segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Mas não muito

Quando uma criança vem ao mundo traz consigo duas palavras: "Olá" (parece uma só, mas é ela e mais outra). Nascer é entrar na festa quando a festa já está a acabar e essa epifania devia ser vedada a todos os menores de cem anos. Essa e a de que os partos são, ao mesmo tempo, milagres e assassínios qualificados; os pais, santos e pecadores; e assim sucessivamente.

A tentação de dar por encerrado o assunto da finitude neste blogue é grande, por vários motivos o mais evidente é o facto de eu ser uma jovem com a vida toda pela frente. Mas se fizer um esforço, faço-o por um mais nobre que seria, aliás, suficiente para justificar todo o meu silêncio daqui para a frente : o de que aquilo que me angustia foi descrito milhões de vezes por milhões de pessoas diferentes de milhões de maneiras melhores antes de mim:
« E não te importas com o teu futuro, rapaz?
Oh, é claro que me importo. É claro! respondi. Depois pensei durante um minuto e acrescentei: Mas não me importo muito.
Mas importar-te-ás disse o velho Spencer. Importar-te-ás, rapaz. Quando já for tarde.

Não gostei de o ouvir dizer aquilo. Era como se eu já estivesse morto, ou coisa parecida.»

Uma Agulha no Palheiro, J.D. Salinger, tradução de João Palma-Ferreira, Livros do Brasil, 1951

0 comentários: