sábado, 29 de março de 2008

Aniversário

Parece que este blogue hoje faz um ano. Não devia descontar da data os dias em que esteve morto?

sexta-feira, 28 de março de 2008

Pois comigo a escrita inteligente dos telemóveis não funciona.

Perdão, mas a campanha, aqui, continua.

«Nasce e cala-te», que eu quando for grande quero escrever assim. Para isso, é claro, ainda me falta nascer.

Quando fazemos amor, o amor já estava feito.

Plastica quem não pratica













Via.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Preconceito

Nunca esperei viver para ver o Público citar o Correio da Manhã.

Breve maltratado das coisas que não existem [41]

Nunca entendi a expressão fazer pouco de. Porque é que nunca ninguém faz muito de nós?

quarta-feira, 26 de março de 2008

O que nos faz falta a todos

A miúda-que-lutou-com-a-professora-para-reaver-o-telemóvel foi palerma. Por mais comprometedor que fosse o conteúdo do aparelho, a miúda-que-lutou-com-a-professora-para-reaver-o-telemóvel (parece-me óbvio que aquilo não foi uma agressão) devia ter confiado na obrigação da professora de não violar a privacidade dos seus alunos. A professora violou o direito à propriedade, tal como a aluna não cumpriu o dever de estar na aula como se está numa aula, para aprender ou, pelo menos, para não abrir o bico enquanto o professor diz coisas que não lhe interessam mas que ela, por obrigação, tem de ouvir. Uma professora que tira um telemóvel a um aluno é um caso mais comum nas escolas do que se pensa. No início da febre celular, vi bastantes professoras (não falo em professores porque, em relação a esses, parece sempre haver mais respeito) fazer algo semelhante e, nessas alturas, não as vi como vítimas. Vi pessoas desesperadas a tentar cumprir uma missão - sim, porque há muitos professores que ainda vêem a profissão como uma missão, seja ou não o caso daquela professora com quem a aluna lutou. A miúda foi palerma porque não pensou. Não me venham, por favor, dizer que é isso que, habitualmente, fazem os miúdos. Mentira: os miúdos pensam, às vezes, mais e melhor do que os outros.

Aquela miúda, além de palerma, foi mal educada. Também porque tratou a professora por tu, mas sobretudo porque a professora deve tê-la avisado um milhão de vezes para largar o telemóvel e prestar atenção à aula. Sabia que é proibido utilizar telemóveis nas aulas. Iria, com certeza, recuperar o objecto no final da aula. A professora também foi palerma. Outra, no caso dela, ao mínimo sinal de luta, entregava o telemóvel e mandava a miúda para a rua. Sei que isto é subjectivo: os professores não gostam de mandar os alunos para a rua e há muitos que, quando lhes é feito o pedido, recusam sair. Tenho curiosidade, por exemplo, de saber se o miúdo que filmava não saiu logo recambiado para casa. Foi ele, naquela sala, a maior besta que eu vi. No fundo, igual a todos nós, que vemos e revemos as imagens e, como ele, não somos capazes de deixar de fazer daquilo entretém e uma pseudo-discussão pública de valores e ideais das nossas políticas públicas. A miúda-que-lutou-com-a-professora-para-reaver-o-telemóvel não aceitou uma privação que nos faz falta a todos.

Desculpem lá, não acham que estão a exagerar?

«Ministério Público quer apurar se houve ilícito penal
26.03.2008 - 09h21 PÚBLICO»

terça-feira, 25 de março de 2008

O estagiário não remunerado

passava horas no messenger. Um dia, foi apanhado pelo chefe que lhe disse que não era para aquilo que não lhe pagavam.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Como dizia o Chico

Através do Who Links to Mea minha dose diária de narcisismo – fui parar ao blogue Janela Indiscreta de Pedro Rolo Duarte (PRD). O post que me cita identifica, a propósito de uma coisa que escrevi sobre o plágio de Ferreira Fernandes (FF), uma tendência na blogosfera: a de funcionar como “posto de vigia avançado sobre a sociedade”. No caso do meu post e daquele “Um ponto é tudo” de FF, PRD via os blogues como instrumento de fiscalização da comunicação social.

