sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Direito de Resposta: "Esta coisa de gostar de alguém"

Depois de Galileu, uma pessoa não pode ouvir alguém dizer que a Terra é o centro do Universo e ficar-se. Porém, o caso é ainda mais grave: há demasiadas pessoas - mais precisamente duas (1|2)- a desafiar a minha visão infantil e imatura do amor e isso é inadmissível.

Vamos por partes: primeiro as baixas. Gostar de alguém é querer-lhas - essas e as outras todas, aos bocadinhos e de uma vez só, «de um querer bruto e fero», como dizia o tio Garrett com a lengalenga «Não te amo/Quero-te», como se não estivesse a falar do mesmo objecto (o amor) em duas tipologias, uma de pantufas e outra de saltos agulha e nada por baixo da gabardine. Gostar de alguém é consumir-se de desejo, ser ávido, insaciável. A menos que exista uma paralisia incapacitante ou a idade não o permita (e, mesmo assim, os velhinhos do MEC tiveram grandes conversas de cama em cadeiras de rodas, ou seja, não há desculpas). É não entender uma dor de cabeça, amaldiçoar a ausência permanentemente, à noite na cama, de manhã à mesa do pequeno-almoço, à hora da sesta e ao final do dia, enquanto a sopa ferve. «É preciso um cuidado permanente, não só com o corpo, mas também com a mente, pois qualquer baixo seu a amada sente e esfria um pouco o amor», dizia o tio Vinícius. Nisto do amor somos todos sobrinhos e quem diz que sabe ou é prepotente ou está à procura de consenso. (Ou talvez seja só mais velho e mais experiente do que eu, mas excluamos para já essa hipótese, tão remota.)

A confiança, já me esquecia. Pelo amor de Deus (se é que O posso invocar em vão)! Todas as mulheres sabem que há pelo menos setenta outras mulheres com quem os seus homens têm casos mal resolvidos, que os querem para comer ou para casar, sobretudo agora que estão acompanhados. E eles também sabem: que a aliança é um isco, que são mais desejados quando têm dona. A confiança é uma alucinação, porque o outro está a deixar-nos desde o momento em que nos agarra na mão pela primeira vez. Passamos pelo menos um terço da relação a antecipar o sofrimento de sermos deixados e outro a sofrer porque agora é que é, agora é que o outro não vai aguentar mais as nossas inseguranças e nos vai deixar. Quando nos deixa e temos de sofrer, aí sim, morremos - de vergonha, porque em boa verdade já esgotámos o sofrimento todo. Isto não é bonito, como dizem os demónios da serenidade, seres mais fictícios e malévolos que o olho de Sauron (e, já agora, supralincados), mas é assim: tratamos quem amamos como se nos pertencesse. Mesmo que saibamos sempre que isso não é verdade, que o outro tem livre-arbítrio, uma personalidade extraordinária, só sua, pela qual nos apaixonámos e que não vale a pena fingir que é nossa, porque não é, nunca será e em breve seremos odiados por querer ler o pensamento do outro, que como todos os pensamentos de todos os que não somos nós são preto sobre preto ou branco sobre branco (quer estejamos particularmente pessimistas ou optimistas, respectivamente).

Uma escolha, pois. Por favor (desta vez Deus nem existe)! O amor é uma fatalidade porque tudo é uma fatalidade. Ninguém se apaixona pela pessoa certa e fica casado 40 anos em paz e harmonia. Esses casais odeiam-se, de certeza, e só continuam juntos por inércia e cobardia. Porque o amor, já repararam?, nunca dá jeito. Só vem quando a vida está uma confusão (disseram-me, uma vez, que "os melhores amores começam a três". E os piores, a quantos começarão?). Às vezes isso ajuda a ver que a vida é melhor do que pensávamos, é verdade. E é uma bênção, um amor que nos dá a mão para largarmos a areia movediça; mas nunca é fácil. É preciso que o trânsito da cidade seja fluido como os mágicos do Bolshoi numa cena do "Lago dos Cisnes". Ninguém está permanentemente encantado e se desencanta por um momento - quando isso acontece o amor morre, porque um momento de desencanto nunca mais acaba, repete-se todos os dias desde que acontece até que nos cansamos dele ou o outro se cansa da nossa boa memória. É ao contrário: a luzinha do farol aparece no meio do nevoeiro e há dias em que ele é tão espesso e a luz tão fraca que parece que o fim está perto, mas afinal não, era só um percalço, afinal a luz está acesa, uf. O amor não é fácil, ponto. Mais de metade da população mundial é proveniente de amores de merda. Coisas que não deviam ter acontecido porque estavam condenadas à partida. Os opostos atraem-se e não sabem o sofrimento que isso vai causar aos seus filhos e ao mundo em geral. Desses vêm histriónicos, limítrofes, Hitlers e líderes de governos regionais. Por exemplo, o disparate que é um fã do "Preço Certo" juntar-se com alguém que aprecia ver um Wellington bem confeccionado no "Hell's Kitchen" ou quer saber como se faz uma verdadeira Waldorf Salad no "No Reservations". Ou um fã do Rão Kyao com uma maluquinha pelo Fausto Bordalo Dias. Erro. (Ninguém disse que não sabe bem errar. Antes de se saber, sabe muito bem.)

Tudo isto é mentira, claro. Enfim, quase tudo. É verdade que o amor é o que ninguém sabe e quase toda a gente sente, ou sente que sente. Se gostar de alguém não é confiar é, pelo menos, saber que devíamos confiar; é aceitar, sim, mesmo que seja difícil ou pareça impossível. O amor é um Cubo de Rubik: toda a gente sabe fazê-lo, ainda que aldrabe. Gostar de alguém é achar que se gosta, amar alguém é achar que se ama. E nada nos desconvence. Se me permite, querido leitor, desfaço as duas frases mais bonitas que li no meio desta confusão, das quais discordo escandalosamente:

«O amor é bom hoje; amanhã será melhor ainda. Se não for, não é.»
Ninguém sabe. Se soubesse, os amores nunca acabavam e aqueles casais juntos há quarenta anos não eram só figuras de cera. Temos a esperança de que o amor seja melhor amanhã e fazemos tudo por isso. O amor é tentar.

«O amor não é uma rede por baixo dos nosso medos; é um telhado por cima das nossas ousadias.»
Bonito, mas incompleto. O amor é também uma rede por baixo das nossas ousadias e um tecto por cima dos nossos medos. É o que tiver de ser quando for preciso. O amor é o MacGyver no nosso bolso (como aprendi há dias ser o substituto do Chuck Norris para um canivete suíço).

Nota: Agrada-me o facto de o post inspirador ter uma visão quase tão infantil como a minha, mas mais eloquente. Ou gozar com a minha como se valesse a pena.

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