sábado, 25 de junho de 2011

Revoluções

Sou sempre tentada a dizer que não percebo nada de música. Mas percebo. Porque percebo de gratidão, isto é, mostro-a quando consigo e sinto-a quando não a consigo mostrar. A música é isso e disso quase toda a gente percebe - mesmo os ingratos sabem que deviam mostrar gratidão. Neste dia, há dois anos, morria um génio absoluto como o zero absoluto: ninguém sabia o que significava ser ele, do que ele era capaz. Este blogue estava morto na morte de Michael Jackson. Com ele, aprendeu a viver: naqueles vinte segundos que vão da superfície da Lua ao Sol escaldante em bicos de pés há provas de vida extraterrestre na Terra, de aborrecimento nos anéis de Saturno, de parcimónia nos satélites de Júpiter. Vida, extravida, antevida e pós-vida, sobrevida, portanto, que é como quem diz morte, injusta, adiantada, morte enquanto adjectivo, insulto - tudo o que é previsível deve ser insultado duas ou três vezes na vida, mesmo se for bom; não é o caso, o caso da morte: há que insultá-la todos os dias.

Existem músicas e artistas que nos parecem banais porque não lhes conhecemos uma história, um contexto. Conhecer Michael Jackson - coisa que só comecei a fazer há dois anos, na sua morte - exigiu de mim escutar com ouvidos que não tinha. Mandei fazer uns de propósito, que uso para ouvir as revoluções. As que só se percebem quando estão a acontecer. Como Billie Jean, como a bossa nova. Quem diria que João Gilberto, que acaba de fazer oitenta anos, obrigava, nos anos cinquenta, professores de guitarra a virar a cabeça para baixo para ver como ele tocava o que ele tocava? O melhor do mundo é isto: nem tudo ser o que parece e, ao mesmo tempo, tudo nos parecer tão familiar.


2 comentários:

Anónimo disse...

‘João Gilberto, oitenta anos acabados de fazer’. Texto excepcional, parabéns.

Filigraana disse...

Obrigada.