Resumindo a história, PRD sugeriu que FF teria escrito uma crónica dizendo que tinha plagiado antes de que alguém descobrisse que a tal crónica (se é que podemos chamar crónica ao exercício de brevidade celestial que FF faz, diariamente, no DN) era semelhante a uma que havia sido publicada no El País. FF respondeu a PRD: “O meu problema com aquela crónica não foi o de tentar esconder algum erro. O meu problema é que ela era banal.” Penso que, ao ler a crónica, entendi a mensagem e, por isso, escrevi que “já está tudo escrito” - conforme dizem os ventos do Norte, parece que já é assim desde a Babilónia Antiga. O plágio-crime, para mim, é esse: o da banalidade (que é também, às vezes, o da preguiça). O outro é copy/paste; não é plágio, é estupidez (que nem chega a ser preguiça).

Discordo de PRD usando a minha experiência de blogger e, sobretudo, considerando a minha experiência – muito mais credível – de leitora de blogues. Não gosto de chicos espertos. É o equivalente a dizer que não gosto de pessoas que usam os blogues para emitir opinião. Porque a opinião nem sempre é pertinência e originalidade. A opinião é a banalidade do século: toda a gente tem uma e quer, por força, exibi-la - não sou a primeira nem serei a última a dizê-lo. Também não sou excepção: muito do que digo, se não for tudo, seria absolutamente prescindível se eu não tivesse a certeza de que não estou a entrar em casa de ninguém para pregar sem pedir licença.

Discordo de PRD porque acho que, para a blogosfera, comportar-se como posto de vigia da comunicação social seria uma presunção e uma chico espertice tremenda. Tenho percebido que os blogues que lincam notícias e falam de casos mediáticos atraem mais visitas do que os outros. Falar do que se fala nos media é uma estratégia de publicidade eficaz em blogues; é por isso que não deixo de apreciar aqueles que conseguem manter-se minimamente à margem da actualidade.

Uma coisa parece evidente: é que a actualidade deixou de ser uma bengala exclusiva dos jornalistas, o que complica o desafio da criatividade para os jornalistas e o facilita para os bloggers. Nesta vertigem, e sem querer ser pessimista, parece-me que o jornalista sai mais prejudicado do que os outros intervenientes – bloggers e leitores, ou bleitores. Qualquer chico esperto comenta no blogue o que lê no jornal. E, sejamos justos, é justo que o faça. Mas, nessa vertigem – a tal – o papel de leitor perde para o papel de blogger (no caso do bleitor chico esperto). A catástrofe, para o blogger como para o jornalista, é o que mais faz render a criatividade. Escrever sobre um bom artigo ou sobre uma boa opção editorial não tem piada nenhuma e, verdade seja dita, ler ainda tem menos.

O Público, que já tinha convidado Miguel Esteves Cardoso para dizer, no jornal, o que mais odiava no jornal (passo a redundância), vai tornar tudo isto mais fácil (descobri aqui), colocando no seu site links para os blogues que citam as notícias da edição online. É justo para as duas partes e, sobretudo, muito bem pensado. Muitos bloggers vão, talvez, deixar de lincar notícias do Expresso ou do DN para lincar as do Público, que lhes dão visibilidade e retorno comercial. Como chica esperta, vibro com a ideia. Como leitora, desconfio. Se fosse jornalista, escrevia sobre o assunto.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Mestre Nhabal

À saída do metro, entregaram-me um folheto do Mestre Nhabal. Pensei que me ia oferecer os serviços do costume: resolução de problemas de dinheiro, cura de impotência sexual e males de saúde afins, resolução de conflitos judiciais e familiares, mas também profissionais e amorosos. Enganei-me. O Mestre Nhabal não é como os outros profissionais da esoteria. Realiza um serviço inédito no ramo: “afasta e aproxima pessoas amadas com rapidez”. Penso, num futuro próximo, aderir a pelo menos uma das modalidades.

