quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Ordem: Align="left"

Parecia-lhe que a única maneira de deixar de se justificar era escrever textos não justificados. Mas centrou-os tanto que perdeu a graça.

Assunto, critério

A máquina pergunta-me se quero mandar o e-mail "sem assunto", e eu respondo que ela não tem critério nenhum, que nunca escrevi nada com tanto assunto como tudo o que escrevo "sem assunto".

Fim?

Hoje rompi uma relação. Toda a gente sabe que há maneiras e maneiras de romper relações, umas de maneira a que acabem (custa muito), outras de maneira a que nunca acabem (custa menos, mesmo que custe muito).

Não dei a esta relação tempo para que se desenvolvesse e sinto, como a outra parte, que a rompi quando ela estava a ficar mais útil e interessante — damo-nos com pessoas úteis para nós e por isso boas para nós nalgum momento da vida. É, penso, também por isso que não acredito em caridade: somos bons porque isso nos traz algum benefício, nem que seja o de não sentirmos culpa. A pureza de um sentimento está no significado que ele tem para nós e não na solidariedade que ele representa. A solidariedade é uma necessidade biológica e a culpa uma armadilha mental: não sobrevivemos sem o outro, mas custa-nos admitir que é para sobreviver que o queremos por perto. Quando o outro deixa de nos fazer bem deixamo-lo, damos lugar a um outro que faça; mal é que o tempo de deixarmos o outro não coincida com o tempo de ele nos deixar a nós, e assim vamos perpetuando a culpa, mas também a sobrevivência (a nossa, pelo menos).

Rompi hoje uma relação com alguém que me ajudou a sobreviver. Reconhecê-lo é reconhecer a minha importância — não apenas a do outro. Pela primeira vez, não rompo uma relação angustiada por estar a forçar um fim, mas confiante no caminho que escolhi e naquilo que me ensinou a relação que decidi romper. Não sei se esta relação acabou mesmo, mas sei que pela primeira vez não me justifiquei, não senti culpa nem remorso, fiquei só com a parte boa, que é estar viva e estar grata por estar viva, ao outro e a mim mesma.

Se isto não é uma coisa muito próxima da felicidade, a infelicidade não existe e eu nunca lá estive.

Temperatura

Era tão livre que preferia sempre a ventoinha ao ar condicionado.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Zelo

A namorada virtual era tão perigosa que, para comunicar com ela, iniciava sempre o PC em "Safe Mode".

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Para R.

Poema de merda
cagalhão

A honestidade é uma bênç
Ão

E a caravana passa.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Coisas sem sentido

As escadas rolantes estão avariadas e a velha corre 10 metros para não deixar que a porta do elevador se feche.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Jazz com Pretas [21]


(A homenagem é, claro, a este génio e à senhora que o pariu, abençoada.)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Florbela Pessoa

Uma pessoa pensa que para curar a tristeza basta o cansaço, cansar-se de estar triste, mas não. Nós estamos exaustas e a nossa tristeza parece incansável. Viver cansa, talvez seja essa a explicação.

Assim falava eu

Há um filme no qual um miúdo lê Nietzsche e decide deixar de falar. Vou tentar. Afinal de contas, não passo de uma miúda.

Por quem os sinos

Vou aí ver
se os sinos ainda tocam.

Não me lembro.
Sei que passaram uns dias,
uns dias só,
mas eu já não me lembro do que é não estar
só.

Vou ver-te, lembrar-me
se os sinos ainda tocam.

Agora nada. Silêncio.
There's no longing
Hoje,
particularmente,
a música não existe. Sabes porquê?

Eu não. Por uma vez
(a derradeira, quem sabe)
sou eu que não sei e
vou aí saber
se os sinos ainda tocam.

Se tocarem suspeito
de que vou gostar, porque a música está
em mim
e será sempre em mim que os sinos,
é em mim que tocam os sinos
que ainda tocam
(não sei).

Tu és o que eu vejo, o que eu toco, o que eu
ouço tocar. Se me falhassem os sentidos tu serias
nada,
nem a luz, nem o ar.

Sabes o que é o ar?
É o que faz
os sinos tocar.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Instante

Sorrio e digo baixinho: "Um mês passa num instante".

sábado, 19 de novembro de 2011

Fenda, fresta, racha, Leonard Cohen

— O que é mais embaraçoso: comunicar a tristeza ou a alegria?
— Não compreender nenhuma das duas quando no-las comunicam.

Silêncio

Há pessoas que vêem abismos no silêncio. Outras, sabem que o silêncio é, em si, o abismo. E há ainda as que, por menos que digam, nunca se calam.

(«Ninguém pode não comunicar.»)

Verbos

Está-se morto? Não: é-se morto. Estar significa que há uma possibilidade de não estar, daí que seja absurda a expressão "fulano de tal ainda é vivo". Se fulano de tal ainda é vivo é porque nunca esteve vivo.

Comunicação

Quando Watzlawic escreveu que «ninguém pode não comunicar» referia-se, como é evidente, também à morte, mensagem pura — o morto não precisa de ser correspondido quando se mostra, ele é o facto inegável, a única verdade, mesmo para os que lhe sobrevivem, que lhe correspondem sabendo que um dia também eles serão mortos.

Há uma certa ironia nisto: um morto diz-nos, apenas, "um dia, este que já não sou, que já não é nada senão o que foi, serás tu", e essa mensagem não só é pessoal como, uma vez apreendida, se torna intransmissível. Para comunicá-la é preciso morrer.

domingo, 13 de novembro de 2011

Mrs Dalloway

Acabo de ver "As Horas" e estou lavada em lágrimas. Ganho sempre o campeonato mundial de "suspensão da crítica": além de chorar, devo ter demorado 40 minutos a perceber que Nicole Kidman era Virginia Woolf e, quando percebi, saltei da cadeira. Meryl Streep é sempre perfeita. E viver é sempre bom, até deixar de ser. A vida é como a música extraordinária de Philip Glass neste filme (e, a bem dizer, em tudo o que dele conheço): hipnótica. Quando se dá por isso, quando se percebe aquilo que a vida é, a morte parece solucionar o absurdo da repetição. Mas não soluciona, porque o absurdo é a morte, não a vida. A vida é absurda por causa da morte e a morte por causa da vida. Quando morremos, o absurdo continua a repetir-se. O suicídio é um desespero ou uma sobranceria, porque pensa sempre que consegue resolver alguma coisa. Não: os outros vivem para além da nossa morte, os outros morrem para além da nossa vida.

Somos todos Mrs Dalloway.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Terramoto

Hoje disseram-me «estás a desmoronar a ideia que tinha de ti». Isso só prova que, afinal, eu não sou a ideia que os outros fazem de mim. Isto é uma alegria para quem sonha ser mais do que um macaco.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

«O único computador com alma que existiu»

Cadilho

Tinha a razão tão à flor da pele que, no seu caso, podia dizer-se que o pensamento era uma faculdade dermatológica.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Sexta-feira

O meu avô acordou.

domingo, 16 de outubro de 2011

Robinson Crusoe

Acorda, avô. Já chega de dormir. Quero ver os teus olhos verde-água, paraíso, irrequietos como a vida num coral cheio de saúde, à deriva da poluição e do aquecimento global. Eu sei que estás cansado, mas agora deves acordar. Olha para ti, nu, quente, corado debaixo de um lençol. Falo-te, mas não me respondes. Apertas-me a mão e forças as pálpebras, como quem diz "deixa-me dormir". Acorda, avô. Esses cabelos brancos desgrenhados, essa barba de náufrago velhinho, alva como neve — és o nosso Pai Natal, lembras-te? —, precisam de aprumo. Quero ver-te outra vez puxar os suspensórios para longe da barriga, olhar para mim com esse ar alucinado a dizer-me "quem és tu?!", coisa que só fazes quando até sabes quem sou. Quero voltar a ter sete anos e ver-te mostrar-me a nossa família no zoológico, ruminar pipocas no cinema esquecendo que o Bambi é órfão, dizer-te que a tua sopa de couves de Bruxelas está óptima quando não é bem assim, tu só sabes cozinhar caril de caranguejo, dizer-te que sim, que acredito que foste tu que inventaste o catembe, ver-te forrar os meus livros da escola com precisão milimétrica e um mar de material de escritório sobre a secretária, voltar a oferecer-te uma bíblia de palavras cruzadas e uma caneta boa nos teus anos, tão próximos dos meus; quero voltar a pensar que és incapaz de moderar o volume da tua voz, do teu riso, falar de qualquer governo, sobretudo se de esquerda, sem exagerar no palavreado, quero voltar a adormecer dentro do teu dois cavalos a caminho das Caldas, quero que grites comigo por ter pintado as paredes e enchido os teus discos de corrector, quero ouvir-te dizer Nheco, ver-te comer uma mousse de chocolate ou uma baba de camelo com sofreguidão, admirar a tua beleza sem idade, cada vez maior, quero ver-te acordado. Por favor, avô: acorda.

sábado, 15 de outubro de 2011

Empresa

O que mais me chateava na empresa era sentir que cada um estava sempre a olhar por si, em primeiro lugar, e a cumprir depois os objectivos da organização. (Resquícios do meu comunismo, dirás.) Sou, já to disse muitas vezes, tradicional. A ideia de que estamos sós não me corre nas veias nem me cobre a carne. Que raio de solidão é esta, se eu preciso de ti, se tu precisas de mim, se precisamos todos uns dos outros, nem que seja de um sorriso, de uma respiração mais forte no meio do silêncio de caras fechadas deste autocarro? A partir de dois tudo se complica: é preciso um projecto comum, mesmo que seja a felicidade de cada um. Estamos, portanto, de costas voltadas: tu ostentas a tua felicidade como eu a minha tristeza. Não sei quem é mais feliz com isto: se tu, com o teu projecto de tristeza, se eu, com o meu de felicidade.

Dependência

Há dias assim, nos quais parece que a única verdade no mundo és tu. São demasiados dias desde que te conheci. Foram, aliás, todos menos aqueles nos quais estiveste presente, aqueles nos quais a tua presença deixava que outras verdades existissem. Por exemplo, quando andávamos de mão dada na rua ou tinhas o teu braço sobre o meu ombro e eu o meu à volta da tua cintura e, volta e meia, tínhamos de nos afastar para deixar passar um poste. Aí o mundo era leve e as coisas existiam, apenas, limitavam-se a ser. Agora não. Apercebo-me, a cada dia, de que a tua presença (palpável, terrena) é imprescindível para a dura tarefa de te relativizar. Não creio que a dependência se diagnostique na privação, mas sim na abundância. Um homem sensato, independente, é aquele que come pouco em tempos de abundância ou aquele que se agarra com sofreguidão ao pão quando pressente que ele vai faltar? Um homem não é um urso, mas isso são coisas das quais não sei falar, porque hoje não é um daqueles dias. Tu até poderias querer ser a única verdade no mundo e eu conseguiria, decerto, ver-te assim, mas nota: há pessoas que colam os macacos que tiram do nariz debaixo dos assentos das cadeiras.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Breve maltratado das coisas que não existem [53]

Quando deixarão de ser novas as novas tecnologias?

Não sei se já tinha vindo aqui

dizer que este blogue é das melhores coisas que me aconteceram nos últimos tempos. Obrigada.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Lugares-comuns

O amor não é um cacto.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Redenção

Pôr um vídeo (de produção externa) num blogue é equivalente a pôr uma canção a tocar sem aviso prévio. É um atestado de incompetência. Qualquer coisa no estilo "aí têm, estou sem inspiração nenhuma mas estou presente, desenrasquem-se". Ou de prepotência. Como se nos dissessem "estão em minha casa e comem o que eu lhes der". Neste caso não. Só vim mostrar ao amável leitor o verdadeiro significado da palavra redenção através de uma cena de um filme de que, tenho a certeza, nunca me cansarei.


Mas não muito

Quando uma criança vem ao mundo traz consigo duas palavras: "Olá" (parece uma só, mas é ela e mais outra). Nascer é entrar na festa quando a festa já está a acabar e essa epifania devia ser vedada a todos os menores de cem anos. Essa e a de que os partos são, ao mesmo tempo, milagres e assassínios qualificados; os pais, santos e pecadores; e assim sucessivamente.

A tentação de dar por encerrado o assunto da finitude neste blogue é grande, por vários motivos o mais evidente é o facto de eu ser uma jovem com a vida toda pela frente. Mas se fizer um esforço, faço-o por um mais nobre que seria, aliás, suficiente para justificar todo o meu silêncio daqui para a frente : o de que aquilo que me angustia foi descrito milhões de vezes por milhões de pessoas diferentes de milhões de maneiras melhores antes de mim:
« E não te importas com o teu futuro, rapaz?
Oh, é claro que me importo. É claro! respondi. Depois pensei durante um minuto e acrescentei: Mas não me importo muito.
Mas importar-te-ás disse o velho Spencer. Importar-te-ás, rapaz. Quando já for tarde.

Não gostei de o ouvir dizer aquilo. Era como se eu já estivesse morto, ou coisa parecida.»

Uma Agulha no Palheiro, J.D. Salinger, tradução de João Palma-Ferreira, Livros do Brasil, 1951

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Direito de Resposta: "Esta coisa de gostar de alguém"

Depois de Galileu, uma pessoa não pode ouvir alguém dizer que a Terra é o centro do Universo e ficar-se. Porém, o caso é ainda mais grave: há demasiadas pessoas - mais precisamente duas (1|2)- a desafiar a minha visão infantil e imatura do amor e isso é inadmissível.

Vamos por partes: primeiro as baixas. Gostar de alguém é querer-lhas - essas e as outras todas, aos bocadinhos e de uma vez só, «de um querer bruto e fero», como dizia o tio Garrett com a lengalenga «Não te amo/Quero-te», como se não estivesse a falar do mesmo objecto (o amor) em duas tipologias, uma de pantufas e outra de saltos agulha e nada por baixo da gabardine. Gostar de alguém é consumir-se de desejo, ser ávido, insaciável. A menos que exista uma paralisia incapacitante ou a idade não o permita (e, mesmo assim, os velhinhos do MEC tiveram grandes conversas de cama em cadeiras de rodas, ou seja, não há desculpas). É não entender uma dor de cabeça, amaldiçoar a ausência permanentemente, à noite na cama, de manhã à mesa do pequeno-almoço, à hora da sesta e ao final do dia, enquanto a sopa ferve. «É preciso um cuidado permanente, não só com o corpo, mas também com a mente, pois qualquer baixo seu a amada sente e esfria um pouco o amor», dizia o tio Vinícius. Nisto do amor somos todos sobrinhos e quem diz que sabe ou é prepotente ou está à procura de consenso. (Ou talvez seja só mais velho e mais experiente do que eu, mas excluamos para já essa hipótese, tão remota.)

A confiança, já me esquecia. Pelo amor de Deus (se é que O posso invocar em vão)! Todas as mulheres sabem que há pelo menos setenta outras mulheres com quem os seus homens têm casos mal resolvidos, que os querem para comer ou para casar, sobretudo agora que estão acompanhados. E eles também sabem: que a aliança é um isco, que são mais desejados quando têm dona. A confiança é uma alucinação, porque o outro está a deixar-nos desde o momento em que nos agarra na mão pela primeira vez. Passamos pelo menos um terço da relação a antecipar o sofrimento de sermos deixados e outro a sofrer porque agora é que é, agora é que o outro não vai aguentar mais as nossas inseguranças e nos vai deixar. Quando nos deixa e temos de sofrer, aí sim, morremos - de vergonha, porque em boa verdade já esgotámos o sofrimento todo. Isto não é bonito, como dizem os demónios da serenidade, seres mais fictícios e malévolos que o olho de Sauron (e, já agora, supralincados), mas é assim: tratamos quem amamos como se nos pertencesse. Mesmo que saibamos sempre que isso não é verdade, que o outro tem livre-arbítrio, uma personalidade extraordinária, só sua, pela qual nos apaixonámos e que não vale a pena fingir que é nossa, porque não é, nunca será e em breve seremos odiados por querer ler o pensamento do outro, que como todos os pensamentos de todos os que não somos nós são preto sobre preto ou branco sobre branco (quer estejamos particularmente pessimistas ou optimistas, respectivamente).

Uma escolha, pois. Por favor (desta vez Deus nem existe)! O amor é uma fatalidade porque tudo é uma fatalidade. Ninguém se apaixona pela pessoa certa e fica casado 40 anos em paz e harmonia. Esses casais odeiam-se, de certeza, e só continuam juntos por inércia e cobardia. Porque o amor, já repararam?, nunca dá jeito. Só vem quando a vida está uma confusão (disseram-me, uma vez, que "os melhores amores começam a três". E os piores, a quantos começarão?). Às vezes isso ajuda a ver que a vida é melhor do que pensávamos, é verdade. E é uma bênção, um amor que nos dá a mão para largarmos a areia movediça; mas nunca é fácil. É preciso que o trânsito da cidade seja fluido como os mágicos do Bolshoi numa cena do "Lago dos Cisnes". Ninguém está permanentemente encantado e se desencanta por um momento - quando isso acontece o amor morre, porque um momento de desencanto nunca mais acaba, repete-se todos os dias desde que acontece até que nos cansamos dele ou o outro se cansa da nossa boa memória. É ao contrário: a luzinha do farol aparece no meio do nevoeiro e há dias em que ele é tão espesso e a luz tão fraca que parece que o fim está perto, mas afinal não, era só um percalço, afinal a luz está acesa, uf. O amor não é fácil, ponto. Mais de metade da população mundial é proveniente de amores de merda. Coisas que não deviam ter acontecido porque estavam condenadas à partida. Os opostos atraem-se e não sabem o sofrimento que isso vai causar aos seus filhos e ao mundo em geral. Desses vêm histriónicos, limítrofes, Hitlers e líderes de governos regionais. Por exemplo, o disparate que é um fã do "Preço Certo" juntar-se com alguém que aprecia ver um Wellington bem confeccionado no "Hell's Kitchen" ou quer saber como se faz uma verdadeira Waldorf Salad no "No Reservations". Ou um fã do Rão Kyao com uma maluquinha pelo Fausto Bordalo Dias. Erro. (Ninguém disse que não sabe bem errar. Antes de se saber, sabe muito bem.)

Tudo isto é mentira, claro. Enfim, quase tudo. É verdade que o amor é o que ninguém sabe e quase toda a gente sente, ou sente que sente. Se gostar de alguém não é confiar é, pelo menos, saber que devíamos confiar; é aceitar, sim, mesmo que seja difícil ou pareça impossível. O amor é um Cubo de Rubik: toda a gente sabe fazê-lo, ainda que aldrabe. Gostar de alguém é achar que se gosta, amar alguém é achar que se ama. E nada nos desconvence. Se me permite, querido leitor, desfaço as duas frases mais bonitas que li no meio desta confusão, das quais discordo escandalosamente:

«O amor é bom hoje; amanhã será melhor ainda. Se não for, não é.»
Ninguém sabe. Se soubesse, os amores nunca acabavam e aqueles casais juntos há quarenta anos não eram só figuras de cera. Temos a esperança de que o amor seja melhor amanhã e fazemos tudo por isso. O amor é tentar.

«O amor não é uma rede por baixo dos nosso medos; é um telhado por cima das nossas ousadias.»
Bonito, mas incompleto. O amor é também uma rede por baixo das nossas ousadias e um tecto por cima dos nossos medos. É o que tiver de ser quando for preciso. O amor é o MacGyver no nosso bolso (como aprendi há dias ser o substituto do Chuck Norris para um canivete suíço).

Nota: Agrada-me o facto de o post inspirador ter uma visão quase tão infantil como a minha, mas mais eloquente. Ou gozar com a minha como se valesse a pena.

Vienna waits for you

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Steve Jobs

Foi o homem que eu vi tirar um computador de um envelope. («É possível», tudo é — é o que isso quer dizer.)

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Viena

Serei muito mais feliz quando aprender a calar-me. É por isso que saio: vejo o ruído do mundo e cada bom dia que digo, cada licença que peço é um silêncio cheio de sentido, mais do que alguma coisa que alguma vez direi. Conversar não é dizer, é ver com outros olhos o mundo, o ruído.

(Con)fusão

Os microondas são capazes do impensável: acabo de beber uma caneca de leite que me soube a pesto.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Wayfarer®

Desci a avenida e ao passar no lugar onde pela primeira vez me disseste que não me amavas, uma senhora passava também, na direcção contrária, veloz como um desgosto a chegar, os olhos cheios de lágrimas e as lágrimas cheias de olhos, uns olhos tristes que nunca mais acabavam e só acabaram porque eram velozes. Pensei em mim e nas vezes que chorei na rua, como aquela mulher, a caminho de algum desgosto ou regressada de uma tragédia menor, vaidosa e ao mesmo tempo envergonhada por saber que a tristeza partilhada pode, por vezes, ser uma enorme vaidade. (Foi por isso que comecei a usar óculos escuros: substituí uma vaidade por outra e creio, como em Deus — isto é, de maneira leviana —, que a substituta me fica muito melhor.)

Que lhe terá acontecido?, perguntei-me, à medida que me aproximava do quiosque no qual, naquele dia, pedi um copo de vinho — eu, bebedora menos que social e social apenas se estiver bêbeda —, que vinha quente como nunca vi, parecia ponche, para te ouvir dizer que não me amavas; para depois, dias mais tarde, te ouvir dizer que te tinhas enganado, que afinal me amavas, lembras-te? Como te amava e amares-me de volta era o meu aqui e agora, uma espécie de zeitgeist, o meu milagre, não hesitei em dar-me, em aceitar-te. Mas sabes?, este amo-te/não te amo/amo-te ainda não cicatrizou e por mais que o digas — o último, o primeiro eu só o sinto às vezes, nos teus olhos ou na minha segurança, tão rara e reprimida. Há, no entanto, uma boa notícia. É que, finalmente, eu decidi confiar. Em ti e em toda a gente — é, aprenderás, a marca do meu optimismo e não da minha ingenuidade. Confiar em todos e suspeitar, apenas, de mim mesma.

Imagino o desconforto que te causa ler isto, aqui, mas olha, isto é meu e eu, mais que auto, sou sempre biográfica. Não se trata de me escrever a mim, mas o mundo inteiro. Escrever (que pretensão!) os que têm dores parecidas com estas. As dores infantis e desnecessárias são as piores, sabias? É por elas que se suicidam os poetas e os amantes, são elas que têm sempre razão porque o que os outros não entendem está sempre certo para nós. Estas dores que não são cancros, nem sequer abcessos, cicatrizes de série B. Os outros. Escrevo-lhes e escrevo-os escrevendo-me, essa é que é a minha psicanálise. Não tenho medo das pessoas. Daquele japonês bonito, por exemplo, que aconchega com a sua camisola o peito do filho que dorme desengonçado no carrinho de bebé. Ou daquela mulher que não chora mas vai zangada com a vida, carregada com ela em sacos, a caminho do comboio. Ou deste casal, ele jeitoso e ela tão gordinha, curvilínea, anca de Rubens para cá e para lá. Nem deste rapaz, tão mal vestido, fato de treino em nylon e sapatos de vela, que assim nunca há-de arranjar uma namorada. E há, sim, coisas que guardo para mim. A maneira como me faltas e da qual só te falarei, talvez sem palavras, quando te reencontrar; o que sinto quando, inadvertidamente, me dizes ou fazes uma coisa bonita, de cuja beleza nunca te aperceberás.

Hoje não foste tu. Ele passou por mim e disse para o homem do lado: "tão bonita!", assim, em exclamação. Não havia equívoco possível: foi para mim que olhou nos três segundos anteriores e não era suposto eu ter ouvido, estava de auscultadores, a ouvir um disco teu, uma ponte de silêncio entre uma canção e outra. "Please don't let me hit the ground/Tonight I think I'll walk alone/I'll find my soul as I go home." E andei, encontrei-me a caminho de casa, porque era preciso acreditar, é preciso acreditar quando dizes que me amas. Mas escuta: se eu tivesse acreditado quando me disseste que não me amavas, onde estávamos agora, meu amor? Eu aqui e tu aí? Onde estamos, afinal? E onde, depois de nos encontrarmos, nos vamos finalmente encontrar?

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Dois minutos

Na verdade, se um dia me perguntares se fomos felizes mais que dois minutos eu serei forçada a responder que esses dois minutos ainda duram.

Infância

Molero fala das campainhas da infância e eu peço-lhe que, onde ele estiver, as faça ressoar. E me apague estes fantasmas de carvão com uma borracha robusta, que não borre e deixe o branco imaculado, pronto a colorir.

Doença

O meu amigo dá-me duas hipóteses, que no fundo são uma só: engolir, ou não, um sapo e seguir, ou não, em frente. Em todo o caso, avisa-me, tenho de ir ao médico. Ter de ir ao médico é que me preocupa. Estarei, afinal de contas, apenas doente? E se não estiver apenas doente? Não estar doente é que me preocupa. E se eu for mesmo tudo aquilo que abomino e tudo aquilo que eu abomino for mesmo eu? Mato-me? Conformo-me com ser detestável e vivo como se ser detestável não fosse, também, uma doença?

Fúria

Não existe uma coisa chamada "fúria criativa". A fúria só descria. A menos que a expressão signifique que o furioso se reinventa na sua transfiguração. Mas como? Como pode alguém recriar-se para ser aquilo que o magoa, aquilo que, decerto, não quer ser?

Ou talvez a pergunta seja mais simples e a resposta mais clínica: o que há de consciente na autodestruição?

Descompostura

Escreve, escreve, escreve e não pares. Não pares, como se, entendes?, como se estivesses quase lá. Deita, deita, deita tudo cá para fora. Fura esse teclado de raiva, vomita essa angústia, destrói o que te rói, constrói-te, faz, cria, PÁRA.

Pára um minuto. Olha para mim em silêncio. Não fales. Estragaste tudo, agora recomeça. Não chores, não mordas, recomeça. Retira o que disseste, já. Retira-o de ti, do tempo e do espaço, esquece. Não voltes a estragar tudo, por favor. Tu não tens sete vidas. Só uma e mal chega. Não chega, CHEGA.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Vergonha

domingo, 25 de setembro de 2011

Dress code

Antes de se suicidar calçou as meias finais.

Centeio

Get out of the rye. Rye now!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A espera

P. disse-me hoje a coisa mais bonita e mais útil que alguma vez me disseram: «O que precisas é de sair da merda do centeio». E vou. Vou sair da espera pelo meu próprio pé.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Cidade

— Querida, todos os dias descubro coisas novas em ti.
Espera até veres a ciclovia.

Diversidade

Todos os homens que comparam cidades a mulheres deviam ser coerentes e deixar de procurar a diversidade fora da sua metrópole.

Dormir

O meu sonho é ser Nova Iorque: a mulher que nunca dorme.

Fatalidade

A verdadeira mulher fatal é aquela que se prejudica a si própria.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Insónia

Deito-me tarde porque me tardas.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Definição

O antetítulo desta notícia é "Suplemento cultural". Haverá melhor definição de Deus?

Outro diálogo quase real*

— E o seu psicólogo ensina-a a ser cruel?
— Ainda não chegámos a essa parte, mas é para isso que lhe pago.

*Se não tivesse sido um monólogo.

Profissões

Y tem psicólogo, mas não lhe paga. Qual é o gozo de sermos ouvidos por alguém que não é pago para isso, como fazemos quase todos com quase toda a gente? Talvez tenha escolhido mal a profissão.

Diálogo quase real

X está com uma crise de identidade: todos os dias muda a foto de perfil.
E tu estás com uma crise de falta de identidade: todos os dias lá vais à procura de uma foto melhor do que a tua.

domingo, 11 de setembro de 2011

Adenda

Um jornal vespertino é um jornal que se publica de tarde. Uma edição vespertina de um jornal é uma edição de um jornal (que pode ser matutino, vespertino ou semanário, até) que se publica de tarde, não sendo essa a regra — é uma edição. Pode, ainda, haver edições matutinas de jornais vespertinos, se os acontecimentos o justificarem e o jornal tiver dinheiro para gastar. E assim sucessivamente.

Exactidão/Accuracy e o raio que parta

















Ao leitor que, em privado, me perguntou se eu tenho a certeza de que comprei edições vespertinas de jornais nos dias seguintes ao 11 de Setembro de 2001 só me ocorre uma resposta pública muito mal educada: vai à merda. E se eu guardasse jornais juraria que o DN também teve uma edição especial na tarde (as edições vespertinas saem à tarde, não é?) do dia 12 de Setembro de 2001, mas não guardo: às vezes basta a memória para sustentar a razão, ou nem isso: com amnésia ou Alzheimer não se perde necessariamente a razão. (O juízo é outra coisa, perde-se sempre e às vezes nem chega a ganhar-se.)

Primeiras páginas daqui.

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Mantém-se a lógica do Fórum Mulher e da cerveja Laurentina: enquanto uns morrem à fome ou são mortos em guerras nas quais não são tidos nem achados, outros andam à caça de pentelhos. Tudo se come.

9/11

No dia 11 de Setembro de 2001 eu tinha 13 anos e queria ser jornalista. Tinha-me vestido para sair com a minha mãe: compras e depois praia, para queimar os últimos cartuchos do Verão. Estava a ver as notícias quando o pivô interrompeu a emissão para dar conta do que se estava a passar em Nova Iorque. A cidade onde eu sempre quis ir, por causa do cinema, por causa de Frank Sinatra. A minha mãe ia-me avisando de que estava quase pronta e sairíamos dali a instantes, com a presteza que lhe é tão característica e que eu invejo porque não herdei. Já naquela altura tinha a chico-espertice que a TVCabo permite e mudei de canal para a CNN. Passaram-se alguns segundos apenas. Mãe, anda ver isto. Não podia, íamos sair de casa, íamos já. Mãe, tu TENS de ver isto. Ela veio, refilona, e ficou como eu, a olhar incrédula para o televisor Nokia enorme, acabado de comprar, que nos proporcionava uma vista privilegiada sobre aquela atrocidade. Ficámos assim uns minutos, sem saber o que pensar. Não tínhamos almoço e precisávamos mesmo de ir às compras. Fomos, mas estava assente que voltaríamos para casa e não iríamos à praia. Enquanto a minha mãe nos abastecia, eu ocupava os corredores do Jumbo de Cascais a escrever SMS ao meu amigo Filipe no meu primeiro telemóvel. Ele respondia-me, ia-me informando — estava em casa, frente à TV. Nessa tarde comprei um jornal. E nos dias seguintes também, muitos, edições matutinas e vespertinas. Queria perceber. No dia 11 de Setembro eu tinha 13 anos e queria ser jornalista. Ainda quero. Mas não para perceber. Há coisas que jamais perceberei.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Basslines for Dummies

Uma playlist de quatro horas e um minuto com malhas históricas, ou apenas inconfundíveis, daquelas que põem menires e estátuas da Ilha da Páscoa a dançar (ou mesmo o Bob Dylan). Feita com carinho.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Família

Adão e Eva eram do tempo em que uma costeleta dava para uma mesa de dez.

Adão e Eva

— O que se passa, querida, é que as tuas qualidades não ofuscam as das outras mulheres...
— Mas há outras mulheres?

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Breve maltratado das coisas que não existem [52]

Em que consistirão os segundos socorros?

Vida, outra vez

Em geral, quando escrevo não estou a viver. Em particular, quando estou a viver não escrevo. Se sem escrever não consigo viver — e ainda por cima gosto de viver —, então o melhor é escrever. Pode ser que assim sobreviva.

Parricida/Matricida

É alguém que não gosta do seu nome.

Juízo

Um dia, no apogeu da nossa leveza, escreveste-me do ar. Li-te vezes sem conta, obsessivamente: palavras impróprias que me fizeram estremecer em locais impróprios, que eu mastiguei até decorar, que hoje leio como se visse um retrato de um rosto familiar — sem a devida dedicação, porque toda a dedicação devida foi dada.

Quando me escreveste do ar tinhas acabado de partir, mas enquanto te lia nunca tinhas partido, estavas presente como o ar que sopras de ti para mim quando o calor. Pffffffffffffffffff. Hoje não me escreveste e eu penso, naturalmente, no que mudou. E no que mudou naturalmente. Em ambos os casos, o que mudou foi o medo: é, ao mesmo tempo, maior e mais pequeno. Muito maior e muito mais pequeno. Quando é mais pequeno é maior e quando é maior é mais pequeno.

Mas tu não és o medo. Há uma expressão idiomática em inglês, creio que americano, Fulano de Tal grows on me, que se traduz literalmente: cresces em mim. És maior, cada vez maior. E eu? Tento não confundir volume com capacidade. Como pode uma coisa que mirra conter uma que cresce? Ou estarei, também eu, a crescer num recipiente qualquer que mirra ou cresce ou se mantém?

No princípio era o Verbo. Sem o Verbo nem teria havido princípio. Quando vamos além do princípio e tudo parece já ter sido dito, o Verbo falta-nos como nos faltava a carne quando só havia Verbo. Não sabemos o que queremos a não ser o que nos falta. O que nos falta?

Bricolage

Falas-me de Cristo sozinho na cruz. Falo-te de Cristo deixado sozinho na cruz. Há quem não deixe ninguém na cruz. Eu sei: isso também é uma cruz.

Pretas (sem jazz)

As mulheres moçambicanas com tempo estão indignadas com um anúncio à cerveja Laurentina, que classificam de racista e sexista: «Esta preta foi de boa para melhor». A imagem da garrafa da Laurentina, que acompanha a frase, é um corpo de mulher literalmente sem pés nem cabeça, e com o rótulo no lugar onde devia estar uma parra, biblicamente falando. O Fórum Mulher, uma ONG com um papel muito importante em Moçambique na defesa dos direitos civis, diz que o anúncio promove a imagem da mulher como mero objecto sexual. Discordo: por um lado, as mulheres nunca precisaram de anúncios de cerveja para serem vistas como meros objectos sexuais, bastou-lhes sempre passar por baixo de um andaime; por outro lado, se eu fosse homem não quereria levar um torso para a cama, mas o que dá interesse ao mundo são as inúmeras interpretações da realidade e da ficção que encerra ou, para mal de alguns dos nossos pecados, liberta.

O anúncio é mau e só tem graça porque, sendo a uma cerveja preta moçambicana, tem nele a palavra preta na outra acepção. Os pretos que falam da sua cor como os brancos não são capazes de falar - tirando quando estão mais pálidos do que o habitual porque não vão à praia há dois anos (se houvesse ONGs de mortos adoraria assistir a discussões sobre termos como "lividez") — sempre me fizeram rir. No outro dia, um preto chamou racista a um dos brancos mais pretos que conheço e também isso me fez rir. O problema é que há demasiada gente escura no mundo — dizer "preta" seria restringir a escuridão aos pretos, e não me parece justo: há brancos muito mais escuros do que os pretos mais escuros que existem.

O sentido de humor ou o saudável não-se-levar-a-sério andam, geralmente, de mãos dadas com o esclarecimento — no sentido voltairiano do termo: Voltaire era iluminista, como toda a gente sabe; tinha uma fábrica de lâmpadas, pelo que não se podia dizer que fosse escuro, ainda que pudesse ser preto. É por isso que não entendo, no "mundo desenvolvido" (cuidado, vêm aí aspas a mais), a falta de esclarecimento. Quando é que a virgindade ofendida se tornou no bastião do primeiromundismo? E com que direito se tornou numa das mais frequentes marcas de "avanço civilizacional" a fazer polémica nos países "em desenvolvimento"?

Tirando práticas que não reconheço dentro do género humano (o único, preferencialmente), como a mutilação genital feminina em geral e a violência doméstica, urbana, bélica e verbal em particular (sim, eu sei, o particular era no geral e o geral no particular, mas eu gosto assim), sou muito pouco sensível a manifestações inflamadas de feminismo nos dias que correm (ou até de pró-palestinianismo, pró-tonycarreirismo ou mesmo qualquer coisa acabada em ismo, desde que não seja, por exemplo, ellafitzgeraldismo, um ismo que aceito muito bem e com o qual até sou capaz de acompanhar uma refeição). Sou assim por motivos rudes e sobranceiros: 1) porque sempre quis ser um homem, embora sem grande sucesso; 2) porque sei pouco sobre o feminismo e, sobretudo, 3) porque talvez sinta que os meus direitos estão conquistados - acontece muito à juventude.

Mesmo com tanta sobranceria deste lado, o caso é simples: o Fórum Mulher, nenhuma instituição ou pessoa esclarecida devia dedicar tempo precioso, de mudanças e batalhas necessárias, a polémicas sem swing. Enquanto houver desemprego e quem ampute clítoris, não vale a pena falar de cerveja. Se não houvesse mercado para a boçalidade aparente, que seria dos criativos da Super-Bock-Wonderbeer-Like-a-Virgin?

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Escrita

Por enquanto, e há pelo menos dezoito anos, é a escrever que mais existo. Não serve uma lista de compras, não; é isto. Sou, a escrever, o meu melhor e o meu pior. Escrevo sempre que posso, em privado mas sobretudo em público, aos amores e aos amigos, aos ex-amores e aos ex-amigos, aos futuros amores e aos futuros amigos, aos inimigos, ao mundo em geral e ao universo em particular, com ou sem maiúscula, com caneta ou com as pontas dos dedos, às vezes mesmo com o pensamento. Escrevo como quem respira — e há quem respire mal, qualquer otorrino sabe. Mas chateia-me escrever mal e reconheço, quase sempre, quando escrevo mal — é raro; quem escreve bem não sabe escrever mal, sabe é pensar mal, e uma boa escrita nem sempre redime um mau pensamento, mas lá que o disfarça, isso é verdade. Mas como dizia, chateia-me escrever mal e mais ainda me chateia que achem, injustamente, que escrevo mal. Ou que, injustamente, o digam sem que o achem — se o acharem, então, desisto, deixo de escrever e talvez, assim, consiga deixar de pensar, porque é com as palavras que penso. Mas no meio de tudo o que me chateia o que mais me chateia são as pessoas que dizem, ou fazem qualquer coisa, uma coisa qualquer para magoar. A maldade é só intenção, mesmo que não consumada. Está num olhar, numa maneira de articular uma frase ou uma simples palavra; vê-se no escuro. Amei-te, cega, na tua maldade, que tu também conheces. Ter-me-ás, talvez, amado na minha. Mas o que importa é querer melhorar. É que a bondade também é intenção, mas não só — a intenção é onde começa a bondade. Aquela que, quando existe, nunca mais acaba.

Impossível

Dizem-me que escrevo cada vez pior. Impossível.

Aprender

Aprendo a serenidade como aprende a cegueira um cego acabado de cegar: tacteando o mundo com medo e violência, deixando-se tactear. Aprendo a amar a minha juventude não só porque ela passará, mas porque me traz amigos, tão bons e desinteressados como aqueles que não soube guardar da infância. Pode alguém envelhecer mais comovido e imaculado do que era quando estava criança? Queira Deus, o Pequeno-Grande Sacana, que a isto se chame crescer. Que não seja mentira que eu me sinta a melhorar. Mesmo se outros me virem pior — porque não cresceram, talvez. Comecei agora o meu caminho e, por uma vez, não vou preocupar-me com terminá-lo, apenas me interessa fazê-lo. Aprendo a serenidade e estou-lhe grata por me deixar aprendê-la. Com um senão: fui sempre péssima aluna.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Breve maltratado das coisas que não existem [51]

Fala-se muito de amores, mas aposto que há ainda mais ódios não correspondidos.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Jazz com Pretas [21]

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Erosão

Dizer a coisa errada na hora errada, ou mesmo a coisa errada na hora certa é um dos meus estados - foi de propósito que não disse defeito, porque é só um estado. No meu mundo, à minha mercê, o que é fraco (não digo frágil de propósito, a fragilidade pode ser um estado e não um defeito) deve ser abandonado. O que é forte, com ou sem erros na hora certa ou errada, mantém-se naturalmente de pé. Percebo o que a noção de exagero representa aqui, mas acredita: é muito mais importante a de escassez. Se algo existe em demasia, ficamos só com o que disso nos interessa; se existe de menos, nunca nos podemos satisfazer. E a satisfação, sabe-lo bem, é uma maravilha indispensável. Eu sou o vento (não somos todos?): além das coisas boas que trago e sopro também provoco erosão. Por falar em erosão: sabias que a Esfinge foi esculpida do próprio solo de Gizé? E que Ela mesma, tão preservada pelos homens (que preservam, apesar de tanto holocausto, muito mais do que destroem), não se corrói só de vento, mas também da própria matéria de que é feita? Sal, por exemplo, como eu – que tanto me destruo como me preservo. Resta-nos, agora, saber quem tu és, mas eu digo-te quem gostaria que fosses (porque dizer também é um dos meus estados): a Esfinge. Tens sido.

