sexta-feira, 30 de maio de 2008

«E assim sucessivamente.»

«Queriam telenovela, era?»

«Tudo consiste na perfeita adstringência entre a bola e a boca da bolacha, de molde a que esta não se esborrache.»*



*A Comédia de Deus, João César Monteiro

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Começamos a ver os cortes orçamentais nas empresas quando, nas casas-de-banho, o sabonete líquido tem mais água do que o rio Mondego.

terça-feira, 27 de maio de 2008

No dia em que verde não significar avançar terei morrido mais um bocadinho.

Falar de coisas concretas, acredito, dá-me credibilidade. Na cripta sinto-me claustrofóbica.

Fiz o teste.

What philosophy do you follow? (v1.03)
You scored as a Existentialist.
Your life is guided by the concept of Existentialism: You choose the meaning and purpose of your life.

“Man is condemned to be free; because once thrown into the world, he is responsible for everything he does.”
“It is up to you to give [life] a meaning.”
Jean-Paul Sartre

“It is man's natural sickness to believe that he possesses the Truth.”
Blaise Pascal

Existentialism

75%
Nihilism

70%
Justice (Fairness)

65%
Hedonism

60%
Utilitarianism

40%
Kantianism

40%
Divine Command

35%
Apathy

15%
Strong Egoism

10%

Com que então eu sou isto? Hein?

O astrónomo popular

Do optimismo

«Voltaste a esse mundo donde viemos e colhes o fruto de teus estudos terrestres. Aos nossos pés dorme o teu envoltório, extinguiu-se o teu cérebro, fecharam-se-te os olhos para não mais se abrirem, não mais ouvida será a tua palavra... Sabemos que todos havemos de mergulhar nesse mesmo último sono, de volver a essa mesma inércia, a esse mesmo pó. Mas, não é nesse envoltório que pomos a nossa glória e a nossa esperança. Tomba o corpo, a alma permanece e retorna ao Espaço. Encontrar-nos-emos num mundo melhor e no céu imenso onde usaremos das nossas mais preciosas faculdades, onde continuaremos os estudos para cujo desenvolvimento a Terra é teatro por demais acanhado. (...) Até à vista, meu caro Allan Kardec, até à vista!»

Discurso pronunciado junto ao túmulo de Allan Kardec por Camille Flammarion.
Wikipedia, ipsis verbis.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Sou uma virgem literária. Suicida, ainda não, porque Correction de Thomas Bernhard está ali no canto à espera de que me passem todas as depressões. O prefácio de George Steiner resume-se a uma ideia que, para mim, não é propriamente novidade, apesar de gostar desta exposição em duas páginas (com parágrafos, ao contrário de Correction, onde o único é o primeiro e, por isso, o último): se, depois de Glenn Gould, todos os pianistas-intérpretes executam as obras de outros (Bach, sobretudo) absurda e indignamente (tirando o João Carlos Martins, mas isto são as minhas paixões a desbaratinar), depois de Wittgenstein, qualquer pessoa que fale ou, melhor, qualquer pessoa que pense, está condenada ao ridículo. «Where a Wittgenstein has passed, the grass of silliness and of verbose vanity shold not be allowed to grow again.», diz Steiner, perguntando-me de seguida, se quero faca, corda ou um frasco de ansiolíticos. Sou, pois, como dizia, uma virgem literária. Nas restantes acepções, esclareço, sou escorpião. A minha cultura literária resume-se aos livros que me prendem, por uma ou outra razão, na primeira página. Não gosto de actualidade mas, na literatura, penso jornalisticamente. O lead de Metamorfose, por exemplo, prendeu-me durante duas horas a um sofá do Colombo. Lolita deu-me das melhores semanas de júbilo que tive na vida. De resto, o meu Dostoiévski é o d'O Jogador - e reconheço a insuficiência (cardíaca, se calhar - como todas, se o coração for o mesmo que cérebro). Descobri Casares, hei-de chegar a Borges e, se o tempo o permitir e me sobrarem post-its para anotar os nomes, hei-de acabar o García Marquéz que tenho pendente. Para Camilo e Eça ainda me falta quase a vida toda, apesar e por causa da meia dúzia de livros que li dos dois. Lobo Antunes acaba para mim a partir do ano 2000, que para coisas complicadas já me basta a minha própria cabeça. De Saramago também sei pouco. Gosto de histórias de bandidos e piratas, de biografias de marginais ou desconhecidos pouco ilustres. E depois, há sempre a filosofia. Ontem, hoje e amanhã. Enfim, amanhã talvez não, que tenho uns DVDs pendentes.

