi o padre, que não sabia que eu ia comungar todos os domingos sem ser baptizada. E por aí em diante. Desde que ando na terapia, gosto deles todos. O tom provocatório dos meus posts é todo de propósito. Por algum motivo que transcende os limites da razão e da higiene (não os da vida), o terapia metatísica não tem livro de reclamações e nem sequer é democrático. Gosto dele por isso.

c) Já há, na blogosfera, muita gente - demasiada - a explorar as qualidades do outro. Assim, Miss Woody, não é possível melhorar. Acho o discurso do reconhecimento do mérito e do talento muito mais catalogante e universal do que o do veneno e do defeito. E aqui podes bater que é idiossincrasia: é também muito, mas muito mais divertido! Gosto do lento-rápido, do rápido-lento e de tudo o que é agridoce. E os defeitos não se atribuem; estão, quase sempre, mais à vista do que as qualidades e, no preconceito recorrente, escolhe-se sempre a coisa que parece estar escondida. Louvadas sejam as aulas do Prof. Abel Barros Baptista - lamento, mas não virá link para o blogue Bomba Inteligente, só porque não me apetece - sobre Machado de Assis. Sabias que «O leitor atento, verdadeiramente ruminante, tem quatro estômagos no cérebro, e por ele faz passar e repassar os atos e os fatos, até que deduza a verdade que estava, ou parecia estar escondida.»?

d) Voltemos à linha de Sintra: então as pessoas não são culpadas da própria vida? Ai esse existencialismo, tão mal estudado! Morre-se bem numa passagem de nível, Miss Woody, e há, por isso, que responsabilizar quem deve ser responsabilizado. Se o heterossuicídio estivesse disseminado na nossa cultura – consta que um cantor conhecido da nossa praça suicidou a mulher; ela com um revólver apontado à própria cabeça, a dizer que se matava e ele, airoso, só lhe disse «Então mata-te!» e é claro que ela se matou - eu nunca seria julgada por tal acto. E se a insignificância matasse – oxalá não mate mesmo, pelo menos à fome – eu já não estava cá. Ninguém resiste muito tempo à adolescência e, por isso mesmo, há quem se fique pela infância que, infelizmente, só tem cama que chegue para uma ou outra sesta.

e) Transfiro-te o benefício da dúvida? Se me provares, com astúcia e brevidade, que não és sempre chata e que tens sentido de humor, frito-te uma alheira, com batatas, migas e ovo a cavalo. Palavra de honra.

f) Se te sentires ofendida, risca a vermelho a alínea anterior. Nem destoa da crucificação.

g) Fausto?, para mim? Bordalo Dias, ainda por cima? Risca o post inteiro e, se te apetecer, leva daqui um abraço.

h) Com um único verso para levar a sério.

controlo logístico de precisão vocabular

Eu disse consultório, não disse manicómio, isto é, não me faça pior do que sou, que é uma injustiça para mim e uma canseira para si. E, quanto ao nome, a bola está quase do seu lado. O senão - único e, confesso, venenoso o bastante para acabar com metade da população de Hong Kong - é que eu nunca lhe disse, Miss Woody, que me podia tratar por Tatiana. Mas pode, é claro - se bem que, mesmo que não pudesse, já o tinha feito - e apesar de eu preferir a Filigraana, nenhuma das duas é uma grande obra de ourivesaria.

Só para quem não vai nada bem

Azia

É por estas e por outras que eu já lhe prometi duas das minhas irmãs mais novas.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Carta da Tolerância - sem a bílis de John Locke

Isto de ter um blogue é muito divertido. Uma pessoa escreve a pensar que está só a escrever e, afinal, está a sentar-se na marquesa e a preparar o corpo (ombro esquerdo para baixo, braço direito mais para o lado, pernas ligeiramente flectidas e um meio suspiro contido) para uma sessão de psicanálise. Dra. Woody, deixe-me começar pelo início: é a primeira pessoa, em toda a minha curta cinematografia, que me chuta assim para dentro do consultório como se fosse essa a coisa de que mais precisasse. Acho mesmo que precisa e desculpe-me por ser assim, «directa como um comboio» (esta comparação, mais gélida e menos imaginativa do que a metáfora, entenda-se, é de Romana Petri em Os Pais dos Outros).

