quinta-feira, 15 de maio de 2008

A minha Feira do Livro

Eu cá, também gosto do sobe e desce. E das cores, umas melhores do que outras - é sempre uma surpresa: nunca sabemos qual é que nos calha, mas eu cá gosto do preto ou do cinzento escuro, pelo menos por dentro, fica mais elegante e que bela que esteve a Cotovia no ano passado. Nós, é verdade. Vivi os dois últimos anos de Feira do Livro do lado de dentro de uma das barraquinhas. Não faço publicidade? Faço. Foi na da Cavalo de Ferro onde, aposto, podem comprar, entre uma catrefa de prémios Nobel com nomes esquisitos, uma bela t-shirt, um magnífico "A Vida Sexual de Immanuel Kant" e a "Obra Gráfica Completa" de Paula Rego por um preço inacreditável - até para mim, que prefiro Magritte e frequento a Taschen, regardez les masses (é assim que se escreve?).

Não desanimem: não estarei lá este ano. Um jornal das redondezas deu-me guarida para estágio - que agradeço - e tirou-me o prazer de ver a Feira do lado de dentro, de abrir a portinhola às crianças mais curiosas e descer a encosta calcetada de quarenta em quarenta minutos para comprar nougats ou cavacas à senhora simpática que fica a meio caminho, junto ao pedaço de chão sem relva que une o lado da feira com Sol ao lado da feira com Sombra. É sempre bom ver a Feira do lado de dentro porque, na noite do último dia - geralmente, a única que sobra - se vai comprar com desconto de editor (aquela simpatia que as editoras mais antigas não gostam de fazer a quem a solicita) "O Italiano Sem Mestre", "O Alemão Sem Mestre", "O Francês Sem Mestre" e "O Espanhol Sem Mestre", bestsellers do poliglota aspirante cuja mesada não serve para dez refeições no Kentucky Fried Chicken.

A minha Feira do lado de dentro é uma confusão, como a do ano anterior em que, muitas vezes e graças a Deus, não tivemos mãos a medir e, falo por mim, deixei a ex-ministra da cultura à espera de um Collodi e de um Laxness durante dez minutos, porque às vezes o terminal multibanco e o satélite dão-se mal como se fossem o Alberto Gonçalves e um velho militante do Partido Comunista que canta de cor a "Estrela da Tarde" (era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia eu esperava por ti tu não vinhas tardavas e eu entardecia era tarde tão tarde que a boca tardando-lhe o beijo mordia quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia e na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o Sol amanhecia era tarde de mais para haver outra noite para haver outro dia). A minha Feira do lado de dentro é a feira (perdoem o critério da maiúscula - é mau, que eu sei) do cano roto que maltrata os vizinhos e nos obriga a salvar livros e caixas de cartão antes que desapareça tudo e não haja para a troca. É a feira das pessoas que perguntam se, ali, na Cavalo de Ferro, se vendem livros de equitação, a feira dos coleccionadores - como eu - que aparecem de sorriso solícito a pedinchar marcadores de livros; é a feira dos tipos que só perguntam "Tem catálogo?" e zarpam alegremente para a próxima barraca - são os mesmos todos os anos, sabe-se lá que profissão terão, talvez funcionários do Índex.

Mas a minha Feira, felizmente, não é só a que vejo do lado de dentro. É a ocasião de apontar com o dedo (para uma cadeira de plástico, que só deprime se não gostarmos de quem lá está sentado) e dizer "olh'á'li o Lobo Antunes". É a feira das noites amenas de mochila às costas, carregada, de um geladodemilsaboresdeliciosamenteartificiais servido por aquele senhor de unhas encardidas que, para chegar ao fundo do carrinho (onde, invariavelmente, está o chocolate), encosta o cone ao sovaco, e a coragem de que precisamos para não pensar naquela distracção da ASAE quando voltamos ao périplo com o gelado a derreter-se-nos entre os dedos. A minha Feira do Livro é a feira de estar tão cansado e não conseguir ver mais nada, mas não faz mal, "amanhã depois das aulas vimos outra vez". É a feira de rir de tudo, dos títulos e das conversas, mas sobretudo daquelas fotografias tétricas nas montras de alguns stands, com os grandes magos da esoteria (desculpem se sou redundante) em sorrisos hipnóticos, tão anos setenta.

A minha Feira é a feira de perder os amigos da mão e perdê-los para os alfarrabistas; saem de lá a cheirar a mofo, com romances de cordel em saquinhos de plástico de mercearia - já se sabe, uma cor só - que talvez nunca (se) venham a ler. E, claro, é a feira dos jacarandás em flor, das flores de jacarandá, alfacinhas e omnipresentes como, ultimamente, só os fiscais da EMEL sabem ser (e fazem eles muito bem). Podia falar também do que, além de livros e histórias, me tem acontecido na minha Feira do Livro: encontros, desencontros, quedas, tropeções e desgraças financeiras, que só há pouco tempo fui legalmente autorizada a entrar em casinos e, entretanto, tive de me distrair com outras imoralidades.

A Feira do Livro de Lisboa é a Feira do Livro de Lisboa e peço perdão pelo discurso ultratautológico, mas é isso mesmo. Ver tipos a andar de trotineta eléctrica na feira para anunciar um grupo editorial pequeno comparado com a Leya já foi suficientemente deprimente no ano passado e, se me permitem a opinião, foi também desleal para quem não é pindérico. A Feira do Livro de Lisboa, como tem sido até agora, é uma feira como, acredito, se fará em muito poucos lugares do mundo. É um passeio de Primavera feito para pessoas que, numa cidade com cada vez menos vida, querem passar tempo num sítio onde não estejam sós e mal iluminadas. "Temos de ir à Feira do Livro": é o que me dizem, todos os anos, as pessoas que eu conheço que , habitualmente, não compram livros. Se vão, acabam por comprar e isso é bom para todos. Cedo ao lugar-comum que também me toca e digo - atrevo-me - que a Feira do Livro é uma festa, saudável e informal, que me habituei a viver desde pequenina. Ao ar livre, sim. As livrarias são para as vontades e para as emergências, as alcatifas para os ácaros e para os hotéis dos filmes do Kubrick e as cadeiras de massagens para os funcionários da Google. Há mudanças possíveis, e muitas, para melhor. Os stands podem (e devem) ser outros - estes são exíguos para albergar a maioria dos catálogos e estão muito expostos às intempéries - e não têm, necessariamente, de ser iguais para todos. Acho que não é esta, no entanto, a boa democracia, em que a oportunidade serve apenas uns e, invariavelmente, como no chocolate, se dá o sovaco e que se lixem os outros. A Feira do Livro é, repito, para pessoas e serve para comprar e não comprar livros, se é que me faço entender. Porque os estágios, por mais simpáticos que sejam, nem sempre são remunerados.