quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Breve maltratado das coisas que não existem [37]

Uma parte da criança que fomos nunca nos abandona enquanto adultos. Por muito forte que seja a vontade de parecer conveniente, é difícil controlar a característica infantil da curiosidade. É insuportável e inadmissível para qualquer pessoa que alguém diga «Se eu te contasse...» e depois não conte. É uma crueldade inenarrável, pejada de desconsideração. Como prometer uma coisa a uma criança e não cumprir. Mesmo que não resolva - o que é o mais certo -, proponho a criação de uma nova designação jurídica, para formalizar e dignificar a situação: será o segredo de injustiça.

Morta

Só conheci Lady Poggiolini no dia a seguir à sua morte - e pelo seu, temo, ingrato obituário -, mas parece-me que já gosto dela. E gosto de como os italianos dão notícias da morte: «Morta Lady Poggiolini: teneva un tesoro in un puff». Guardar um tesouro num puff, reparem, foi a segunda coisa mais importante que a senhora fez, logo a seguir a morrer (salvo seja). E é tão bonito que «Morta» seja logo a primeira palavra. A gente, apesar da dieta mediterrânica, não costuma fazer disto.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Já ouviram falar da língua azul?

Sem post

«Festival dá voz à deficiência mental»

Talvez o Rui Veloso não ache muita piada à ideia.

domingo, 28 de outubro de 2007

Não é de pequenino que se...

Tento todos os dias escrever sobre a actualidade e não consigo. Dêem-me um telex da Lusa e eu faço tudo bonitinho, by the book. Agora, escrever qualquer coisa inteligente sobre um acontecimento que se passou, no máximo, na semana passada e sobre o qual toda a gente tem uma opinião, isso não é para mim. Também não sei escrever sobre a história, sobre o passado. Nem sei escrever sobre o tempo fenoménico, sobre a teoria da relatividade. A verdade é que eu não sei escrever. Sei passar um cheque, preencher um recibo verde, deixar um recado num post-it profissional, escrever uma mensagem a dizer que vou chegar atrasada e, vez por outra, umas respostas numa folha de exame que, por razões institucionais, não pode ficar em branco; mas escrever é que eu não sei. Só se for sobre coisas que não cabem ou não deviam caber no tempo, só se for escrever coisas que, daqui a vinte anos, vão continuar más e imperceptíveis. Escrever não é para todos. Sobre actualidade, muito menos. Quando for grande, se me for dado esse privilégio, quero escrever assim, como se cantasse.



*Sei que já postei este video, desculpem a repetição.

Quando estou muito triste ouço canções de dor-de-cotovelo, daquelas foleiríssimas e pirosas. Uma vez, devia eu ter uns 12 anos, na minha fase faz-a-tua-própria-telenovela, tinha acabado de ouvir na rádio uma canção do Michael Bolton daquelas desesperantes, o meu pai entrou no quarto e, vendo-me a chorar, perguntou-me, pela primeira vez, se estava apaixonada. Eu não estava e disse-lho. Ele não acreditou. Deixou-me sozinha, depois de tentar descobrir com mil e uma perguntas a razão da minha choradeira ridícula. O meu pai é um bom homem e com a fé que ainda tem na humanidade não sabe que a pré-adolescência de algumas pessoas estúpidas só pode ser uma estupidez.

Acabam de me dizer que tenho «a ligeira tendência para cair um pouco na vulgaridade.» As expressões «ligeira» e «um pouco» fazem com que eu não possa, nem deva, por asseio intelectual, levar a observação a sério.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

A conveniência não é um suspiro ou de como são inúteis os amores não correspondidos

