quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Um escritor

era tão humilde que, se dependesse de si, ficava toda a vida no prelo.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Este restaurante em Nova Iorque tem um prato chamado "Four Story Hill Suckling Pig". Enfim.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Freddie Hubbard (1938-2008)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Ah, valente!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

"Olá, 26%"

O texto de Ferreira Fernandes no DN de hoje é notável.

Conto, por alto, ter tido na minha vida cerca de 60 a 70 professores. Lembro-me de muitos deles pelas suas idiossincrasias, mas de muito poucos pela competência e pela qualidade das suas aulas. Acredito que o sistema de ensino no nosso país é ainda pior para os alunos do que é para os professores. E acredito que quem gosta de ensinar e sabe fazê-lo consegue cativar o mais duro dos pedregulhos para a estupidez que é o conhecimento tal como é vendido pelos sistemas de educação das sociedades modernas: como uma coisa boa em si mesma, que não é.

Entre Platão e Aristóteles, numa interpretação muito ofensiva, se calhar, acredito que o conhecimento só será bem vendido se a frase publicitária que lhe for atribuída o apresentar como um meio para atingir um fim. O conhecimento não é bom em si mesmo porque só um tolinho sem contacto com o mundo real é feliz por saber mais - e é mais feliz por saber mais quanto mais sentir que os outros, à sua volta, sabem menos que ele. O sistema de ensino em Portugal estimula a inveja pelo conhecimento; por isso, um aluno que conversa com o professor no intervalo não pode ser senão um engraxador; por isso, um aluno que levanta o braço de cada vez que o professor pergunta alguma coisa não pode ser senão um marrão vaidoso.

Pior, talvez, será a situação em que o professor tem medo de aprender com os alunos e, para não fazer má figura, não permite que os alunos participem nas aulas. No ensino universitário, então, é uma prática constante. Depois, há os génios que dão aulas na universidade e não contam com o facto de os alunos não terem a obrigação de estar familiarizados com as suas áreas de especialização. Quantos alunos universitários não terão sentido que um trabalho seu foi utilizado para enriquecer uma tese ou um artigo de um professor? Os alunos também não têm a obrigação de chegar à universidade tendo lido Barthes ou Derrida, mas, por outro lado devem ser muito bons a escrever, a argumentar, a raciocionar com as bases que, em princípio, lhes deveriam ter sido dadas nos graus de ensino anteriores.

Não é fácil ter bases quando o professor, como os alunos, só pensa na hora em que a campainha vai tocar, a do final daquele tempo e do seu tempo como professor de matemática que, se calhar, podia ter sido engenheiro e ganhar, com isso, o triplo do que ganha agora. Os alunos demitem-se porque os seus professores, em espírito, são todos reformados. A premissa maior, afinal, é a seguinte: Todos os portugueses são reformados, do trabalhador da mais privada das empresas à mais pública das repartições. Os portugueses não gostam de trabalhar porque não acreditam senão nas compensações imediatas. Esperar mesmo, só por D. Sebastião. E aquilo que, na Mensagem de Pessoa, é muitas vezes interpretado como uma esperança apoteótica não é senão uma crítica velada, como O Encoberto, àquilo que somos como gente.

Não estranho, por isso, que o nosso empreendimento mais recordado sejam os descobrimentos. Dinheiro fácil, que aquela história da conversão dos infiéis não me convence nada. Colonizemos, pois. Para o português, não há pátria nem bem comum, a menos que dê muito jeito para andar com a camisola da selecção nacional vestida. E os políticos são todos uns bandidos que ali estão, a ver se conseguem roubar o máximo, por mais curto que seja o mandato. Desejo-vos pois, meus caros, sorte para a chegada dos imigrantes, esses outros bandidos. Brasileiros, russos, ucranianos qualificados, que estão dispostos a fazer o mesmo e muito mais pelo mesmo preço. Ou por um ainda menor. Malta que, se calhar sem consciência disso, percebe o verdeiro sentido do marxismo - que, em Portugal, nem os comunistas percebem. O trabalho não são sindicatos e isso eu sei mesmo; se calhar, porque não se ensina na escola.

Great minds think alike (com 7 meses de diferença)



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It's cooooooool to know nothing



01/02/09 no Coliseu de Lisboa
02/02/09 no Coliseu do Porto

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Lego Magritte


















Trabalho de um artista genial, descoberto numa galeria fabulosa da edição especial da Time que elegeu Barack Obama o homem do ano.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Férias

Tenho uns dias de férias, muito para fazer e não sei por onde começar. Se calhar, volto para a cama. Falho a minha vida toda, levo pouco até ao fim, durmo demasiado para aquilo que preciso de fazer. Devo ser a única pessoa no mundo que demora quatro meses a acabar um livro, um só livro, de 300 páginas. Porque há gente e há música no meio das minhas viagens, porque os livros são mundo e, se existe mundo, para que quero os livros? Deu-me prazer, como há muito não me dava - ora, ora, e vocês com isso, eu sei, mas não me apetece falar da Cisjordânia -, acabar um livro. Mas não me apetece pegar no próximo. Dormir, é o meu primeiro dia de férias verdadeiras em muito tempo. Dormir. E depois, à tardinha, prometo: vou correr para o parque. E comprar dois mealheiros para poupanças diferentes, daqueles que não dão mesmo para abrir. E comprar, no Minipreço, um gelado de nozes de macadâmia, cópia do mesmo sabor da Häagen Dazs (o primeiro, 1,99€ com desconto em cartão e o segundo 6,49€ sem desconto e com macadâmias caramelizadas, melhores, mas não se nota muito a diferença, porque o sabor está lá, é um sabor a sótão velho), para estragar a corrida toda. Mas agora, dormir. Isso.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

And so the best that I can do is pray

Salvar

Aposto tudo nas intenções. Quando jogo no Euromilhões, não tenho outra intenção senão ganhá-lo.

Promessas não pagam dúvidas. Mas tu prometeste.

Na notação musical para disléxicos, há uma figura que se chama semiconfusa.

Ser transparente é o mesmo que estar nu; com um bocadinho menos de frio.

Mole em pedra dura; oxalá se despache, que eu não tenho a vida toda. Ou talvez tenha.

Estou aqui, em águas de bacalhau.

Ainda agora partiste e já tenho saudades. Era o meu vaso preferido.

Egoísmo

Sempre me apeteceu usar o argumento de estar a ser altruísta comigo própria, mas não me convenceu.

O seu maior sonho era ser competente, mas só conseguia ser in.

Era tão pouco criativo que até o seu Deus era um self-made god.

Estou farta deste blogue. E só não acabo com ele porque também estou farta do próximo, da mesma maneira que me fartei dos anteriores.

Mein kampf

Todas as palavras são plásticas; se lhes colocar o ferro de engomar em cima, derretem-se, transfiguram-se como as águas de um lago no momento em que as pedrinhas as fustigam em círculos.

Algumas palavras dessas todas são de cal e pedra, sofrem a erosão da vontade e nunca a erosão da verdade (a pior, a que não as pouparia se não fossem de pedra e cal). São as palavras; essas palavras, todas as palavras. Há palavras - as, essas, todas - que eu não vou deixar de usar, que não vão deixar de me usar, a menos que deixe de ser verdade aquilo que elas representam, aquilo que eu represento delas. A mais que eu morra e que tudo o que vivi até agora seja, tenha sido só um sonho. Ou dois.

Há gente teimosa. Sou gente. Logo, também tenho o direito a deixar silogismos subentendidos.

Conflito de desinteresses

Devia estar a trabalhar e estou a postar. É curioso que, sempre que trabalho, sinta que devia estar a postar.

À mão

Quero que o dicionário do Fernando Pessoa se foda. O que eu queria mesmo era etimologizar-te. Logizar-te. Gizar-te.

Sou triste mas não sou triste, ou seja, estou (muito) triste.

E depois, há um minuto, um segundo, um momento em que nada, já nada faz sentido. Os vizinhos de cima saltam, a cadela ladra, a família grita e eu. Tu bocejas.

Bartleby returns

Ao ler este post, lembrei-me de, há tempos, um amigo me ter contado que anda a ler um livro no qual uma bibliotecária passa o tempo todo à procura do seguinte título: "OK, I'll Do It - Bartleby Returns".

