domingo, 16 de outubro de 2011

Robinson Crusoe

Acorda, avô. Já chega de dormir. Quero ver os teus olhos verde-água, paraíso, irrequietos como a vida num coral cheio de saúde, à deriva da poluição e do aquecimento global. Eu sei que estás cansado, mas agora deves acordar. Olha para ti, nu, quente, corado debaixo de um lençol. Falo-te, mas não me respondes. Apertas-me a mão e forças as pálpebras, como quem diz "deixa-me dormir". Acorda, avô. Esses cabelos brancos desgrenhados, essa barba de náufrago velhinho, alva como neve — és o nosso Pai Natal, lembras-te? —, precisam de aprumo. Quero ver-te outra vez puxar os suspensórios para longe da barriga, olhar para mim com esse ar alucinado a dizer-me "quem és tu?!", coisa que só fazes quando até sabes quem sou. Quero voltar a ter sete anos e ver-te mostrar-me a nossa família no zoológico, ruminar pipocas no cinema esquecendo que o Bambi é órfão, dizer-te que a tua sopa de couves de Bruxelas está óptima quando não é bem assim, tu só sabes cozinhar caril de caranguejo, dizer-te que sim, que acredito que foste tu que inventaste o catembe, ver-te forrar os meus livros da escola com precisão milimétrica e um mar de material de escritório sobre a secretária, voltar a oferecer-te uma bíblia de palavras cruzadas e uma caneta boa nos teus anos, tão próximos dos meus; quero voltar a pensar que és incapaz de moderar o volume da tua voz, do teu riso, falar de qualquer governo, sobretudo se de esquerda, sem exagerar no palavreado, quero voltar a adormecer dentro do teu dois cavalos a caminho das Caldas, quero que grites comigo por ter pintado as paredes e enchido os teus discos de corrector, quero ouvir-te dizer Nheco, ver-te comer uma mousse de chocolate ou uma baba de camelo com sofreguidão, admirar a tua beleza sem idade, cada vez maior, quero ver-te acordado. Por favor, avô: acorda.

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