Hoje apoquenta-me especialmente uma dicotomia avoenga e imperturbável: os que se divertem e os que não se divertem. Os que se divertem são loucos aos quais tudo é permitido. Abrem a boca e uma pessoa, num impulso primeiro e, quem sabe, determinado por leis físico-químicas altamente volúveis, acredita. Acredita, não há o que fazer, não se pode falar contra a loucura. Os que se divertem fazem e desfazem, dizem e desdizem, são aceitáveis no Universo enquanto forem capazes de ferir e chagar os outros com a mesma facilidade com que enviam uma coroa de flores aos familiares de um morto querido. Os que não se divertem sofrem, caem no logro dos que se divertem. Às vezes, têm a ilusão de que se divertem e oscilam, bipolares, entre a confiança e a desconfiança que sentem e têm nos outros. Os homens que se divertem que eu conheci acham-se ubíquos e capazes. São deuses, de facto; super-homens que conseguem tudo quando bebem ou, simplesmente, quando lhes apetece, sem olhar ao prejuízo das palavras, homens para quem uma vontade basta. A minha incompatibilidade com os deuses ou, em último caso, com o Grande Sacana, tem que ver com uma questão singela e arbitrária de metafísica da terra e da enxada: para haver vida como eu a conheço não basta uma vontade. São precisas duas, pelo menos. Querer alguém que não nos quer é uma oração aberta que, coerente consigo mesma, não encerra sentido. Os sonhos são vazios e não alimentam, e o desejo, a menos que se cumpra, não chega a ser da ordem do real. Não me perguntam como se prova isto? É fácil: dos amores não correspondidos não há quem não recupere. E recupera, muitas vezes, com um amor correspondido do qual nenhuma das duas vontades poderá, alguma vez, recuperar.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Algumas considerações tísico-químicas

Afinal, nós temos medo é do corpo - dizem os especialistas. Da violência da proximidade, da vontade do corpo. Temos medo de fazer aquilo que apetece ao nosso corpo, de sermos nós, em vez do nosso corpo, os árbitros do jogo do mundo com aquilo que somos. Temos medo de polícias e de olhares indiscretos, de foder nas lajes húmidas de um sítio demasiado parecido com o meio da rua, de fraquejar nas palavras e no tempo das palavras. Temos medo da química que não vem em cápsulas, das coisas em geral que não trazem manual de instruções, por mais inúteis que, nas nossas mãos, os manuais de instruções possam ser. Temos medo das coisas que não falam connosco e de, para essas e outras coisas, não ter as respostas na ponta da língua. Mas também temos medo de não dar uso à ponta da língua, não gostamos de ser catalisados, engolidos pela química que não vem em cápsulas. Temos medo de não viver, ou seja, temos medo de viver pouco. A vida não é um direito, não é um vício, não é um fenómeno, não é uma evidência. É uma vontade, um vaivém caprichoso que cheira a orvalho e a eucalipto. As manhãs aproximam tanto quanto as noites cansam ou, na perspectiva do potencial, as manhãs aproximam tanto quanto as noites podem aproximar. De vez em quando, «Bom dia» é a melhor coisa que se pode ouvir e ainda não decidi se gosto da sintaxe do último período.

As cobiçadas terras da Ataboeira merecem tese de mestrado em Retórica e Argumentação

Porque é que Portugal não é um Estado Soberano e Independente Com Intenções Pacificas e Livre de Armas, onde os acentos não são obrigatórios e o príncipe, em vez de palácio, tem «cinco viveiros de ameijoas em Cacela e na Fuzeta»?

E viram bem o rigor que ele empregou na palavra «divulgar-vos-ei»?

Repararam na ligeireza com que ele diz «preto escuro»?

De como empregar a energia, digamos assim, em coisas que, não sendo úteis, exigem o máximo de rigorosidade possível

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Pertenço a um grupo alegremente designado "Aqueles que se pudessem nunca saíam de casa".

Desprezo um bocado aquelas pessoas que se ausentam dos lugares por se terem sentido ofendidas na sua dignidade. Respeito mais aquelas que não chegam a ir aos lugares para não ofenderem ninguém na sua dignidade.

É mau morrer de cancro, mas deve ser pior morrer de capricórnio.

Era uma vez um vento tão influente tão influente que até os aviões se levantavam a seu favor.

Certas paixões podem ser, em provento e missão, muito semelhantes à aviação comercial.

Homo tapiens, uma perspectiva ecológica

Sente-se que os pilotos da TAP estão em greve. O ar cá em baixo está irrespirável. Na verdade, nunca pensei que fôssemos tantos.

Há alturas em que me convenço de que o sui cídio devia chamar-se sui generis. Mas matar-se é que era o conceito ideal: como rir-se, mijar-se, vir-se; matar-se seria ir-se, como morrer é, com alguma monotonia, deixar-se ir.

Gosto da palavra diástole. Descontrai-me.

Hás-de reparar se o teu ciclo cardíaco não é vicioso.

Há pessoas para as quais a falta de inspiração é uma apneia vitalícia.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Explicação quase definitiva sobre a pronúncia da palavra "IKEA"

Para quem se interessa, dizem os suecos dos meus conhecimentos - dois, ainda por cima luso-suecos - que IKEA se pronuncia "icaia". Em Palo Alto não desmentem.