Breve maltratrado das coisas que não existem [43]

Dizer "o que eu disse entrou-lhe por um ouvido e saiu pelo outro" é uma hipótese demasiado generosa para interpretar as pessoas sobre quem, em geral, se tece este tipo de comentário. Normalmente, a coisa perde-se mesmo é pelo meio. A evidência é, de igual modo, aplicável a todos os pugilistas (melómanos ou não) que alguma vez tenham combatido com Mike Tyson. Se todos for exagero, tenham em conta o risco, por vossos conta e risco.

Marketing bioliterário

Se acha que o seu coração lhe dá demasiado trabalho e, por isso, que é demais para um polvo ter três corações, desengane-se. Por acaso o leitor tem oito braços? Se sim, escreva-me: estou a montar um freak show em tenda semelhante às da Praça Leya. Serei, naturalmente, a atracção principal e, se o tempo o permitir, calçarei luvas brancas para, com elegância, levar o apito à boca. O apito, sim.

"O que é o amor?"

Nos últimos dias - muitos dias, enfim - tenho estado sempre triste. Só uma guitarra exótica que vinha a ouvir hoje no leitor de mp3 me animou um bocadinho o jeito balançante de subir as escadas rolantes. A música tem destas coisas. Mexe-nos nos interstícios e, num momento, põe-nos a bater o pé quando, na cabeça e no coração, as angústias e preocupações martelam impiedosas, como algumas mentiras - as mentiras que pregamos a nós próprios. A música bonita é tónico para muitos males, e sê-lo-ia mais ainda se a melhor música não falasse sempre de sexo, de dor de corno e de cotovelo; de amor, enfim. Não minto se disser que gosto muito de amar e que, nos intervalos de gostar muito de amar, não gosto muito de amar. Não me conformo com o esforço necessário para a manutenção logística dos afectos. Devíamos poder amar quando nos desse jeito e quando nos fizesse falta (uma falta real e nunca caprichosa) amar (e sermos amados). Não é assim, infelizmente. Não sei, também, como é e o que é. Sei que "O que é o amor?" foi uma das perguntas mais pesquisadas no Google em 2007 e, com isso, sei que é bom não estar sozinha. Enquanto não sei - enfim, não sabemos - o que é o amor, vou amando; ainda que, às vezes, o faça em silêncio, não aceito que ninguém me acuse de desamor. Eu, que vou dizendo, crua e desesperadamente, que nunca cobrei nada no amor, cobro, todos os dias, ao amor, a compreensão e o espaço (físico, psicológico, temporal e, até, judicial) que só uma grande amizade - ou um grande amor sem segundas ou terceiras intenções - pode suportar. Não há amores desinteressados nem amizades unívocas e isto está na natureza da nossa inteligência - inteligente, como não podia deixar de ser, que ninguém me tira da ideia que as coisas, por piores e mais perifrásticas que pareçam, estão muito bem feitas. Não sei, também, o que fica depois das cinzas e do pó, mas sei que não é nada mais material do que a luz ou a electricidade que não sentimos sempre, mas sabemos que estão lá. Como diz a primeira lei da termodinâmica, a energia nunca é desperdiçada. Se fosse uma lei do Código Civil, diria, talvez, que a energia nunca deve ser desperdiçada, ainda que venha ter aos nossos braços em forma de abraços, pancada ou lucidez.

Eu também quero respostas - mas se tiverem bónus, melhor.

E se o contactar já, nos próximos cinco minutos, recebo, totalmente grátis e sem portes de envio, um pacote de madalenas da Dan Cake? When all else fails, Summarize Proust:

Entretanto, uma das melhores coisas que alguma vez aconteceram à blogosfera (prometo não voltar a escrever a palavra nas próximas três semanas) deu de frosques. Bom descanso, Bandeira. Eu compreendo que isso de ser brilhante canse comó caraças.

Se não é para isto que serve a blogosfera então vou ali e já venho. Bem, o melhor mesmo é não voltar tão cedo.

