sábado, 30 de abril de 2011

Marketing

Parece impossível que só as palavras (às vezes, as piores) consigam comprar o silêncio. São a única moeda de troca. O silêncio não é um produto como os outros: quando pensamos estar a comprá-lo, estamos a tentar vendê-lo. Em todo o caso, o consumidor é soberano: só compra o que quer. A venda, essa, é um desafio. Vender o silêncio é um desafio; vender o silêncio é vender um desafio, porque o silêncio é, em si (eu sei que concordámos tratar-nos por tu, mas saiu-me), um desafio. O único desafio para quem deixou de querer falar — e vende quando quer comprar. O desafio impossível para quem não se consegue calar — e, não tendo comprado, quer assinar o livro de reclamações.

Constantin/opla

— Aquele Zé é um iconoclasta.
— Sim, mas é adorável.

Cultura

— Nunca ouviu falar em fulano de tal?
— Não, estou-me cagando nessa gente.
— Que incultura!
Não confunda: é desprezo.

(Baseado em conversa verídica, irrepetível.)

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Tomei um banho turco
Voei
Faltou-me o ar
Agora
Estou em banho-maresia
E sinto que o mar
Nunca me há-de faltar.

Mentira? Talvez
Não sou dois
Nem sou três
Agora
Sou eu
E o que eu fui
Era uma vez.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Ischia 1962 ou na morte de Elizabeth Taylor

«Elizabeth comia, bebia e arrotava como na taberna dos galeses, antídoto () à sua beleza algo delicodoce – o apetite pelo foie gras, pela galinha frita e pelo puré de batata ou pelo Bloody Mary dava-lhe um suplemento de realidade, tornava-a mais carnal, dizem os autores do livro.» Obrigada, Vasco Câmara. Chamam ao beijo de Ischia «o beijo infame». Deve ser por ser na cara.

(23 de Março de 2011)

Clave de dó

– Não é tarde nem é cedo! – disse. – É hoje!
Depois, vestiu o pijama e deitou-se.

(04 de Fevereiro de 2011)

Breve maltratado das coisas que não existem [50]

Se algumas dádivas nos dão vida, porque não lhes chamamos dávidas?

terça-feira, 26 de abril de 2011

Tu/Eu

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Visitas

A expressão mais utilizada para chegar a este blogue é "sem outro assunto de momento". Não concordo com o "de momento".

Jazz com Pretas [17]



É estúpido cingirmo-nos à cor dos músicos, mas também ao género: daí que a preta aqui homenageada seja a mãe de Louis Armstrong. Quando uma mulher, qualquer mulher do mundo, tiver o discernimento toldado por contracções persistentes ou dores agonizantes e não vir, por isso, motivos para parir, deve pensar que pode parir um Louis Armstrong - na remota possibilidade de ele se repetir.

A mãe de Marty Napoleon também pode não ser preta, mas linda é de certeza. Marty Napoleon é o pianista do vídeo acima, e do que linco aqui (o YouTube não deixa "incorporar"): uma actuação memorável - mesmo para quem não a viveu - de Louis Armstrong & His All Stars para a BBC, em 1968 (a IMDB explica).

Passado, futuro, presente

Precisaria da melhor das borrachas para apagar o que quero de mim, do meu passado: cada arroganciazinha mesquinha, cada invejazinha inútil toda a inveja é inútil , cada gotinha de fel (em vez de mel, vocês sabem lá). Mas não dá: nunca soube escrever a lápis e, quando o faço, carrego no carvão como se fizesse do papel carne varada por lâmina. Para, simplesmente, matar o falhanço num golpe de vaivém calculado; para, em desespero, trinchar a incerteza em grandes peças; para cortar o futuro aos pedacinhos, como se corta um bife a um velho ou a uma criança, e obrigá-lo a ser igual ao presente: certo, seguro, presente. O mal está feito; o bem, nunca se sabe.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

La Foule



Quando me mostraste esta canção, odiei-a, recusei ouvi-la com orelhas de escutar - como tantas coisas que me mostraste e eu, por inércia ou altivez, só fiz desdenhar. Agora danço-a, mil vezes, se for preciso. À tua memória, à minha memória boa de ti. Há amores que, mesmo acabando, não vão acabar.

