Não tenho postado porque, finalmente, trabalhei numa coisa que me deu prazer. Também me deixei absorver por responsabilidades adiadas. Logo eu, que não gosto de adiar nada, a não ser a hora de ir para a cama, quanto mais responsabilidades. Gabei-me muito, em idade escolar - como se não tivéssemos todos obrigação de estar em idade escolar até na véspera da nossa morte e, se possível, no próprio dia - de praticar uma espécie de preguiça inteligente: trabalhar arduamente e com a máxima rapidez para ter, depois, mais e melhor tempo livre. Funcionava assim com os trabalhos de casa para o fim-de-semana. Atirava-me aos cadernos na sexta-feira à tarde, ficava com o fim-de-semana para disparatar e só voltava à realidade na segunda-feira. Foi então que ganhei o estranho hábito de passar os domingos de pijama; muitas vezes sem chegar, sequer, a tomar banho. Ainda hoje me sabe bem. Mas apercebi-me, com o passar dos anos e com o adensar das responsabilidades, de que a preguiça inteligente é uma ilusão. Quanto mais coisas fazemos mais coisas temos para fazer. E as ideias são como as doses de cocaína: se nos surge uma, tomamos-lhe o gosto e andamos sempre à procura de mais. Sempre pensei que não conseguia ter ideias. Agora tenho algumas. Banais, medíocres, mas não faz mal. Se as concretizar bem, posso chegar com facilidade às pessoas banais e medíocres. Somos todos iguais. Gosto disso.