"Alerta" sobre a repugnância do raciocínio ou de como ninguém é obrigado a fazer nada, incluindo aquele senhor mal encarado do café da esquina

Se houvesse mais prostitutas existencialistas, havia mais suicídio e menos putedo.

«Médicos divididos sobre as pilinhas dos bebés»

Como disse?

Breve maltratado das coisas que não existem [36]

Desde quando é que os bombeiros se especializaram em circunscrever os incêndios em vez de os apagar?

Situação excepcional na qual não se aplica a seguinte observação: «se cantasses bem não tiravas a camisola»

domingo, 21 de outubro de 2007

Gosto de malandros.

Daqueles que entram em salões de festas com orquestras que, mal os vêem, começam a tocar uma peça esfuziante de Herb Alpert and The Tijuana Brass. Gosto de malandros que dançam. Gosto daqueles malandros que, assim que chegam a casa, descalçam os sapatos e desapertam os primeiros três botões da camisa, como se fosse essencial sentirem-se desafogados para pôr o Bobby Darin a gritar no gira-discos. Gosto de malandros que fazem tudo para agradar às mães, que as fazem acreditar que não vivem de vigarices. Gosto dos malandros que estão sempre perfumados, que correm e nunca se cansam, que piscam o olho e têm sempre alguma coisa interessante para dizer, mesmo quando já não há nada a dizer sobre aquele assunto. Gosto de malandros que se apaixonam e vislumbram, na sua próxima namorada, uma mudança de vida. Filhos, churrascos ao domingo, um piano de cauda (quem sabe se uma Bimby para a amada). Gosto de malandros que acreditam e depois mudam de ideias, que voltam a mudar de ideias e depois acreditam.

E depois há aquela voz que me diz: «Tu gostas é de cinema.»

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Há várias coisas que não nos ficam bem no currículo. A vergonha é uma delas.

Estar num sítio quando se deveria estar noutro não é a primeira consciência da nossa falta de talento para a omnipresença. É, na maioria dos casos, irresponsabilidade.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Série de posts que podiam ter como resposta única a palavra "tudo"

Se a pressa é inimiga da perfeição, de que é a perfeição inimiga?

Quase silogismo delusório e desencantado

Não me entusiasmam as loiras.
Os homens preferem as loiras.
Eu, afinal, não sou tanto um homem assim.

De uma maneira ou de outra, à morena tripartida que, segundo consta na taxinomia, tem um terço de loura e três terços que precisam de melhoras

róque

Às vezes coloco os auscultadores e ouço temas de rock pesado no volume máximo. Ouvido de fora, parece que a aparelhagem está a meio gás. Mas não: só salta para o vento o que os meus tímpanos não absorvem. Com o que absorvem, os neurónios - grupo de amigos muito restrito e selecto - dançam dentro da minha cabeça e a minha cabeça é o único sítio onde, surpreendentemente, não há ruído. E eu danço e estremeço por dentro com o que é denso, simples e quadrado. A etnomusicologia mente se não admite que os hinos são apenas estados de alma.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Breve maltratado das coisas que não existem [35]

O que dá uma pessoa quando dá de si?

Tenho duas coisas em comum com Caetano Veloso: sou contra o acordo ortográfico e a favor do João Gilberto.

Breve consideração sobre a semiótica da desilusão ou, finalmente, um post com link para o blogue Bomba Inteligente

Girl Power? Trago aqui quem inventou, com o factor fragilidade na introdução a reforçar a surpresa do tumulto e a certeza de que é na vingança que uma girl tem mais power.

Advertem-se os amantíssimos leitores destas fezes de búfalo de que a solução que foi dada a esta esterqueira é temporária. Isto sobrevive, vá lá, até mais ou menos exactamente ao dia 16 de Fevereiro de 2008. Palavra de ministro.

provocação, paradoxo e swing
é que é quase tão bom como um tesouro da dinastia Ming
por isso mesmo, este blogue vai continuar
mal ou bem, há-de haver sempre mais alguém para chatear.

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humor, reflexão, cultura, arte
isso é do que mais há em toda a parte
por isso, este blogue acaba aqui
sem sequer recitar os primeiros vinte e um mil algarismos do pi.

As pessoas devem ser responsabilizadas, sobretudo, por aquilo que não fazem. Qualquer ser insatisfeito se torna facilmente insuportável.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

The Big Electron ou este é que merecia ganhar o Nobel da Paz

Magnífico chocolate em honra de leitor demasiado interessante para existir


Eduardo Nascimento é um homem muito bonito. Canta a sorrir.