Quando a prosa é bonita demais o ignorante nem desconfia

«O pardal montês, a calhandrinha comum e o picanço barreteiro são algumas das aves comuns que estão a deixar de o ser, tornando-se cada vez mais raras, devido à intensificação agrícola.»

Aqui. Que maravilha.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Olha, este morreu pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico.

sábado, 22 de novembro de 2008

Re-inauguração




















* ou de como é sempre cedo para ir a algum lado que não seja aquele onde se quer estar. Não consegui arranjar a imagem real da direita, uma que fizesse jus ao fundo madrepérola, feminino e delicado, tudo coisas que eu não sou, a menos que esteja muito bem disposta.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Música

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Ganhar o dia

Acabo de ler uma das melhores notícias dos últimos tempos.

Parece que a Tate Modern, em Londres, tem dois quadros de Mark Rothko pendurados ao contrário. Uns dizem que as linhas deviam estar na horizontal, outros na vertical e ninguém sabe, ao certo, qual era a vontade do autor sobre a forma de pendurar os quadros. No meio disto tudo, alguém diz que, se os quadros forem pendurados de outra forma, a interpretação será completamente diferente. Acredito.

domingo, 9 de novembro de 2008

Eu sou pelo Terrier

Como todos os bons drogados, tudo me passa um bocadinho ao lado. Não fiquei acordada até às tantas para ver Obama ser eleito porque, parecia-me, a humanidade é toda igual ao litro. No fim, a eleição de Obama não me deixou mais satisfeita - enquanto gente - do que o discurso de McCain, um tratado de humildade e lucidez, que dignifica, como diria muita gente (que eu, infelizmente, conheço), a pessoa humana.

Não sou intelectual. Estou ansiosa, como milhares de pessoas em todo o mundo, por conhecer o novo cão dos Obama. Como leitora esporádica de revistas cor-de-rosa - no médico, no cabeleireiro e na casa de banho da minha avó -, acho a família Obama das coisas mais giras que aconteceram ao meio e não me choca que o novo presidente dos Estados Unidos (o Sólido, o Líquido, o Gasoso e a Carolina do Norte) tenha, quando faz falta, um discurso pouco sério. Mas a malta gosta de ser séria, porque não vale a pena usar gravata se não se for sério.

Daí que não ache "de um mau gosto inqualificável" as declarações de Obama quanto ao cão e à escola onde vai matricular as filhas. A questão do cão é uma questão muito relevante porque o que faz falta é animar a malta. A malta quer circo; o pão, logo se vê, que o plasma de duas mil polegadas já está encomendado e os cheques pré-datados (ai que vontade de juntar tudo e escrever sem acento) estão passados.

Em suma, não acho que um presidente que faça a tal "mistura obscena" de que fala Fernanda Câncio faça, realmente, uma mistura obscena, porque um presidente não trabalha sete ou oito horas, é pago para trabalhar vinte e quatro e, se for competente, até quando dorme é presidente. É como ser, exactamente, monarca. Pode, por isso, ser homem sempre que lhe apetecer, desde que não carregue no botão vermelho e não faça, como um verdadeiro homem não faz, tudo o que lhe apetecer. Há momentos para tudo e não é altura de falar de política e economia depois das promessas todas feitas. Em Portugal, quando alguém não tem mais nada a prometer, promete ainda mais, em vez de ter a inteligência de cortar caminho e falar do cão.

No meio disto tudo, só não entendo porque é que um cão de raça é mais hipoalergénico do que um rafeiro, mas isso há-de ser só uma desculpa para os Obama levarem um cão branco para a Casa Preta.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Madelyn Dunham ou a avó de Obama

era uma mulher precavida. Então não é que a senhora "votou pela Internet antes de morrer"? Não é lindo? E a malta a pensar que isto lhe custava um voto a menos ou, então, muitos votos a mais.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O estilo possível (ou a mania)

Se me destilassem,

não se perdia nada. Eu já não tenho estilo nenhum.

Breve maltratado das coisas que não existem [49]

As pessoas destilam ódio porque é mais fácil destilar ódio do que destilar amor? Ou é porque não arranjaram substituto à altura, para o ódio, da palavra destilar?

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Em sentido marxista, é claro, ou dos resquícios do meu comunismo adolescente

São notícias destas (1|2) que me trazem a certeza de que, um dia, o mundo será perfeito.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Ora aqui está: um blogue mesmo escrito numa espécie de alemão por quem tem mesmo alguma coisa para contar. Não é como esta merda do terapia, a armar ao pingarelheidt.

Oh não, não.

José Wallenstein é o John Malkovich português. (Não é um elogio para nenhum dos dois.)

Oh não.

A nova telenovela da TVI é intelectual. (Uma das personagens acaba de citar Drummond de Andrade.)

E ser jovem, não é uma boa desculpa?

sábado, 25 de outubro de 2008

Da mediocridade (II)

Gostava de saber porque é que fiquei, já por duas ou três vezes, agarrada a programas deste estilo por mais de meia hora. As apresentadoras querem levar toda a gente para a cama - incluindo a minha pessoa -, vestem-se como engatatonas profissionais e nunca desistem do providencial «Oláboanoite»; conseguem fazer o entusiasmo parecer um embaraço e só não saltam mais porque, de saltos altos, saltar há-de ser um risco. A música de fundo é irritante e os efeitos sonoros para quem, por exemplo, está a ligar pela primeira vez (aplausos), são, mais do que pirosos, verdadeiramente assustadores.


As pessoas que ligam para estes programas (transmitidos, para quem não sabe, a altas horas da noite) são sempre as mesmas ou, então, profissionalizaram-se em fazer chamadas de sessenta cêntimos mais IVA que, umas atrás das outras, lhes poderão dar(aos espectadores mais insistentes) a compensação de entrar no directo e conseguir, com isso, emitir um palpite.


O que há num jogo de futebol? Tudo menos o que, de facto, há num jogo de futebol. Não há relvado, nem fiscal de linha, nem balizas, nem bola. A chave é tão misteriosa e os espectadores tão desatentos que, em dez minutos de programa, o mesmo palpite pode surgir vindo de três pessoas diferentes. Depois muda-se para o canal concorrente e descobre-se, pelos nomes dos espectadores, que aqueles que ligam para um são os mesmos que ligam para o outro e, daí, quem sabe, a pouca atenção com que participam no concurso.


Esta malta, que ainda não descobriu a sala de chat - prefiro, para dizer verdade, dizer bate-papo -, usa nicknames. Há dragões, sportinguistas, benfiquistas, e carradas de ricardos que se fazem à rapariga do ecrã com a voz melada e a timidez própria do gajo que, na discoteca, passa o tempo encostado à parede de Seven Up na mão. Geralmente, a mesma pessoa entra no ar mais do que uma vez e ganha mais do que uma vez. Na SIC ganha-se mais do que na TVI. Por mais ridículo que seja o desafio da segunda, parece sempre impossível acertar. E eu vejo, sem saber porque não consigo deixar de ver. Às vezes, com vontade de ligar. Que grande merda. Antes o iPhone.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Qu'est-ce que c'est?

Da mediocridade

Sou daquelas pessoas que acham que vão ser mais felizes quando e se comprarem um iPhone.

Chamada não atendida

Não entendo porque é que, às vezes, sinto uma tristeza tão grande. Do fundo de tudo o que o Universo mandou que fosse eu e mais pessoa nenhuma e, na verdade, todas as pessoas ao mesmo tempo. Esse lugar fica no fundo do meu peito e não explode nunca, nem quando choro; como o pensamento e a dor - a dor é um pensamento e o pensamento é uma dor, tenho a certeza, foi uma Pessoa que me disse - impõem a sua latência.

A tristeza é - enfim, é capaz de ser - uma presença escondida que, por mais que choremos para que se veja, não se vê. Nunca viste a minha tristeza. Tentei que a visses muitas vezes e, de um ponto de vista italiano, não fui justa para ti. Chorei-te a casa inteira e uma italiana contou-me que, em Itália, se diz que não se pode chorar uma casa toda; é preciso, pelo menos, abrir uma janela para que a tristeza voe dali para fora. Deu-me essa informação depois de eu a ter informado de que em Portugal se diz que não dá sorte um pássaro morrer-nos em casa. E ela respondeu que isso até fazia sentido - imagina só - , porque fora muito infeliz numa casa onde, uma vez, um pássaro lhe tinha morrido.

