sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Um destes dias, este blogue vai mudar. Mas descansem, pior é impossível.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

A mania da perseguição

Sou um homem triste e bêbedo. Sento-me outra vez ao balcão e peço o do costume. Tenho perseguido uma mulher que, está visto, não me quer. Toda a gente parece saber que ela não me quer e eu também sei que ela não me quer, mas disfarço. Chove e enfio-me no sobretudo. Chove e dou passos largos nas avenidas. Chove e vou beber. Chove e ela não me quer. Chove e disfarço. O do costume. Fecho os olhos e vejo que a mulher que eu quero e persigo se senta ao meu lado. Olha-me meiga, maternal. Não me quer. Abro olhos e ao meu lado está um velho como eu. Ele sabe. Sabe e diz-me:

- Parece que a bebida também tem um problema consigo.

ix

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Cinema e franguinho assado

Hoje baldei-me a uma aula para ir ao cinema. Vi Eraserhead, o primeiro filme de David Lynch (dizem). Em relação ao filme, só tenho duas certezas: a primeira é a de não ter gostado; a segunda é a de que nunca me esquecerei do filme - uma pessoa nunca esquece os seus momentos de agonia. Ah, e também tenho a certeza de não ter percebido, literalmente, a ponta de um corno. E a certeza de que é ridículo falar de filmes sem sentido só porque isso nos faz parecer inteligentes. Na minha ideia, Lynch teve uma série de sonhos maus e decidiu fazer um filme para repositório desses sonhos. Não disse que os sonhos de Lynch são assustadores, disse que são maus. Uma mulher que pare embriões mutantes que depois se atiram contra a parede não me parece um sonho assustador para ninguém, a não ser para o próprio embrião. O absurdo tem limites rígidos. O primeiro desses limites é axiomático: só é verdadeiramente absurdo o que é absurdo para toda a gente. Se, numa cena que o autor quis que fosse absurda, alguém encontra um sentido, o absurdo perde aquilo que o caracterizava como absurdo. Nesse aspecto, as explicações de Lynch são honestas: parece mesmo não entender nada daquilo que faz e di-lo com grande naturalidade, enquanto outras pessoas se esforçam para mergulhar nos seus filmes de fato térmico e garrafa de oxigénio, em grande profundidade. Estas despensas de sonhos e demónios até podem funcionar bem. Fellini arruma muito bem as conservas; já a logística de Lynch é, como direi?, fraquinha. Sonoplastia magnífica? Não creio. Chaplin não precisava da turbina contínua para se referir sonoramente à era industrial. Magnífico, só o easy listening de Jacques Tati.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Breve maltratado das coisas que não existem [40]

Não percebo como a risota pode ser pegada quando, na verdade, ela só surge se a largarmos.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Jazz com Pretas [13]

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

A incompreensibilidade é uma condenação a que nos propomos individualmente, sem triagem nem sorteio. Uma espécie de «Cogito ergo sum» levado ao extremo, um transbordar impossível do self, um olharmo-nos no lago e apaixonarmo-nos por nós mesmos. É desconfortável não sermos compreendidos e, nesse desconforto, há um outro conforto, secreto e indizível, de que nos devemos envergonhar. Como um bebé, sabemos embalar-nos no nosso choro. Como um poeta, fazemos gala da nossa tristeza. Como se a culpa de a comunicação não ser eficaz fosse do outro e não nossa e da linguagem que faz que se põe ao nosso serviço. Não acredito na ineficácia da comunicação, mesmo que a comunicação diga respeito a vísceras ou sentimentos. Descrever paixões, doenças, sentimentos horríveis e contraditórios é sempre possível. Se não fosse assim, não haveria arte, literatura, música, porque todas vivem da possibilidade e até da probabilidade da nossa identificação com elas. Sempre que alguém não me compreende sinto-me, num primeiro momento, injustiçada. Depois, com duas ou três pedras de gelo em cima, no frio da ressaca e do abandono, penso melhor e arrependo-me. É uma injustiça sentir-me injustiçada por não me terem compreendido. Na maior parte das vezes, a verdade é que não me esforcei o suficiente. Se me tivesse esforçado atleticamente - sim, isto não é fácil, mas todas as outras coisas também não são fáceis - o resultado teria sido harmonioso e o esforço, esse, demasiado leve. Apreciamos o silêncio dos outros e desprezamos a nossa capacidade de fazer silêncio para os outros. Enquanto a luta for connosco, tudo está bem; porém, infelizmente, nem tudo se recomenda.