Vermelho

Vinha a descer a Avenida da Liberdade e vi uma mulher. Balançava-se violentamente para a frente e para trás, sentada no banco do jardim, deixando cair e voar os cabelos arruivados. Estava frio e o meu comboio nunca esperou por mim. A senhora parecia em transe, parecia nua da cintura para baixo. Da cintura para cima, vestia vermelho. Vi-a de longe e ia-me aproximando dela porque o meu caminho era aquele e o meu comboio nunca esperou por mim. De repente, o semáforo que já tinha deixado para trás (o tal que, segundo as contas de uma recente reportagem da SIC, amadurece em 16 segundos), abriu-se à minha passagem peoa. Antes de passar para o outro lado, uma ambulância atravessou-se no caminho que se me oferecia livre. Ia com pressa, como eu, que a vida, como os comboios, não é muito paciente quando tem para onde ir.

Do outro lado da rua, sabendo que o meu comboio nunca esperou por mim, tentei ouvir o que a senhora dizia. Ia gritando umas coisas que eu não consegui entender. Parei para tentar, apesar de o meu comboio nunca ter esperado por mim. Ouvi e percebi qualquer coisa que a senhora disse; uma expressão que, no momento, me impressionou muito - a ponto de se calarem todos os meus pensamentos. O diagnóstico estava feito: a senhora era louca e, como o meu comboio nunca esperou por mim, desci a Avenida olhando, de vez em quando, para o outro lado da rua, às vezes virando a cabeça para apanhar o melhor ângulo daquele banco onde se sentava aquela senhora. Até que perdi a conta dos meus passos e perdi aquela mulher de vista. Não me lembro de nada do que ouvi daquela mulher. Não me lembro, sequer, de como era a sua voz. Se eu tivesse descido a Avenida daquele lado, se eu tivesse falado com aquela mulher, talvez o meu comboio tivesse esperado por mim. Nunca o saberei.

quinta-feira, 20 de março de 2008

O equinócio é um preguiçoso a cavalo?

E da disfunção pública, ninguém fala?

quarta-feira, 19 de março de 2008

Acabo de ver na TV e não me esqueço tão cedo

Breve maltratado das coisas que não existem [40]

- Onde fica São Vicente de Dentro?
- Fica no Piauí, no Brasil.

terça-feira, 18 de março de 2008

Jazz com Pretas [14]

Eu quero

Mexia

Algo me diz que, de ora em diante, a programação da Cinemateca vai incluir muitos filmes com gajas boas.

segunda-feira, 17 de março de 2008

De cada vez que vou à vida deixo a vida para trás. E vivo nos intervalos da vida, que não sou mais que ninguém.

Andam a roubar padarias na zona onde moro. Será pelos brioches?

Uma pessoa

«Sente muita responsabilidade em ser o representante do Papa numa das nunciaturas mais importantes do mundo?
Bem, eu procurei sempre fazer o melhor que posso o meu dever, tentando agradar só a uma pessoa, que é ao Senhor.»

Entrevista a D. Manuel Monteiro de Castro, embaixador do Vaticano em Madrid, por Pedro Ivo Carvalho, na NS' de 15 de Março de 2008 (página 23)

Ponham lá o Zapatero a falar português...

Hoje recebi boleia de uma pessoa que, quando lhe perguntei onde morava, mudou o trajecto para me mostrar a sua casa. Pouco antes, a pessoa que me deu boleia tinha, em caminho, dado boleia a uma outra pessoa que nos fez subir até ao seu apartamento para no-lo mostrar com a afeição de um familiar e o pormenor de um mediador imobiliário. Ainda antes disto, rejeitei um convite para "ficar para jantar" e desprezei a cerimónia para aceitar "pelo menos uma bolacha" antes de sair. Gosto de pessoas.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Ou

quinta-feira, 13 de março de 2008

Eliot Spitzer

A questão é velha e simples: Eliot Spitzer era um bom Governador? Não sei. Fez carreira, segundo o New York Times, a perseguir gente corrupta e, até, algumas redes de prostituição. Estava metido numa, era o cliente número nove. O que deve à coerência um moralista que vai às putas? Nada. E o que deve ao carácter? Só Deus sabe. O que deve à sua mulher? Ela é que saberá do teor do compromisso. Não me importo nada com a incoerência ou com a falta de carácter, até lhes acho piada. Penso, por isso, que Spitzer foi um homem honrado. Mais honrado do que aquele Bill Clinton para quem receber sexo oral (se admitirmos que quem o faz não recebe nada, uma ideia que eu não acarinho de todo) não era ter relações sexuais com Monica Lewinsky. Spitzer ganha porque disse a verdade (repare que repórter do NYTimes se chama Nicholas Confessore, não podia ser mais oportuno).

quarta-feira, 12 de março de 2008

Cuidados paliativos

Se eu fosse linda já ninguém reparava em como sou burra.

