quarta-feira, 9 de abril de 2008

Ten thousand dollars

Há dois anos que o prémio Pulitzer para "Feauture Photography" é ganho por uma reportagem sobre um doente em fase terminal. Em 2007, Renée C. Byer seguiu um menino de dez anos com cancro. No dia em que a mãe desse rapaz soube que lhe restava muito pouco tempo de vida, decidiu deixá-lo conduzir até ao final da rua. Fiz daquela fotografia um filme e não me esqueço do que vi. Os momentos indizíveis em que a alegria profunda se confunde com o profundo sofrimento. A certeza de que se pode ser e não ser, estar e não estar, tudo ao mesmo tempo.


Neste ano, a protagonista da história vencedora, contada pela objectiva de Preston Gannaway, é uma senhora que foi internada com urgência, com uma infecção nas glândulas salivares. Pouco depois, soube que ia morrer. A legenda explicativa não me parece clara, mas suspeito de que a "infecção" fosse alguma espécie de carcinoma mortal - enfim, carcinoma ou não, mortal foi de certeza. No filme desta reportagem, o
que me ficou foi um fotograma, a aura estática de um outro movimento - o da vida-areia, a escapar-se-nos das mãos. A filha adolescente da senhora faz questão de sair à noite. O pai teme que aquela seja a última noite da mãe; não quer que a filha saia. Acaba por ceder; a filha sai. Naquela noite, a mãe morre, velada no quarto pela restante família. O fotograma que eu vi foi um que não estava lá. O que aconteceu no segundo em que aquela filha ouviu a porta de casa bater atrás de si. O segundo em que já não era possível voltar atrás. Pergunto-me se o carcinoma-arrependimento matará também aquela jovem. Pergunto-me se não é ele o mais cruel. Se as nossas decisões não são o mais cruel que, na vida, temos de enfrentar.