terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Epitáfio

Ich habe einen guten Schiss gehabt.

Requiem com pretas

Enfim ou de como wireless não é exactamente o mesmo que ubiquidade

Amáveis leitores,

O terapia metatísica encomendou a própria morte. Confiou-me a segunda parte do dinheiro para pagar ao seu assassino e deixou uma carta de despedida - toda em branco. O meu projecto falhou. Eu queria pôr em prática, de maneira desenvolta e arejada, um blogue saudável. Queria, em primeiro e último caso, ser lida. Fui lida, como nunca tinha sido. Houve quem gostasse de coisas que escrevi e houve muito quem exagerasse no gosto que me dedicava. Houve quem me lincasse e, presumo, se lincou foi porque gostou. A todas essas pessoas - que valeriam só por não serem máquinas -, só posso dizer uma coisa: discordo. É um direito do qual não abdico e que toda a gente pode exercer, tendo ou não um blogue.

Aprendi, nestes últimos meses que não contei, muitas coisas com o terapia. Aprendi a disciplina da escrita quase diária, por menos relevante que ela seja; com isto, aprendi a negligenciar outras disciplinas mais salutares para a manutenção do eixo gravitacional do nosso planeta e para a minha própria existência microscópica, tão limitada quanto as palavras de que disponho. Aprendi que as minhas opiniões são desprezíveis, não por serem minhas, mas por serem opiniões. Aprendi que há por aqui muita gente meio anónima que escreve muitíssimo bem e que, mesmo não escrevendo bem, pensa lindamente e isso já é uma vitória para os países que mais rapidamente sofrerão os efeitos da subida do nível médio das águas do mar.

Aprendi que gosto de jovens, aprendi que sou jovem porque, como todos os jovens, tenho características lamentáveis às quais só escaparei quando for mais velha - ou talvez nem isso. Com isto, aprendi também que posso usar roupa amarela e gostei de saber que não sou a única pessoa com menos de 30 anos a ouvir e a gostar de Fausto Bordalo Dias. Aprendi que, na música e na vida, aprecio sobretudo a dissonância.

Aprendi que Deus não deixa de ser Deus se lhe chamar O Grande Sacana, se o insultar e se lhe fizer perguntas inconvenientes. Não é porque Deus não exista, mas Deus é perfeito e, por isso, fala na melhor linguagem que há: o silêncio e o mundo. Aprendi, ainda antes deste blogue, que Wittgenstein radiografou o divino e só falhou em não ter guardado a radiografia para si e elaborado o diagnóstico mudo e esquecido no sofá do seu escritório. Alguém abriu a porta da sala de raios-x e W., cheio de esperança, saiu para espalhar a palavra e angustiar todos aqueles que, gostando de respostas, estão conscientes da insuficiência, às vezes cardíaca, de todas elas.

Cresci e o terapia suicida não cresceu comigo. Deseja, por isso, ser morto em silêncio. Porque fazer é falar e, se ele estiver quietinho no seu canto à espera da segada, não perturba a metafísica da terapia.

A contou-me hoje, ao almoço, que sugeriu ao próprio pai (patife como poucos são) que se atirasse para debaixo de um comboio, como já antes fizera o seu avô. A não se vai matar porque já desperdiçou todas as oportunidades que teve para o fazer. Se conseguisse, finalmente, suicidar-se, o caso seria ridículo e era muito provável que, no meio do sangue e da terra - as pessoas hoje em dia já não sabem matar-se de forma asseada -, se perdesse parte essencial da minha existência, que é a amizade que tenho por A e que A, sinto bem, tem por mim. Há pessoas que não se podem matar porque, simplesmente, há sempre mais alguém que morre com elas. Não sei para qual das duas partes pende mais o peso que, na balança, representa a injustiça.

Também aprendi que usar tísica em vez de física não é eficaz. Não me agrada que o terapia morra, ou seja, que se mate sem que alguns daqueles que o lincaram não tenham tido tempo ou atenção suficiente para trocar os éfes pelos tês. Paciência, eu também queria ser contralto e não me fizeram o gosto. Fizeram-me a folha.

Dirão, com certeza, que não há motivo nem entusiasmo para o meu blogue me ter ensinado tanto. E não há. Mas este foi o blogue que tive pelo qual mais me afeiçoei. Porque tem música e, etéreo, cheira a éter. Porque é branco e dá muito menos trabalho usar um blogue branco do que roupa branca, que precisa de cuidados e lavagens frequentes. O terapia é o asseio itself, em si, aí, um peido alvo que nunca me preocupou o suficiente para me fazer deixar de viver. É isso que aprecio num blogue e é isso que me faz desconfiar todos os dias da autenticidade semântica da vida: um blogue não é obrigação nem imperativo moral. A vida, às vezes, quer sê-lo.