Comme dit mon cousin Gaspard,

isso tudo depende da qualidade do aborrecimento: onde nos aborrecemos, com quem, aquilo que se deixou de fazer para se estar aborrecido, etc.*



*Acontece que, ao ver este vídeo, me dou conta de que o meu primo P. é parecidíssimo com Jacques Brel. Para mim, um homem muito bonito (o Brel, que o meu primo ainda é um menino).

domingo, 25 de maio de 2008

Let them eat cake says Lady Godiva*




*ou os meus temas preferidos dos Queen. E viva o YouTube.

Uma banda boa, uma banda verdadeiramente boa é, para mim, uma banda que, por mais que a redundância lixe, nunca se parece com outra banda.

These are the days it never rains but it pours

sábado, 24 de maio de 2008

Depois de ver o novo programa de Artur Albarran, acho que preciso, com urgência, de ver uma novela da TVI. Para desintoxicar.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Para genuflectir

National Brotherhood Week
Poisoning Pigeons in the Park
The Masochism Tango
Pollution
Wherner von Braun
Oedipus Rex
Clementine (brilhante)

Post com agradecimento a um pequeno sacana, que o Grande está ocupado a lavar o mundo.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Somos assim:

um país onde as pessoas adoram lixar-se umas às outras.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Pelágio

A indiferença é um sentimento que não conheço. Não consigo, sequer, ignorar as coisas que ignoro por ignorância. Penso constantemente nelas, como fazem os doente obsessivos e tenho, às vezes, da minha ignorância, sonhos reveladores. Subtileza não é comigo. Nos meus pestanejares e em todas as contracções do diafragma que me são impostas pela errância do metabolismo, dou sempre uma importância excessiva à presença, mesmo quando ela é feita da evidência - palpável, material - da ausência. Sou avessa. Avessa e avessa àquelas pessoas que escrevem sobre aquelas pessoas que. Sou avessa àquelas pessoas que se acham o centro do Universo e, por isso, diante dessas pessoas, ajo como se estivesse no centro do Universo. Sou, no fundo e ao contrário do homem de Vitrúvio, que tinha braços e pernas a mais, uma pessoa muito humana (reitero), sobretudo nas características menos invejáveis que a humanidade pode ter. Quanto aos animais que não verbalizam, não me ficou nenhum resquício genético daquele que, para viver em sociedade, isto é, em humanidade, será o seu potencial mais valioso: não verbalizar, exactamente.

Notas geográficas (1)

O plágio também é das Astúrias?

terça-feira, 20 de maio de 2008

Então isso quer dizer que

Ferreira Diniz e eu-tu-ele-nós-vós-eles s(omos)ão íntimos.

Intimidade

«Eu e a minha mulher falávamos de tudo. Embora ao seu lado eu fosse bastante feliz, deixei-a pela Diana, em cujo carácter adivinhei uma combinação de instabilidade e firmeza que me atraiu.
Durante anos vivi com a Diana, falando de tudo (porque a intimidade não consiste unicamente em despirmo-nos e abraçarmo-nos, como pessoas ingénuas o imaginam, mas em comentar o mundo).»

Adolfo Bioy Casares, O herói das mulheres, tradução de David Machado, Cavalo de Ferro

Abertura fácil

Tenho o grande objectivo de ler bastante para ser, um dia (quem sabe?), especialista em Filosofia. Enquanto não acontece, vou lendo rótulos de produtos alimentares. Vez por outra, por mera experimentação científica - nunca por necessidade, não, que ainda não enlouqueci totalmente - tento abrir embalagens com abertura fácil. É, ao mesmo tempo, e digo-o sem grande conhecimento de causa, dado que ainda não terei lido os manuais necessários, um exercício de estoicismo, niilismo, cinismo, materialismo histórico, idealismo e, até, de um certo neopositivismo wittgensteiniano (evocando a apropriação precipitada a que o jovem Wittgenstein se sujeitou, com o indício irrevogável de que viria a ser o melhor filósofo de todos os tempos), se, por hipótese, admitirmos que não vale a pena falar com a embalagem porque tudo o que lhe possamos dizer é, em última instância, sem sentido.

«Uma coisa de gelar ossos» e eu realmente não percebo é o que é que o Proust tem. As madalenas da Dan Cake são maravilhosas e eu sinceramente não percebo o que é que o Proust tem. Enfim, terá o mesmo que o Visconti. Só que eu, na verdade, não percebo o que é que o Visconti e o Leopardo têm. Porque será que as pessoas gostam de coisas chatas? E o leitor, o que é que ainda está aqui a fazer? Xô!

