sexta-feira, 13 de março de 2009

Vírgula

Hoje, a palavra mais bonita do mundo é vírgula. São três e quarenta e cinco da manhã. Demorei meia hora, entre cliques e linques, a tentar perceber em que corrente estava, se é que ainda posso estar nalgum lado senão naquele onde estou e naquele onde sempre quis estar, que é, toda a gente sabe, um lugar que não existe. Não posso ir na corrente, lamento. Estou demasiado acossada para dizer verdades e suficientemente deprimida para não conseguir mentir.

Para 21 anos mal feitos e indesejados - não queria nenhuns -, a corrente parece-me um desperdício, embora possa adiantar que já dormi com o Steve McQueen. E o Marcello Mastroianni. Três vezes.

[Cada.]

Eu gostava era de que me perguntassem pela sexta frase da página 161 do livro que tenho mais à mão vírgula outra vez vírgula que foi a terceira escolha vírgula já que o que eu tinha mais à mão tinha noventa e poucas páginas vírgula o seguinte tinha uma frase que já não posso cumprir vírgula uma vez que é «No dia 1 de Março já não voltarei ao escritório» vírgula e o que está verdadeiramente à mão chama-se "O Poder do Perdão" e vai ser oferecido vírgula no próximo Natal vírgula a alguém que não tenho em grande consideração - embora ainda não saiba quem vírgula mas ainda bem que existe sempre alguém.


Assim sendo, escolhi, da minha primeira prateleira da esquerda, bastante ao calhas e sem hesitar, o livro que tem os melhores guisados de toda a literatura de viagens (alguém abraça a cruzada e descobre qual é?). Duas correntes numa - uma delas autoimpingida, estou cada vez mais prática - a frase que me calhou resume toda a minha (não) existência:

«Diga que compreende...»


Inquérito, Travessa do Fala-Só (onde ficará?), nenhuma página cortada pela parte de cima, uma trabalheira, amarelo, bafiento e tão lindo que me faz ter vergonha de não ser analfabeta.


Se não tivesse a certeza de que ele me mandaria pastar sorridente e cagar triangulozinhos de queijo fundido, passava a corrente ao Plúvio. Vírgula.

E eu a ver (popular)

As pessoas andam tristes. São tristes. No comboio para casa, sou triste com elas. Nunca pensei poder ser tão triste e nunca pensei ver tanta tristeza no caminho para casa. Será por estar triste, por ser triste? A palavra "eu", num mundo triste, é suja. E num alegre também. O menino que hoje me sorriu e que uma senhora triste levava pela mão, a toque de caixa, não era triste ainda. Porque eu pensei nele assim, passou a sê-lo. Tenho sempre pena das crianças que os adultos levam a toque de caixa, ignorando a evidência - física e geometricamente comprovável - de que as suas perninhas são bastante mais pequenas do que as deles. Arrastar uma criança assim, para a nossa pressa, é arrastá-la para a sua morte enquanto nos arrastamos para a nossa. Uma injustiça, no mínimo.

Mãe, porque me levavas sempre, para todo o lado, a toque de caixa? Tenho muitas saudades de não saber por que motivo o fazias. Como aquele menino que já é triste e ainda não sabe.

Hoje, ao virar da Duque d'Ávila para a Avenida da República, vi um Rogério Casanova. Mas em giro.