segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Amor

A esperança estava a matar-me, então fui matá-la. Não sabe bem, dói, dilacera, mas tem utilidade. E, à boa maneira clássica, o que é útil não só é bom como pode ser também belo. Agora, na escuridão, a felicidade — a que me deste e a que me tiraste — não está sequer no horizonte. Não é a ponta de uma sombra, um pedaço de noite — de uma daquelas noites que tu encheste a transbordar —, mas é a verdade. A verdade, dizem-me, enquanto me enxugam as lágrimas, foi o melhor que me deste. Talvez tenha sido o mais útil, mas nunca, de longe, o mais belo: o mais belo é a felicidade. Isso, tudo isso, são coisas das quais não sei falar — suspeito, até, de que não haja palavras catalogadas para o efeito. Encerro-as como um quarto ao qual não posso voltar ainda. Quando um dia a casa estiver cheia, abrirei a porta desse quarto. E desse quarto as janelas. Sentar-me-ei descalça no chão de tábua corrida, com o sol a bater-me na cara e a inundar o tecto de pé-direito altíssimo, e lembrar-me-ei de ti. De como parecias iluminar-me mais do que esse sol, de como não me escureci. É de mim, no fundo, que me lembrarei. Do que fui, do que serei. E da liberdade suprema que é este amor que te tenho: um amor puro, enorme e, raios o partam, não-correspondido — platónico, afinal. Tinhas razão: liberdade é podermos escolher as nossas próprias prisões. Escolhi-te; a meu tempo, libertar-me-ei. E posso garantir-te que sairás intacto do meu coração para um lugar melhor: a minha cabeça. Deixa, agora, peço-te, de me apertar o peito. Destapa-me a garganta, preciso de comer. Liberta-me este corpo da falta, da saudade. Vai, amor. Vai. Volta sempre, porque eu não te sei mentir. Serás bem-vindo.