terça-feira, 29 de abril de 2008

«ONU discute em Berna crise alimentar mundial»

Eh pá, ainda bem que me avisam. Amanhã não vou às aulas.

Porque sou contra o Acordo Ortográfico

Porque também sou contra a diplomacia. E porque ereto não me dá tesão.

O autodidacta

nunca desperdiça nada de mau que a vida lhe possa dar.

Um dia, houve uma pessoa que me disse: «Tu hás-de ter sempre aquilo que queres.» Obviamente, a pessoa não fazia ideia daquilo que eu queria; nem considerou, segundo parece, que eu pudesse estar na mesma situação.

Há três ou quatro coisas que eu abomino. Uma delas, sou eu. As outras são o incesto, a pedofilia e a caldeirada de peixe.

O que mais me assusta na morte é imaginar que, por algum motivo socialmente incontestável, vou estar acompanhada quando ela me surgir. Odeio festas.

A morte faz-me lembrar o meu primeiro exame de condução: fui a segunda a chumbar. Para a analogia ficar certa, só me resta dizer que já vi mais gente morrer antes de mim.

Um mau empreiteiro permite que sintamos, nas escadas do prédio e ao fim de um dia de trabalho muito cansativo, o cheiro do jantar dos nossos vizinhos. Deus mostra-nos objectos que não podemos ter, sítios onde nunca vamos estar, amores que não podemos viver. No fundo, a vida é como uma prova de vinhos: aperfeiçoa-nos os sentidos para distinguirmos o que é bom do que não presta. E deixa-nos concluir que, se a provássemos toda, não chegávamos ao fim pelo nosso próprio pé.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Impossível

Jogar Free Cell sem free cells.

Os livros em Portugal voltam a estar na moda. Más notícias para a Renova.

O Público trazia hoje na primeira página o seguinte título: "Sequestrou filha durante 24 anos e fez sete netos". Sei que poderia ter visto este título no Correio da Manhã, se bem que, para simplificar, talvez os jornalistas do tablóide tivessem ignorado a segunda linha de parentesco.

Se John Cleese parece representar-se sempre a si mesmo, Prunella Scales tem de ser uma grande actriz para, não se representando a si mesma, representar a mulher mais irritante do mundo: Sybil Fawlty.

Querido Manuel

No sítio onde trabalho, tenho reparado que as mulheres nunca lavam as mãos antes de sair do WC. Nunca gostei de ambientalistas.

Tenho 106 e-mails pessoais para ler e já arrumei os importantes. Comprei uma escova de dentes que cheira a Gorila de mentol e, aparentemente, o café já não me faz mal. Não dou esmolas. Alguns dos e-mails que recebo são de um bar de putas na Póvoa de Varzim. Não gosto do layout do meu blogue. Não tenho tempo para os meus amigos. Dei cabo de um frasco de manteiga de amendoim no domingo, com mini-tostas de acepipes. Apetece-me comida indiana. Ou um Toffee Crisp. Ofereceram-me o novo CD do Fausto e fiquei muito contente. Tenho vários abraços e um presente de aniversário para dar (se bem que nos abraços nunca sei se, ao dar, não sou eu que recebo mais). Devo telefonemas, organizações de programas, dedos de conversa. Não tenho lá muito dinheiro. Encontrei uma loja que vende uma Nikon F, sim, daquelas de 1959 - estava fechada, vou lá amanhã. Estive quase para comprar, na Feira da Ladra, uma câmara Super8, com gravação sonora!, mas depois reconsiderei. Como disse, não tenho lá muito dinheiro. Tirei a guitarra do armário e, apesar de ainda não tocar nada, sei que está muito desafinada. Não me apetece trabalhar. Preciso de ler uma boa biografia. Se pudesse, reconsiderava todos os passos da minha vida. Mas, como ouvi dizer uma vez o Joaquim de Almeida, o arrependimento é uma perda de tempo. Não sou feliz, mas gosto de utopias. De vez em quando, com Bossa Nova e ginger ale a acompanhar.

de Viena

Quando não entendo o significado do silêncio, não pergunto. Tenho um certo talento para resistir à humilhação. O método chama-se gestão sustentada da ignorância. Não é bom nem inédito. Mas um nome pomposo fá-lo parecer importante. Ou ridículo. Ou.

Justificação III

Que merdas foram estas que acabei de dizer? Foda-se, nem parece meu.

