domingo, 11 de maio de 2008

Inveja

De todos os pecados mortais, o meu preferido é a inveja. Porque, ao contrário dos outros pecados, a inveja não requer trabalho, apenas imaginação. Não podemos ser gulosos sem ter dinheiro para comer, nem gananciosos se não nos dermos ao trabalho de arquitectar falcatruas, nem cedemos à ira sem que isso nos custe, ao menos, um ranger de dentes e um ligeiro rubor. Do mesmo modo, não há luxúria sem queda para o engate (sim, porque gente bonita não há para aí a rodos), nem preguiça sem grande força de vontade (quem, além de um corajoso, suportaria mijar-se nas calças por preguiça de se levantar?), e muito menos vaidade sem muita paciência. A inveja é, realmente, o único pecado mortal verdadeiramente preguiçoso. Tão preguiçoso que, se me é permitida a ousadia, chega a ser inocente. Se não, vejamos: a inveja é-nos frequentemente solicitada pela criatura invejada. Invejamos sempre quem, sendo melhor que nós, está mesmo a pedi-las: vá lá, põe-te no meu lugar. É tudo mais fácil quando estamos no lugar dos outros.

Banda sonora para este post: Imagination (embed disabled by request), Frank Sinatra. Melhor com Tommy Dorsey e a sua orquestra, mas não se pode ter tudo - pelo menos enquanto a pirataria não for despromovida da sua condição de pecado mortal.