domingo, 24 de abril de 2011

Páscoa, Paixão.

Leitor, agora mando eu: tratemo-nos por tu. Não faz sentido, dir-me-ás. Estar aqui depois de ter abandonado aqui como uma mãe desnaturada abandona um filho para viver uma paixão. Agora estou onde nunca devia ter deixado de estar, como a mãe que volta para o filho que abandonou depois de a paixão se ter extinguido, como se extingue um vulcão com o cansaço do núcleo ou uma fogueira com a persistência da chuva. Volto porque aqui é o meu lugar e eu não posso, ninguém pode, estar senão onde o seu coração lhe diz para estar. Mesmo que esse sítio seja longe de onde nos querem, porque nenhum querer vale mais do que o nosso; outros quereres podem estar mais certos, mas não valem mais: a calculadora está programada para o nosso e só a ele pode obedecer. Daí que, de Gandhi à Madre Teresa de Calcutá, todos os altruísmos sejam egoísmos. Quero-te bem porque me faz bem querer-te bem. Quem ousa dizer uma assim?

Não sou suicida. Sei-o agora, demorei muito a sabê-lo, mas alegra-me não ser tarde. Saber é, talvez, a única coisa para a qual nunca é tarde, o que contraria liminarmente um provérbio que detesto: burro velho não aprende línguas. Não sou suicida e, por isso, não me matei. Ou talvez me tenha matado, porque matei o que tinha de mais precioso: matei-me a mim junto dos outros, o tudo ou mesmo o nada que tinha para lhes dizer, para lhes escrever; a alegria que era minha de nascença, um certo pragmatismo, também. A vida é curta; ai de quem não sabe disso. Mas não tão curta que não valha a pena ser vivida; ai ai. De maneiras que, entre mortes e ressurreições - ou não fosse este domingo Páscoa -, aqui estou. Tenho pena de tudo o que morri, do tempo em que estive morta, mas é bom renascer. Não prometo nada, mas tentarei tudo - tudo, entenda-se, o que quiser.

É bom estar de volta, mesmo sem pachorra para a autocontemplação. É só uma fase, prometo.