Certezas

Quanto maiores, mais abaláveis.

I wonder to myself

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Ódio

Dizem-me que sou "imbatível a cagar certezas e sentenças". Sim, pelo menos na parte das certezas e não tanto na das sentenças, reconheço que sou assim, fui sempre assim e não quero mudar. Mas não sou uma pessoa essencialmente má – embora consiga sê-lo, porque conseguimos todos – e faço por me aceitar. Isso fará de mim, um dia, uma pessoa feliz. Convencida, mas feliz. Ser convencido é um defeito terrível e uma fatalidade, como ser feio ou cheirar mal dos pés. O amor resolve um (quem feio ama bonito lhe parece) e uma higiene cuidada o outro. Não há, no entanto, nada que resolva o ódio: é a maior das injustiças, por ser a mais inexplicável. Gostava de saber como se forma o ódio, para dele me desviar como se de uma tempestade se tratasse. O pior é que ele dura e as tempestades passam. O pior é que ele parece nunca se esgotar. O pior, no fundo, é que ele existe. O melhor é que tudo o que existe tem prazo de validade.

domingo, 7 de agosto de 2011

De pé a estas horas?

Por incrível que pareça, para as pessoas mais velhas dormir parece sempre mais importante do que acordar.

America's Cup

Se eu velejasse e competisse teriam de criar uma classe só para mim: seria a Pessimist.

(Esta foi blague. Fleet of Optimists, que delícia.)

Dostoiévski

Para um romântico há Crime e Castigo.
Para um cristão há crime e castigo.
Para um céptico há crime e recompensa.
Para um optimista há crime e crime.
Para um pessimista há castigo e castigo.
Para mim há românticos, cristãos, cépticos, optimistas e pessimistas.

Nietzsche

Entender o cristianismo é tão importante para entender aquilo que somos que mais vale não procurar entendê-lo e continuar sendo essencialmente ocidentais: sábios incompreendidos de racionalidade desmontável – como aquela pirâmide de Lego que te pisei sem querer e nunca mais te apeteceu reconstruir.

Auto-estima (Em Construção I)

Nunca fiz um convite por mera cortesia – isto é, esperando à partida que o convidado não aceitasse –, mas tenho sempre receio de que me façam convites assim. Ontem, por mero descaramento, aceitei um convite cortês. Só saberei se o era meramente se houver um próximo.

Mentiras piedosas

Em O Anticristo, comparando os fins destrutivos de cristãos e anarquistas, Nietzsche escreve: «Efectivamente é necessário considerar com que fim se mente: é muito diferente se a mentira é para conservar ou para destruir.» O filósofo considera, assim, por exemplo, que dizer "Não te amo" quando se ama é mais grave do que dizer "Amo-te" quando não se ama. Eu também; se é para doer, ao menos que seja verdade. O que Nietzsche não contempla, porque está apaixonado por si mesmo, é que não há verdade sequer na assunção de que não há verdade: nem sempre o que parece é e, muitas vezes, o que é nem sequer parece. Dizer que milagres acontecem faz de mim crente ou anarquista?

Rebeldia

Porque é que o suicídio é visto como um acto de rebeldia se a única coisa mais conservadora do que a vida é a morte?

Muffin men

Na casa de um amigo está exposta a Constituição de Užupis, uma república independente situada num bairro em Vilnius onde um dia se deitou abaixo uma estátua de Lenine para erguer uma de Frank Zappa. Para que não reste qualquer dúvida de que esta é, de longe, a melhor e mais justa constituição de sempre, partilho convosco o ponto três, que me convenceu a mudar-me para a Lituânia de hoje a oito: «Everyone has the right to die, but this is not an obligation.» Não é um alívio?

Futuro

A única coisa que sei do futuro é que ele existe. É, felizmente, menos do que aquilo que sei de ti: não só existes como continuarás a existir.

I Ching

No Livro das Mutações há uma expressão recorrente que os brasileiros traduzem do inglês (traduzido, por sua vez, do alemão de Richard Wilhelm) como "nenhuma culpa". Também podia lá estar o teu nome, quem sabe ao lado do meu. Ou melhor: a palavra talvez.

Conflito

A prova de que preciso de mais terapia é ter escrito, no post anterior, uma atrocidade que apaguei a tempo: "não sou conflituosa". Uma pessoa que insiste em tornar razoável o que não tem explicação, em justificar os sentimentos com as palavras e – vejam só a batota – as palavras com os sentimentos não pode ser senão muito conflituosa. Dizer "amo-te", por exemplo, trinta mil vezes por dia não torna nem transmite um amor mais forte, nem mais verdadeiro. Mas isso são coisas que eu só estou a aprender agora – com o meu desgosto, com o meu amor.

Disciplina

Todos temos, cedo, tarde ou ao longo da vida, os nossos mentores, o que não só será saudável como natural, desde que nos saibamos libertar deles a tempo de sermos quem podemos e, sobretudo, quem queremos ser. Muitas vezes – quase todas, afinal –, é a vida que faz de preceptora. Há, no entanto, quem pense que tem a responsabilidade de fazer de vida, magoando-nos para nos obrigar a aprender. Estes deuses apaixonam-me. Porque nunca tive, na verdade, quem me aplicasse disciplina. Por ter triunfado sempre no conseguimento pela persuasão, sedutor e irresistível até para os adultos – que têm sempre mais de criança do que pensam –, em menina raramente fui contrariada. Passada a minha tirânica infância, da qual só agora me dei conta, vou ouvindo alguns nãos e percebo, para minha própria indignação, que até os talvez me satisfazem pouco – porquê, se um talvez contém, na mesma medida, a possibilidade do tudo e do nada? Exijo-me e de todos mais do que posso e, sobretudo, devo. Cumpro pouco e os outros cumprem, naturalmente, apenas o que querem ou podem cumprir: a vida é mesmo assim e é bonita na mesma, apesar de me contrariar irredutivelmente em diversos aspectos – a morte , por exemplo, é um deles; mas há males bem piores, como um não em vez de um talvez.

Aprendo tudo isto na ausência do meu psicólogo – todos os psicólogos, fiquei a saber, tiram férias em Agosto. Sejamos optimistas: estou, no fundo, a poupar dinheiro. Nunca é tarde para nos disciplinarmos, apesar de já passar da meia-noite.

sábado, 6 de agosto de 2011

Silêncio

Há pessoas que, coitadas, não se conseguem calar. Não conseguem respeitar respeitosamente o silêncio dos outros, admitir que, se estes não dizem nada, é porque provavelmente não só não querem falar como não estão dispostos a ouvir. Convivo amiúde com pessoas destas e o que mais temo é ser uma delas. Ao mesmo tempo, mantenho a ideia (imatura, alguns dirão) de que somos todos iguais e que, em havendo diferentes, só há melhores. Ou seja, sou o que temo. Coitada.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Posse II

O sono é das poucas coisas que nos têm que podemos ter.

Arrependimento

No dia em que me arrepender de ter corrido atrás de um só minuto de felicidade, o meu relógio estará adiantado.

Posse

O meu psicólogo é o meu psicólogo ou eu sou a sua paciente?

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Erro

Podia dizer que insisto no erro, mas seria mentira. O erro é que insiste em mim.

Filipa Pato

Substituí um ansiolítico por um vinho bom. Estou ansiosa por voltar a bebê-lo.

Medo

O que mais contribui para o ridículo é a falta de medo do ridículo. Deve ter-se medo de tudo, inclusive do medo.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Amor

A esperança estava a matar-me, então fui matá-la. Não sabe bem, dói, dilacera, mas tem utilidade. E, à boa maneira clássica, o que é útil não só é bom como pode ser também belo. Agora, na escuridão, a felicidade — a que me deste e a que me tiraste — não está sequer no horizonte. Não é a ponta de uma sombra, um pedaço de noite — de uma daquelas noites que tu encheste a transbordar —, mas é a verdade. A verdade, dizem-me, enquanto me enxugam as lágrimas, foi o melhor que me deste. Talvez tenha sido o mais útil, mas nunca, de longe, o mais belo: o mais belo é a felicidade. Isso, tudo isso, são coisas das quais não sei falar — suspeito, até, de que não haja palavras catalogadas para o efeito. Encerro-as como um quarto ao qual não posso voltar ainda. Quando um dia a casa estiver cheia, abrirei a porta desse quarto. E desse quarto as janelas. Sentar-me-ei descalça no chão de tábua corrida, com o sol a bater-me na cara e a inundar o tecto de pé-direito altíssimo, e lembrar-me-ei de ti. De como parecias iluminar-me mais do que esse sol, de como não me escureci. É de mim, no fundo, que me lembrarei. Do que fui, do que serei. E da liberdade suprema que é este amor que te tenho: um amor puro, enorme e, raios o partam, não-correspondido — platónico, afinal. Tinhas razão: liberdade é podermos escolher as nossas próprias prisões. Escolhi-te; a meu tempo, libertar-me-ei. E posso garantir-te que sairás intacto do meu coração para um lugar melhor: a minha cabeça. Deixa, agora, peço-te, de me apertar o peito. Destapa-me a garganta, preciso de comer. Liberta-me este corpo da falta, da saudade. Vai, amor. Vai. Volta sempre, porque eu não te sei mentir. Serás bem-vindo.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Jazz com Pretas [20]



(ou será Bach?)

A ponte que nos une

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Haiku para tu (3)

Cortei o cabelo.
Continuas enorme.

Haiku para tu (2)

Tartaruga verde
nunca deixes que te quebrem a carapaça!
Mas eu não sou toda a gente.

Infância

Dizes-me que a paixão é infantil. Respondo-te que a não-paixão também.

Haiku para tu (1)

Quando a lava atingir a fortaleza
mesmo tu acabarás por derreter.

Informação

Este blogue tem aquilo a que eu chamaria "demasiada informação". Os meus olhos, quando te vejo, também.

Desistência

— Desistir de ti é desistir de mim. E desistir de mim, o que é? 
— Um enorme disparate.

Protecção

As pessoas honestas atingem facilmente o estado ideal de aperfeiçoamento emocional. Enquanto as pessoas normais se protegem das pessoas desonestas, as desonestas protegem-se das honestas, ao passo que as honestas, se não se protegem umas das outras, já só têm de preocupar-se com proteger-se de si.

Transacção

Um amor pode ser tão generoso que aceite, em troca, um não amor?

Imbecil

— Não estou apaixonado por ti.
— Como? Só um perfeito imbecil não se apaixonaria por mim.
— Eu avisei-te.

Imediato

— Vais deixar-me? — perguntou. A resposta não veio imediatamente:
— Não.
No dia seguinte, deixou-a.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Bergman revisitado


Morte: Nada me escapa. Ninguém me escapa.
Antonius Block: A morte é uma cena que a mim não me assiste.

(in memoriam)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Jazz com Pretas [19]



*Nunca vos aconteceu?

Je fais ce que je peux

Tráfico de influências

O amor é que é essencial.
O sexo é só um acidente.
Pode ser igual
Ou diferente.
O homem não é um animal:
É uma carne inteligente,
Embora às vezes doente.

Fernando Pessoa

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Valores

Poucas atitudes me repugnam mais do que as de pedir de volta uma coisa que se deu ou devolver uma coisa que uma vez se aceitou. Excepto se essa coisa for o coração. Esse pode dar-se sempre de volta, e pedir-se ainda mais: mas nada – nada – o pode substituir.

Pedro Mexia

Os Smiths são a banda favorita de metade da melhor blogosfera e de um terço da pior juventude (esqueçam que isto é um blogue e considerem-me da pior juventude). Representam, entre outras coisas que posso dizer para parecer que consigo emitir opinião sobre o que quer que seja, a soberania do desejo sobre o bom-senso - e, em última análise, sobre a própria paz. Como Peter Camenzind, são quase arrogantes: pode alguém saber-se a fracção de um átomo e comportar-se como se o mundo lhe devesse satisfações? Pode, na lírica feijão-frade dos Smiths, onde um som luminoso coexiste com uma revolta absurda, daquela que só os adolescentes conhecem.

«If you're so funny
Then why are you on your own tonight?
And if you're so clever
Then why are you on your own tonight?
If you're so very entertaining
Then why are you on your own tonight?
If you're so very good-looking
Why do you sleep alone tonight?»

Perdas

Bobby McFerrin esteve cá e eu perdi-o. Pode perder-se o que nunca se teve?

Álcool

Dizes que estou assim porque não bebi o suficiente. Não terás bebido de mais?

Consensos

Nunca serei consensual, a começar por mim: tanto me detesto como me odeio.

Eles

Há um problema em fazer ou deixar de fazer coisas pelos outros: são os outros.

Auto-hetero-retrato

«Entretanto, eu tinha ainda a estranha sensação de ser uma pessoa fora do comum, que de alguma forma ficara para trás e cujos sofrimentos ninguém conhecia, compreendia ou partilhava. É o que a melancolia tem de demoníaco, o facto de tornar a pessoa não só doente, como também pretensiosa e de vistas curtas, quase arrogante. A pessoa julga-se o Atlas de mau gosto de Heine que carrega sobre os ombros todos os sofrimentos e enigmas do mundo, como se mil outros não suportassem também os mesmos sofrimentos e errassem no mesmo labirinto.»

Peter Camenzind, Herman Hesse, 1953 (tradução de Isabel de Almeida e Sousa para a Dom Quixote, 1992)

Literatura

Todos os dias tenho óptimas ideias para romances, mas depois apercebo-me de que é sempre o mesmo: o nosso, mas em bom.

White Fang

Estou a ler o meu primeiro Jack London e é-me aborrecido como a vida: tudo demora muito tempo para acontecer e quando finalmente acontece demora pouco tempo a acontecer. Não há itálicos nem semelhantes paneleirices: com uma ou outra imagem que ajude à compreensão da realidade, tudo é imediato – nem Deus, parece, é mais omnisciente do que o narrador. Até aqui, não há nenhum problema: um livro, uma ementa, um título de transporte bem escritos serão sempre uma bênção. Os efeitos da realidade, ou da verosimilhança na literatura é que são perigosos, como os do sono num automobilista: ou acorda por si, ou é provável que não volte a acordar.

Recados

É feio mandar recados pelo blogue, disseram-me uma vez. É por isso que estou a guardá-los no blogue: para não os mandar.

(Este estilo foi inaugurado por Pedro Mexia, que continua a ser o único blogger a executá-lo com mestria. Talvez porque os seus recados sejam ficções, ou porque as suas ficções sejam recados. Nunca o saberemos. No meu caso, os meus recados são recados. A Caras e a Hola!, por exemplo, vendem por cusquice e não por mestria. Só tenho um objectivo: enriquecer. À tua custa, se for preciso.)

Teia

Todos os seres livres correm o risco de se encarcerar na sua liberdade. Mas primeiro, quase sempre sem querer, prendem os outros nela. Sejamos todos livres, então, para ver no que dá.

∞ ∞

A. disse-me, como tu, que todos os amores são desequilibrados: há sempre um que ama e outro que se deixa amar. Como resolver isto se nenhum de nós aceita menos do que a sua própria noção de infinito?

Elis

A característica de Elis que Maria Rita, brilhante, não herdou – apesar da semelhança fantasmagórica dos seus timbres – e que faz Elis ser quem é – única, irrepetível – é tão simples de sentir e explicar que quem tenta explicar devia ser punido por altivez: não ter vergonha de falhar. Elis falhava; mas antes de falhar já sabia que ia falhar; mesmo assim não tinha medo e, sobretudo, não tinha vergonha de falhar. Porque era sublime mesmo quando falhava, até porque sabia que ia falhar. Tudo isto nos levaria, claro, a uma metafísica do falhanço: como defini-lo? Por oposição? Postulando, primeiro, a competência e a perfeição? De uma música de Elis não se diz: é bonita. É pouco – antes não se dissesse nada. E daí, talvez não – não se deve ter vergonha de falhar.



«putz... q comentário idiota ¬¬
Maria Rita é Maria Rita
Elis é Elis
as duas são ótimas. compara-las é assinar atestado de idiotice...
»
fabioestacio há 1 ano 25

«Disparado, o melhor visual da Elis: as gengivas em flor sobre dentes de iogurte, o pescoço acetinado, bem encaixado, o sorriso do olhinhos com lindos cílios, os lábios.
A coisa é tão bem feita que o cabelo caiu fora, por desnecessário.
»
marcelodomar há 1 ano 21

[Daqui.]

terça-feira, 12 de julho de 2011

Especiarias

A justiça mostarda mas não falha.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

África

- Não estarás a ver tudo um pouco negro?
- Estamos na Guiné.

O centro das atenções

- O que é que ganhas em atacar-te tanto?
- Assunto.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

LoboTomia

Luta

Uns olhos bonitos não justificam tudo. Mas luta, isso dão.

Existo: desculpa.

Peço sempre por favor; peço sempre desculpa. Até por existir. Quando é que isto acaba, se não consigo parar de pedir desculpa, se não posso deixar de existir?

Pergunta

Porque é que quem fala verdade - e não merece castigo - é sempre tão castigado?

Visível

Não acerto com o aspecto do blogue, isto é, com o blogue.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Tu

Chamas-me autodepreciativa. Devias tirar o auto: eu não existo.

AC/DC

Estou ligada à corrente, mas Deus insiste em guardar as electrocussões para os outros condenados.

Repetições

Dizes-me e vejo que escreves com o desvelo de não repetir palavras. Eu não: repito sempre as palavras para me dar a sensação de que não me repito a mim.

Otorrinolaringologia

Se eu um dia escrever alguma coisa que fique, aqui está como gostaria de ser lembrada: escrevia com a garganta. Porque não escrevo nada que não possa ser lido em voz alta, da garganta, e é da garganta que me saem as palavras. A angústia não. A angústia é o que fica.

Felicidade

Dizem os ricos que o dinheiro não traz felicidade. A verdade é que também não a tira.

Imortalidade

Acredito na imortalidade de quem usa fraldas descartáveis: não são recicláveis e, como tudo o que não presta, hão-de perpetuar-se indefinidamente.

Até ver

Como pessimista, sou tentada a dizer que há situações sem solução. Lamentavelmente para o meu pessimismo tudo tem solução: a morte resolve tudo (pelo menos para quem morre).

Soluções

As criaturas que resolvem tudo enervam-me. Porque, exactamente, resolvem tudo - e eu, por orgulho, não costumo deixar que me resolvam.

Homens

Era tão seguro de si que frequentemente se despedia com "Adeus ex machina".

sábado, 2 de julho de 2011

Tecnologia

Toda a minha realidade é diminuída. Emprestas-me uma lupa?

Vergonha

Uma pessoa encontrou este blogue pelo termo de pesquisa "belos broches". Não sei o que me envergonha mais: ter sido encontrada por isso ou estar a contribuir, com um novo post, para mais uma ocorrência.

Grilhetas d'leituras

O Luís e o Samuel passaram-me a corrente (se bem que eu não sou Faia, mas Viena é aqui). Não li nada, por isso vou responder: não quero esconder quem sou.

1. Existe um livro que relerias várias vezes?
Todos. Ganho muito, muito tempo a reler livros - não é tempo perdido.

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Muitos. Lembro-me, de repente, de A Escrava Instruída, sobre o qual tenho um dilema de tesão-nojo indescritível. Por falar nisso, vou tentar recomeçar outra vez.

3. Se escolhesses um livro para ler no resto da tua vida, qual seria?
Não querendo copiar ninguém, mas copiando toda a gente: todos os que não li. Se só pudesse ser um, ou se como em Fahrenheit 451 tivesse de decorar um livro para sê-lo seria O Último Justo. (Já sou.)