Mas esta coisa que quase me rasga o peito e cujo mal é que nunca o chega a rasgar e, por isso, não sai dali para fora, é a coisa que a minha razão e a minha lucidez mais querem rejeitar - quem diria que eu tenho isto tudo! Não quero tristeza, ver tristeza, sentir tristeza, entristecer-te a casa porque, simples e puramente, a tristeza é uma sobranceria. Hoje aconteceu-me, pela primeira vez - agora mesmo, aliás -, estar com os óculos na cabeça e andar à procura deles. Não me inquieto com isso enquanto não me doerem os olhos. Não devia estar triste enquanto estivesse na tua ausência efémera, agendada - isto, partindo do princípio de que nem sempre és tu que estás na minha. A verdade é que estou. E quando estou na tua presença, sei que estou, às vezes, ausente. Queria ser, apenas, como todas as pessoas - tu - que têm de acordar amanhã. Para mim, tu sabes, só há amanhã se, amanhã, eu quiser viver. Não vivo quando não quero e isso não significa que esteja morta. Acho que os vegetais não pensam, não sentem dor - ou, pelo menos, não têm nada que a processe - e, por isso, tu hoje és uma uva. Eu sou, naturalmente, a grainha. Que tu trincas e engoles. Como eu achava que ninguém fazia.

A tristeza é uma sobranceria e, por isso, mesmo enquanto choro, vou fazer de conta que estou feliz. Amanhã, mesmo que eu não queira viver, é mais um dia que risco da agenda. E volta tudo ao início. Uma sobranceria.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Esta métrica fascina-me.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

"5 euros tinha [sugiro um m no final, por causa da concordância] bastado"

«Abandono o projecto de suicidio [falta um acento no segundo i] quando reparo que não tenho electricidade em casa: sem electricidade não há internet [apologizo o uso da palavra "Internet" com maiúscula, quanto mais não seja por ser grande comá merda]; sem internet não posso adquirir os conhecimentos necessários para me suicidar com o dramatismo e ausência de sofrimento adequados; isto é suficiente para que prontamente renove os planos de suicidio, os quais não ponho em prática por não ter internet.»

Comentário javardo-iluminado: se é assim sem electricidade, que faria se não tivesse luz.

Tudo isto para dizer que a Internet não é tudo. Há um livro publicado pela Antígona que, em matéria de suicídio [reparem no acento bem colocado] ultrapassa toda a Internet [maiúscula, sim!]. Pode ser adquirido aqui pela módica quantia de 5 euros, muito menos que uma mensalidade de Internet que, a bem dizer, só compensa se uma pessoa se suicidar no fim do mês, depois dos downloads todos feitos.

Gostava de saber porque é que os jornais, como a minha avó, insistem em chamar luz à electricidade.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Porque não sou feminista

Ora aqui está uma discussão que me interessa.

E pronto, ele voltou. E agora, já me posso ir embora?

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A minha irmã, no 2º ano de escolaridade, tinha, este fim-de-semana um trabalho para casa. Além de uns números para decompor em somas (25=20+4+1, por exemplo), tinha de escrever uma composição subordinada ao tema "Se eu fosse uma formiga".

- Então, mana, o que é que vais escrever? O que é que acontecia se fosses uma formiga?
- Hum... se eu fosse uma formiga, as pessoas andavam e eu morria.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

A única diferença entre os deuses e os homens é que os homens ainda não sabem que estão mortos.

Somos deuses quando a nossa razão de viver é sermos a razão de viver de outra(s) pessoa(s).

Querer morrer não é radicalmente diferente de querer viver. A morte acaba por ser o projecto mais longínquo que abraçamos em vida.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Agradeço às 60 pessoas que visitam este blogue todos os dias por insistirem e peço-lhes desculpa por ter andado sem tempo e sem paciência para isto. O trabalho prende, e prende, e prende, e prende, e dificilmente liberta; enfim, há dias em que liberta, mas sobre isso já escrevi. Tenho sorte por ter trabalho - não é emprego, é trabalho e é muito -, mas o blogue não anda com sorte nenhuma. Se calhar estou enganada e saiu-lhe a sorte grande. Para escrever merda, prefiro não escrever. Aliás, vou-me já calar.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Já repararam que o Camões era um ninfomaníaco?

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Crer para ver

Digam o que disserem sobre a necessidade inequívoca do método experimental e tralalá rebeubéu pardais ao ninho, a verdade é que tudo começa por crer. Creio que vejo para ver e creio bem que esta ordem, ainda que logicamente inaceitável, é que é inequívoca. Sei porque experimentei. E sei porque creio. E creio porque é a única maneira de não admitir que, desde que cheguei, ainda não disse nada que não fosse um lugar comum.

A maior máquina da Terra não era a própria Terra?















Mais um imprescindível:

«O Grande Colisionador de Hadrões (LHC, em inglês), que começou a funcionar na quarta-feira em Genebra, pode responder ao sonho de Higgs de ver confirmada a sua teoria sobre a existência da partícula com o seu nome, o bosão de Higgs. A sua existência é prognosticada pelo modelo-padrão da Física de Partículas actual, ainda que não tenha sido possível até agora demonstrá-lo experimentalmente.

Se for provada definitivamente a teoria de Higgs e se a partícula sub-atómica com o seu nome for encontrada, este físico de 79 anos será encaminhado definitivamente para o prémio Nobel da Física, distinção a que aspira também o seu rival Stephen Hawking, que em certa ocasião apostou 100 dólares em como o bosão de Higgs não existe.»

[Se fosse eu a escrever, subatómica não levava hífen.]

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Entusiasmo em quarto crescente

Eram tão pobres tão pobres que lhes chamavam as parcas do Nilo.

Popularidade

Os índices de popularidade de certos blogues no Technorati sempre constituíram para mim motivo de espécie. Ou seja, faziam-me espéce. Não entendia, apesar de consultar várias vezes a FAQ, os critérios de popularização de um blogue naquele motor de busca. E sempre foi um mistério para mim como o meu pôde, durante tanto tempo, manter-se no valor 50, que é bem aceitável para um blogue rude, pouco actualizado e, mais cruel ainda, pretensamente wittgensteiniano, que de wittgensteiniano não tem nada. Hoje, assim de repente, percebi a razão (não a Razão em sentido iluminado, só uma razãozinha, que as revoluções francesas só se fazem de mil e setecentos em mil e setecentos anos): os bloggers que praticam o autolinque em abundância são mais populares porque usam os seus pontos de popularidade para se popularizarem a si próprios. É uma descoberta maravilhosa - todos temos direito ao nosso acelerador de partículas - e, tenho impressão disso, nem quem faz uso dela deve ainda ter-se dado conta daquilo que tem entre mãos. Como diz o invejoso, assim também eu.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

O meu colega descobriu que o Chrome, o novo browser da Google, não suporta a Google Toolbar. Eu já tinha reparado que o programa não faz coisas tão básicas como organizar os favoritos por ordem alfabética. Tem, no entanto, duas vantagens: é bastante rápido e muito bonito. Enfim, um coelho-homem.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

O filho da puta

tinha amor para dar e vender. Infelizmente, não herdara da mãe o jeito para o negócio.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Pronto, hoje não há casamentos para ninguém.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

As verdades custam a ouvir

Confesso que também fiquei indignada - enfim, por 3 segundos - com as declarações de Marco Fortes. Depois, vieram as críticas e, a seguir, a expulsão "elegante" do atleta da aldeia olímpica (sempre achei piada à expressão convidar a sair, penso sempre que me querem levar a jantar fora) que, acho eu, já foi demais. Ninguém está livre de ser infeliz naquilo que diz (e, sobretudo, no momento em que o diz, porque para quem nos ouve a intenção não conta nada); eu, por exemplo, sou profissional nessa modalidade. E, depois, eu acho é que a verdade custa. Marco Fortes disse a verdade. Quem é que, de manhã, não está bem é na caminha?

