sexta-feira, 24 de junho de 2011

Górgias (workflow)

Há um exercício retórico ao qual me dedico amiúde e que surge sempre sem eu querer:

1. Indigno-me com alguma coisa e começo a escrever sobre ela, argumentando ao sabor da minha indignação - tanto que, grande parte das vezes, não estou a escrever sobre o que me indignou, mas sobre a indignação em si.
2. Mais ou menos a meio do texto apercebo-me de que a minha posição é indefensável.
3. Mais por prazer do que por orgulho ou teimosia continuo a defender a minha posição indefensável.
4. Limo o texto, usando de subterfúgios pseudo-estilísticos banais e de uma lógica aparente (e aparentemente lógica).
5. Quando estou satisfeita com a minha fraude, releio-a várias vezes, com prazer.
6. Se a cadência e a fluidez do que escrevi me conseguirem fazer esquecer as minhas mentiras, retiro-me do texto.
7. Se me acontece voltar ao texto, muito tempo depois, penso: que bem que eu escrevia, que diletante que sou.

1 comentários:

Luís Gaspar disse...

Parece-me em boa parte hegeliano, esse teu trecho.