4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Todos. Mais precisamente: Bíblia, Moby Dick, Ulisses, Guerra e Paz e Cosmos, por exemplo (todos na estante, à espera).

5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?
Os Maias, manual de vida, graça, pensamento, gramática e pontuação: "Falhámos a vida, menino!"

6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Os Cinco eram os meus favoritos. Também lia Tintins, comme il faut, Robert Louis Stevenson, Agatha Christie, Erle Stanley Gardner, muito Eça de Queirós e O Amor é Fodido, que o meu pai me ofereceu precocemente achando-o adequado para me ajudar a compreender uma primeira paixoneta. Depois leu-o e arrependeu-se - devia tê-lo lido antes. Foi o primeiro livro adulto contemporâneo que li, isto é, tinha sido escrito há menos de um século e o autor ainda está vivo.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
O Capital, por convicção e amor a um comunista - que acabariam por se dissipar com a ajuda de outro livro, brilhante, por sinal: Porquê Ler Marx Hoje. Curiosamente, foi esse amor comunista que mo ofereceu - contributo para uma definição de "contraproducente". A Crítica da Razão Pura também é uma seca, apesar de brilhante e empolgante em algumas passagens.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Todos adolescentemente convencionais, clássicos, mas bons em qualquer parte do mundo: O Livro do Desassossego, Lolita, A Metamorfose, O Último Justo outra vez, Uma Agulha no Palheiro (a tradução mais livre do magnífico Catcher in The Rye), O Crime do Padre Amaro, Górgias, O Retrato de Dorian Gray, 1984, O Que Diz Molero, Bartleby, A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua, A Trégua, qualquer coisa escrita pelo Luís Fernando Veríssimo - mesmo que seja uma lista de compras -, O Professor e o Louco e uma deliciosa descoberta recente: O Café Debaixo do Mar.

9. Que livro estás a ler?
Presa Branca - e a seguir vou para O Lobo das Estepes, para não sair da espécie.

10. Indica dez amigos para responderem a este inquérito.
Amigos ou amigos do Facebook? De tudo um pouco: o meu bibliotecário favorito, a minha poeta favorita, o Nuno, só para o ver dar sinal de vida, a minha rival favorita (se bem, temo, não vai muito em correntes), o Luís Miguel Oliveira e, em pack, a Mónica Marques e o Pedro Vieira: porque são divertidos, escrevem livros e isso é uma coisa corajosa. Chega.

E agora um miminho: A melhor resposta de sempre a esta corrente e a todas as que ainda hão-de ser inventadas.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Optimismo

Isto ainda não está bem.

Senhora

Aprendi cedo que uma senhora não deve dizer palavrões. É a única coisa que me impede de ser uma senhora.

Dúvida

Como me devo referir aos animais que andam a pôr coletes-bomba em crianças? Filhos da puta ou filhos de uma grandessíssima puta?

Diagnóstico muito reservado

Faz-me impressão ver uma comunicação social em morte cerebral a falar tanto de morte cerebral. Está ligada à máquina: não cumpre funções vitais. Ou será que a máquina já é ela? Que eu saiba, o design genético ainda não está legislado em Portugal.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Mulheres, animais

Banal e irresistível, esta coisa de identificar as mulheres sensuais com felinos. Pé ante pé, com uma cautela ou um ardil que se confundem quase com meiguice. Não são: se fossem, a mulher-lontra ou a mulher-koala seriam um recurso constante na literatura – a verdadeira e a proto-pseudo-erótica. Eu cá queria ser tartaruga: ser serena e forte, ter carapaça; e ser longeva, para ver de tudo. Ou caracol, depois de cozinhada: perder o visco, ter um travozinho acre, para não aborrecer, e nunca saciar – por pequenez, não por incompetência.

Angélico

Vamos velozes na estrada-serpente. Eu, Obélix, para comer javali; tu, por Toutatis, para ver artesanato – inútil quilometragem. Tu dormitas de um certo cansaço (será de mim?) e eu arrepio-me, porque há animais mortos pelo alcatrão – lebres e coelhos, duas ou três perdizes. Naquele cruzamento pelo qual passámos três vezes, uma enorme mancha de sangue que tu nunca viste, parecia que tinham matado um porco mesmo ali para fazer chouriço. Ou talvez secretos, porque na verdade o porco nunca apareceu. Não abres os olhos para me dizer que vá mais depressa. Se é noite, exiges-me os máximos com razão. No rádio, a tua querida Pietra Montecorvino, tigreza doce-feroz que adoptou o nome de uma comune com dois mil e novecentos habitantes na província de Foggia (41°33'N 15°08'E), região de Apulia - código postal 71038. Tudo isto é novo para mim. A liberdade, a irresponsabilidade de um pé pesado no acelerador, como se a minha vida me pertencesse e a tua também, que ainda por cima vais sem cinto. E a música, que parece uma carroça conduzida por um rústico: imparável, aos solavancos. Sobreviver-te é uma sorte.


Cúmulo da subjectividade objectiva

Um anónimo usar a expressão "para mim".

Agricultura

As canções de dor de corno são infinitamente mais bonitas do que a dor de corno em si. Deve ser pelos mesmos motivos que a terra estrumada dá frutos melhores.

Ausência

Já te disse que não precisas de impor a tua presença para impor a tua presença.

Tragédia

Um diagnóstico extrovertido apaixonar-se por um prognóstico reservado.

Cansaço

– Dizes amo-te demasiadas vezes.
– Como preferes que diga?
– Menos.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

A frente

– O tempo escapa-me como areia entre os dedos. Os dedos escapam-me como areia entre o tempo. A areia escapa-me como o tempo entre os dedos.
– Cala-te, tens a vida toda pela frente.
– Pois, não tenho tempo.

sábado, 25 de junho de 2011

Revoluções

Sou sempre tentada a dizer que não percebo nada de música. Mas percebo. Porque percebo de gratidão, isto é, mostro-a quando consigo e sinto-a quando não a consigo mostrar. A música é isso e disso quase toda a gente percebe - mesmo os ingratos sabem que deviam mostrar gratidão. Neste dia, há dois anos, morria um génio absoluto como o zero absoluto: ninguém sabia o que significava ser ele, do que ele era capaz. Este blogue estava morto na morte de Michael Jackson. Com ele, aprendeu a viver: naqueles vinte segundos que vão da superfície da Lua ao Sol escaldante em bicos de pés há provas de vida extraterrestre na Terra, de aborrecimento nos anéis de Saturno, de parcimónia nos satélites de Júpiter. Vida, extravida, antevida e pós-vida, sobrevida, portanto, que é como quem diz morte, injusta, adiantada, morte enquanto adjectivo, insulto - tudo o que é previsível deve ser insultado duas ou três vezes na vida, mesmo se for bom; não é o caso, o caso da morte: há que insultá-la todos os dias.

Existem músicas e artistas que nos parecem banais porque não lhes conhecemos uma história, um contexto. Conhecer Michael Jackson - coisa que só comecei a fazer há dois anos, na sua morte - exigiu de mim escutar com ouvidos que não tinha. Mandei fazer uns de propósito, que uso para ouvir as revoluções. As que só se percebem quando estão a acontecer. Como Billie Jean, como a bossa nova. Quem diria que João Gilberto, que acaba de fazer oitenta anos, obrigava, nos anos cinquenta, professores de guitarra a virar a cabeça para baixo para ver como ele tocava o que ele tocava? O melhor do mundo é isto: nem tudo ser o que parece e, ao mesmo tempo, tudo nos parecer tão familiar.


sexta-feira, 24 de junho de 2011

Maturidade

É um alívio descobrir que o mundo não gira à nossa volta.

Górgias (workflow)

Há um exercício retórico ao qual me dedico amiúde e que surge sempre sem eu querer:

1. Indigno-me com alguma coisa e começo a escrever sobre ela, argumentando ao sabor da minha indignação - tanto que, grande parte das vezes, não estou a escrever sobre o que me indignou, mas sobre a indignação em si.
2. Mais ou menos a meio do texto apercebo-me de que a minha posição é indefensável.
3. Mais por prazer do que por orgulho ou teimosia continuo a defender a minha posição indefensável.
4. Limo o texto, usando de subterfúgios pseudo-estilísticos banais e de uma lógica aparente (e aparentemente lógica).
5. Quando estou satisfeita com a minha fraude, releio-a várias vezes, com prazer.
6. Se a cadência e a fluidez do que escrevi me conseguirem fazer esquecer as minhas mentiras, retiro-me do texto.
7. Se me acontece voltar ao texto, muito tempo depois, penso: que bem que eu escrevia, que diletante que sou.

Forte

O sofrimento não é o meu fraco.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Masoquismo

Uma coisa que continuará sempre a intrigar-me é a razão pela qual as pessoas perdem tempo com aquilo de que não gostam, a menos, é claro, que tirem disso algum benefício. Por exemplo, todos os dias me apetece mandar calar imbecis com voz pública e, em nome da liberdade (a minha, pensando a médio prazo, e a deles), não o faço. Porque eu posso desligar a televisão quando um imbecil aparece, posso não ler o artigo de jornal, não visitar o blogue ou a casa de um imbecil. Posso dizer a um imbecil: "discordo de si" ou "o senhor está convencido de que é muito bom, mas eu não acho"; no entanto, não o procuro para lhe dizer isso, porque a vida já é escandalosamente curta para o prazer, quanto mais para o dissabor. A voz pública de um imbecil nunca limitou a minha liberdade. Limitou, isso sim, a minha paciência, insultou a minha inteligência (por limitada que seja). Mandar calar, mandar mudar certos imbecis com voz pública é uma imbecilidade. Porque eles só nos invadem, só nos fazem perder tempo se deixarmos. Masoquismo não, obrigada. Para isso, basta a morte. Sempre tão perto, sempre tão longe.

Interiores

Rejeitado por todos, até os halls por onde passava eram sempre de saída.

Pressão

Farto da sua profissão, o mergulhador mandou fazer uma cama hiperbárica para descomprimir.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Ficções

A única morte que tenho mais presente do que a minha, do que a nossa, é a do dinheiro: já está gasto quando o ganho e, mesmo quando o tenho, é breve. Não passa de uma ficção.