Djavan é o tipo de músico que, não cantando muito bem, pode entusiasmar muito. Tem uma coisa deliciosa: canta por códigos. As letras são quase insondáveis. Em Samurai, além do luar crescente, fala nas «trevas fundas da paixão», expressão que, convenhamos, tem alguma coisa de misteriosamente vulvar. Em Se, as potencialidades maçónicas são inúmeras: «Deixa vir do coração», «Não há como doer/P'ra decidir», «Mais fácil aprender japonês em braille» (ai o malandro!), entre outras incomunicabilidades. Em Te Devoro, cujo título já é demasiado sugestivo, deparamo-nos com um magnífico «Tudo o que Deus criou pensando em você/Fez a Via Láctea, fez os dinossauros» (a Via Láctea?!?!?!?!?!). Vou de foguetão.

Crescei, luar, ou seja, Aparece, erecção!

Fellini! Miau???

Só para ter a certeza de que tinham percebido a piada.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Ella? Isso queria ela! ©

Há pessoas com muita sorte. Por ora, vou limitar-me a mencionar uma: Jacinta. Vou discorrer sobre o assunto "sorte" tomando como exemplo esta senhora e fá-lo-ei como se as razões para a sua escolha não fossem óbvias. Nem sei bem por onde começar. Primeiro, para não parecer muito vil, preciso de reconhecer que é admirável que alguém com este nome e que não tenha participado das aparições de Fátima tenha conseguido tanto sucesso no estrangeiro. Digo isto com certa solidariedade, já que odeio profunda e irreversivelmente o meu nome. Não simpatizo com Jacinta e, sobretudo, não simpatizo com a voz e o cantar de Jacinta. Posto isto, toda a gente sabe que escrever com o coração dá mau resultado, mas eu escrevo na mesma.

O site da cantora - chamemos-lhe assim -, como o de qualquer bom artista português que se celebrizou lá fora, tem tudo "Brevemente disponível", excluindo a secção dedicada à imprensa e à crítica. No caso de Jacinta, uma boa investigação daria, certamente, azo à seguinte conclusão: os críticos que falam da cantora são todos membros honorários da Associação Internacional de Perda Auditiva. Sim, internacional. Sei que, nalguns mercados culturais, as frases críticas colocadas nos produtos são forjadas, o que, em certas situações, pode provocar problemas. Imagine-se, por exemplo, a rapaziada do marketing de uma qualquer editora de livros decidir colocar, na última obra de José Rodrigues dos Santos, uma citação de Shakespeare: «The ultimate classic!». É do caraças.

No caso, não sei como funciona, mas custa-me crer que o Sr. Peter Eldridge (The New York Voices) tenha mesmo dito que «Jacinta canta do fundo da sua alma com uma alegria absolutamente contagiante [tão contagiante como, acrescento, já não se via desde o último álbum da efusivíssima Diana Krall]... tratando com respeito [uf!] todas as canções que interpreta.» Tudo o resto, mesmo um ou outro prémio revelação e um ou outro desvario do genial José Duarte que, convenhamos, já não vai para novo, me parece minimamente aceitável só porque ninguém, no panorama musical português, teve a sorte - a sorte, lá está - de poder gravar um álbum de jazz com o selo da Blue Note antes de Jacinta. Mas quando vemos, em críticas ao trabalho da cantora, a palavra "swing", a coisa muda de figura e não há revolta que se amanse. Maturidade no scat? Musicalidade? Sorte. E técnica.

Jacinta tem um álbum chamado Daydream, que vem com duas faixas-bónus, para aqueles que ainda não pagaram o suficiente pelos seus pecados. Nesse álbum, a cantora canta jazz em português, o que quer que isso signifique. Em vez de «I'm Beginning to See the Light» canta-se «Meu amigo, decide lá», coisa que não comento. Mas provavelmente eu é que ainda não apurei o gosto, já que tanta gente gosta. Diz que sim, que ela é «a cantora de jazz portuguesa». Eu digo sorte. Cantar assim músicas incríveis com músicos fora de série e ter sucesso com isso é sorte, só pode.

Aguardo impacientemente o processo-crime pela inflicção de danos morais a alguém que tenha a infelicidade de ler este blogue. Devo, no entanto, asseverar que aqui se contempla o direito de resposta. E que tudo se resolveria se eu tivesse colocado o meu aparelho auditivo.