A propósito:

sou uma pessoa muito frontal, muito humana e muito amiga do meu amigo. «Assunto arrumado.»

Procuro familiares de Pedro Rolo Duarte que não tenham blogue.
Resposta para o nº 123 desta publicação.

Grata,
A Gerência

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Isto é que é um comentário.






















No Correio da Manhã.

Fomos plagiados

Disse-me a Menina Limão, num emílio que muito agradeço, que fui, como ela e outros bloggers, plagiada por um tal Luís (Ladrão). É pena que o blogue dele já não esteja bem online porque, além de me apetecer a cortesia do lincar, sempre apreciei ver outros na minha pele, para verem como é alto o preço da genialidade. No tal Luís, que conseguiu a proeza de manter o blogue online durante dois anos, espanta-me o bom gosto. Não faz, naturalmente, a coisa por menos. Para quê plagiar Miguel Sousa Tavares se existe James Joyce? Também não me estava a ver a plagiar o Pedro Mexia tendo o Dick Hard disponível... enfim. A verdade é que o assunto é sério e, se bem me lembro, escrevi aqui algumas coisas sobre plágio. Nalgumas disse, até, que podiam plagiar-me à vontade, que não me importava. Como só metade dos portugueses tem sentido de humor e, infelizmente, dessa metade, só metade tem residência na blogosfera, deduzo que algum idiota - um bocadinho mais fundamentalista do que eu - tenha levado a recomendação à letra.

A Menina Limão baptiza, no tal emílio, um plágio a um dos meus posts como "a pérola de todos os plágios". O post - original, a menos que o outro tenha sido escrito antes, mas isso era o meu pensamento a antecipar-se ao meu pensamento e isso, apesar de eu comer muita fruta, parece-me improvável - é este. O dele - vejam só que maravilha, o Google guarda as páginas, mesmo depois de apagadas, em cache, e ainda por cima tem bilhar e piscina nos headquarters - é este. Como se vê, o estetoscópio muda tudo.

Estou solidária com os plagiados. É muito irritante sermos plagiados intencionalmente, porque plagiar, reza a teoria do texto, é aquilo que, por falta de alternativa, vamos fazendo todos os dias. O plágio intencional e as desonestidades em geral merecem o abrigo da responsabilidade criminal. Escrevi, uma vez, que «os plagiários são órfãos que, para provar que não têm nada dos pais, só sabem ser como eles.» Mentira: são mas é uns grandes cabrões.

Perry Como?

Plágio de mim própria com inspiração aqui.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

A minha Feira do Livro

Eu cá, também gosto do sobe e desce. E das cores, umas melhores do que outras - é sempre uma surpresa: nunca sabemos qual é que nos calha, mas eu cá gosto do preto ou do cinzento escuro, pelo menos por dentro, fica mais elegante e que bela que esteve a Cotovia no ano passado. Nós, é verdade. Vivi os dois últimos anos de Feira do Livro do lado de dentro de uma das barraquinhas. Não faço publicidade? Faço. Foi na da Cavalo de Ferro onde, aposto, podem comprar, entre uma catrefa de prémios Nobel com nomes esquisitos, uma bela t-shirt, um magnífico "A Vida Sexual de Immanuel Kant" e a "Obra Gráfica Completa" de Paula Rego por um preço inacreditável - até para mim, que prefiro Magritte e frequento a Taschen, regardez les masses (é assim que se escreve?).

Não desanimem: não estarei lá este ano. Um jornal das redondezas deu-me guarida para estágio - que agradeço - e tirou-me o prazer de ver a Feira do lado de dentro, de abrir a portinhola às crianças mais curiosas e descer a encosta calcetada de quarenta em quarenta minutos para comprar nougats ou cavacas à senhora simpática que fica a meio caminho, junto ao pedaço de chão sem relva que une o lado da feira com Sol ao lado da feira com Sombra. É sempre bom ver a Feira do lado de dentro porque, na noite do último dia - geralmente, a única que sobra - se vai comprar com desconto de editor (aquela simpatia que as editoras mais antigas não gostam de fazer a quem a solicita) "O Italiano Sem Mestre", "O Alemão Sem Mestre", "O Francês Sem Mestre" e "O Espanhol Sem Mestre", bestsellers do poliglota aspirante cuja mesada não serve para dez refeições no Kentucky Fried Chicken.