«O que é que as palavras podem dizer?», «O que é que nós podemos dizer com as palavras?» são questões mais ou menos filosóficas para as quais ainda não se arranjou uma resposta que não fosse estritamente metafísica. Eu posso responder a essa pergunta de modo prático, doméstico, peremptório e arrogante: as palavras dizem tudo e, com elas, nós podemos dizer tudo. Corremos, em todo o caso, o gravíssimo risco de, em nenhum caso, sermos entendidos.

Hoje, pela primeira vez, o meu blogue foi tido em conta pela imprensa. Numa notícia intitulada «Cibercrime sem punição».

Breve maltratado das coisas que não existem [39]

Quando alguém me diz que «não lhe chego aos calcanhares» eu intuo sempre que, em vez de calcanhares, o outro me está a querer dizer cotovelos, isto é, que sou tão baixa que não lhe chego aos cotovelos. E daí, talvez não seja bem assim. Não lhe chego aos calcanhares porque, por muito que rasteje... enfim, vocês sabem.

Não sei estar um dia sem ser sentimental. É de mais, a chuva que Ele nos manda.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Este blogue é uma seca; eu, uma enorme camela

É a terceira corrente em que me envolvem em menos de um mês. Não sei se não é obsceno reagir. Não é: das três, esta é a mais divertida. A que é que eu brincava antes de haver Playstation? Antes de qualquer outra coisa, tenho de agradecer à minha mãe por nunca me ter oferecido um Game Boy - e se eu lho pedi! Não consigo falar de cinco brincadeiras sem me lembrar de todas as outras. Sei que, em vez de brincar com o Game Boy, li todos os livros d' Os Cinco, às vezes repetidamente, até me apetecer qualquer coisa mais sacramental do que os lanches da tia Clara. É verdade que as minhas primas vieram, num Verão, da Alemanha e trouxeram a Super Nintendo com dois únicos jogos: The Legend of Zelda e o Super Mario World. Esqueceram-se da consola lá em casa. Mas Zelda com diálogos em alemão e Super Mário com níveis indescortináveis foram coisas que me cansaram cedo.

Sou filha de pais separados e cresci na periferia de Lisboa. Tive amigos de todos os dias e amigos de fim-de-semana (alguns, amigos todos os dias). Na primária, saltava ao elástico com as outras meninas, que gozavam muito comigo por eu ter cabelo curto e jeito nenhum para aquilo. Às vezes, jogava ao mamã dá licença? ou ao lencinho. No recreio, a minha brincadeira favorita era o futebol. Rasgava calças quase todas as semanas.

Deixaram-me sempre brincar na rua. Atrás da casa da minha avó estavam a preparar o terreno para a construção de um parque gigante e eu fui para lá brincar sozinha. Quando dei por mim tinha o lábio inferior a jorrar sangue em quantidades ridiculamente abundantes. Tinha ido contra a pá de uma retroescavadora. Até hoje, não sei como fui contra a pá de uma retroescavadora, mas juro-vos que aconteceu, podem perguntar à minha avó.

Lembro-me de, uma vez, ter aproveitado a superfície do poço fechado do quintal para construir uma grande mansão para os Pinipons. O meu bisavô Zé construiu-me um baloiço e também uma casa de madeira para os Pinipons. Não brincava com Playmobils porque eles não cabiam na casa, mas cheguei a ter o navio pirata.

Depois, vieram os amigos: a Sarah e o seu irmão, o Fausto (tive um fraquinho por ele). Com a Sarah costumava cantar por cima das canções que tocavam no leitor de CDs. Jogávamos Mega Drive, Master System e, depois, Sega Saturn. Às vezes, fazíamos piqueniques e, um dia, chegámos a ir para o parque às 8h da manhã, de radiografia na mão, para ver um eclipse qualquer. Nunca estudávamos. Deixámos de nos falar no secundário. Nunca percebi porquê e talvez isto não tenha explicação.

Aos fins-de-semana tive a Inês, já vos falei da Inês. Brincávamos na rua, até às tantas, de bola e de bicicleta, de patins. Um dia, a Inês tinha uma muleta qualquer em casa, não sei bem porquê. Levou a muleta para minha casa e aproveitámos um saco de meias brancas e velhas de desporto que por lá havia. A Inês calçou cinquenta e quatro pares de meias no mesmo pé e quis passear-se comigo na rua, a fazer-se de engessada - não sou capaz de me lembrar disso sem morrer um bocadinho a rir.

Quando se comprou, já na casa de Cascais (para onde eu também só ia aos fins-de-semana e nas férias) um grande televisor, daqueles de setenta e tal polegadas, aproveitámos a esferovite para fazer um centro de operações do FBI, com ecrãs e botões inacreditáveis. Um dia chateámo-nos durante umas horas porque a Inês estava a tentar explicar-me o que era a inteligência. Desculpa, Inês; só agora, muitos anos mais tarde, percebo o que querias dizer. Que a inteligência em si não tem valor nenhum, que sem luz e carácter a testa não nos serve para nada. Hoje, graças a ti, sinto-me um bocadinho mais inteligente - não pode ser muito, senão morro de inchaço.