Interrupção involuntária da estupidez ou visita guiada à redacção do terapia metatísica

Miau

Este blogue, apesar de decrépito - não em sentido cronológico, graças a Deus, caso contrário já nem mesmo a autora o aguentava - foge da morte como o diabo da cruz. A única morte digna para ele, penso eu, seria o suicídio. Mas como o suicídio é sempre auto e requer a existência de uma coisa que se pareça com o livre-arbítrio, não vejo meio de este blogue acabar, pelo menos nos próximos quarenta minutos. Isto porque, decerto, o blogue não me acordará da sesta para tomar vida própria. Preciso de motivos de inspiração. Eu bem tento, mas não sei sonhar como Fellini.

sábado, 13 de outubro de 2007

Quero conversar com a D. Maria dos Anjos

«Maria dos Anjos vive sozinha e ainda vai ao rio lavar a roupa. Conta: "Sou mais velha que a Nossa Senhora, nasci um ano antes de ela aparecer [1917]. Antigamente, não havia nada para aqui, eram só cedros. Ia a pé até Castanhedo, apanhava o comboio para Leiria e depois voltava de novo a andar a pé!"»

A prova de que todo o jornalismo que gosta de pessoas é bom. Aqui.

Breve maltratado das coisas que não existem [34]

Não concordo com a atribuição do prémio Nobel da Paz a alguém que se preocupa com as alterações climáticas e todos os problemas que elas provocam no Planeta. A ausência de riscos ambientais não é paz, é sossego.

azinheira spoken world

No irmão lúcia há hoje uma espécie de gala que conta com a participação exacta de mais ou menos 13 bloggers. Subscrevo um desses bloggers quando diz que são 12 boas razões, enfim, mais ou menos 12, para aparecer por lá. Até agora, quase tudo me pareceu bastante além do muito bom. Acabo de ouvir no telejornal que estiveram hoje, em Fátima, 300 mil fiéis. A respeito disto só vos digo uma coisa: que se fodam os intelectuais.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Este blogue diz "blogue". Um "blog" não sei o que é; não sei o que é um "blog". Só se for to write posts.

Diário das Descobertas - 12 de Outubro de 2007

Abraão Zacuto apaixonou-se por uma sefardita. Só pensava em beijar-lhe os astrolábios.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Coisas que foram parar à caixa de spam do autor do Abrupto













A generosidade está, desde a manhã de ontem, à beira de um canteiro da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (e o sapato esquerdo tem um bilhete de metro dentro).

Não dá conta do seu cérebro? Vá buscar um novo.

No entanto,

piaçá | s. m.

piaçá


s. m., Bot.,
nome de duas palmeiras que produzem fibras empregadas no fabrico de vassouras;
vassoura de piaçaba.

Números

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Os números, às vezes, também são palavras.

Ouço as pessoas muito inteligentes falar sobre matemática e associo, sem pestanejar, o conhecimento da matemática a um conhecimento metafísico superior. Não sei se isto me vem daqueles dizeres que se liam à entrada da academia de Platão («não entre aqui quem não for geómetra» ou coisa que o valha), se me vem da injustiça e impaciência com que me trataram, quase invariavelmente, todas as professoras de matemática que tive. A associação histórica e comprovada entre a matemática e a filosofia fascina-me de tal forma que, seguindo à risca Platão e os pitagóricos, me acho incapaz de perceber alguma coisa de filosofia, já que não entendo nada de matemática. Já devo ter dito uma vez, e se não disse pensei, que a filosofia não se entende, sente-se. É mentira. A gente só sente o que entende e só entende o que não consegue explicar por palavras, daí a beleza dos números.

Matemática

Sobre sexo, sobre escrita e sobre pensamento

Há, outrossim, a relação da escrita com o pensamento. É uma relação que eu pressinto inevitável, fatal. Ainda não encontrei, apesar dos esforços e da aproximação iminente de muitos dos meus observados a esse ideal estratégico, alguém que escrevesse como se vivesse. Mas encontrei quem escrevesse como se pensasse e quem vivesse como se pensasse, o que invalida completamente o último período deste texto. Se associarmos a inevitabilidade da nossa vida à inevitabilidade do casamento da Dona Escrita com o Senhor Pensamento, muito mais invalida e muito mais vai invalidar. Há pensamentos interessantes e desinteressantes sobre sexo, como há pensamentos interessantes e desinteressantes sobre tudo. Em princípio, gosta-se mais dos pensamentos interessantes. Haverá, talvez, quem nunca tenha pensado ser possível que algo desinteressante pudesse ser ainda considerado um pensamento. E aqui, onde é que está o sexo? É fácil: se o desinteressante não é pensamento, é bem capaz de ser vida. E a vida é mais sexo do que a escrita, isto é, a vida contém, como se de um recipiente se tratasse, a possibilidade indelével do sexo bem feito. Porquê a possibilidade? Porque a vida também pode ser desinteressante e, quando assim é, o sexo, mesmo desinteressante, ganha mais interesse.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Sobre sexo e sobre escrita

