domingo, 13 de novembro de 2011

Mrs Dalloway

Acabo de ver "As Horas" e estou lavada em lágrimas. Ganho sempre o campeonato mundial de "suspensão da crítica": além de chorar, devo ter demorado 40 minutos a perceber que Nicole Kidman era Virginia Woolf e, quando percebi, saltei da cadeira. Meryl Streep é sempre perfeita. E viver é sempre bom, até deixar de ser. A vida é como a música extraordinária de Philip Glass neste filme (e, a bem dizer, em tudo o que dele conheço): hipnótica. Quando se dá por isso, quando se percebe aquilo que a vida é, a morte parece solucionar o absurdo da repetição. Mas não soluciona, porque o absurdo é a morte, não a vida. A vida é absurda por causa da morte e a morte por causa da vida. Quando morremos, o absurdo continua a repetir-se. O suicídio é um desespero ou uma sobranceria, porque pensa sempre que consegue resolver alguma coisa. Não: os outros vivem para além da nossa morte, os outros morrem para além da nossa vida.

Somos todos Mrs Dalloway.

4 comentários:

dobra disse...

Soberbo filme e soberba apreciação.

O Ramalhete disse...

todos temos pedras nos bolsos a pedir água.

Filigraana disse...

Nem todos, Ramalhete. Alguns só querem apedrejar alguém.

Dobra, soberba é a sua generosidade.

Sophia disse...

Grande filme...marcou-me.