Justificação II

Não tenho postado porque, finalmente, trabalhei numa coisa que me deu prazer. Também me deixei absorver por responsabilidades adiadas. Logo eu, que não gosto de adiar nada, a não ser a hora de ir para a cama, quanto mais responsabilidades. Gabei-me muito, em idade escolar - como se não tivéssemos todos obrigação de estar em idade escolar até na véspera da nossa morte e, se possível, no próprio dia - de praticar uma espécie de preguiça inteligente: trabalhar arduamente e com a máxima rapidez para ter, depois, mais e melhor tempo livre. Funcionava assim com os trabalhos de casa para o fim-de-semana. Atirava-me aos cadernos na sexta-feira à tarde, ficava com o fim-de-semana para disparatar e só voltava à realidade na segunda-feira. Foi então que ganhei o estranho hábito de passar os domingos de pijama; muitas vezes sem chegar, sequer, a tomar banho. Ainda hoje me sabe bem. Mas apercebi-me, com o passar dos anos e com o adensar das responsabilidades, de que a preguiça inteligente é uma ilusão. Quanto mais coisas fazemos mais coisas temos para fazer. E as ideias são como as doses de cocaína: se nos surge uma, tomamos-lhe o gosto e andamos sempre à procura de mais. Sempre pensei que não conseguia ter ideias. Agora tenho algumas. Banais, medíocres, mas não faz mal. Se as concretizar bem, posso chegar com facilidade às pessoas banais e medíocres. Somos todos iguais. Gosto disso.

Justificação

Tenho estado alheada por motivos alheios à minha pessoa.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

terça-feira, 22 de abril de 2008

¨ ¨ ¨ ¨ ¨ ¨ ¨ ¨

sábado, 19 de abril de 2008

Perdi isto perdi isto perdi isto perdi isto perdi isto perdi isto perdi isto perdi isto perdi isto

Oh não, perdi isto. Isto:





Isto é, Emir Kusturica, mas em bom.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Dou-me conta de que pareço straight edge; não sou. Estou viciada nisto:

sXe

«Straight Edge (abreviado para sXe ou SxE) é um modo de vida associado a música Punk/Hardcore. Ele defende a total e perene abstinência em relação ao tabaco, álcool e as chamadas drogas ilícitas. Algumas pessoas tendem a associá-lo a vida sexual regrada, sem promiscuidade, mas isto não faz parte do foco inicial.»

A rapariga straight edge

nunca podia aproximar-se de um rapaz pedindo-lhe lume.

O rapaz straight edge

nunca engatava uma miúda perguntando-lhe "posso pagar-te uma bebida?".

Há coisas que a Língua Portuguesa não tem

Por exemplo, a palavra nightingale.

Somewhere in space I hang suspended

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Vício

álogo

- Tu consegues, eu tenho confiança em ti.
- Eu não.

Deves odiar não apenas as pessoas que conhecem mais palavras do que tu, mas sobretudo as que usam melhor do que tu as únicas palavras que conheces.

Irrita-me muito ver as minhas private jokes na boca dos outros. Como se fossem, como se pudessem ter sido partilhadas por aqueles com quem eu as partilhava antes. Vez por outra, decido que não volto a rir. Também me aborrece muito não conseguir cumprir promessas. E não mandar no destino. Ou seja, não mandar em nada.

lembrete incómodo

Primeiro a má notícia: a omissão de auxílio dá direito - salvo seja - a condenação. O crime de omissão de auxílio parece-me mais ou menos equivalente a um outro que raramente envolve condenação, o de filha-da-putice. A boa notícia é que, como na filha-da-putice, a pena pela omissão de auxílio também já pode, finalmente, ser cumprida em casa.

sábado, 12 de abril de 2008

Preciso de um(a) professor(a) de guitarra. Estou a falar a sério. Para ser assim.

Enfim, para não me aborrecer tanto com os acordes maiores e menores.

Projecto de vida

Livrar-me da minha raciosina.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Ten thousand dollars

Há dois anos que o prémio Pulitzer para "Feauture Photography" é ganho por uma reportagem sobre um doente em fase terminal. Em 2007, Renée C. Byer seguiu um menino de dez anos com cancro. No dia em que a mãe desse rapaz soube que lhe restava muito pouco tempo de vida, decidiu deixá-lo conduzir até ao final da rua. Fiz daquela fotografia um filme e não me esqueço do que vi. Os momentos indizíveis em que a alegria profunda se confunde com o profundo sofrimento. A certeza de que se pode ser e não ser, estar e não estar, tudo ao mesmo tempo.