No 7º ano conheci o Filipe e o André e andávamos mais preocupados com assuntos de outras dimensões. Comunismo, ecologia, gozar com os professores. Depois ficou só o Filipe, a pessoa, provavelmente, com quem eu mais ri na minha vida. Obrigada, Filipe, por me teres ensinado que as palavras também são brincadeiras. Brinquei muito e acho, mesmo assim, que não brinquei grande coisa. Hoje, tenho irmãos mais novos, gosto de vê-los brincar e de brincar com eles. Não sei se eles brincam bem ou se brincam o suficiente, mas acho que isso não tem importância nenhuma. Porquê? Porque Freud é um imbecil.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

MP tem prova de que Fátima mentiu

Isto é o título de uma notícia do Correio da Manhã. MP está para Ministério Público como Fátima está para Felgueiras. No terapia, o lead reza assim:

O Magnífico Pulha descobriu, através de uma prova deixada nos seus aposentos por um anónimo, que a Nossa Senhora de Fátima mentiu aos três pastorinhos para impressionar a Azinheira Grande, a 13 de Maio de 1917. As causas da burla ainda não são conhecidas e as informações sobre a prova ainda se encontram em Segredo de Postiça, mas o MP já indicou que, se se tratar de crime passional, as penas serão elevadas e exigirão um pedido de desculpas formal a todas as vítimas soterradas pelo Muro de Berlim na tragédia de 1989.

De certeza que alguém já escreveu sobre o vício ridículo de se dizer que determinada coisa se descontinuou quando, na verdade, acabaram com ela. Packard Bell MX67-P-064, Nestum de figos, leite com chocolate Ucal em garrafas de plástico com as Tartarugas Ninja no rótulo, cassetes Betacord (tão maneirinhas...). Se a sua vida é uma tristeza e não tem com quem desabafar, descasque e pique uma cebola e faça um refogado até que, como diz a minha avó, ela fique translúcida.

Please repeat after me, o último post da noite em dialecto tibetano

A ti, abençoado galão de máquina que me tiraste o sono.

Breve maltratado das coisas que não existem [38]

Nunca se diz que determinado assunto está na ordem da noite, quando é de noite que acontecem as coisas mais interessantes e desordenadas.

DL = David Lynch/Dalai Lama

Fui à masterclass de David Lynch no Centro de Congressos do Estoril. Escangalhei 4 folhas de Moleskine com a brincadeira e ainda estive para fazer jus ao meu percurso académico (ahahahahah) e, com isso, alinhavar uma peça jornalística a preceito. Afinal, mudei de ideias: prefiro dizer mal. David Lynch chegou de troféu na mão e cigarro na boca e praticamente toda a gente se levantou, batendo palmas. Achei estranho que se batessem palmas antes de ele dizer alguma coisa, até porque a conferência era sobre meditação transcendental e não, propriamente, sobre cinema. Mas enfim, respeitei e permaneci sentada.

Quando Lynch abriu a boca percebi-lhe logo um sotaque carregado a resvalar para o sulismo e um tom molengão à George W. Bush. Pensei que a tarde estava salva quando o homem respondeu à letra a uma pergunta que estava mesmo a pedi-las: «What is your feeling between [between?] the sleeping dreams and the waking dreams?», «Well, in sleeping dreams you're sleeping and in others you're awake.» David Lynch e uma sitcom têm, pareceu-me, muito em comum.

Fizeram-se perguntas interessantes e, nalgumas, Lynch não desiludiu. Uma delas, que me deliciou, dizia respeito à importância da imagem digital no seu cinema. Lynch não voltará a filmar em película, não quer esperar para ver resultados, a câmara está sempre pronta para reagir a coisas bonitas que acontecem e isso conserva a magia da vida no cinema. Na repetição dos takes, acredito (como Lynch), muitas coisas se podem perder.

«All things are instruments», outra coisa bonita que disse. Todas as coisas são instrumentos e o homem é o decisor supremo. A onda zen de Lynch permitir-lhe-á, talvez, sentir-se mais próximo da extravagância nietzschiana do super-homem. «You gotta be true to the idea and hear your inner voice», pois.

