quarta-feira, 18 de maio de 2011

Aos meus filhos

Os meus pais são bons e eu adoro-os por isso, mas não me prepararam para lidar com a filhadaputice. E se tal é imperdoável entre quem não deve nada a ninguém, é de uma tremenda irresponsabilidade quando falamos de pais e filhos os primeiros devem aos segundos explicações e os segundos devem aos primeiros a vida e a morte, não há desequilíbrio mais insolúvel.

O que quero que saibam é que não é justo que certas pessoas sintam medo e culpa onde não devem sentir nada; e não há nada mais legítimo do que querer aprender a lidar com essa injustiça particular: a que pratica quem induz culpa onde ela não pode existir. A culpa, meus filhos, é uma abstracção dos fracos que se refugiam na força que é, em si mesma, a vontade de fazer bem ou, se preferirem, a de não fazer mal.

Ser forte é muito importante. Para ser forte, é preciso ter coragem. Ao contrário da cobardia, a coragem aprende-se. Os cobardes são fracos de nascença, como se fosse um bónus, uns olhos bonitos, um grande talento para a escrita ou a música, por exemplo. A coragem ensina-se como as maneiras: é preciso saber para ensinar. Atenção, não é preciso ser, mas saber, e nem isso os meus pais sabiam agora, que já não vão a tempo de me evitar alguns sofrimentos, também eles vão aprendendo —, mas eu sei. E, porque sei, ensino-vos: que não devem envergonhar-se de ser aquilo que são, nem de que alguém, mais forte mas igualmente bom (para Rousseau, por exemplo, éramos todos bons selvagens; para mim somos todos bons e maus, assim queiramos ser uma coisa ou outra), vos defenda de vós mesmos quando tudo o que vêem, à vossa volta e para vosso desespero, é humilhação. A humilhação nunca nos é infligida por outros, mas por nós mesmos: humilha-nos quem deixamos que nos humilhe. Ninguém que seja forte se deixa humilhar.

Vou dizer-vos porque sei o que é a coragem e não sou corajosa: porque reajo sempre com perplexidade à filhadaputice, como se não estivesse habituada a ela. A filhadaputice é sempre nova para mim, sempre inovadora, mesmo que seja igual a todas as que já vi. Porque os meus pais não me disseram nada disto que vos estou a dizer. Chamaram-me linda, chamaram-me inteligente, mas nunca me disseram para ser forte, talvez porque achem que ser forte significa enfraquecer os outros. Não, meus pais: significa não se deixar enfraquecer pelos outros.

Por fim, meus filhos, precisam de saber que filho da puta, só por si, não é um bom insulto. As putas não são mulheres piores do que as outras e ser filho de uma puta não faz de alguém um filho da puta. Felizmente, a influência dos pais naquilo em que os filhos se tornam é limitada. Conto, por isso, que já nasçam ensinados e não me peçam explicações.

Com amor (muito, todo),

A mãe.

1 comentários:

Samuel Filipe disse...

Claro como a água. :)