quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Pretas (sem jazz)

As mulheres moçambicanas com tempo estão indignadas com um anúncio à cerveja Laurentina, que classificam de racista e sexista: «Esta preta foi de boa para melhor». A imagem da garrafa da Laurentina, que acompanha a frase, é um corpo de mulher literalmente sem pés nem cabeça, e com o rótulo no lugar onde devia estar uma parra, biblicamente falando. O Fórum Mulher, uma ONG com um papel muito importante em Moçambique na defesa dos direitos civis, diz que o anúncio promove a imagem da mulher como mero objecto sexual. Discordo: por um lado, as mulheres nunca precisaram de anúncios de cerveja para serem vistas como meros objectos sexuais, bastou-lhes sempre passar por baixo de um andaime; por outro lado, se eu fosse homem não quereria levar um torso para a cama, mas o que dá interesse ao mundo são as inúmeras interpretações da realidade e da ficção que encerra ou, para mal de alguns dos nossos pecados, liberta.

O anúncio é mau e só tem graça porque, sendo a uma cerveja preta moçambicana, tem nele a palavra preta na outra acepção. Os pretos que falam da sua cor como os brancos não são capazes de falar - tirando quando estão mais pálidos do que o habitual porque não vão à praia há dois anos (se houvesse ONGs de mortos adoraria assistir a discussões sobre termos como "lividez") — sempre me fizeram rir. No outro dia, um preto chamou racista a um dos brancos mais pretos que conheço e também isso me fez rir. O problema é que há demasiada gente escura no mundo — dizer "preta" seria restringir a escuridão aos pretos, e não me parece justo: há brancos muito mais escuros do que os pretos mais escuros que existem.

O sentido de humor ou o saudável não-se-levar-a-sério andam, geralmente, de mãos dadas com o esclarecimento — no sentido voltairiano do termo: Voltaire era iluminista, como toda a gente sabe; tinha uma fábrica de lâmpadas, pelo que não se podia dizer que fosse escuro, ainda que pudesse ser preto. É por isso que não entendo, no "mundo desenvolvido" (cuidado, vêm aí aspas a mais), a falta de esclarecimento. Quando é que a virgindade ofendida se tornou no bastião do primeiromundismo? E com que direito se tornou numa das mais frequentes marcas de "avanço civilizacional" a fazer polémica nos países "em desenvolvimento"?

Tirando práticas que não reconheço dentro do género humano (o único, preferencialmente), como a mutilação genital feminina em geral e a violência doméstica, urbana, bélica e verbal em particular (sim, eu sei, o particular era no geral e o geral no particular, mas eu gosto assim), sou muito pouco sensível a manifestações inflamadas de feminismo nos dias que correm (ou até de pró-palestinianismo, pró-tonycarreirismo ou mesmo qualquer coisa acabada em ismo, desde que não seja, por exemplo, ellafitzgeraldismo, um ismo que aceito muito bem e com o qual até sou capaz de acompanhar uma refeição). Sou assim por motivos rudes e sobranceiros: 1) porque sempre quis ser um homem, embora sem grande sucesso; 2) porque sei pouco sobre o feminismo e, sobretudo, 3) porque talvez sinta que os meus direitos estão conquistados - acontece muito à juventude.

Mesmo com tanta sobranceria deste lado, o caso é simples: o Fórum Mulher, nenhuma instituição ou pessoa esclarecida devia dedicar tempo precioso, de mudanças e batalhas necessárias, a polémicas sem swing. Enquanto houver desemprego e quem ampute clítoris, não vale a pena falar de cerveja. Se não houvesse mercado para a boçalidade aparente, que seria dos criativos da Super-Bock-Wonderbeer-Like-a-Virgin?

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