Evito sempre escrever e ler sobre sexo, porque o acho um tema secundário e deprimente - prefiro a política internacional. Não penso, no entanto, que tudo aquilo que se escreve sobre sexo seja ineficaz pelo facto de o sexo ser etéreo e inefável. Não, o problema de escrever sobre sexo é que o sexo também se faz quando se escreve sobre ele. E quando nós, comuns mortais ou mortais comuns, escrevemos sobre o sexo, é como se o estivéssemos a fazer mal. Como se houvesse um código e uma convenção para o fazermos na escrita. Como, se não os há na vida? Há um conflito pouco evidente entre o sexo e a escrita: às vezes, fazer sexo não é fazer sexo (pode ser, sei lá, fazer amor, argh!), mas escrever, mesmo sobre sexo, é sempre escrever. E quando se escreve sobre sexo há cuidados higiénicos que se deve ter. Não se deve, por exemplo, cometer erros ortográficos inconfundíveis com a dislexia. Os erros de concordância - em género e número, dependendo das características particulares dos intervenientes - são inadmissíveis. A escolha do vocabulário também deve ser exigentíssima, porque um pénis e uma vagina não dão tanto tesão como um caralho e uma cona e no alfabeto não se fornica, fode-se, de preferência sem indulgência.

Espero, ansiosa e em desespero, pelo papel digital. Só me despedaça que não se possa rasgar.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Post sobre gente ou de como me esqueci de festejar o dia do animal

Teria sempre muito pouco a dizer sobre os animais. Aos oito anos assassinei, de tanta ternura, uma tartaruga chamada Horácio; divertia-me, na escola básica, com um amigo que pisava osgas ao de leve para as ver correr deixando a pele para trás; quis porque quis colocar dois peixes tropicais lutadores num aquário aconchegante; não houve gato que os meus avós acolhessem que eu não tivesse massacrado e ainda me lembro de não ter pena nenhuma de uma cadela que passou lá pelo bairro e foi envenenada pela vizinha do lado - irritava-me que ladrasse dia e noite, mas não fui eu que a matei, ainda não sabia contar até 605.

Há, no entanto, uma coisa que, se não aprecio, me surpreende muito nos animais. É uma coisa espiritual e religiosa. Cá em casa, por exemplo. Há a Bonnie e o Sheik. A Bonnie é uma Serra D'Aires despenteada e com ar de doida, o que até a faz parecer simpática. Vivia com um gato a que chamámos Clyde, que era preto e, por azar, foi atropelado por um carro a poucos metros de casa. O Sheik chegou depois da Bonnie, era o Cocker de um antigo guarda da embaixada da Arábia Saudita. É preto, tem uma coleira encarnada e é completamente maluco. De cada vez que se lhe enche o prato com ração ladra durante 25 minutos e depois come. Empoleira-se em cima de outros cães, como se os quisesse fornicar (que palavra de merda) e já comeu um soutien.

Não ligo nenhuma a nenhum dos dois e, no entanto, eles adoram-me. Não faço nada por eles, a não ser dar-lhes água quando não a têm disponível e mandá-los embora quando me vêm solicitar. Também fiz outra coisa por eles: não permiti que lhes dessem nomes de gente. Os cães não ficam ridículos com nomes de gente, mas as pessoas ficam ridículas com nomes de cães. Logo, se os cães têm nomes de gente e esses nomes de gente são nomes de cães, é meio caminho andado para a gente ser ridícula e, para isso, basta ser gente. Com os cães cá de casa é mesmo assim: não os aprecio, não os respeito, não os deixo entrar no meu quarto. E, no entanto, eles adoram-me. Que ser humano seria capaz de adorar alguém que se está cagando para ele, se não estivesse iludido, platonicamente apaixonado ou cheio de dor de cotovelo?

domingo, 7 de outubro de 2007

«I don't work with a deadly tarantula!»

sábado, 6 de outubro de 2007

Festival Europeu de Observação de Aves

Portugal está a tornar-se um país cada vez mais aborrecido com isto de tentar atrair os ingleses.