Diz um rapaz que, a dada altura, lutava (Lynch demorou meia hora a perceber que a palavra era "struggling") para entender INLAND EMPIRE (seria este)? Lynch achou bonito. «David, estás a fazer filmes para o inconsciente?» Curioso que nunca, em momento algum, se falou naquela sala para «mister Lynch». Era o mínimo que se podia fazer para uma pessoa que entra a fumar e de troféu na mão. Não, o David não faz filmes para o inconsciente. «Na experiência de felicidade infinita [que nos vem através da meditação transcendental] o inconsciente torna-se consciente, a intuição chega e é muito importante para o artista. [Nesta altura o artista gesticula com os dedos, como se estivesse a largar confettis] For the artist, intuition is the number one tool, it's a kind of knowing when something isn't correct and making it correct.» A intuição é a principal ferramenta do artista. Bonito, isto. Pena que haja artistas sem intuição nenhuma e que, coitados, não experimentam a felicidade infinita porque não sabem ou não lhes apetece a meditação transcendental.

A raiva, a depressão e a melancolia no artista são, para Lynch, «a way to get chicks». A educação é um infernozinho para onde se vai depois do pequeno-almoço. A escola, «especialmente na América» (aqui verificámos a vastíssima cultura do David em relação à educação europeia em geral e portuguesa em particular), serve para se aprender uns factos que depois se usam no trabalho, «another kind of stress».

«First, seek the kingdom of heaven that lies within. (...) There's huge, unbelievable potential for the human being», oh não, onde é que eu me vim meter?! O momento Igreja Universal do Reino de Deus versão dalailamizada repetiu-se várias vezes naquela hora. Um ou outro parecer sobre arte salvou os momentos restantes. E também ajudou o facto de eu não estar a levar a coisa a sério. E o facto de David Lynch ser um gajo simpático que pantomima bastante.

Analisado noutra perspectiva, o cume da tarde podia ter sido uma vulcanização de senso comum: «Não é preciso sofrer para mostrar o sofrimento.» Finalmente, David, percebo que não és só pregador, afinal também és artista e às vezes muito bom. Diz a minha amiga S. que Mulholland Drive a marcou para sempre por ter das melhores cenas de cama de todos os tempos. Aprecio os artistas que fazem boas cenas de cama, sobretudo se essas cenas envolverem duas pessoas de sexos distintos. Não é o caso e não é preconceito. É uma questão de tesão e, infelizmente, cada um sabe do seu.

Desilude-me um pouco a visão de Lynch sobre a Internet. Serei demasiado democrata? Acredita que a pirataria desmotiva os artistas que não podem continuar a trabalhar se não tiverem uma compensação monetária para os seus próximos projectos. Para ele, segundo o modelo de liberdade que impera na pirataria, as coisas estão a ser dadas e não estão a ser valorizadas.

Engano redondo. Há muito dinheiro a circular no mundo, em todos os campos, incluindo o do entretenimento e, se quisermos, da arte. Esse dinheiro não vai deixar de circular. Surgirão, como tem acontecido até agora, novos modelos de negócios. A loja i-Tunes é um sucesso e as grandes companhias discográficas estão deixar de proteger os seus ficheiros, porque vendem melhor assim. É claro, David, que ver o 2001 Odisseia no Espaço num ecrã de telemóvel não é o mesmo que vê-lo numa sala de cinema (este foi, mais ou menos, o exemplo dado por Lynch). Mas, ó David, não é preferível que qualquer ser humano no Mundo tenha visto Kubrick nas miseráveis polegadas de um Nokia? Não é preferível que tenha ouvido Richard Strauss e Johann Strauss num Kubrick através de uns auriculares da treta? Achas que o verdadeiro artista prefere, realmente, que o seu potencial público vá antes à feira do Monte Abraão comprar uma gravação do Armageddon com um tema sofrível - mas que fica no ouvido - dos Aerosmith? Enfim.

«Peace, dynamic peace, creative peace.» Mais um momento propagandista salvo por uma pergunta desnecessária e um sentido de humor acertado. «Would you chose a city like Lisbon to shoot a movie?», «If the movie is about coming to an airport and sitting in a van to come to a masterclass, yes!»

Mais meditação transcendental. «You could say this Lynch guy is nuts but you can try it and see the results.» Escolhi. «This Lynch guy is nuts.»

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Um site branco para um Público a cores. Definitivamente, esta remodelação fez-se a pensar em quem, como eu, não se dá bem com o papel.

(e os vídeos, senhores, os vídeos!)

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Terceira Lei da Termodinâmica

Um zero, por muito que esteja à esquerda, nunca corre o risco de se tornar absoluto.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Física para mulheres

É a terceira vez, no espaço de uma semana, que escrevo a expressão «Segunda Lei da Termodinâmica». O mesmo leitor que se preocupou com a expressão «ou de como» alerta-me agora para esta evidência que, acredita, desvirtua não tanto o meu blogue, mas sobretudo a Primeira Lei da Termodinâmica. Acho justa a preocupação e acrescento, para me redimir - e, espero, para salvar toda a humanidade de um castigo merecido - uma pequenina reflexão sobre a Primeira Lei a este modesto tasco, como lhe têm chamado alguns bloggers que, vê-se logo, bebem.