Não há dúvida de que, se ambas temos acesso a bons dicionários, a Dra. (espero que não se importe com esta promoção académica) faz muito melhor uso deles do que eu. Tive de ler os seus dizeres calorosos três vezes para me certificar de que, em primeiro lugar, não estava a ler nada tirado da Crítica da Razão Pura e, depois, para saber se seria possível responder-lhe com a mesma cordialidade com a qual se me dirigiu. Depois, e isto sei que é burrice minha, ainda estou para saber como é que descobriu que eu me chamo Tatiana - e olhe que não é a primeira pessoa a descobri-lo. Então e Teresa, Tareca, Tânia, Telma, Taís, Tamara, Teodora, não servia? Tinha de ser logo Tatiana? Está visto: garota da linha de Sintra, que prefere os regionais aos pendulares, que não percebe patavina de filosofia analítica e ainda por cima maltrata o Prof. Prado Coelho, só pode chamar-se Tatiana. Tê de Tudo bem, isso é o menos. Agora não me tratar por Tu? Miss Woody, acho indecenTe!

Ora bem, a discursividade universal. Há uma discursividade não universal? Se há, dê-me uma morada onde eu a possa arranjar e prometo, de promessa prometida, que não digo ao dealer que foi a senhora que me mandou lá. Já que estamos numa de transportes púbicos (acrescentar um L se necessário), só me consigo lembrar da discursividade limitada e aforística q.b. dos maluquinhos do trainspotting. Uma vez, o meu querido amigo Filipe obrigou-me a estar acordada até às 3 da manhã para ver, em Alfarelos, passar as Bombardiers. Das melhores noites que vivi. Ainda não tinha descoberto o sexo e o Count Basie não mudara a minha vida. Mudando de assunto, é verdade que os teóricos da comunicação têm distinguido, com muita dedicação e algum interesse, o discurso da linguagem. Não desvirtue só por isso, querida Dra., os meus serviços terapêuticos. Não são discurso, são linguagem. E só não são um peido de Leonardo da Vinci porque, tenho a certeza, cheiram muito melhor. A éter, às vezes.

E era mesmo à volatilidade que eu queria chegar. Querida Dra., se eu quisesse ser coerente, escrevia nos jornais - embora seja verdade que só não escrevo nos jornais porque os próprios jornais, coitados, não me querem (e não é por falta de espaço). Se algum dia escrever neles, se algum dia me quiserem, prometo que vou falar da vida com a mesma propriedade com a qual a senhora fala da versão neerlandesa de Ne Me Quittes Pas. Quer saber um segredo-bomba, daqueles de foda, daqueles de cama? Ando enrolada com a Sofística, mas a Filosofia não pode saber. O Grande Sacana sabe e vai-me castigando. Mas, no fundo, gosta muito de mim: vai com calma nos troços mais perigosos da linha e não se detém nos seguros. É muito bom ter amigos influentes.

Somos putas? Somos e só variamos nos preços e nos serviços prestados. Somos sérias? Podemos sê-lo, desde que não o sejamos em sentido bíblico. Eu vou-me embebedando com a hóstia e empanturrando com o vinho, beata como uma mula, graças a Deus.

A Tatiana que está prestes a vir, Mestre Woody? Então nem me perguntou a hora a que nasci e já me traçou a carta astrológica? Ou estava a referir-se ao orgasmo ascendente? Que imprecisão! Nem esperou que eu gritasse em seu auxílio. Há uma cigana, perto do Curry Cabral, que me faz isso quase todos os dias. Se continuar a chatear-me muito, não se safa de um dia levar uma marretada em nome do Santinho Padre Cruz.

«Plêiades literárias de cunho acusatório». É bonito. Nunca ninguém me tinha caracterizado a discursividade (que, afinal, de tão nefasta, já parece que se livra de ser universal) com tantas palavras com mais de três sílabas. Sou suficientemente pretensiosa – isto só para lhe fazer a vontade, que o que eu queria mesmo ser era honesta – para achar que sei o que é a beleza. Há os gordos e os magros, os altos e os baixos, os feios e os bonitos, os burros e os inteligentes. No essencial, divergem uns dos outros porque nos dão, ou não, tesão – valha-nos a Discursividade Universal, que se não fosse ela andaríamos sempre de dicionário de sinónimos em punho.

As pernas da Cyd Charisse, Miss Woody, são lá comparáveis às do estafermo da esquina! O estafermo até pode ser especialista em Wittgenstein, mas se não ficar muito bem de saltos altos e não disser, de vez em quando, umas badalhoquices de voz doce, ninguém lhe pega. Nem a menina lhe pegava. Isto não me impediu, nem a si, decerto, de amar pessoas feias, gordas, pretas, quem sabe. A minha cama é estreita mas o meu tapete terá de ter sempre uns bons metros quadrados, para se cair e saltitar como uma bola de ténis, errar bastante sem sentir frio e mandar vir medir depois os estragos na escala de Richter.

Contra si, nada tenho. Se a Allen me acha piada, ainda tenho menos contra ela. E não me leve a mal, mas vê-se mesmo que não me conhece. Nestes e nos outros meses do ano, sou toda calor e gosto até de quem não gosta de mim. Mas gosto sobretudo de quem gosta e gosto ainda mais de quem gosta muito. Se sou puta quero, ao menos, sê-lo bem - e para isso, graças a Deus, não preciso de ganhar medalhas.