É de uma enorme desonestidade intelectual fazer copy/paste para encher chouriços.

A reportagem

«"Uma vez, ele me telefonou e nós conversamos de dez da noite às cinco da manhã", conta o produtor musical Almir Chediak. Existe assunto para sete horas de conversa? Existe, garante Chediak. "Conversar com o João é um presente. Ele fala de música com emoção, conta histórias como ninguém e é muito criativo", elogia.
(...)
João e Almir são amigos há dez anos. Até aí, nada demais. O estranho é que os dois nunca se viram. (Não, não se trata de um erro de revisão: os dois amigos NUNCA se viram mesmo). A amizade foi sendo construída sobre intermináveis telefonemas noite adentro.
(...)
Com o passar do tempo, o amigo telefônico recebeu uma missão de rara importância: trocar as cordas do violão do homem que nesse instrumento, quatro décadas atrás, inventou a célebre batida da Bossa Nova. João acha que somente Chediak, além de Luís Bonfá, é capaz de trocar as cordas com perfeição tal que é possível usar o violão logo em seguida, seja em show ou gravação.
Como João quase não sai de casa e não é chegado a visitas, um emissário ficou encarregado de levar e buscar o violão: Manelzinho, ex-funcionário do apart-hotel onde o cantor morou, hoje transformado em secretário particular.
Quando Manelzinho não podia buscar o violão de cordas recém-trocadas, João pedia a Chediak que fosse até o apart-hotel. Chediak ia e cumpria à risca o ritual: fazia-se anunciar na recepção, subia até a cobertura, dava três batidinhas na porta do apartamento 2909, encostava o violão na parede e ia embora. Dois minutos depois, João Gilberto abria a porta e apanhava o instrumento.
Com o tempo, João passou a entreabrir a porta antes que o amigo fosse embora. Mas limitava-se a esticar o braço para fora e apanhar o violão, sem nunca ver Chediak, que também não o via. A cada vez, João criava uma justificativa: um dia, estava de pijama; no outro, esquecera de fazer a barba.
Um dia, os dois combinaram um jantar, na casa de um amigo em comum, para enfim se conhecerem. João, claro, não apareceu para comer o peixe. Ligou no dia seguinte informando que a caminho do jantar parara num posto de gasolina e o frentista, que estava no seu primeiro dia de trabalho, em vez de botar a água no radiador do Monza, botou no motor. "E o pobre rapaz ainda dizia: ‘Acelera, moço, acelera que é bom’. E eu acelerava", contou João Gilberto, que aproveitou e pediu ajuda para resgatar o veículo literalmente afogado.
Frustrado o encontro, dias depois João telefonou novamente: "Sabe Almir, eu estava pensando: acho que é melhor continuarmos amigos sem nos conhecermos. Para não quebrar o encanto".»

aqui, maravilhoso.

Eu bem vi como aquele empregado da Valentim de Carvalho do Saldanha Residence se riu quando eu lhe dei, para pagar, os dois volumes d'A Guitarra Mágica de Eurico A. Cebolo. E deve ter tido tanta pena de mim que só me registou um dos livros. Ou então, como um deles não tinha preço e a loja está tão desarrumada que não é possível descobrir nada minimamente catalogado, deixou passar. Até o meu pai me disse, quando lhe contei dos livros, que tivesse cuidado com o cheiro. No fundo, tenho pena de não ter começado a responder mais cedo, quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande, que queria ser o João Gilberto. Onde pára o Método Elementar Turuna?

O Apartamento Dourado

Os olhos e as sobrancelhas da Shirley MacLaine (e a maneira como ela baralha as cartas para a canasta), a voz do Jack Lemmon (extraordinariamente bonito, uma espécie de João-Gilberto-empregado-de-escritório), o certeiro e despretensioso Billy Wilder - que me convence, cada vez mais, de que o melhor realizador é aquele que não frequenta o filme -, a inteligência e a graça do argumento de O Apartamento deixaram-me recuperar, em DVD, do desespero que foi ver, na tela, O Capacete Dourado (boa fotografia, más interpretações, maus diálogos, mau argumento), cuja única coisa verdadeiramente boa é uma russa com ar de puta que, para jogar snooker, agarra na bola branca e a coloca, sem pré-aviso, onde bem lhe convém. Afinal, O Apartamento é que é dourado.