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Darwins are forever

As melhores palavras, já ouvi isto mais ou menos assim num ou noutro lado - Wittgenstein incluído -, são as que ficam por dizer. Um bom texto é um texto que não é justificado, como se costuma dizer das boas piadas ou dos bons piadeiros. O pensamento, para ser válido, só precisa de uma coisa: existir. Justifica-se a si mesmo na sua existência e no sujeito que a suporta. É por isso que não há más ideias. Pelo menos no segundo em que alguém tem uma ideia (se bem que eu acho que são as ideias que mandam em nós, mas isso já é outra história), essa ideia está justificada. O arrependimento ou a reformulação do pensamento é uma hierarquia da natureza, uma cadeia alimentar. Uma ideia ultrapassa outra e mata-a, se for preciso. Enfim, faz que a mata, porque, cheira-me, nada que já tenha existido morre realmente. A moral não é natureza, é civilização; a menos que olhemos para ela como uma ideia. A máquina humana, no meu parco ver - diz a doutora que estou a ficar míope; dantes, só me astigmatizara -, tem evoluído pouco. Os Darwins têm existido sempre e eu, por mim, mando-os dar banho à foca. Foi uma ideia que eu tive, agora mesmo.

Para a Mônica.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Isto está tão monótono que até parece o penteado da Maria Bethânia.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Mãos ao alto e passem para cá os bifes do lombo!

- O meu pai faz hoje 41 anos.
- 41 é um número primo, não é?
- Para mim, é um número pai.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

You're damn right

sábado, 9 de agosto de 2008

Breve maltratado das coisas que não existem [48]

Uma grávida, questionada sobre o seu estado, a dizer que vai de ventre em popa.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Pequena entrevista à senhora que está com uma arma apontada à carótida

- A senhora, que está com uma arma apontada à localização mais provável da sua carótida interna, está refém destes bandidos?
- Não, não. Eu vinha fazer um depósito, mas convidaram-me a ficar para o churrasco e cá estou, à espera de que chegue a sangria.

Do raio de silly season que nos reservaram este ano

Hoje, para português e brasileiro ver(em) - e só Deus sabe como eu adoro o Brasil; enfim, eu até acho que Ele deve ter nascido lá -, ficou provado que uma singela ida ao banco pode matar. Sobretudo se o objectivo dessa deslocação for fazer um levantamento. E, conforme me apercebi, o risco de vida é maior ainda se o levantamento que tencionamos fazer for de dinheiro que não é nosso. A situação agrava-se se nem sequer fizermos por pedir com jeitinho. Não se iludam: fui sempre da opinião de que o crime compensa.

E compensa na medida que, como já dizia o irmão lúcia (isto de se chegar sempre atrasado é do que menos compensa, mas também não é relevante para o caso), nos enriquece a língua em desenvoltura e vocabulário. A língua inglesa, por implicar tanto enroliçar (neologismo, decerto) da língua, tem muito de voltura e desenvoltura; e sniper é um termo que, bem vistas as coisas, é bastante mais cinematográfico do que o velho atirador-furtivo. Lembro-me de uma canção do Fausto em que se diz «do atirador furtivo,/perdão:/do sniper a abater/em open space,/just in time e/no prime time». A canção chama-se "Bárbaros em passerelle".

Na rua, como na língua, o crime compensa. A gramática é, invariavelmente - digam o que disserem pessoas como Noam Chomsky e Filomena Viegas -, degenerativa. Como a raça humana. Que inclui, entre outras coisas, assaltantes de bancos. E administradores de bancos. E bancários malcriados que nos atendem nos balcões dos bancos de fronha amarrotada. E ministros das Finanças. Vendo bem, oito horas de sequestro nem são grande coisa para um refém. Quem trabalha em part-time, perdão, a meio-tempo tem, pelo menos, quatro horas diárias de sequestro. Fora aquelas que lhe ocupam o trabalho doméstico. E se um dia não quiser trabalhar e desejar fazer um levantamento, é provável que, como os cães, seja abatido. Por um sniper. E que degenere, portanto, mesmo depois de já ter degenerado. Senhores comentadores, o balázio não é castigo, nem o castigo é o balázio. Isto é mas é tudo uma grande confusão. Stop.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O único amor que interessa é o impróprio.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

«ele há coisas que nem na silly season», um post-rubrica que me tem divertido nestes dias

E o melhor lead da história da silly season, hein?

«Amy Winehouse decidiu inovar o conteúdo das letras das suas músicas. Além das drogas, álcool, relações desfeitas e suicídio presentes nos dois primeiros álbuns, a cantora inclui agora almôndegas e frango frito.»

6 de Agosto de 1945



Keiji Nakazawa ilustrou, escreveu e realizou este filme que retrata, com o realismo possível para um desenho animado, a queda da bomba atómica sobre a cidade de Hiroshima. Em 1945, Nakazawa tinha seis anos e vivia na cidade de Hiroshima com a sua família. Assistiu às consequências imediatas da queda da bomba atómica e viveu na cidade até vários anos depois. Keiji Nakazawa é a personagem do filme, admita ou não, o Gen pé descalço. Perdeu toda a sua família, à excepção da sua mãe e de uma irmã que nasceu e morreu (de fome) algumas semanas depois do atentado - a escolha de palavras é lúcida, mesmo depois de Pearl Harbour. Todas as guerras são vãs, em vão. Provas provadas de que Deus não existe ou, se existe, é humano e, como tal, mal acabado.

Não acredito em deuses, mas lá que os há... os cabrões atenderam-me sempre, por capricho, para me obrigarem a rejeitar as minhas próprias convicções (da tanga). Eles são um: uno, indivisível, inenarrável. Um Grande Sacana. São iguais a mim, não És?

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Máxima mínima permitida

Atira-te ao homem e diz que te empurrarem.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Como eu gosto do meu país.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

- Olha, o camião do lixo.
- Diz-lhes que é só calçar-me e vou já descer.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Se lhe parecer que sou muito segura de mim, que sei muito bem o que quero, que tenho o pensamento lógico alinhado com um pilar de betão armado em paralelepípedo, está a alucinar. Faça como o Schumacher, vá para casa de táxi.

Tenho saudades da minha melhor amiga, de como ela transforma a tristeza dos seus olhos em riso e espalhafato, deitando foguetes antes da festa, sorrindo depois e durante, ao mesmo tempo que chora, grata por estar viva e pelo respeito que a morte lhe tem, que a morte é um homem que só nos leva se nos quiser a sério, na saúde e na doença e na alegria e na tristeza e na pobreza e na riqueza, até que uma gaja melhor e mais nova nos separe. Gosto de como a minha melhor amiga corre de saltos altos na corda bamba - e não é que se safa sempre, a puta -, desdenho-lhe o cigarro ao canto da boca e na ponta dos lábios - não é sexy, é alcatrão -, não quero que morra cedo como morrem cedo as pessoas que, sabemo-lo bem, não teriam aguentado viver muito mais. À minha melhor amiga digo: amo-te porque não prestas, como eu, que não presto para nada e, no entanto, sou pau para toda a obra, nunca obra para qualquer pau, que pau que não é santo não nos serve de estendal. E um dia ainda hás-de explicar-me - porque creio que o saberás antes de mim, que eu sou sempre a última a saber das coisas e isto não é boca absolutamente nenhuma - porque é que as pessoas que não prestam são sempre tão exigentes, como se, afinal, prestassem alguma coisa para alguma coisa.

Pensamento do dia

Sem língua, a vida seria muito mais fácil. Mas o minete, decerto, não saberia tão bem.

Pela primeira vez cumpro a máxima de não dizer nada só porque não tenho nada a dizer. Terei aprendido, por fim, a olhar para um espaço vazio de novidade sem o sentir abandonado. Os livros, por exemplo, são sempre velhos, mesmo quando acabadinhos de sair do forno-escaparate, porque envelhecem nas nossas casas, enchem-se de pó e dos nossos olhos. É difícil agir da mesma maneira num blogue, que sem dedicação diária se vota mesmo ao abandono. E também com as pessoas, que não são objectos, ou pelo menos não o são o suficiente. Penso, muitas vezes, sem vergonha, em frases como amo-te, já o sabes e, por isso, não tenho mais nada a dizer-te. E, depois, (penso) no silêncio. Como se o amor, ou qualquer espécie de afecto, não precisasse sempre e tanto do estímulo da incerteza, ou do estímulo de querer ter mais a certeza, de ter a certeza absoluta, sintética, analítica. O amor exige, no fundo, o conforto de voltar a saber o que já se sabe, como se, quando nos dedicamos a uma coisa que parece não ter mudado, trabalhássemos com dedicação numa actualização legítima e necessária de conhecimentos. Eu cá sou pós-graduada em estar desactualizada, no amor e em todos os aspectos da vida que dependem e não dependem de mim. O sentido de dizer - ou não dizer - amo-te, já o sabes e, por isso, não tenho mais nada a dizer-te é o mesmo de ler um livro que já se leu, mas que agora se lê com outros olhos que, a bem dizer, só podem ser os mesmos. Dizer ou pensar - que talvez seja a forma mais limpa de dizer - volto a amar-te como nunca te tinha amado antes e não to digo porque já o sabes é um não dizer ineficaz se o outro, aquele que se ama ou por quem se tem afecto, vir abandono na falta de novidade. Acho, errada ou, na melhor das hipóteses, atípica, que há amores que não precisam de luta. É, por um lado, como receber uma carta de que se gostou muito e, apesar disso, nunca lhe responder; ou como escrever uma carta que nunca se chegou a enviar. O problema é que tudo se escreve e, escrevendo, suja-se sempre alguma coisa.