Eu, todos

O autocentrismo não é tão mau como o pintam, é um centrismo como outro qualquer. Mais certo, até: sem mim, não tenho a certeza de que os outros existam.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Gaba-te

Nada como ser cesto para saber lidar com a ráfia.

Cesto

Para Nietzsche a humildade era uma pretensão. Para mim também.

Vista (II)

Sou toda boa, sobretudo vista de dentro.

Vista

Era toda boa, sobretudo vista de fora.

Bacalhau basta

Prometo compensar cada muito mau post com um post francamente mau. Se não conseguir é porque são todos bons.

Impossível

Continuo sem conseguir falar sobre a actualidade, sobre aquilo de que se fala. Prova disso é que comecei por escrever, em vez de aquilo de que se fala, aquilo que nos move. Estava errada, corrigi. Aquilo que nos move não é, felizmente, aquilo de que se fala. Fala-se pouco sobre o tempo (o que passa e o clima, que também passa, mas custa menos a passar), por exemplo, sobre as coisas simples. Porque das coisas simples talvez haja pouco para dizer: elas vivem-se, se tivermos sorte, e aprendem-se, se passarmos a ter sorte depois de termos tido azar, ou seja, se tivermos sorte. Falar pouco é uma sorte, sinal de que se usa o tempo de falar para viver. A actualidade é inesgotável, igual todos os dias porque se reinventa todos os dias para nos surpreender - e é esse ser, na essência, sempre igual que nos surpreende. Já o que nos move esgota-se no nosso movimento; e torna-se, com isso, inesgotável. Porque, quer queiramos ou não, não nos esgotamos no nosso esgotamento: reinventamo-nos nele. Invariavelmente, pioramos. O que nos move, felizmente, não. Se não melhorasse, nenhum de nós melhorava. É melhor, para todos, que melhore, que alguns de nós melhorem. Melhor do que isto é impossível.

Justiça

O que é que se pode querer mais para além de tudo aquilo a que se tem direito?

domingo, 12 de junho de 2011

Controlo remoto

A trinta centímetros de mim,
distante como se no outro lado do mundo,
chegas-me a cabo, por satélite.
Vejo-te; televisão?

Está nas minhas mãos alcançar-te, mas
onde estão as minhas mãos?
Estico-me, inflexível,
onda curta — rádio, afinal.

Som sem imagem:
as palavras chegam,
sobram, são de mais.
Ouço-te, calo-me; tens razão.

Gostas de zapping?
Sintoniza-me.

Mértola


Há lugares tão fotografáveis que só um bom fotógrafo pode fazer deles uma fotografia digna desse nome. Os lugares e a luz não esperam, pelo que o fotógrafo é quem está, como eu, frente a esta luz, neste lugar. Ser é outra coisa, quando Deus nos acompanha aos lugares certos, com a sua luz e a de quem sabe (é) fotografar.

sábado, 11 de junho de 2011

Dinossauro

Tanto me acendes como me apagas; mas eu nunca me extingo.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Poesia


«For there are brighter sides to life
And I should know, because I've seen them
But not very often»

Alex (at last/again)

«Oh bliss! Bliss and heaven! Oh, it was gorgeousness and gorgeousity made flesh. It was like a bird of rarest-spun heaven metal or like silvery wine flowing in a spaceship, gravity all nonsense now. As I slooshied, I knew such lovely pictures!»

[Para a minha melhor amiga/árvore/irmã, com louvor e distinção.]

terça-feira, 7 de junho de 2011

Meteorologia

As nuvens hoje estão cheias de céu.

Prisão

Uma pessoa inteligente pode escolher ser estúpida e dar-se a ver aos outros assim. Mas de si, e da sua inteligência, nunca se conseguirá esconder.

Liberdade

É raro uma mulher apaixonar-se pela beleza de um homem. Como a minhas avós se apaixonaram pela de James Dean, Marlon Brando, Paul Newman ou Alain Delon. Como eu me apaixonei pela de Brad Pitt montado em cima de uma Harley-Davidson em The Curious Case Of Benjamin Button, lindo como Dean, Brando, Newman ou Delon - sim, é mais fácil apaixonarmo-nos pelos nossos contemporâneos.

Isto acontece porque o homem é sempre potencialmente feio, e quanto mais nu mais potencialmente feio é. No entanto, há coisas nos homens nus, mesmo os feios, que atraem as mulheres. A força personificada nuns braços ou num peito imponentes, por exemplo. Uns olhos acesos como lenha em lume. Cabelos revoltosos como cristas de algumas ondas, quase em vértice, quase lâminas. E assim por diante.

Por ser tão rara, a beleza clássica, vitruviana de um homem tem de ser substituída pela sua inteligência. Melhor dizendo, a sua inteligência torna-se na sua beleza. Quem ama a beleza tem poder: ama o que existe, porque a beleza é palpável, factual, ainda que subjectiva - isto é, é mais fácil transformar a fealdade em beleza (acho-te bonito sabendo que és feio) do que a beleza em fealdade (és muito bonito, mas acho-te feio).

Amar a inteligência, mesmo feita beleza, é mais difícil. Ninguém está livre de nascer bonito e a beleza é uma coisa que se vê sem que o seu portador precise de abrir a boca, exprimir um pensamento. Amar uma inteligência é amar uma liberdade. Ou seja, é amar o que não se pode ter. É uma luta ganha e perdida à partida. Porque não há, no Mundo inteiro, nada pior do que perder um amor; nem há, no Universo, nada mais amável do que a liberdade.

Pronto-a-vestir

X era das raras mulheres que lhe pareciam mais interessantes cobertas do que nuas, e às vezes nem isso.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Proto-auto-análise

Sou como sou, não gosto de ser assim e não faço nada para mudar. A mudança é um abismo maior do que eu, do que tu, do que a vida. Mas não sou má pessoa. Antes fosse.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Só passei aqui

para dizer que este blogue é uma maravilha.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Um destes dias escrevo sobre os trogloditas ternurentos

Valor acrescentado

Todas as putas são mulheres, mas nem todas as mulheres são putas. Quem é que está em vantagem? As putas, claro: além de terem o que todas as mulheres têm, ainda têm o que nem todas as mulheres têm.

domingo, 22 de maio de 2011

Cedo

« Escolheu cedo ser dominicano?
Cedo, não, tinha vinte e tal anos.»

Satisfações

«Conduz-nos, Deus,/ de questão em questão,/ de fogo em fogo,/ sem satisfações que ao tempo bastem / e a nós assombrem.»

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Vinte e três

Serei capaz de amar quem não inveje os meus vinte anos só porque estes são os meus, só porque os seus já passaram. Por ser tudo, a idade não é nada. Por não ser nada, a idade é tudo. Por não ser tudo, a idade é tudo. Por ser e não ser tudo, a idade é o que é. Somos nós. Nós somos aquilo que queremos ser, tudo o que quisermos ser; mesmo que não nos deixem ser o que queremos ser, é isso que somos: alguém que aceita que não o deixem ser aquilo que quer.

A nossa idade é, assim, a que quisermos ter. Estes vinte anos são meus. Quem quiser os seus que os tenha. Quem não conseguir tê-los é porque já os teve, ou porque ainda não os tem, ou então porque os não quer ter. Quer os meus e não os seus vinte anos e eu compreendo: também só quero os meus. Não quero os de quem já os teve, nem os de quem ainda não os tem, e muito menos os de quem não os quer ter. Quero os meus, já. E, porque quero, tenho.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Aos meus filhos

Os meus pais são bons e eu adoro-os por isso, mas não me prepararam para lidar com a filhadaputice. E se tal é imperdoável entre quem não deve nada a ninguém, é de uma tremenda irresponsabilidade quando falamos de pais e filhos os primeiros devem aos segundos explicações e os segundos devem aos primeiros a vida e a morte, não há desequilíbrio mais insolúvel.

O que quero que saibam é que não é justo que certas pessoas sintam medo e culpa onde não devem sentir nada; e não há nada mais legítimo do que querer aprender a lidar com essa injustiça particular: a que pratica quem induz culpa onde ela não pode existir. A culpa, meus filhos, é uma abstracção dos fracos que se refugiam na força que é, em si mesma, a vontade de fazer bem ou, se preferirem, a de não fazer mal.

Ser forte é muito importante. Para ser forte, é preciso ter coragem. Ao contrário da cobardia, a coragem aprende-se. Os cobardes são fracos de nascença, como se fosse um bónus, uns olhos bonitos, um grande talento para a escrita ou a música, por exemplo. A coragem ensina-se como as maneiras: é preciso saber para ensinar. Atenção, não é preciso ser, mas saber, e nem isso os meus pais sabiam agora, que já não vão a tempo de me evitar alguns sofrimentos, também eles vão aprendendo —, mas eu sei. E, porque sei, ensino-vos: que não devem envergonhar-se de ser aquilo que são, nem de que alguém, mais forte mas igualmente bom (para Rousseau, por exemplo, éramos todos bons selvagens; para mim somos todos bons e maus, assim queiramos ser uma coisa ou outra), vos defenda de vós mesmos quando tudo o que vêem, à vossa volta e para vosso desespero, é humilhação. A humilhação nunca nos é infligida por outros, mas por nós mesmos: humilha-nos quem deixamos que nos humilhe. Ninguém que seja forte se deixa humilhar.

Vou dizer-vos porque sei o que é a coragem e não sou corajosa: porque reajo sempre com perplexidade à filhadaputice, como se não estivesse habituada a ela. A filhadaputice é sempre nova para mim, sempre inovadora, mesmo que seja igual a todas as que já vi. Porque os meus pais não me disseram nada disto que vos estou a dizer. Chamaram-me linda, chamaram-me inteligente, mas nunca me disseram para ser forte, talvez porque achem que ser forte significa enfraquecer os outros. Não, meus pais: significa não se deixar enfraquecer pelos outros.

Por fim, meus filhos, precisam de saber que filho da puta, só por si, não é um bom insulto. As putas não são mulheres piores do que as outras e ser filho de uma puta não faz de alguém um filho da puta. Felizmente, a influência dos pais naquilo em que os filhos se tornam é limitada. Conto, por isso, que já nasçam ensinados e não me peçam explicações.

Com amor (muito, todo),

A mãe.