Neste ano, a protagonista da história vencedora, contada pela objectiva de Preston Gannaway, é uma senhora que foi internada com urgência, com uma infecção nas glândulas salivares. Pouco depois, soube que ia morrer. A legenda explicativa não me parece clara, mas suspeito de que a "infecção" fosse alguma espécie de carcinoma mortal - enfim, carcinoma ou não, mortal foi de certeza. No filme desta reportagem, o
que me ficou foi um fotograma, a aura estática de um outro movimento - o da vida-areia, a escapar-se-nos das mãos. A filha adolescente da senhora faz questão de sair à noite. O pai teme que aquela seja a última noite da mãe; não quer que a filha saia. Acaba por ceder; a filha sai. Naquela noite, a mãe morre, velada no quarto pela restante família. O fotograma que eu vi foi um que não estava lá. O que aconteceu no segundo em que aquela filha ouviu a porta de casa bater atrás de si. O segundo em que já não era possível voltar atrás. Pergunto-me se o carcinoma-arrependimento matará também aquela jovem. Pergunto-me se não é ele o mais cruel. Se as nossas decisões não são o mais cruel que, na vida, temos de enfrentar.



Esclarecimento

Eu é que sou o drama em gente.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Estes cabrões fazem isto sentados.

Já devia estar na cama. Acontece que o dever é uma puta e esta transcrição fonética é impagável. Votei Woolf, pelo ar submisso. Costumam ser as piores.

Microdiálogo apaixonado para um melodrama de Douglas Sirk

- You men are all the same.
- Allow me to disagree, sweetheart. There are only two kinds of men in this world.
- Then what kind of man are you?
- The wrong kind.

(Ia jurar que já ouvi isto nalgum lado. Mas, até ver, os direitos são meus.)

Post para dizer muito rápido e clicar no primeiro link de saída que aparecer à frente

- O seu cão morgue?
- Claro, é um Peter O'Toole.

Uísque

O senhor Bandeira consegue usar, no mesmo post, as palavras potestades, nenhures, pestilência, retesado, raposa e anexo. Ah, e também morgue.

Uso sempre as mesmas palavras. Sinto-me usada.

Anatomia da saudade














Vês? Este tem mais vida do que cor. Convalesce nele, abandona a palidez do pensamento. Faz.

Contra-relógio

«Este «acontecimento» é um facto. E o que é um facto? Um telegrama das agências de notícias.
(...)
Mas voltemos a Carlos, o nosso homem da linha de Sintra. É a primeira vez que se fala dele. No entanto, tem uma história. Estava prestes a celebrar o seu 48º aniversário. Uns dias antes, pelas 6 horas da manhã, postara-se no cais. Não havia passageiros. Inclinou-se para ver as luzes da locomotiva. Depois, depois
passou a ser um facto
.»

Detenho-me na parte daquele post que não é sobre a vida - isto é, na parte daquele post que não está escrita. Sou contra a uniformização noticiosa, que é bandeira frequente das agências de notícias. A uniformização noticiosa é parte de um flagelo global que, por medo da teoria, não me atrevo a baptizar de uniformização geral. Mas é.

Não gosto de factos e quem escreveu aquele post tocou no cerne desta minha urticária (salvo seja). As boas notícias - e, no fundo, tudo o que na vida é bom e, sendo bom, é útil (passo o platonismo) - são aquelas que não nos esquecem. Não são aquelas em que nós estamos, não é isso que quero dizer. As boas notícias são aquelas que, num ou noutro momento, se lembram de nós e nos agarram. O jogo, no fundo, é esse. São as notícias que nos agarram. Acho que a boa notícia não é, apenas, mérito de quem a protagoniza. É muito mérito de quem a escreve. E é, acima de tudo, o mérito de quem a lê; de quem se sujeita a ser lembrado, magnetizado de novo pela boa notícia, quando menos espera.

Os leitores compulsivos de notícias estão, sobretudo, à procura de boas notícias. A vida, já de si monótona (e de mim, e de todos nós), vai-se monotonizando. O azul, na vida, em vez de se esbater como numa camisola ao sol durante dias a fio, torna-se tão azul que nunca, mesmo para um daltónico, poderá deixar de ser azul. O desafio da boa notícia é colorir o real. A boa notícia realiza o real e, nesse sentido, tudo o que é azul passa também a ser mais azul. Só que esse azul passa a coexistir com o branco, o preto ou o amarelo.