Medicina preventiva

Vou escrever as minhas memórias enquanto ainda me lembro delas.

Há coisas que eu devia guardar para mim para impressionar alguém um dia, mas dou-vos tudo.

Z

Quando Ferreira Fernandes plagia é porque já está tudo escrito e, naturalmente, a culpa não é dele.

domingo, 9 de março de 2008

A diferença entre ser e estar, que já fez correr tanta tinta no mundo, é a mesma que há entre estar e não estar. Ser é não estar, estar é estar e, às vezes, não ser.

O Festival Eurovisão da Canção é uma miséria.

Quantos instrumentos?

O senhor moçambicano da escola de música na Almirante Reis que a SIC entrevistou no Jornal da Noite (em reportagem) deve, com certeza, ter ido à tal palestra sobre carisma. Toca guitarra, saxofone, acordeão, piano, bateria e, ao fim-de-semana, arreda o quadro da sala de aula e sobe ao seu púlpito de pastor evangélico.

sábado, 8 de março de 2008

Fui fazer a cobertura terapêutica da manifestação de professores. Impressionante. A dada altura, na Rua Áurea, fotografei um professor com um cartaz que dizia "Não sou comunista, sou professor". A fotografia ficou desfocada. Andei mais um pouco e vi Daniel Oliveira com cara de caso. Terá visto o cartaz?

Vasco Valente

«Se o ensino superior for de facto excelente (e não o travesti que por aí vegeta) e se tiver inteira liberdade de seleccionar alunos (como agora não tem), os professores ficarão com um objectivo, o de preparar as crianças para o ensino superior, que os distinguirá entre si, sem regras de espécie alguma; e que tornará o seu trabalho pessoalmente mais compensador, interessante e útil. Desde o princípio que o Estado democrático não compreendeu esta evidência. Começou as reformas por baixo e não por cima. Aturou sem vergonha os mercenários que exploravam a universidade. E de repente quer que os professores paguem a conta do desastre. Não é admissível.»

Pelos Professores, hoje, na última página do Público.

Porque Cesariny manda «rir de tudo»

Quando não nos rimos das piadas dos outros, tendemos a achar que foi o sentido de humor deles que falhou. Habitualmente, é o nosso que falha.

sexta-feira, 7 de março de 2008

O peido é a ironia do intestino.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Exercício piroso, ultra-rápido, para a amiga-luz

Não penses
que não reparei em ti.
Triste e linda.
Não.
Linda e triste,
que mulher linda que não seja triste
é um bicho que eu nunca vi.

(estrofe anterior publicada com os agradecimentos da Royal Geographic Society)

Quis dar-te o meu ombro,
livrar-te da adversidade,
mas estava presa no escombro
da puta da realidade.

(estrofe anterior seleccionada para a segunda parte da marcha popular de Marvila do ano de 2009)

E depois, e depois?
Morreram os bois,
ficaram as vacas,
e eu,
diligente,
lá higienizei as minhas cloacas.
Deixei-te ir, pois foi,
no teu charme-blazer escuro.
Quando me livrei do docente,
quis-te toda contente,
mas já não soube trepar o muro.

(estrofe anterior com o apoio técnico da ETAR de Almargem do Bispo)


Perdi a cama do teu abraço,
para a cama da estupidez.
O assunto que me fez distante,
imagina/assassina(-me),
é qualquer coisa que eu vou boicotar.
Não,
não são rotinas,
são propinas.
Números omnipresentes,
condições deficientes
da esterqueira onde nos fomos amar.

(estrofe anterior de elevado conteúdo académico-contestatário; pode ferir susceptibilidades)

No fundo
(cava cava coveiro),
sabes que te abracei menos
porque o mais que tudo não podia ser ali.
Hei-de compensar-te, amiga-luz,
pelo tempo que te perdi.