Do que eu preciso

sábado, 26 de julho de 2008

Dejectos do dia

Mas que merda de blogue
que eu pràqui tenho.

Não é falta de engenho,
é o mundo castanho
que eu cá desenho.

Não é falta de tempo
nem de disposição,
é mesmo a certeza
de que isto é um cagalhão.

Mas que merda de blogue
que isto veio a ser.
Não sou intelectual
nem muito inteligente,
deixei foi aqui
um belo presente.

Mas que merda de blogue,
em que isto se tornou.
Eu não falo de Tolstoi,
e muito menos de Barceló,
eu percebo é de cocó.

Mas que merda de blogue,
que já cheira tão mal,
se não tiveres Renova
mete os pés prà cova
e limpa-te ao jornal.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Afinal, quem é que manda aqui?

Nada me impede de fazer jorrar a tristeza em água e sal, esse tempero de tudo e de, nesse tempero de tudo, nessa tristeza de água e sal, jorrar no mundo uma decisão, pela boca ou pelos olhos, mas pelos olhos do lado de dentro, que nenhuma decisão é boa quando salta da cabeça para fora e deixa de ser uma decisão para ser uma coisa jorrada no mundo sem tempero, como a merda, que mesmo para combustível não é menos poluente que a maioria das decisões. Nada me impede de, na altura em que a decisão se concretiza na minha cabeça e, por isso, no mundo, soltar a lágrima de crocodilo - com água e sal nenhum, que a água sem sal é a flor do sal, que é como quem diz, sejamos cínicos - quando me deito na linha quente, que isto é quase Agosto e, afinal já não me apetece morrer. A morte, meu filho, a morte tem de ser com sangue, nem que seja sangue cagado, como eram de sangue as radiações que os chinocas cagavam, em Hiroshima e Nagasaki; e valha-nos Deus que é quase Agosto outra vez. Nada me impede de fazer jorrar a gargalhada no momento, no supremo momento do sopro do apito, o apito ridículo que o comboio, na curva, ensaia transversal, no momento em que o comboio trava a tempo de só me cortar as pernas. E eu grito de dor e vejo que o comboio me cortou as pernas, e boto as mãos nas pernas - a morte, meu filho, a morte precisa de sangue para ser bonita, nem que seja uma gotinha ao canto da boca - e rio porque conservo, ainda, a vida. Nada me impede de rir ao ver que conservo o tempero de tudo, e conservo também as mãos para temperar, e se as mãos não fossem a boca seria, e se não fosse a boca seriam os olhos, mas os olhos da parte de dentro, a fazer jorrar no mundo, com água e sal e sal e flor de sal, ou seja, água, a minha decisão que eu não posso tomar porque todo o sangue está dentro de mim e, afinal, meu filho, enquanto ele estiver dentro de ti é ele quem manda. É.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Foda-se.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Jazz com Pretas [16] (repost? Não interessa, é brilhante.)

Para que quero um blogue se posso estar o dia todo a trabalhar num ficheiro de Excel e a ouvir Dinah Washington swingar nos meus ouvidos? Para espairecer.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Vejo Ingrid Betancourt na capa do Público e só consigo pensar em como pode aquela mulher, que "há quinze dias estava presa a uma árvore", andar de saltos altos, depois de 6 anos a andar na selva com botas da tropa.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Dois



Notas sobre a mitologia dos gregos (8)

Apolo não era fruto do ocaso.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

uma festa na prisão

Jogos de azar

Uma amiga alertou-me para não sonhar com um quadro de C. M. Coolidge em que cães de várias raças jogam póquer e, como se isso já não fosse suficientemente assustador, fazem batota.

Decidida a passar uma noite de grande inquietude espiritual, fui à procura de informações na web sobre "cães jogando póquer" e encontrei um maravilhoso set de anedotas a propósito. Selecciono as melhores abaixo e, homenageio, com isso, o ex-cão da família, Sheik (veio da embaixada da Arábia Saudita, era tonto e queriam ver-se livres dele), um cocker preto com mais tumores do que neurónios mas que, ainda assim, quando não estava em demência ou sofrimento, conseguia ser meigo e pachorrento tanto que, às vezes, nem se dava por ele.
O Sheik foi abatido hoje - quase de urgência - por causa dos tumores que tinha. Ontem, quando cheguei a casa, cansada e sem paciência para zootruísmos, ele estava deitado à porta do meu quarto e eu não lhe fiz uma festa. Acho, até, que o enxotei quando me veio cheirar. Enfim, não acho: tenho a certeza. Diz-me um amigo que tudo isto, a morte do cão, a minha indiferença, é muito camusiano. Concordo. Cão como ele (o cão, nunca o amigo), é o que eu sou. Com a diferença de que, dado que falo, me arrisco sempre ao dobro da asneira e tento, sempre que possível, não mijar nos pneus de um BMW.

À do Sheik,

«Dois donos de cães gabavam-se sobre a inteligência dos seus animais de estimação. "O cão mais inteligente que já tive," disse um deles "foi um que sabia jogar as cartas. Era um perito em Poker, mas tive que o abater." "Tiveste que o abater, um cão assim tão inteligente? Um cão desses deve valer um milhão de dólares." "Tive que fazê-lo", respondeu, "Apanhei-o a usar cartas marcadas!"»


«Um homem passa por uma mesa num hotel e repara em três homens e um cão a jogar as cartas. O cão parecia estar a jogar muito bem.
"Este cão é muito inteligente.", Comentou o homem.
"Não assim tanto," disse um dos jogadores. "Cada vez que ele tem uma boa mão, abana a cauda."
»

Malta que gosta de pó... só pode.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Olhem lá que post tão giro - e observem-me o ar comovido da rapariga.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Sou o caso (e a homenagem possível aos outros)

Um colega de trabalho, gozando comigo e não se apercebendo das poucas possibilidades de me deixar mais deprimida do que já estou, ofereceu-me um livro - que ganhava pó numa secretária da empresa - com o título "Inserção precoce no mercado de trabalho: um estudo de casos". Desconfiada da autenticidade da oferta (fazia lá ideia de que se faziam, em Portugal, estudos de casos sobre este assunto, de resto, um dos meus muitos assuntos), abri-a, aleatoriamente, na página trinta. «De facto [e eu pensando "Foda-se, que esta merda começa mal."], os jovens que tiveram necessidade de entrar precocemente no mercado de trabalho para complementar o rendimento do agregado familiar [ou, acrescento eu, o seu próprio rendimento, dado que o agregado familiar não tem de os sustentar até aos 40 anos] têm menos hipóteses de obter um emprego com melhor remuneração e com melhores expectativas de carreira profissional ascendente. Desta forma, parte-se de um pressuposto de que a mobilidade profissional fica seriamente comprometida com a inserção precoce no mercado de trabalho.» Além da inclinação irreversível que tenho para começar a ler tudo a partir do fim - às vezes, até livros (Murder, she said) -, tenho a sorte de apanhar logo à partida os trechos das obras que as resumem. No caso, cumpri a máxima socrática Conhece-te a ti mesmo. Também poupei, num parágrafo, 1oo páginas de leitura. E decidi: vou ao BES. Da mobilidade profissional é que eu não abdico. A dignidade, essa, é para as árvores.

Neste momento, o meu único papel neste blogue é higiénico. De tão limpinho que isto está.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Resumo de uma reportagem excelente

«O desafio não era dos mais honestos. "Se encontrares, na tua língua, uma palavra maior que 'campanário' na minha, eu pago as bebidas, caso contrário, pagas tu". Ilanguak Berthelsen fazia 26 anos e, como manda a tradição, convidou os amigos a subir à montanha para acender uma fogueira e beber pela madrugada fora.
(...)
Até à concretização do sonho independentista, os gronelandeses vão continuar a poder pagar os 10 euros que custa uma cerveja. Quanto à aposta, era impossível ser ganha por um português. 'Campanário' escreve-se em gronelandês com 78 letras: "nalunaarasvartateeranngualiugatigiiffissaarsuliulerluallaaraminngooraasinngoog".»
Alfredo Leite, no JN.