A minha Feira do lado de dentro é uma confusão, como a do ano anterior em que, muitas vezes e graças a Deus, não tivemos mãos a medir e, falo por mim, deixei a ex-ministra da cultura à espera de um Collodi e de um Laxness durante dez minutos, porque às vezes o terminal multibanco e o satélite dão-se mal como se fossem o Alberto Gonçalves e um velho militante do Partido Comunista que canta de cor a "Estrela da Tarde" (era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia eu esperava por ti tu não vinhas tardavas e eu entardecia era tarde tão tarde que a boca tardando-lhe o beijo mordia quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia e na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o Sol amanhecia era tarde de mais para haver outra noite para haver outro dia). A minha Feira do lado de dentro é a feira (perdoem o critério da maiúscula - é mau, que eu sei) do cano roto que maltrata os vizinhos e nos obriga a salvar livros e caixas de cartão antes que desapareça tudo e não haja para a troca. É a feira das pessoas que perguntam se, ali, na Cavalo de Ferro, se vendem livros de equitação, a feira dos coleccionadores - como eu - que aparecem de sorriso solícito a pedinchar marcadores de livros; é a feira dos tipos que só perguntam "Tem catálogo?" e zarpam alegremente para a próxima barraca - são os mesmos todos os anos, sabe-se lá que profissão terão, talvez funcionários do Índex.

Mas a minha Feira, felizmente, não é só a que vejo do lado de dentro. É a ocasião de apontar com o dedo (para uma cadeira de plástico, que só deprime se não gostarmos de quem lá está sentado) e dizer "olh'á'li o Lobo Antunes". É a feira das noites amenas de mochila às costas, carregada, de um geladodemilsaboresdeliciosamenteartificiais servido por aquele senhor de unhas encardidas que, para chegar ao fundo do carrinho (onde, invariavelmente, está o chocolate), encosta o cone ao sovaco, e a coragem de que precisamos para não pensar naquela distracção da ASAE quando voltamos ao périplo com o gelado a derreter-se-nos entre os dedos. A minha Feira do Livro é a feira de estar tão cansado e não conseguir ver mais nada, mas não faz mal, "amanhã depois das aulas vimos outra vez". É a feira de rir de tudo, dos títulos e das conversas, mas sobretudo daquelas fotografias tétricas nas montras de alguns stands, com os grandes magos da esoteria (desculpem se sou redundante) em sorrisos hipnóticos, tão anos setenta.

A minha Feira é a feira de perder os amigos da mão e perdê-los para os alfarrabistas; saem de lá a cheirar a mofo, com romances de cordel em saquinhos de plástico de mercearia - já se sabe, uma cor só - que talvez nunca (se) venham a ler. E, claro, é a feira dos jacarandás em flor, das flores de jacarandá, alfacinhas e omnipresentes como, ultimamente, só os fiscais da EMEL sabem ser (e fazem eles muito bem). Podia falar também do que, além de livros e histórias, me tem acontecido na minha Feira do Livro: encontros, desencontros, quedas, tropeções e desgraças financeiras, que só há pouco tempo fui legalmente autorizada a entrar em casinos e, entretanto, tive de me distrair com outras imoralidades.

A Feira do Livro de Lisboa é a Feira do Livro de Lisboa e peço perdão pelo discurso ultratautológico, mas é isso mesmo. Ver tipos a andar de trotineta eléctrica na feira para anunciar um grupo editorial pequeno comparado com a Leya já foi suficientemente deprimente no ano passado e, se me permitem a opinião, foi também desleal para quem não é pindérico. A Feira do Livro de Lisboa, como tem sido até agora, é uma feira como, acredito, se fará em muito poucos lugares do mundo. É um passeio de Primavera feito para pessoas que, numa cidade com cada vez menos vida, querem passar tempo num sítio onde não estejam sós e mal iluminadas. "Temos de ir à Feira do Livro": é o que me dizem, todos os anos, as pessoas que eu conheço que , habitualmente, não compram livros. Se vão, acabam por comprar e isso é bom para todos. Cedo ao lugar-comum que também me toca e digo - atrevo-me - que a Feira do Livro é uma festa, saudável e informal, que me habituei a viver desde pequenina. Ao ar livre, sim. As livrarias são para as vontades e para as emergências, as alcatifas para os ácaros e para os hotéis dos filmes do Kubrick e as cadeiras de massagens para os funcionários da Google. Há mudanças possíveis, e muitas, para melhor. Os stands podem (e devem) ser outros - estes são exíguos para albergar a maioria dos catálogos e estão muito expostos às intempéries - e não têm, necessariamente, de ser iguais para todos. Acho que não é esta, no entanto, a boa democracia, em que a oportunidade serve apenas uns e, invariavelmente, como no chocolate, se dá o sovaco e que se lixem os outros. A Feira do Livro é, repito, para pessoas e serve para comprar e não comprar livros, se é que me faço entender. Porque os estágios, por mais simpáticos que sejam, nem sempre são remunerados.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Generalização precipitada