(estrofe anterior solidária com os cadáveres do cemitério de Carnide)

O Bíquo

Mestre na arte da omnipresença, fez o que sabia melhor: abraçou-a com o pensamento. Depois, não se aguentou mais.

Chove. É lindo.

Ciências Sociais

Ser positivista já deu o que tinha a dar. Não volto a utilizar o método científico no luminoso projecto da abolição da metalinguagem bloguística. Agradeço muito a quem comentou, mas isto com comentários é cacoso.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Post com a tacha arreganhada (r dá para riso e dá para raiva)

Odeio quando elas fazem isto.

Patrocinado por 3M Post-it


































Descoberto aqui, o writing room de Will Self em 360º.

Numa loja do meu bairro, Elephant em DVD a 3,90€. Porreiro, pá!

Um leitor pede-me que escreva mais sobre Wittgenstein. Não entendeu nada. Eu também não.

José Pacheco Pereira é director do Público por um dia. Não lhe bastava ser abrupto?

Cabeçalho

Sou assim, instável como um barril de nitroglicerina.

terça-feira, 4 de março de 2008

Para ser presidente não basta ser esperto; é preciso ser preto.

Balbúrdia no Oeste, um filme de Mel Brooks, apareceu em 1974 para abalar sabe-se lá o quê, ainda nós, portugueses, dávamos os nossos primeiros passinhos no andarilho da democracia. Na cena de abertura do filme, um preto responde à letra a um desafio dos seus capatazes brancos. Enquanto trabalha na construção de um caminho-de-ferro com outros pretos, os brancos pedem-lhe que lhes cante uma "canção de pretos" (melhor, de escravos, "a good old nigger work song"); o preto não hesita e arranca um «I get a kick out of you» de fazer inveja a Nat King Cole, com os colegas de jornada em coro idílico, que acabam por acompanhar a segunda estrofe num swing tão anacrónico quanto a escolha da canção em causa.

Alvin Toffler disse a Mário Crespo que ia votar com a sua mulher, Heidi (felizmente, ainda há casais que cultivam a mútua confiança), em Barack Obama, porque «um presidente dos EUA preto leva uma mensagem ao mundo». Parece-me que teria gasto menos palavras se dissesse que vai votar em Obama por Obama ser preto. No filme de Mel Brooks, o preto dá uma marretada na cabeça de um dos capatazes e é condenado à forca; o juiz que o condenou acaba por precisar dele para xerife. Vai desviar as atenções da cidade por onde vai passar o caminho-de-ferro da própria construção do caminho-de-ferro que, como qualquer incineradora de resíduos tóxicos, não interessa à conservação da pacatez daquele lugar. Barack Obama é o xerife preto de Balbúrdia no Oeste. Porque é preto, tornamo-lo presidente; depois, vemos se é competente. O preto de Mel Brooks era esperto, mas não foi isso que o tornou xerife. Obama também me parece esperto e, se o mundo não estiver perdido, haverá quem vote nele por isso.


Inspirações:
Entrevista de Alvin Toffler a Mário Crespo na SIC Notícias
Um Obama à portuguesa para a mesa cinco
Projecto de vida:
Ser o Ferreira Fernandes.
A cena de abertura de Blazing Saddles:

segunda-feira, 3 de março de 2008

Metalinguagem (outra vez, sem emenda)

Googlei-me agora e descobri que há quem pense que escrevo modernices um pouco forçadas. Isto porque lhe faz confusão «o vernaculismo ou palavrão metido à força só para "ser" descontraído ou "moderno" ou "libertário", pondo-se nas tintas para a sensibilidade do leitor», o que, parece, lembra «os piores tempos da revista à portuguesa do depois do 25/4 em que a ideia era "temos que meter palavrões se não não somos livres"»