Fala-se muito pouco dos homens discretos
















daqueles que se encontram num hipermercado, a uma sexta-feira à noite, misturados com a Ágata e com os AC/DC e pelos quais ninguém, no seu perfeito juízo, daria um chavo. Tradução para quem se interessa e antes que a Sonae dê cabo do paraíso: Impulse!, Verve e Decca a preços de fábrica no Carrefour Oeiras.

Como dizia o apanha-bolas

Joguei ténis durante vários anos. Cheguei a ganhar duas medalhas. Depois desisti. Para mim, aquilo era só uma cambada de betos e betas competitivos com vontade de exibir a raquete, vestir branco e ficar com pernas bonitas - tudo isto sem precisar de sair do Restelo. Pensando bem, assim num tom tão quase literário que não chega a ser filosófico, eram os limites que me desagradavam no ténis. Enquanto no baseball o que importa é transbordar - home run a perder de vista - , no ténis não entra nada que se pareça com água. Na vida, na vida a sério, na vida que algumas pessoas têm a coragem de viver - duas ou três ou quatro, é claro que eu não venho nesse pacote -, nenhuma bola cai dentro. Não se serve nem se está nunca do lado de fora. Nenhuma bola se apanha sem bater no chão pelo menos oitenta vezes, que é o mesmo que dizer que ninguém é menos estúpido do que o suficiente para errar muitas vezes o mesmo erro. A caracterização do duelo pelo olhar é muito perspicaz e acertada, mas acho as personagens de Sergio Leone de uma sujidade bem mais encantadora do que a dos jogadores de ténis. Delicio-me, agora, com o pingue-pongue. Se a brincadeira de bater umas bolas é saber da vida, então que seja mesmo como ela: veloz, divertida e, se for possível, que passe por nós sem darmos por isso.

*E escusado será falar no alívio que sinto por não precisar mais de vestir saias daquele tamanho.

Jazz com Pretas [11]


* melhor aqui, mas o autor não deixa postar; e a esta versão eu nunca resisto. Tudo isto e mais alguma coisa por recomendação divina. Em caso de dúvida, contacte o sindicato.

Educação ferroviária

Hoje fui ao Porto e voltei, de Intercidades. Para a próxima, mesmo que demore mais tempo, vou no Regional. Não gosto de comboios silenciosos e por isso não escolhi o Alfa-Pendular. Engano. O único sítio onde num Intercidades se ouve pouca-terra-pouca-terra-uuu-uuu é no WC e, mesmo assim, o uuu-uuu está quieto e isso só acontece naqueles troços da linha que o tempo, Sacana Um Bocadinho Mais Pequeno Do Que O Outro Grande, não respeitou. Depois, os assentos do Intercidades são demasiado confortáveis e há o ar condicionado, que desgraça qualquer pessoa que goste de olhar pela janela - por falar nisso, vai uma aposta em como eu amanhã vou acordar aniquilada por dores de garganta ou de cabeça? No Intercidades há um bar e eu quero que viva o farnel. O Intercidades não pára em todas as estações, e eu não suporto passar em estações tão rapidamente que não me seja possível ler-lhes o nome. Caxarias, por exemplo. Quem nunca passou por Caxarias não percebe que está a passar por Caxarias se não conseguir ler a duzentos quilómetros por hora. Uma viagem de comboio - duas, no caso - da qual se sai sem qualquer dor no corpo não é uma viagem de comboio, é um passeio. Eu hoje fui ao Porto passear.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Escrevi, uma vez, uns louvores à paciência. A verdade é que não tenho nenhuma. Não posso nem consigo esperar por aquilo que quero muito. A espera consome-me, carboniza-me, traz-me cólera. Fico - sei que fico - insuportável quando tenho de esperar por aquilo que quero muito. A sexta-feira não me anima. O que eu quero é a vida, aqui e agora, real como uma fotografia por tirar. Quando um corpo faz click! não acaba, acaba de começar.

Diário das Descobertas - 8 de Setembro de 2007 (por antecipação)

Sei de uma coisa que o aio de D. Manuel I lhe disse, quando el-rei era ainda muito pequenino. Como constatamos todos os Dezembros e Janeiros, el-rei não percebeu e, como podemos constatar de Fevereiro a Novembro, acabou por perceber tudo ao contrário - pois se até se fez Bem-Aventurado! Vejam o que dizia o aio: «Meu rico menino, se a fruta cristalizada se fizesse ao mar, era um grande favor que fazia ao bolo rei.»

Diário das Descobertas - 7 de Setembro de 2007

Diogo Cão tinha pelo menos uma certeza: a de que era mamífero.

