segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Escrita

Por enquanto, e há pelo menos dezoito anos, é a escrever que mais existo. Não serve uma lista de compras, não; é isto. Sou, a escrever, o meu melhor e o meu pior. Escrevo sempre que posso, em privado mas sobretudo em público, aos amores e aos amigos, aos ex-amores e aos ex-amigos, aos futuros amores e aos futuros amigos, aos inimigos, ao mundo em geral e ao universo em particular, com ou sem maiúscula, com caneta ou com as pontas dos dedos, às vezes mesmo com o pensamento. Escrevo como quem respira — e há quem respire mal, qualquer otorrino sabe. Mas chateia-me escrever mal e reconheço, quase sempre, quando escrevo mal — é raro; quem escreve bem não sabe escrever mal, sabe é pensar mal, e uma boa escrita nem sempre redime um mau pensamento, mas lá que o disfarça, isso é verdade. Mas como dizia, chateia-me escrever mal e mais ainda me chateia que achem, injustamente, que escrevo mal. Ou que, injustamente, o digam sem que o achem — se o acharem, então, desisto, deixo de escrever e talvez, assim, consiga deixar de pensar, porque é com as palavras que penso. Mas no meio de tudo o que me chateia o que mais me chateia são as pessoas que dizem, ou fazem qualquer coisa, uma coisa qualquer para magoar. A maldade é só intenção, mesmo que não consumada. Está num olhar, numa maneira de articular uma frase ou uma simples palavra; vê-se no escuro. Amei-te, cega, na tua maldade, que tu também conheces. Ter-me-ás, talvez, amado na minha. Mas o que importa é querer melhorar. É que a bondade também é intenção, mas não só — a intenção é onde começa a bondade. Aquela que, quando existe, nunca mais acaba.

2 comentários:

RBM disse...

Olha depois deste texto só me apetece dizer - eu acho que escreves incrivelmente bem.

Filigraana disse...

Olha quem fala.

Obrigada, mas escrevo; mal ou bem, é isso que importa :)