Gosto genuinamente de palavrões. Admito que a assunção do gosto (e, quem sabe, até o próprio gosto) seja rara e que o uso de palavrões possa ser desconcertante para a sensibilidade de um ou outro leitor. Mas, repare, caro leitor, se o leitor não gosta do palavrão, então o leitor não é leitor. Porque eu vejo no leitor, em o leitor, um criminoso reincidente. Se volta cá, volta consciente de que pode voltar a ler um palavrão. Mas o que é importante, o que vim aqui dizer, é que eu gosto genuinamente do palavrão e isso o leitor, o verdadeiro, já deverá ter entendido. Gosto do palavrão sintomático, sintagmático, do palavrão-música, do palavrão-foco de reflexão literária, filosófica, geográfica. Não pense, caro leitor, que digo palavrões o dia todo. Não os digo e não me esforço para não os dizer. Pense, se quiser, que os penso. E penso. Também penso que o verdadeiro desafio literário está em procurar a alternativa ao palavrão, e não no palavrão em si. Nem sempre, com a alternativa, se pode concretizar o literário.

Às vezes, o literário é o real, porque o real soa demasiado literário para ser esquecido - é, de resto, o que costumamos fazer com ele. O que é que aquela personagem diria naquela situação? Co'a breca, c'um caralho? Tanto me faz. Sobretudo porque o que eu escrevo acaba onde começa a literatura e começa onde acaba o real. O que eu escrevo não é literatura e não é real. Aqui, eu escrevo-me; identifico-me (passei a identificar-me) por uma questão imoral de responsabilidade civil. Quero responsabilizar-me pelos palavrões que digo, sociabilizar-me por capricho e não por osmose. Na maior parte das vezes, isto de me escrever é uma seca para quem lê (e também para mim). Mas há quem leia. Isto não é um jornal, não é um livro; não é nada. Seria alguma coisa se eu, aqui, manifestasse opiniões. Tudo o que digo aqui que se pareça com uma opinião não é mais do que uma provocação que, na maioria das vezes, não funciona.

De acordo com as estatísticas, apenas 5% dos meus leitores concorda com alguma coisa que eu digo ou que alguma vez tenha dito. Isso corresponde ao dedo grande do pé do meu pai. Atravesso a passadeira só quando está verde e até já pago impostos. Nunca saio sem pagar a conta e levanto-me para a grávida se sentar no comboio, mesmo se, ao meu lado, estiver um marmanjo de 14 anos. Sei vagamente o que foi o 25/4. Não preciso de palavrões para ser livre. Não sou livre e já me conformei com isso. E não conheço ninguém tão livre que, de vez em quando, não se foda por isso.

(Muito obrigada, adoro quando puxam por mim.)

O Rufino foi das melhores coisas que aconteceram à blogosfera nos últimos 30 anos.

«Would you like my hips to hipsnotize you?»

O homem que matou Liberty Valance é,

em português do Brasil, O homem que matou o facínora. Os títulos com a palavra facínora ganham sempre alguma coisa em relação ao original.

Um vez, ouvi Joaquim de Almeida dizer na televisão que «o arrependimento é uma perda de tempo». Adoro a expressão, mas Joaquim de Almeida não me parece uma referência credível. É por isso que, sempre que digo que «o arrependimento é uma perda de tempo», estou a citar John Wayne.

Chico Buarque - epifania

A Ana de Amsterdam é o JP Simões.

Os senhores que estão ali a falar no National Geographic Channel preferem a liofilização à taxidermia convencional. Concordo em absoluto.

O que fiz com isto (a metalinguagem não é bem vinda) era o que me apetecia ter feito com a vida. Desaparecer uns tempos deixando só algumas penas a nenhumas tragédias. No Público.pt, um anónimo diz isto assim a propósito da morte de Maria Gabriela Llansol: «Eu gostava muito da escritora, e li muitos dos seus livros. Acho que foi uma grande perda para o nosso país. Acho... Um grande abraço a Maria do seu colega john. Fica bem.» Fica bem. Fica bem? Se eu fosse MGL ressuscitava, só para chatear o meu colega john. Quem lhe diz, sobretudo, que na morte se fica?

Autobiografia

Passo a vida a cumprir desordens superiores.

«libido scribendi»

Maria Gabriela Llansol é semiótica pura. Para mim, só com água, gelo e uma rodela de limão.

Música para os meus ouvidos

«Wovon man nicht sprechen kann, darüber muß man schweigen.»

Mudemos de assunto, então.

Não faça perguntas,

caro leitor. Faça de conta.

Cúmulo do palimpsesto

Escrever os epitáfios a lápis.

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