Hoje não li os jornais. Amanhã também não.

Paradisia radugaleta voa e faz a pirueta ou de como não me agrada a caligrafia de Nabokov

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Presente do Indicativo do verbo voltar em versão religiosa e com omissão da segunda pessoa do plural

Eu messia
Tu messias
Ele messia
Nós não messíamos
Eles messiam mais do que tiveram.

Breve maltratado das coisas que não existem [31]

Os inquéritos de satisfação. Nunca vi ninguém responder a um inquérito sem estar contrariado.

Melancia

Vou escrever sobre melancia, antes que o assunto fique na moda. Há duas vantagens principais na melancia: tem demasiada água para ser gente e demasiadas sementes para ser mulher. A melancia é como um homem doce que sangra diluído. Que frase de merda, dirão vocês. Está bem, eu reformulo: como um homem doce que cora e evapora, isto é, como um homem doce que evacora. Não há uma cor verde-melancia. A cor da melancia não é a cor de fora, é a cor de dentro. Nunca se quer olhar para uma melancia fechada. Melhor: nunca se quer olhar para uma melancia, a melancia quer-se sempre comer. Vi o cartaz de um filme em que a fotografia mostrava uma mulher com uma melancia a tapar-lhe a patareca, enquanto um indivíduo a observava. A fotografia estava tirada de uma maneira curiosa, talvez para que, enfim, a melancia pudesse parecer uma cona com sementes. Não parecia nada. Uma melancia parece-se sempre com uma melancia, ou seja, parece-se sempre com água. Água doce. Adoro melancia.

Beber

Vinho, escanção, supra-sumo e infusão.
Sede, sermão, melancia, sacristão.

Diário das Descobertas - 6 de Setembro de 2007

Vera Cruz está apaixonada por Desespero Vaz de Caminha.

Sentimento de um órgão genital

naufragar em Betadine Solução Vaginal.

Sentimento de uma oriental

um caralho ocidental.

Sentimento de uma ocidental

bolas chinesas e um avental.

Sentimento de um oriental

quando, visto da Europa, um caralho teso parece um caralho que acabou de ganhar o euromilhões.

Sentimento de um ocidental

quando, visto da Europa, um caralho teso se inclina para a esquerda.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Chegar a uma casa depois de um dia cheio. Meter a mão ao bolso. Escolher a chave certa. Ver que a chave cabe na fechadura e sentir alívio por isso. Entrar. Entrar numa casa que não é ou não parece nossa. Querer um banho, o conforto da água. Tomar um duche razoável. Não ter fome. Ter de comer. Desejar o carinho do silêncio. Não encontrar o silêncio e estar ainda mais longe do carinho (a uns quilómetros razoáveis). O mais importante de tudo é a memória. A memória e o sono. A memória traz-nos o que foi ontem, o sono dá-nos o que vai ser amanhã. Quero sempre mais amanhã do que quis hoje, mais amanhã do que quis ontem. Mesmo que seja impossível piorar e ainda que pareça impossível melhorar. Amanhã é que é hoje. Não se admite, no entanto, que hoje, ontem e amanhã sejam o mesmo que sempre. Ainda bem que a vida não muda connosco ou que não muda tanto quanto nós mudamos. Nunca sobreviveríamos a coisas mais previsíveis do que nós mesmos. Sabemos sempre o que nos vai acontecer a seguir ou, se não sabemos, sabemos que nos vai acontecer alguma coisa a seguir - e já é uma previsão tão suficiente. Achamos que não controlamos o que nos vai acontecer a seguir, mas é tudo mentira. Escolhemos sempre e escolhemos sempre bem. Por tudo isto e por mais duas ou três coisas de muita propriedade, não respeito ninguém que nunca tenha corrido para apanhar um comboio.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Confissão

Morro de medo de viver.

Algo mais sobre a Literatura

O amor tem um aspecto absolutamente repugnante: é uma fatalidade. É uma fatalidade mais religiosa do que metafísica, é uma instituição antiga, aborrecida, linear, igual em todos os lugares. O amor ora acontece, ora demora a acontecer. É uma espécie de morte onde só se vive, onde se vive mais do que a conta. Gosto de quem me trata por tu. O amor trata-me por tu, usa o primeiro e o segundo nome quando está zangado, o apelido quando quer que o escute, os nomes e apelidos todos quando brinca comigo, um diminutivo quando me quer encantar, chama-me nomes quando me quer desconcertar, não me chama nada quando sabe que isso me desconcerta. O amor tem-me em desvantagem: ele conhece-me, eu não o conheço. E é tão bom ser-se socrático.

domingo, 2 de setembro de 2007

A verdadeira família superstar

Post cujo único atributo é ter caixa de comentários

Ou talvez não.