Neste momento, e para mim, o Carlos não é um facto. Porque sinto uma certa bondade, uma beleza e uma utilidade nas luzes de um comboio que venha na minha direcção. Talvez amanhã, se aquele post nunca tivesse sido escrito, o Carlos voltasse a ser um facto para mim, porque as melhores notícias de suicídios que li foram aquelas em que o suicídio não chegou a acontecer. Celebro a vida. Só aprecio a inexistência daqueles que nunca chegaram a nascer (e, é claro, dos grandes filhos da puta); é por isso que, muitas vezes, em vez de colocar a corda ao pescoço, desejo nunca ter existido (infelizmente nunca o desejei o suficiente para me convencer de que era invisível).

Se calhar essas boas notícias não são boas pela competência de quem as escreveu, nem pela qualidade dos seus protagonistas e, muito menos, pelas características de quem as lê e do tipo de leitura que faz quem as lê (atenta, interessada, obrigada, diagonal, oportunista - para avançar uma pequena tipologia dos leitores de notícias). Se calhar, estas notícias são boas porque nunca serão factos. E nunca serão factos porque não é atrás delas que as agências de notícias vão. Não há, no suicida falhado, carvão para a locomotiva essencial do trabalho de uma agência noticiosa: a sua vocação matemática, estatística, factual. Um tipo que tentou matar-se e não conseguiu não existe, é igual a todos nós que, querendo morrer, nunca nos matámos. A todos nós que, querendo viver, nunca nos dignámos a fazê-lo para todo o sempre.

56

O porco agridoce é uma mentira. Porque há sempre uma parte do tempero que prevalece. Ou do próprio porco.

Sou hipócrita. Por isso é que nada me sabe pior do que o fundamento.

As pessoas que eu não sei enganar são as minhas preferidas. São também elas que me ensinam mais. O erro não ilumina por si próprio, é preciso haver quem carregue no interruptor.

Acho digno o princípio de que ninguém escreveria um livro que não fosse capaz de ler. Este blogue não é, portanto, digno.

sábado, 5 de abril de 2008

Revisão constitucional

Há, no mundo, apenas dois tipos de pessoas: umas e outras.

Estou convicta de que há pessoas que vão aos blogues dos outros para os verem falar mal de si próprios. Como vêem, sou uma dessas pessoas. De outro modo, não estaria a considerar a possibilidade de o caro leitor vir cá para me ver fazer o mesmo.

Gostava de ser fotogénica, mas nem os halogenetos de prata gostam de mim.

No dia em que nos entendermos, eu e eu, o diálogo que ainda não acabou connosco há-de acabar-se. Nesse dia, pelo menos, saberei o que fazer. Calar-me é apenas uma das hipóteses.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Fundamentalismos

Só gostar de letras serifadíssimas.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Vou ficar adepta da transmissão de funerais online. Posso, finalmente, acompanhar alguém à sua última morada com o mesmo esforço que faria para assistir a um travelling de Manoel de Oliveira, sentada no sofá.

Não gosto da Ana de Amsterdam e nem saberia enunciar muitos motivos para isso, o que não me impede, num ou noutro momento de loucura, de concordar com o que diz. Nunca, isso é sagrado, concordar com o modo como diz. Portugal não merece o Fausto (que é sempre um bom motivo de harmonia entre as gentes), mas o Alentejo não pertence a ninguém. Enfim, talvez ao Grande Sacana.

Tendo, com alguma facilidade, a desvincular-me de todas as actividades que requerem certa disciplina. Não tarda, morrerei. E, daí, talvez acabe por viver.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Breve maltratado das coisas que não existem [42]

Sinto-me expropriada se alguém me diz que tem saudades minhas.

Família

Aborrece-me a família fóssil, instituída, tragédia consumada da nossa sociedade. Gosto, no entanto, da ideia de família. Gosto de imaginar a família, de lhe dar, nos limites do meu pensamento, a graça, a estranheza e o carácter que singulariza, por exemplo, as famílias da literatura. Queria, por exemplo, que a minha avó, em vez de ver novelas e ouvir todos os dias o mesmo disco do Pavarotti, fosse viciada no jogo. Há boas histórias de família que não são, necessariamente, as da minha família. Gosto de ouvir histórias de família porque as histórias de família são, quase invariavelmente, histórias de guerra; com uma diferença: na família não há heróis e, sem conformidade, a única solução é o degredo.