Se bem me lembro, a Primeira Lei da Termodinâmica funda-se na seguinte premissa: em sistemas de todos os níveis (do intestino de uma formiga à linfa do Universo), existe energia e essa energia conserva-se nas interacções entre sistemas ou entre um sistema e as suas imediações que, voilà, também são sistemas. Exemplo canónico, falacioso do ponto de vista científico, mas ainda assim aceitável: um moinho de água. A água é a energia do moinho, o moinho mói cereais que dão farinha, a farinha transforma-se em pão, eu como o pão e alimento-me, os meus filhos hão-de alimentar-se de mim e, quando morrer, se não se lembrarem de me cremar, eu hei-de alimentar os abutres ou os vermes.

É mais fácil concordar com a Primeira Lei da Termodinâmica do que com a Segunda. Discutimos com o nosso cônjuge - eu tinha de arranjar uma boa razão para usar esta palavra num post e aqui está ela, a Primeira Lei da Termodinâmica - e ele exaspera-nos. Num primeiro momento, a energia que perdemos a fazer-lhe ver que não fomos para a cama com o pasteleiro transfere-se para ele que, eivado de fúria, nos dá com uma cadeira nos cornos.

Quando o nosso cônjuge - segunda vez, vamos lá ver se isto não se torna um hábito - percebe a asneira que fez, isto é, que lixou o tapete de Arraiolos que a avó fez propositadamente para a sala de jantar, perde toda a energia e agarra-se a nós aos beijos e abraços, lambe-nos o sangue da bochecha esquerda e toca a lavar-nos as madeixas com Betadine - isto é a família portuguesa depois de uma sessão de violência doméstica em horário nobre.

A energia que se dissipou do alegre ambiente familiar que vivíamos transfere-se, como não podia deixar de ser, para o vizinho de baixo. O vizinho de baixo, cornudo e conformado, transferiu a energia que ganhou ao acordar do seu sono de meia hora (enquanto o jantar está na Bimby) para o pau da vassoura que fez bater no tecto para que ouvíssemos a pancada do chão. O tecto tem uma racha, a racha abre-se mais e, em resultado disso, cai no chão um grande bocado de gesso.

O vizinho fica fodido e decide telefonar para a polícia a dizer que a gritaria lá em cima foi tanta que lhe caiu no chão um bocado de tecto. O dia correu mal ao polícia de serviço que, ao ver o espectáculo de sangue em cena no tapete, decide bater com a cabeça do nosso cônjuge - mau Maria! - na parede por vinte e sete vezes enquanto exclama «Eu odeio homens que batem em mulheres!». Foi na parede esquerda do hall de entrada que, por acaso, dá para o vizinho do lado.

O polícia, sem querer, mata o nosso cônjuge. Ocorre ao vizinho do lado tirar os auscultadores por uns segundos, não vá a mãe ter batido à porta para trazer o tupperware da sopa. Ouve o vizinho gritar, que é a coisa mais parecida com a realidade que ele alguma vez conheceu depois do jogo GTA Vice City para Playstation. Chama a polícia. Entretanto, o senhor agente de serviço já deu um tiro nos próprios miolos porque a sua mãe também levava porrada e as crianças apareceram no hall a chorar e viram o pai desfigurado.

Nós sobrevivemos. Passa uma semana da missa de sétimo dia e o nosso cabelo ainda cheira a Betadine. Os transeuntes fogem de nós e, no Universo, toda a energia se conserva.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Estar à nora é estar à mercê da sua própria cobardia. Os corajosos, esses, estão sempre no fundo do poço.

Suicídio narcisista - o que escapou a Durkheim

Um queridíssimo, amorosíssimo, delicioso leitor (escusam de perguntar por ele, que é anónimo) alerta-me para a ocorrência esparsa da expressão «ou de como» no discurso generalizado que, acredita, me desvirtua, pela frequência em que a exibo, a singularidade do blogue - olhando bem o itálico, digam lá daí se ainda não há muita gente com piada. Há dias, um outro, sem aspectos de ternura assinaláveis, dizia-me que a vulgaridade é coisa na qual caio, até, vejamos bem, com denodada frequência. É nestas alturas que eu sinto em mim a verdade da ciência. Diz a Segunda Lei da Termodinâmica que todo o Universo converge para a minha entropia.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

To the Moon

Dois alienados com muita coisa para fazer e pouca vontade de mexer uma palha constituem-se, alegremente, sócios fundadores e membros honorários de uma coisa que, dependendo do grau de embriaguez em que se mantiverem e da qualidade da associação humana que surgir, tem tudo para ser um grande projecto.