Jazz com


















No Jardim Marquês de Pombal, em Oeiras. Este domingo, às 22h.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Breve maltratado das coisas que não existem [47]

No infracitado artigo (espero estar a neologizar, é da maneira que uso a minha criatividade), usa-se também a expressão heliopausa. Será uma espécie de menopausa do Sol? Ou, quem sabe, de pausa - efectiva - do Sol? Como, por exemplo, quando é Inverno e a gente carrega no botão para aquilo fazer rewind até ao Verão? Expliquem-me.

Informa-me a B. que o Público tem um artigo onde, encarecidamente, nos explica que «A forma do sistema solar não é redonda, mas amolgada num lado». No artigo ao lado fiquei também a saber que «A última tuatara do mundo vai ser um macho». Confesso que não estava preparada para tanta informação útil de uma só vez.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Das duas, uma:

ou ninguémeste blogue, ou toda a gente o lê.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Atenção: isto pode ser um plágio.

Era um filósofo tão mau tão mau que todas as suas máximas eram mínimas.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Estou a pensar lançar um livro. Pela janela.

Quando há ambiguidade, pendo sempre para o lado improvável. É uma forma de preservar a minha previsibilidade.

Todo o amor tem uma metalinguagem. Quando a meta é linguagem, fode-se.

Amar uma pessoa por aquilo que ela escreve é amá-la por aquilo que ela não é. Amamos sempre os outros por aquilo que nós somos (para eles, às vezes), não por aquilo que os outros são. O que vale é que, por termos olhos, os outros são o que nós somos. Oxalá não escrevam, para facilitar.

Noite

Mesmo no escuro, apalpando paredes, persegue-me sempre o que é apolíneo. As aranhas dos meus pesadelos são sempre simpáticas. Apalpando paredes, deito-me na cama. Cubro a cabeça toda com o lençol e a colcha de algodão - alvos alvos das criaturas da noite, chiu, que ouço barulhos vindos ou idos do lado de fora, é no estacionamento, daqui a nada acende-se um farol e a Christine vem cá encher-me de bofetadas metálicas, que um carro assassino, daqueles que tocam o rádio sem pedir licença, não há-de ser coisa boa. Não quero ouvir a minha própria respiração, por isso imagino outra. A tua. Fecho os olhos com força e, no escuro do preto escuro, só vejo luz. O mundo, daqui ninguém me tira, é uma coisa muito bem feita. É preciso vê-lo. E para vê-lo, às vezes, só fechando os olhos.

Na lei

É possível ouvir música sem piratear, qualquer música, numa escolha vastíssima de álbuns, artistas, géneros e títulos. O Deezer dá para ouvir um álbum inteiro antes de o comprar, para "levar" as músicas favoritas para o trabalho e, sobretudo, para descobrir novos sons para ouvir (quase tão eficazmente como no Musicovery). Numa qualidade muito boa para streaming, mesmo em redes lentas, recomendo o sítio. Mas há melhor: podemos partilhar as nossas escolhas com os outros.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

George Carlin (1937 - ?)

George Carlin, por quem tenho feito grandes campanhas, morreu no domingo, aos 71 anos. Como não morreu de cancro - mas sim de paragem respiratória (noticia o The New York Times) - direi que morreu de saúde prolongada. Pioneiro da Stand-up comedy nos anos 70, Carlin tinha tudo para ser um ser humano detestável: inteligência, sentido de humor (isto assumindo que o segundo não é o mesmo que a primeira, que é coisa na qual nunca acreditarei), cultura, energia. Era, ainda, mal educado, do contra, assertivo, directo, crítico e muito bruto. Cínico contra o cinismo, hipócrita contra a hipocrisia. A hipocrisia e o cinismo também, muitas vezes, contra ele, e mesmo que não estivessem, só lhe ficava bem, a Carlin, estar do outro lado do campo. Foi, também, das únicas criaturas que, uma vez providas de cérebro e cordas vocais, souberam dar algum sentido útil ao conceito de performatividade da linguagem, proposto, ou seja, imposto por J.L. Austin na sua obra - agora tão badalada por culpa da dupla, ou tripla Mexia-Araújo Pereira, se assumirmos que pelo menos um deles é bipolar - How to do things with words.

George Carlin é a pessoa capaz de escolher, para título de um livro, Quando é que Jesus Traz as Costeletas de Porco? (When will Jesus Bring The Pork Chops?) porque, numa só frase, explica ele, ofende «cristãos, muçulmanos, judeus e vegetarianos». É a pessoa capaz de nos lembrar de que o Planeta está muito bem porque já passou por cheias, vulcões, chuvas de meteoritos, eras glaciares (e, acrescento eu, dois penteados de Manuela Ferreira Leite) e que, nessa lógica de pensamento, que importância terão uns sacos de plástico ou umas latas de alumínio?

«O Planeta», segundo George Carlin, «não vai a lado nenhum. Nós vamos! Arrumem as vossas merdas, pessoal. Nós vamos embora. E também não vamos cá deixar grande rasto. Talvez um bocadinho de esferovite*. Talvez... um bocadinho de esferovite. O Planeta vai cá estar quando nós já nos tivermos ido embora há muito tempo. Apenas mais uma mutação falhada. Mais um erro de investimento biológico. Um beco-sem-saída evolutivo. O Planeta vai ver-se livre de nós como de uma infestação de pulgas. Uma maçada superficial.»

George Carlin, que muitos dizem ateu, dizia que acreditava no Grande Electrão. Eu, que não sou para aqui chamada, talvez por contaminação, chamo-lhe, ao Grande Electrão, o Grande Sacana. Permite, Ele Mesmo, que alguns deixem, apesar das previsões de Carlin, algum rasto. Num Planeta como este, sacana genético, só há um rasto possível: o da memória dos que ainda não se foram embora. A técnica e a tecnologia, como diziam outros amigos mais iluminados e iluministas (funcionários da Pollux, decerto), não deixam que o rasto se extinga. Elas são, aliás, ou querem ser, o próprio rasto. Eu, porque estou longe de Carlin, não sei de Carlin senão aquilo que a técnica me permitiu saber, com o auxílio ou a materialidade indispensável para a alienação, isto é, o meu corpo em geral, com genitais incluídos, já que muitos de nós até precisam deles para pensar. Presumo que só uma coisa tenha irritado George Carlin a sério. Essa coisa é, afinal, a que nos irrita a todos: não sermos a última pulga a ser sacudida.

[Sugestões de visionamento e o caralho: 1 | 2 | 3 | 4 | 5.1 | 5.2 ]
*tradução libérrima, o original é Styrofoam.

Portugal profundo (1)

Estremoz de terra.

I'm "The Man" and you're still a Kid.

domingo, 22 de junho de 2008

Santos

Era giro que descobrissem vida noutro planeta. Sempre podia mudar a minha naturalidade. Enfim, talvez o pessoal estrangeiro não apreciasse muito a decisão.

Gelo

O pessoal da NASA anda em apuros. Eu bem lhes disse para não irem na cantiga dos frigoríficos no frost. Mesmo assim: ir a Marte por causa de gelo? Não era mais fácil ir a uma bomba de gasolina?