Este post merece link, mais pelo bobó do que pelo Wittgenstein.

Escreve-se sobre outros blogues. Já leram este post? Não? Então é favor não espinafrar.

O que é que se escreve quando não se sabe o que escrever?

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Não gosto do positivismo, faz-me lembrar os anúncios da Colgate.

Na algibeira rota de qualquer mau estudante de ciências sociais

Queres que te Kant ou que te Comte?

Dizia Kant ao seu discípulo

Não te Descartes.

Da obstinação como condição a priori do nosso desentendimento

Insisto, logo penso.

Da obstinação como condição a priori do nosso entendimento

Penso, logo insisto.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Dúvida insistencial

De que substância é feito o acidente?

Uma má razão para não diminuir os gastos no orçamento familiar

O pacote clássico da TV-Cabo não tem o Discovery Channel nem o National Geographic Channel e nós cá em casa não passamos sem dobragens em português do Brasil. É assim desde que acabou a SIC Comédia.

Coisa que poderia ter ouvido de um ou outro velhote num fim de tarde no Arco do Cego

Tem um blogue? Não seja e-mundo.

Manchete do próximo Avante!, desta vez com alguma razão

Trazer trabalho para casa está no 1º lugar do ranking das coisas mais imundas do mundo.

A maneira angular como algumas letras de músicas encaixam nas nossas vidas é só mais uma prova da omnisciência e da omnipresença de um ou outro Grande Sacana.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Esther Williams e a impermeabilidade

Gosto de gente com escamas.

MacGuffin deste blogue

Breve maltratado das coisas que não existem [33]

Ninguém que não veja calor no frio sabe quebrar o gelo. Respira só, eu gosto do teu silêncio.

Eu sei que aprendia mais se falasse com as pessoas. Mas eu gosto é de que sejam as pessoas a falar comigo.

901

Começar a falar do número dos posts que escrevi é uma manifestação de vergonha, não é uma manifestação de orgulho. Se eu não conhecesse casos piores, gabava-me de conseguir escrever muito sem dizer nada. Wittgenstein acha que nos devemos calar sobre aquilo de que não podemos falar; é por isso que eu tenho um blogue. Por saber que não me imponho no silêncio de ninguém e também por saber que, quando muito, só me imponho no ruído dos que, como eu, não sabem estar calados.

Post novecentos de quem nunca deu uma para a caixa

Há uma vantagem - a única, se calhar - em tratar, ao primeiro contacto, os nossos semelhantes com preconceito e desconfiança. Depois disso, tudo o que vier à rede é lucro.

Como fazer o cubo de Rubik em 5 passos

1. Atire-o contra aquela parede de pedra pela qual passa todos os dias, sempre que vai a caminho da estação dos comboios.
2. Recolha os pedaços e o centro do cubo onde encaixam os cubinhos que o formam.
3. Separe as peças por cores.
4. Escolha uma face para cada cor e comece a montar as peças. Não se esqueça de encaixar bem e de ir limpando com a camisola tudo aquilo que ficou sujo de cal.
5. Guarde em casa e diga aos amigos que o resolveu.

Ainda não descobri o meu método anticonceptual ideal.

Breve maltratado das coisas que não existem [32]

Coito interrompido. O coito que é coito tem sempre razão e fala sempre mais alto do que o resto, ou seja, é muito difícil de interromper.

Se eu fosse repórter não ia para o meio dos conflitos armados. Escrever sobre a guerra já é dar às armas o nosso consentimento; ir lá é só pra quem já faz patuscadas com a ideia de morte. Aquiescei, irmãos.

Não gosto de chegar ao fim do dia e descobrir que não fiz ninguém feliz. No fundo, do que eu não gosto é de viver.

Neste regresso às aulas, não perca uma oportunidade (nem duas, nem três) para desiludir os seus leitores.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Tempo de qualidade

É aquele que não se passa. É o tempo que se inventa, o que se fabrica. É o tempo que não se conforma com o tempo, o tempo que não quer ser tempo; o tempo que quer ser vida. Há quanto tempo não faz tempo? Espero que me tenha respondido com vergonha e rubor.

Sarilho de gravata

Honestidade com pretas

O sarilho é um homem que é jeitoso e alto, tão alto.

Jazz com Pretas [12]

Quem me dera ser do tempo em que as mulheres ficavam elegantes de fato de banho.

Se eu pudesse escolher? Seria uma sereia.