Nuno, cúmplice, amigo blogger e inspirador exclusivo deste projecto - sem querer, não duvido - aproveito, agora que o mal está feito, para te alertar para o facto de, a este clube, se poder associar qualquer pessoa que, mesmo que não goste do Mestre, se inscreva gnosiologicamente neste maniqueísmo de algibeirinha. As potencialidades são inúmeras: eu não queria pertencer a um clube onde todos concordassem com todos e, muito sinceramente, também não me apetecia limitar-me a discutir se os anos da Capitol são melhores do que os da Reprise. Mas lá que quem não gosta de Sinatra não é filho de boa gente, isso é verdade. E daí, os coitados dos pais não têm culpa nenhuma. O e-mail funciona e aguarda interessados (e desinteressados) com aleivosa ansiedade.

Com entusiasmo e em nome da Pau de Cabinda Connection Produções,

Filigraana Alberta

And don't tell your papa!

As crianças são os únicos seres autorizados a utilizar o senso comum. Porque o fazem com propriedade e, na maior parte dos casos, para se integrarem com bons resultados e por breves momentos na vida adulta. São brilhantes na altura em que percebem que esse mundo no qual se querem integrar é abjecto e brincam como se fossem adultas e como se ser adulto fosse uma vantagem inalcançável.

Posso começar por gostar de uma pessoa pela forma como anda. Gosto das pessoas que vão a direito, que dão passos determinados e largos, mesmo se tiverem pernas curtas, de gente que não se desvia. Gosto dos passos dados sem o medo antecipado dos obstáculos ou de chegar aos sítios com o corpo antes de lá chegar com a cabeça. Várias pessoas que eu conheço e de quem gosto muito andam assim, para diante, chocam com outras pessoas, encaram-nas e pedem desculpa, fazem sem planear, entram de rajada e depois logo se vê. Ir-se sem se saber ao que se vai é como ter todas as ruas dentro de si. Parar a meio de um caminho que pode, ou não, ser familiar para dizer «onde é que eu estou?», «como vim aqui parar?», «como é que retomo a estrada?» dá, nos dias que correm (expressão horrível que só aumenta mais a vulgaridade da gramática), direito a medalha. Já não se anda sem ser num sentido técnico e teleológico, não se anda em sentido físico, de ganhar calos nos pés e no olhar em movimento, não se cartografa com os pés. Gosto de quem vai por ir e aceita o que os lugares e os caminhos lhe dão. Na rua, é fácil distinguir um turista de um acostumado. O turista - e, em certo sentido, o marginal - ergue os olhos para o céu e fá-lo porque não sabe o que vai encontrar. Qualquer pessoa - e, sobretudo, qualquer criança -se torna encantadora quando, se lhe falarem num pássaro morto, o procura no céu; isto é, quando, sem querer, admite que o céu, igual em todos os lugares, não é igual em todos os lugares.

Diz a esse Grande Sacana que Ele não tem o direito de dispor assim da tua vida.

Atrasei-me uma hora. Melhor: o meu comboio atrasou-me uma hora, quando eu tinha planeado tudo para só me atrasar quinze minutos. Cheguei à aula e o professor falava. A dada altura quis fazer uma pergunta a quem tinha chegado «no final da aula». Notem bem, a pergunta era para quem tinha chegado «no final» e não, generosamente, «mais tarde» ou, simplesmente, «atrasado». O professor tem toda a razão em dar às coisas os nomes que elas têm e merecem. Só que ele não sabe que hoje, quando o despertador tocou, eu não fiquei nem mais um segundo na cama. Portei-me bem; para a próxima não me porto.

Não é preciso muito esforço para provar a ineficácia do método e do planeamento por oposição à eficácia das forças físicas celestes e conjecturas metafísicas afins. Hoje, os comboios da linha de Sintra andam muito atrasados. Alguma coisa séria e imprevista aconteceu. Quando os funcionários da CP fazem greve nunca acontece nada de sério - por alguma razão que a Segunda Lei da Termodinâmica não clarifica, só nesses dias é que os meus atrasos têm justificação reconhecida.

A paixão de Fourier ou de como usar duas vezes o mesmo trocadilho com absoluta ineficácia

- Vai-te! Não há lugar para ti no meu falanstério.

E, temendo a foice, ela foi-se.

Todos os homens são comuns ou de como Dumas fotografado por Nadar parece mesmo um merceeiro

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Sobreviver é uma grande homenagem que se faz aos mortos.

O plágio é um estado de espírito. P como preguiça, l como languidez, a como apatia, g como gula, i como inutilidade e o como orfandade. Os plagiários são órfãos que, para provar que não têm nada dos pais, só sabem ser como eles.