Alexandra

Sempre quis ter um irmão (ou irmã) mais velho, ou mais ou menos da minha idade. Alguém com quem pudesse partilhar as minhas angústias privadas e familiares, alguém que atenuasse a minha sensação de desvio do mundo, de pertença a uma realidade extraterrestre - no fundo, alguém que diminuísse a minha presunção. Conheço muitas pessoas que se dão mal com os irmãos, que se dão com eles como aquilo que eles são: outras pessoas, das quais se pode ou não gostar. Com elas aprendi que o mesmo sangue, a mesma família, podem ser só coincidências - coisa que, na maior parte das vezes, são. Tenho irmãos mais novos que amo quase como filhos: com infinita ternura, insuportável chateza e desproporcionado sentido de responsabilidade. Mas, por algum motivo, quando penso em irmão, irmã, há um nome que sai da minha boca, célere e inevitável como um palavrão. Podia ter chegado antes, ter-me poupado momentos de grande tristeza e enorme confusão; podia ter-me abanado quando pensei mal, ter-me mandado à merda quando agi pior; e devia ter-me abraçado quando nenhuma palavra chegava para me reconfortar. Quando chegou, no entanto, foi como se cá tivesse estado desde sempre. Como as árvores que não vimos crescer.

Alexandra. Árvore. Irmã.

domingo, 24 de abril de 2011

Escrita, Ciúme.

É muito comum entre as pessoas que acham que sabem escrever ou que gostam de escrever ter uma crise e decidir: não escrevo mais, nunca mais, porque antes de mim houve x, porque antes de mim escreveu y, porque depois de mim haverá z e sou contemporâneo de w, que escreve muito melhor do que eu alguma vez escreverei. No entanto, há algo ainda mais comum entre os escrevedores: a pulsão de escrever é, quase sempre, muito mais forte do que a vergonha de o fazer. A lógica é simples: se há quem leia, é porque há quem goste (nunca entenderei os que lêem porque não gostam, para criticar, porque, como já disse, o tempo é pouco e acho imbecil usá-lo com coisas de que não gostamos). É como o ciúme no amor, que para ser saudável exige uma dose razoável de auto-estima e confiança: se ele ou ela está comigo é porque é comigo que quer estar, ou porque alguma coisa hei-de ter de melhor. Lavar os olhos - e, às vezes, outras partes do corpo, se não for em exagero - é outra coisa. A higiene é uma coisa bonita e a limpeza uma qualidade apreciável.

Páscoa, Paixão.

Leitor, agora mando eu: tratemo-nos por tu. Não faz sentido, dir-me-ás. Estar aqui depois de ter abandonado aqui como uma mãe desnaturada abandona um filho para viver uma paixão. Agora estou onde nunca devia ter deixado de estar, como a mãe que volta para o filho que abandonou depois de a paixão se ter extinguido, como se extingue um vulcão com o cansaço do núcleo ou uma fogueira com a persistência da chuva. Volto porque aqui é o meu lugar e eu não posso, ninguém pode, estar senão onde o seu coração lhe diz para estar. Mesmo que esse sítio seja longe de onde nos querem, porque nenhum querer vale mais do que o nosso; outros quereres podem estar mais certos, mas não valem mais: a calculadora está programada para o nosso e só a ele pode obedecer. Daí que, de Gandhi à Madre Teresa de Calcutá, todos os altruísmos sejam egoísmos. Quero-te bem porque me faz bem querer-te bem. Quem ousa dizer uma assim?

Não sou suicida. Sei-o agora, demorei muito a sabê-lo, mas alegra-me não ser tarde. Saber é, talvez, a única coisa para a qual nunca é tarde, o que contraria liminarmente um provérbio que detesto: burro velho não aprende línguas. Não sou suicida e, por isso, não me matei. Ou talvez me tenha matado, porque matei o que tinha de mais precioso: matei-me a mim junto dos outros, o tudo ou mesmo o nada que tinha para lhes dizer, para lhes escrever; a alegria que era minha de nascença, um certo pragmatismo, também. A vida é curta; ai de quem não sabe disso. Mas não tão curta que não valha a pena ser vivida; ai ai. De maneiras que, entre mortes e ressurreições - ou não fosse este domingo Páscoa -, aqui estou. Tenho pena de tudo o que morri, do tempo em que estive morta, mas é bom renascer. Não prometo nada, mas tentarei tudo - tudo, entenda-se, o que quiser.

É bom estar de volta, mesmo sem pachorra para a autocontemplação. É só uma fase, prometo.