PS: Não apago. Porque Wittgenstein's Vienna é um título demasiado bom para ser deixado à disposição de qualquer um (apesar de se basear miserável e vergonhosamente num excelente livro de título homónimo). Porque não me esqueço do desgosto que tive ao ver que o endereço Ceci n'est pas un blog não estava em branco e não quero deixar de proporcionar a outros um desgosto parecido com aquele que, na altura, me assolou. Porque talvez me apeteça, um destes dias, ter um blogue onde possa ilustrar a palavra justiça com a fotografia de um jacaré. Ou, talvez, com a gravura de uma cadeira.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Divórcio e polímeros: uma abordagem litúrgica na proximidade iminente da missa do galo

O Público dirige-me hoje as seguintes palavras: «Quer ser amigo do ambiente? Não se divorcie». Pois. «Quando o amor acaba e vai cada um para o seu lado, o planeta também sofre.» Os divórcios, com cada um para seu lado, aumentam os consumos de água e energia eléctrica e, dizem os especialistas, de materiais. Sim, quando uma pessoa se divorcia já pode comer bolachas e chocolates à vontade sem que o outro lhe diga que está gorda e, com isso, gasta mais embalagens. E a manta que podia aquecer dois corpos é comprada para que se tape só um e, de vez em quando, mais outro que nem chega a aquecer o lugar - sobretudo se o divorciado for egoísta e desencantado, ou também se tiver mau dormir. Se a manta for de poliéster, não há problema: as garrafas plásticas que separarmos ao longo de um ano resolvem. Se for de lã, já não é a mesma coisa: toda a gente sabe que os carneiros e as ovelhas são recursos esgotáveis, sobretudo com o surgimento, no seio das suas comunidades, de movimentos de orgulho liderados por concorrentes directos da cerveja Tagus. A jornalista do Público que, creio, pretende ser minha amiga, remata com uma belíssima observação: «Hoje tem estado fresquinho.» Ai, desculpem, não era isto. O que quis dizer foi: «A boa notícia é que, quando aqueles que estão separados voltam a apaixonar-se, incluindo assim novas pessoas no ninho, o consumo extra de recursos volta a cair.» Tem alguma piada esta boa notícia. Antes, porque são raríssimos os casos em que as pessoas divorciadas voltam a apaixonar-se; depois, porque alguns dos danos que aqueles divórcios causaram ao ambiente são irreversíveis. Mas o que é mesmo importante e, isso sim, uma boa notícia, é que costumamos ter a lucidez necessária para perceber que nenhum ambiente merece um sacrifício tão grande como travar um divórcio que, perdoem-me a leviandade, apetece.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

De certeza absoluta

que o Priberam é escrito por materialistas históricos ou, sejamos rigorosos, por pessoas de esquerda.

«burocracia

do Fr.
bureaucratie

s. f.

modo de administração em que os assuntos são resolvidos por um conjunto de funcionários sujeitos a uma hierarquia e regulamento rígidos, desempenhando tarefas administrativas e organizativas caracterizadas por extrema racionalização e impessoalidade, e também pela tendência rotineira e pela centralização do poder decisivo.

classe dos funcionários públicos, especialmente os funcionários do Estado.»


*Negritos meus, Deus me perdoe.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Orgulho

Sou, a partir de hoje, uma blogger Linux (pelo menos fora de casa).

«I know not what tomorrow will bring», but at least I'm sure I didn't order anything.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Jean-Paul Sartre tem sido um dos meus heróis.

Alguém me pode explicar

desde quando é que o aniversário de José Saramago se considera um acto oficial onde devem estar presentes representantes do Estado português?

domingo, 2 de dezembro de 2007

Consideração tosca da qual cedo me arrependerei

Como sou uma pessoa - sim, uma pessoa - ligeirissimamente aborrecida e desinteressante - sim, ligeirissimamente - só posso falar de coisas sobre as quais já falei. Hoje, falo de limites. De como, no Universo, tudo me parece limitado. A Internet, a ciência, a literatura. Saber que não posso conhecer tudo ou aproximar-me sequer de um conhecimento mínimo sobre determinados assuntos deixa-me exasperada, impaciente, desolada, numa apatia marasmática irreversível. Se o máximo que posso saber sobre física quântica se limita a uma definição para leigos generosamente elaborada por um especialista, prefiro não me chegar a ela, como se tivesse sarna, como se me pudesse contaminar. Pertenço a uma época em que o conhecimento é um passatempo generalizado, sem vocação finalista transparente. Terá sido sempre assim? Talvez, talvez o mal não seja de época. Mas quem, nesta época, se vê náufrago no conhecimento, sabe que a sobrevivência exige alguma capacidade de decisão. Não sei para que se conhece, mas pressinto que, muitas vezes, se conheça para conhecer. Angustia-me o conhecimento sem utilidade prática e prevista e angustia-me mais ainda a ideia utopista de que o conhecimento pode não ter sido sempre fruto do acaso. O conhecimento que eu vejo por aí, full time e todos os dias, o conhecimento de que também me sirvo, já não é bem conhecimento. É fausto e exibicionismo, fazer apreciar a nossa inteligência como se a saúde se fizesse de uma qualquer compulsão documental e, se possível, documentada. As bibliografias são só ausências. O ar que respiramos e o sangue que em nós circula também são fontes, das mais puras e citáveis.