A angústia está toda em não ter influências, isto é, em tê-las e não saber nomeá-las. É só ligeiramente inquietante não saber quem nos puxa o reboque.

A solidão é haver sempre quem já tenha lido os mesmos livros que tu.

domingo, 11 de novembro de 2007

Mais uma correnteza - quer-me parecer que isto não combina comigo.

Não sei se é aceitável lincar duas vezes o mesmo blogue, mas como me estou marimbando para o que é aceitável, aceito o desafio. Cinco filmes, pois. Da minha vida, hoje? Está bem, aqueles dos quais hoje me lembro:

Dr. Strangelove, de Stanley Kubrick, por causa dos nossos fluidos naturais.
Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock, porque gosto de casas e de homens de pijama em Technicolor.
Playtime, de Jacques Tati, porque há filosofia na arquitectura e graça na filosofia.
A Festa, de Blake Edwards, porque o Peter Sellers de indiano me faz morrer a rir.
O Sétimo Selo, de Bergman, porque sim.

A Estrada e O Trono de Sangue não estão porque The Shining, Manhattan e Salò também não estão e, se vamos falar de chorar, então façamo-lo Voando Sobre um Ninho de Cucos.

Cinco bloggers? Não posso, dá muito trabalho.

O que é bom para a tosse

Permita-me discordar. Anteontem, três putas velhas fumavam para cima de nós. Num restaurante chinês muito bom, cheio de crianças, daquelas que se escondem no W.C. e dão gargalhadas. Pedimos ao empregado que abrisse a janela - imagine-se, abrir a janela quando a janela não elimina as toxinas e mais blá blá blá, é estupidez em vez de delicadeza, só pode. São putas velhas porque assim que o empregado se foi embora fecharam a janela. Deviam estar com frio, coitadinhas. O empregado voltou, perguntou se tinha melhorado, dissemos que não, que a janela estava novamente fechada. Ele falou com as senhoras mais uma vez, voltou a abrir a janela. As senhoras putas continuavam a fumar, naquele gesto ordinário de quem gosta de fumar mas não quer o próprio fumo, então aponta a ponta do cigarro para trás, com a mão a levitar por cima do ombro. O meu chao-min tinha acabado de chegar e eu estava sem paciência. Levantei-me com a faca e o garfo na mão. Degolei a primeira velha, que não ofereceu resistência - deve ter sido do espanto. As outras duas ainda espernearam quando lhes furei o bochechame, mas depois devem ter admitido que as sardas ficavam bem com o seu tom de pele, e aceitaram o aspecto de regador que lhes propus. Faziam-se acompanhar de uma outra criatura que não fumava mas tinha, igualmente, ar de puta, por isso não resisti e, à boa maneira de Robin Hood, tive frieza de espírito para ir à minha mesa buscar a colher de servir e arrancar-lhe o coração. Sem saber o que fazer com os pauzinhos, que só um dos meus acompanhantes é capaz de usar, enfiei-os no olho direito de cada uma das duas marias sardentas, para que soubessem o que custa quando o fumo arde nos olhos.

Num mundo perfeito, de paixão e vísceras (de matar o Bill), seria isto que teria acontecido. Na verdade, o que aconteceu foi que as senhoras continuaram a fumar e a conversar alto sobre a forma como os fumadores são obrigados a respeitar os não fumadores e os não fumadores não respeitam os fumadores. Os cidadãos imperfeitos comeram tudo no carvão e, ao chegar a casa, lavaram os cabelos para não intoxicar a almofada.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Pau de Cabinda

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Telejornal em Estocolmo

Estou convencida de que a resposta para o sétimo selo está no sétimo sono. É pena que eu acorde sempre por volta do oitavo. Atrasada e sem tempo para tomar o pequeno-almoço.

Gastroenterologia

O movimento dos amantes é peristáltico. Alguns amores são úlceras. As borboletas que se sentem estão no estômago. E, digam o que disserem sobre o assunto, cagar é quase sempre um prazer.

Estou desempregada (uma pessoa que trabalha a recibos verdes, isto é, que nunca teve um emprego, poderá ficar desempregada?) há menos de um dia e já tenho trabalho. Aborrece-me não ter tido tempo para ficar contente. Pensando bem, nem sequer tive tempo para ficar deprimida.

«Estava escuro. Estava mesmo muito escuro. Mas no meio de tanta escuridão era possível ver os contornos do autocarro no fundo da ravina. Os cerca de 50 metros de declive conduziram a um único pensamento: "Será que alguém conseguiu sobreviver?"», Isaltina Padrão, aqui. Tenho lido coisas piores no DN Jovem.

uma quase-notícia no site do DN que foi escrita por pelo menos 5 pessoas. Não se consegue deixar de ler, o que só prova a universalidade das grandes tragédias e a eficácia do mau jornalismo.