Sou fã de M. Night Shyamalan. Isto é, sou fã de um realizador que soube aproveitar (como, de resto, fez Spielberg) a melhor característica de Hollywood: a luta contra a emotiva tradição europeia (exceptuando, talvez, Bergman e Hitchcock) por uma irrepreensibilidade técnica que se mostra tão mais imaculada quanto melhores forem a montagem e - para mim, o principal - a direcção de actores. Shyamalan é, nos filmes anteriores a The Happening, o Hitchcock dos nossos tempos. Valoriza, como Hitchcock, o que está no filme mas também para além do filme, fora-de-campo, aquilo que, no filme, se pensa, se diz e não se vê. No que se vê, não há nem pode haver explicação. Um filme de Hitchcock ou um dos primeiros filmes de Shyamalan não se vê, sente-se. Isto é, vê-se e depois sente-se, ou começa a sentir-se quando já não há quase nada para ver. Há realizadores, como Tarantino, eficazes na revelação. Onde o sangue, por ser sangue, faz falta. Em The Happening, além de um argumento fraco-que-podia-ser-forte, temos uma asneira monumental: aos vinte/trinta minutos de filme, a história está contada e nada mais há a dizer. Se o objectivo era criar angústia, nem esse esforço foi bem sucedido: se o realizador nos apresenta um caso para o qual não há solução, devia ter apresentado essa ausência no último minuto do filme, como fez em The Village, e nunca quando ainda faltava ver o filme todo. Se o objectivo era dignificar a consciência da imprevisibilidade da natureza ou das inefáveis e inconclusivas leis do Universo, este filme falha. Para um fã da comunidade que recriava o mito de Rousseau ou do miúdo que lia o futuro em caixas de cereais, The Happening exigia muito mais. Há, neste filme, belíssimos momentos de cinema que só funcionam porque parecem belíssimos momentos de realidade; por sua vez, os momentos de realidade que podiam ser bons momentos de cinema falham redondamente. Não era preciso ver suicídios de pessoas infectadas por uma neurotoxina mortal, cortando os pulsos com chaves ou deitando-se na relva para deixar passar uma espécie de debulhadora; nem sequer fazia falta o microfone em campo durante toda a cena do jantar familiar dos protagonistas com a velha bruxa que os acolhe - todas personagens sem densidade, tirando a criança, a quem basta ser criança para fazer todo o sentido naquele filme-lugar. Depois de tudo o que vi dele, Shyamalan desiludiu-me. Mas o cinema é mesmo assim e o próximo, se Deus quiser (quer nós queiramos, quer não), será melhor.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

E eu tesa que nem um carapau.


My blog is worth $28,227.00.
How much is your blog worth?



via Corta-Fitas.
E o senhor, se não se importa, veja lá quanto vale o seu... pode ser que dê para umas imperiais e um pirezito de caracóis. O meu, nem para um queijo.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Estou aqui, mas animem-se. É como se não estivesse.

domingo, 15 de junho de 2008

Eu bem te disse que Ele existia.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Plágio assim-assim de Mário-Henrique Leiria

Olhei para o grande relógio despertador às treze e treze do dia treze. Senti que ia morrer. Felizmente, já tinha morrido antes. Não ganhei para o susto.
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[«TELEFONEMA Telefonaram-lhe para casa e perguntaram-lhe se estava em casa. Foi então que deu pelo facto. Realmente tinha morrido havia já dezassete dias. Por vezes as perguntas estúpidas são de extrema utilidade.», Mário-Henrique Leiria, Novos Contos do Gin, Editorial Estampa]

O cúmulo da doença, da estupidez e da modernidade (desculpe, caro leitor, se usei sinónimos), há-de ser não confiar nos amigos. Estou cada vez mais moderna.

Como não gosto de injustiças, pratico-as. É a melhor maneira de evitar ser o alvo delas.

Na ausência de alternativas para que deixem de me perguntar o que é que eu tenho, sorrio. É incrível o modo como as pequenas coisas satisfazem tanto as pessoas.

A comida não me sabe bem. Por isso, tenho comido muito, na esperança de que alguma coisa me saiba realmente bem. Ontem comi sardinhas. Só me agradou quando engoli uma carregadinha de ovas; senti, naturalmente, que estava a impedir que vários seres vivos se desenvolvessem e reproduzissem. Desde o tempo dos escuteiros que não experimentava o efeito egoísta de uma boa acção.

Olhei para o chão cheio de migalhas e pensei: ali está uma merda que não fui eu que fiz. Eis o alcance da minha doença.

É tudo simples, muito simples. Eu estou doente. E as pessoas doentes fazem coisas estúpidas. Juro que não estou a justificar a minha estupidez com a minha doença. Na verdade, a estupidez é a minha doença.

Diz que é capaz de desligar o descomplicador e ficar a ouvir-me durante uma hora sem quaisquer interrupções. Está sempre a complicar.

sábado, 7 de junho de 2008

Jazz com Pretas [15]

Qual é a tua?

Tratado de vexilologia (umbiguista e resumido)

Gosto de falar de amor porque sei que nunca conseguirei manter uma conversa com base no conflito israelo-palestiniano. Para mim, todos os países são bandeiras e todos os amores são países. Em guerra.

Há gente que diz que não tem medo do trabalho. Conta, naturalmente, que seja o trabalho a ter medo dela.

O trabalho liberta. E prende. E liberta. E prende. E liberta. E prende, ou queriam que libertasse?

An englishman in New York

Acho a torrada um objecto alimentar de elevado valor literário. Pena que a literatura nunca lhe tenha dado grande importância nutricional.

Dêem-me valor.

Dêem-me, que eu fujo já com ele.

Breve maltratrado das coisas que não existem [46]

Parece-me que um tipo que com ceda nunca estará sozinho nas suas decisões.

Silogismo mais-do-que-imperfeito

Deus, como a Justiça, deve ser cego, surdo e mudo.
Quer isto dizer que Deus, se for Deus, não vê, não ouve e não fala.
Em suma, Deus faz.
Na maior parte dos casos, é para isso que lhe pagam.
Logo (e até um bocadinho depois; enfim, para sempre), Deus é feliz.
Disto se conclui que Deus, ainda que não pareça, é o quarto macaco.

Exponho-me intelectual e emocionalmente na esperança de que, um dia, alguém escreva a minha biografia. Não autorizada, incompleta e, necessariamente, nas estrelas.

Da nudez

O aplauso do dia vai para os Buraka Som Sistema que, do palco Sunset do Rock in Rio, gritaram para o público - pagante e, por isso, pacóvio - a frase que ficará, para sempre, nos anais do funk progressivo: "Viva o download!"

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Anatomia do amor explicada ao Dr. Phill

Adorava-a porque nela todos os membros eram superiores.

Breve maltratrado das coisas que não existem [45]

Um impropério é um império que pertence a outra pessoa?

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Sai uma preta para o Alberto Gonçalves

Alguém no YouTube comentou a actuação de Amy Winehouse no Rock in Rio assim: «she dances like a retated monkey with tattos». Desculpem, mas ainda me estou a rir.

Mais uma prova de que Ferreira Fernandes é preto

Eu bem vos digo, mas vocês não querem crer. Preto, preto, igualzinho a este:

O capitão do mato Vinicius de Moraes, o branco mais preto do Brasil na linha directa de Xangô. Saravá!

Alguém veio parar a este blogue com a pesquisa "as profissões mais modernas do mundo". Decerto, o leitor em causa seria alguém com vontade de conhecer o que está, em termos profissionais, na crista da onda. Sei lá, um gestor de conteúdos, um controller financeiro, um business development consultant. Para o caso de o tal leitor não ter percebido, eu republico o post que ele encontrou: «a mais moderna profissão do mundo//Depois de postar uma coisa qualquer o Blogger aconselhou-me: "Earn money from your blog". Confirma-se a minha suspeita de que nada disto está muito longe da prostituição.» A profissão, leitor querido, aquela que dá, é sempre a mesma, do início ao fim dos tempos. Começa por pê e acaba por edo. Medo. Como tal, a mais moderna será sempre, em simultâneo, a mais antiga, «e assim sucessivamente».

Breve maltratrado das coisas que não existem [44]

Quem gosta de heavy metal pode embrulhar as sandes em papel de alumínio?

De acordo com a Wikipedia, um ex-baixista dos Metallica nasceu em 1986 e morreu em 1987, com apenas 24 anos. Acredito que, de certa forma, a informação justifique a riqueza estética e performativa do heavy metal. Mentira. Vi Metallica ao vivo e foi das melhores e mais profissionais coisinhas que alguma vez vi ao vivo, tirando uma senhora que uma vez se me apresentou às três da tarde no Poço do Borratém, e eu ia só à Junta de Freguesia falar com o Presidente. Profissionalismo, sim, mas nunca no leitor de CD. Isso e ofender a memória de um morto. Quanto a Cliff Burton (1986-1987), estou safa: parece que eles agora, lá em cima, no tiroliroliro, ou cá em baixo, no tiroliroló, usam pendrives e Blu-ray.

Nota: vendo a Wikipedia com mais atenção, dou-me conta de que, afinal, o período 86-87 não é aquele no qual Cliff Burton viveu, mas aquele em que a banda sofreu a ausência do baixista. Mas se não tivesse visto mal não havia post, o que é chato.