Há pessoas que adoram dar um (bom) conselho. Pena que o conselho seja daquelas coisas que ninguém, mesmo quem dá, aprecie receber.

domingo, 11 de maio de 2008

Inveja

De todos os pecados mortais, o meu preferido é a inveja. Porque, ao contrário dos outros pecados, a inveja não requer trabalho, apenas imaginação. Não podemos ser gulosos sem ter dinheiro para comer, nem gananciosos se não nos dermos ao trabalho de arquitectar falcatruas, nem cedemos à ira sem que isso nos custe, ao menos, um ranger de dentes e um ligeiro rubor. Do mesmo modo, não há luxúria sem queda para o engate (sim, porque gente bonita não há para aí a rodos), nem preguiça sem grande força de vontade (quem, além de um corajoso, suportaria mijar-se nas calças por preguiça de se levantar?), e muito menos vaidade sem muita paciência. A inveja é, realmente, o único pecado mortal verdadeiramente preguiçoso. Tão preguiçoso que, se me é permitida a ousadia, chega a ser inocente. Se não, vejamos: a inveja é-nos frequentemente solicitada pela criatura invejada. Invejamos sempre quem, sendo melhor que nós, está mesmo a pedi-las: vá lá, põe-te no meu lugar. É tudo mais fácil quando estamos no lugar dos outros.

Banda sonora para este post: Imagination (embed disabled by request), Frank Sinatra. Melhor com Tommy Dorsey e a sua orquestra, mas não se pode ter tudo - pelo menos enquanto a pirataria não for despromovida da sua condição de pecado mortal.

Quando, esta manhã, em conversa com Pedro Rolo Duarte, Rita Redshoes utilizou a expressão "blogues de personalidades e também de pessoas comuns", desliguei o rádio. Não me interpretem mal: eu adoro ser uma pessoa comum.

Para meu grande desgosto,[não estou certa da pertinência da localização desta vírgula, mas isso é uma coisa com a qual terei de viver] fui percebendo que quem me cita cita sempre os meus piores textos. Queixei-me disto a uma pessoa que não fez disto grande caso [o segundo disto é propositado, lamento qualquer desconfiança plástica que possa causar ao digníssimo leitor] e me disse, ainda por cima, que era natural porque, para mim, os meus piores textos são os meus únicos textos compreensíveis. Em suma, foi aí que, finalmente [doravante, pedirei desculpa de cada vez que utilizar um advérbio de modo] percebi que os meus piores textos são todos os meus textos. Esperando que alguém citasse o meu silêncio, fiquei uma semana sem escrever. Segundo contadores de visitas, referências e outras trafulhices disponíveis, durante esta semana citaram-me, algumas vezes, textos antigos - mesmo que não tivessem ainda mais de uma semana. Não sei o que é que as pessoas têm contra Malevitch ou João César Monteiro; nem vejo, naturalmente [peço perdão], o que poderão ter a meu favor.

domingo, 4 de maio de 2008

Dia da Mãe ou de como tudo é relativo

Quem é o maior, quem é? O Gandhi da esferográfica.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Magnífica piada que me foi contada por um grande amblíope

- O que é que diz um cego quando pega num ralador?
- "Mas quem é que escreveu esta merda?"

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Um pouco de história romana

Para Tácito, Roma só ardeu por nero acaso.

Notas sobre a mitologia dos gregos (7)

Páris matou Aquiles por excesso de tornozelo.