segunda-feira, 26 de maio de 2008

Sou uma virgem literária. Suicida, ainda não, porque Correction de Thomas Bernhard está ali no canto à espera de que me passem todas as depressões. O prefácio de George Steiner resume-se a uma ideia que, para mim, não é propriamente novidade, apesar de gostar desta exposição em duas páginas (com parágrafos, ao contrário de Correction, onde o único é o primeiro e, por isso, o último): se, depois de Glenn Gould, todos os pianistas-intérpretes executam as obras de outros (Bach, sobretudo) absurda e indignamente (tirando o João Carlos Martins, mas isto são as minhas paixões a desbaratinar), depois de Wittgenstein, qualquer pessoa que fale ou, melhor, qualquer pessoa que pense, está condenada ao ridículo. «Where a Wittgenstein has passed, the grass of silliness and of verbose vanity shold not be allowed to grow again.», diz Steiner, perguntando-me de seguida, se quero faca, corda ou um frasco de ansiolíticos. Sou, pois, como dizia, uma virgem literária. Nas restantes acepções, esclareço, sou escorpião. A minha cultura literária resume-se aos livros que me prendem, por uma ou outra razão, na primeira página. Não gosto de actualidade mas, na literatura, penso jornalisticamente. O lead de Metamorfose, por exemplo, prendeu-me durante duas horas a um sofá do Colombo. Lolita deu-me das melhores semanas de júbilo que tive na vida. De resto, o meu Dostoiévski é o d'O Jogador - e reconheço a insuficiência (cardíaca, se calhar - como todas, se o coração for o mesmo que cérebro). Descobri Casares, hei-de chegar a Borges e, se o tempo o permitir e me sobrarem post-its para anotar os nomes, hei-de acabar o García Marquéz que tenho pendente. Para Camilo e Eça ainda me falta quase a vida toda, apesar e por causa da meia dúzia de livros que li dos dois. Lobo Antunes acaba para mim a partir do ano 2000, que para coisas complicadas já me basta a minha própria cabeça. De Saramago também sei pouco. Gosto de histórias de bandidos e piratas, de biografias de marginais ou desconhecidos pouco ilustres. E depois, há sempre a filosofia. Ontem, hoje e amanhã. Enfim, amanhã talvez não, que tenho uns DVDs pendentes.