O egoísmo inevitável ou de como já faltou mais para me tornar beata

Ando a estrear-me numa vocação contemplativa. O mundo à minha volta, apesar dos horrores que encerra ou, melhor dizendo, dos horrores que liberta, parece-me extraordinariamente bonito. Deus tira com duas mãos e dá só com uma, mas aquilo que dá - digo-o eu que não tenho sofrido por aí além e até tenho uma certa tendência para a felicidade consentida - vale por tudo o que tirou. É na fome que a comida nos sabe melhor e quem não foi atropelado hoje é, sem dúvida nem método (pois se até nas passadeiras se está em perigo), uma pessoa de sorte.

«muita gente a pintar a mesma paisagem»

Tenho reparado que no Correio da Manhã, de vez em quando, se entrevistam pessoas que mais ninguém se lembra de entrevistar. Pessoas que enchem entrevistas maravilhosas sem muito engenho, pessoas que falam, que se escrevem a falar, que vivem e viveram muito, que prometem continuar a viver. Pessoas daquelas entrevistáveis, que sabem muito da vida e têm poucas opiniões. Malangatana Valente. Porque os bons jornalistas são bons em qualquer tablóide ou jornal de parede e porque os bons entrevistados são bons em qualquer entrevista.

Relato de um magusto sem uma única castanha

Há um sítio em Lisboa, onde não cheira a castanhas assadas, que me parece Berlim nos anos 70. Perguntas-me se eu alguma vez estive em Berlim, se lá estive nos anos 70. Não estive, não vivi nos anos 70, mas tenho a certeza de que aquele lugar é como Berlim nos anos 70. Só que hoje, um dia bonito que anoiteceu cedo e, anoitecendo, se fez uma noite bonita mesmo sem cheirar a castanhas assadas, a Berlim dos anos 70 é, além de Berlim nos anos 70, bonita - o que, tratando-se de Berlim e, sobretudo, tratando-se de Berlim nos anos 70 é um acontecimento. Lanchei bem e vou voltar a estudar italiano.

domingo, 4 de novembro de 2007

senhor sustento

Hoje, o convidado de Ricardo Cardoso no Arestas de Vento (o mais duradoiro programa de rádio sobre cultura em Portugal) é o presidente da Junta de Freguesia da Marateca. Eu sabia que a minha vida tinha alguma razão de ser, só me faltava descobri-la.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

A correnteza

«Na sua totalidade, os terrenos da Fundação Gulbenkian aconchegam os seus edifícios de betão, projectado num abraço verde que suaviza o seu impacto no espaço e nos seus visitantes como um santuário confortável, retirado do barulho e das distracções da cidade.»

O Jardim, livro mais próximo, coordenação geral de Aurora Carapinha, Fundação Calouste Gulbenkian, 2006, p.161, 5ª frase completa, passo a outros e não aos mesmos (1|2, ordem cronológica e não hierárquica), isto é, ao Azia, à pimpinela, àquele cavalheiro, ao Luís Miguel Oliveira e ao irmão lúcia.

*os itálicos inesperados são meus.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

no momento do amor

«Javier empenhou-se em chamar alguém que estivesse no Inferno, para nos tirar as dúvidas, mas o médium, sem vacilar um segundo, explicou-nos que era impossível: os de só podiam ser convocados nos três primeiros dias de mês ímpar e só se lhes ouvia a voz. Javier pediu então a alma que tinha criado a sua mãe, a ele e aos seus irmãos. Dona Gumercinda compareceu, mandou cumprimentos, disse que recordava Javier com muito carinho e que estava a fazer a sua trouxinha para sair do Purgatório e ir ao encontro do Senhor. Eu pedi ao escriturário que chamasse o meu irmão Juan, e, surpreendentemente (porque nunca tivera irmãos), veio e mandou-me dizer, pela benigna voz do médium, que não devia preocupar-me com ele pois estava com Deus e que rezava sempre por mim. Tranquilizado com esta notícia, desliguei-me da sessão e dediquei-me a escrever mentalmente o meu conto sobre o senador. Lembrei-me de um título enigmático: A Carta Incompleta. Decidi, enquanto Javier, incansável, exigia ao escriturário que convocasse algum anjo, ou, pelo menos, alguma personagem histórica como Manco Cápac, que o senador acabaria por resolver o seu problema mediante uma fantasia freudiana: colocaria à sua esposa, no momento do amor, uma pala de pirata no olho.»

Mario Vargas Llosa, A Tia Júlia e o Escrevedor, tradução de Cristina Rodriguez, Lisboa, Dom Quixote, 1988, p.54