Teste americano (sem Obama para armar barraca)

Quando, em cinco dias, a popularidade do seu blogue desce de 54 para 50, é sinal de que:

1. Está ocupado.
2. Está a voltar à infância, de onde nunca deveria ter saído.
2. A blogosfera não estava preparada para si.
3. O Technorati não estava preparado para a blogosfera.
4. Alguém lhe anda a roubar as visitas todas.
5. Não tem nada para dizer e mesmo este post nunca devia ter existido.

Eu sei qual é a resposta certa. E você?

sexta-feira, 30 de maio de 2008

«E assim sucessivamente.»

«Queriam telenovela, era?»

«Tudo consiste na perfeita adstringência entre a bola e a boca da bolacha, de molde a que esta não se esborrache.»*



*A Comédia de Deus, João César Monteiro

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Começamos a ver os cortes orçamentais nas empresas quando, nas casas-de-banho, o sabonete líquido tem mais água do que o rio Mondego.

terça-feira, 27 de maio de 2008

No dia em que verde não significar avançar terei morrido mais um bocadinho.

Falar de coisas concretas, acredito, dá-me credibilidade. Na cripta sinto-me claustrofóbica.

Fiz o teste.

What philosophy do you follow? (v1.03)
You scored as a Existentialist.
Your life is guided by the concept of Existentialism: You choose the meaning and purpose of your life.

“Man is condemned to be free; because once thrown into the world, he is responsible for everything he does.”
“It is up to you to give [life] a meaning.”
Jean-Paul Sartre

“It is man's natural sickness to believe that he possesses the Truth.”
Blaise Pascal

Existentialism

75%
Nihilism

70%
Justice (Fairness)

65%
Hedonism

60%
Utilitarianism

40%
Kantianism

40%
Divine Command

35%
Apathy

15%
Strong Egoism

10%

Com que então eu sou isto? Hein?

O astrónomo popular

Do optimismo

«Voltaste a esse mundo donde viemos e colhes o fruto de teus estudos terrestres. Aos nossos pés dorme o teu envoltório, extinguiu-se o teu cérebro, fecharam-se-te os olhos para não mais se abrirem, não mais ouvida será a tua palavra... Sabemos que todos havemos de mergulhar nesse mesmo último sono, de volver a essa mesma inércia, a esse mesmo pó. Mas, não é nesse envoltório que pomos a nossa glória e a nossa esperança. Tomba o corpo, a alma permanece e retorna ao Espaço. Encontrar-nos-emos num mundo melhor e no céu imenso onde usaremos das nossas mais preciosas faculdades, onde continuaremos os estudos para cujo desenvolvimento a Terra é teatro por demais acanhado. (...) Até à vista, meu caro Allan Kardec, até à vista!»

Discurso pronunciado junto ao túmulo de Allan Kardec por Camille Flammarion.
Wikipedia, ipsis verbis.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Sou uma virgem literária. Suicida, ainda não, porque Correction de Thomas Bernhard está ali no canto à espera de que me passem todas as depressões. O prefácio de George Steiner resume-se a uma ideia que, para mim, não é propriamente novidade, apesar de gostar desta exposição em duas páginas (com parágrafos, ao contrário de Correction, onde o único é o primeiro e, por isso, o último): se, depois de Glenn Gould, todos os pianistas-intérpretes executam as obras de outros (Bach, sobretudo) absurda e indignamente (tirando o João Carlos Martins, mas isto são as minhas paixões a desbaratinar), depois de Wittgenstein, qualquer pessoa que fale ou, melhor, qualquer pessoa que pense, está condenada ao ridículo. «Where a Wittgenstein has passed, the grass of silliness and of verbose vanity shold not be allowed to grow again.», diz Steiner, perguntando-me de seguida, se quero faca, corda ou um frasco de ansiolíticos. Sou, pois, como dizia, uma virgem literária. Nas restantes acepções, esclareço, sou escorpião. A minha cultura literária resume-se aos livros que me prendem, por uma ou outra razão, na primeira página. Não gosto de actualidade mas, na literatura, penso jornalisticamente. O lead de Metamorfose, por exemplo, prendeu-me durante duas horas a um sofá do Colombo. Lolita deu-me das melhores semanas de júbilo que tive na vida. De resto, o meu Dostoiévski é o d'O Jogador - e reconheço a insuficiência (cardíaca, se calhar - como todas, se o coração for o mesmo que cérebro). Descobri Casares, hei-de chegar a Borges e, se o tempo o permitir e me sobrarem post-its para anotar os nomes, hei-de acabar o García Marquéz que tenho pendente. Para Camilo e Eça ainda me falta quase a vida toda, apesar e por causa da meia dúzia de livros que li dos dois. Lobo Antunes acaba para mim a partir do ano 2000, que para coisas complicadas já me basta a minha própria cabeça. De Saramago também sei pouco. Gosto de histórias de bandidos e piratas, de biografias de marginais ou desconhecidos pouco ilustres. E depois, há sempre a filosofia. Ontem, hoje e amanhã. Enfim, amanhã talvez não, que tenho uns DVDs pendentes.

Breve maltratrado das coisas que não existem [43]

Dizer "o que eu disse entrou-lhe por um ouvido e saiu pelo outro" é uma hipótese demasiado generosa para interpretar as pessoas sobre quem, em geral, se tece este tipo de comentário. Normalmente, a coisa perde-se mesmo é pelo meio. A evidência é, de igual modo, aplicável a todos os pugilistas (melómanos ou não) que alguma vez tenham combatido com Mike Tyson. Se todos for exagero, tenham em conta o risco, por vossos conta e risco.

Marketing bioliterário

Se acha que o seu coração lhe dá demasiado trabalho e, por isso, que é demais para um polvo ter três corações, desengane-se. Por acaso o leitor tem oito braços? Se sim, escreva-me: estou a montar um freak show em tenda semelhante às da Praça Leya. Serei, naturalmente, a atracção principal e, se o tempo o permitir, calçarei luvas brancas para, com elegância, levar o apito à boca. O apito, sim.

"O que é o amor?"

Nos últimos dias - muitos dias, enfim - tenho estado sempre triste. Só uma guitarra exótica que vinha a ouvir hoje no leitor de mp3 me animou um bocadinho o jeito balançante de subir as escadas rolantes. A música tem destas coisas. Mexe-nos nos interstícios e, num momento, põe-nos a bater o pé quando, na cabeça e no coração, as angústias e preocupações martelam impiedosas, como algumas mentiras - as mentiras que pregamos a nós próprios. A música bonita é tónico para muitos males, e sê-lo-ia mais ainda se a melhor música não falasse sempre de sexo, de dor de corno e de cotovelo; de amor, enfim. Não minto se disser que gosto muito de amar e que, nos intervalos de gostar muito de amar, não gosto muito de amar. Não me conformo com o esforço necessário para a manutenção logística dos afectos. Devíamos poder amar quando nos desse jeito e quando nos fizesse falta (uma falta real e nunca caprichosa) amar (e sermos amados). Não é assim, infelizmente. Não sei, também, como é e o que é. Sei que "O que é o amor?" foi uma das perguntas mais pesquisadas no Google em 2007 e, com isso, sei que é bom não estar sozinha. Enquanto não sei - enfim, não sabemos - o que é o amor, vou amando; ainda que, às vezes, o faça em silêncio, não aceito que ninguém me acuse de desamor. Eu, que vou dizendo, crua e desesperadamente, que nunca cobrei nada no amor, cobro, todos os dias, ao amor, a compreensão e o espaço (físico, psicológico, temporal e, até, judicial) que só uma grande amizade - ou um grande amor sem segundas ou terceiras intenções - pode suportar. Não há amores desinteressados nem amizades unívocas e isto está na natureza da nossa inteligência - inteligente, como não podia deixar de ser, que ninguém me tira da ideia que as coisas, por piores e mais perifrásticas que pareçam, estão muito bem feitas. Não sei, também, o que fica depois das cinzas e do pó, mas sei que não é nada mais material do que a luz ou a electricidade que não sentimos sempre, mas sabemos que estão lá. Como diz a primeira lei da termodinâmica, a energia nunca é desperdiçada. Se fosse uma lei do Código Civil, diria, talvez, que a energia nunca deve ser desperdiçada, ainda que venha ter aos nossos braços em forma de abraços, pancada ou lucidez.