quarta-feira, 25 de maio de 2011

Só passei aqui

para dizer que este blogue é uma maravilha.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Um destes dias escrevo sobre os trogloditas ternurentos

Valor acrescentado

Todas as putas são mulheres, mas nem todas as mulheres são putas. Quem é que está em vantagem? As putas, claro: além de terem o que todas as mulheres têm, ainda têm o que nem todas as mulheres têm.

domingo, 22 de maio de 2011

Cedo

« Escolheu cedo ser dominicano?
Cedo, não, tinha vinte e tal anos.»

Satisfações

«Conduz-nos, Deus,/ de questão em questão,/ de fogo em fogo,/ sem satisfações que ao tempo bastem / e a nós assombrem.»

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Vinte e três

Serei capaz de amar quem não inveje os meus vinte anos só porque estes são os meus, só porque os seus já passaram. Por ser tudo, a idade não é nada. Por não ser nada, a idade é tudo. Por não ser tudo, a idade é tudo. Por ser e não ser tudo, a idade é o que é. Somos nós. Nós somos aquilo que queremos ser, tudo o que quisermos ser; mesmo que não nos deixem ser o que queremos ser, é isso que somos: alguém que aceita que não o deixem ser aquilo que quer.

A nossa idade é, assim, a que quisermos ter. Estes vinte anos são meus. Quem quiser os seus que os tenha. Quem não conseguir tê-los é porque já os teve, ou porque ainda não os tem, ou então porque os não quer ter. Quer os meus e não os seus vinte anos e eu compreendo: também só quero os meus. Não quero os de quem já os teve, nem os de quem ainda não os tem, e muito menos os de quem não os quer ter. Quero os meus, já. E, porque quero, tenho.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Aos meus filhos

Os meus pais são bons e eu adoro-os por isso, mas não me prepararam para lidar com a filhadaputice. E se tal é imperdoável entre quem não deve nada a ninguém, é de uma tremenda irresponsabilidade quando falamos de pais e filhos os primeiros devem aos segundos explicações e os segundos devem aos primeiros a vida e a morte, não há desequilíbrio mais insolúvel.

O que quero que saibam é que não é justo que certas pessoas sintam medo e culpa onde não devem sentir nada; e não há nada mais legítimo do que querer aprender a lidar com essa injustiça particular: a que pratica quem induz culpa onde ela não pode existir. A culpa, meus filhos, é uma abstracção dos fracos que se refugiam na força que é, em si mesma, a vontade de fazer bem ou, se preferirem, a de não fazer mal.

Ser forte é muito importante. Para ser forte, é preciso ter coragem. Ao contrário da cobardia, a coragem aprende-se. Os cobardes são fracos de nascença, como se fosse um bónus, uns olhos bonitos, um grande talento para a escrita ou a música, por exemplo. A coragem ensina-se como as maneiras: é preciso saber para ensinar. Atenção, não é preciso ser, mas saber, e nem isso os meus pais sabiam agora, que já não vão a tempo de me evitar alguns sofrimentos, também eles vão aprendendo —, mas eu sei. E, porque sei, ensino-vos: que não devem envergonhar-se de ser aquilo que são, nem de que alguém, mais forte mas igualmente bom (para Rousseau, por exemplo, éramos todos bons selvagens; para mim somos todos bons e maus, assim queiramos ser uma coisa ou outra), vos defenda de vós mesmos quando tudo o que vêem, à vossa volta e para vosso desespero, é humilhação. A humilhação nunca nos é infligida por outros, mas por nós mesmos: humilha-nos quem deixamos que nos humilhe. Ninguém que seja forte se deixa humilhar.

Vou dizer-vos porque sei o que é a coragem e não sou corajosa: porque reajo sempre com perplexidade à filhadaputice, como se não estivesse habituada a ela. A filhadaputice é sempre nova para mim, sempre inovadora, mesmo que seja igual a todas as que já vi. Porque os meus pais não me disseram nada disto que vos estou a dizer. Chamaram-me linda, chamaram-me inteligente, mas nunca me disseram para ser forte, talvez porque achem que ser forte significa enfraquecer os outros. Não, meus pais: significa não se deixar enfraquecer pelos outros.

Por fim, meus filhos, precisam de saber que filho da puta, só por si, não é um bom insulto. As putas não são mulheres piores do que as outras e ser filho de uma puta não faz de alguém um filho da puta. Felizmente, a influência dos pais naquilo em que os filhos se tornam é limitada. Conto, por isso, que já nasçam ensinados e não me peçam explicações.

Com amor (muito, todo),

A mãe.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Oscar Wilde revisitado

«A única maneira de resistir à tentação é ceder-lhe»? Não: a única maneira de resistir à tentação é ser a tentação.

Quer comprar

Nunca desdenhes de uma cama na qual dormiste, de um corpo que desejaste, de uma cabeça que estimaste como se fosse a tua — a única, de resto, que deves estimar, porque quem é bom e gosta de sê-lo só pode fazer o bem. Mas desdenha de ti, se for preciso — e da tua cabeça, também.

(Tem dias.)

Nada do que escrevo se aplica a ti, porque fizeste as regras do mundo como se fosses Deus. E és.

Fruta

Um homem, por mais velho que seja, nunca é suficientemente maduro. Já algumas mulheres, mesmo em tenra idade, podem cair de podres.

Fraude

Passava a vida a dizer «sou uma fraude». E é.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

É um alívio

sempre que posto e o Blogger me diz "A sua mensagem de blogue foi publicada com sucesso!" Alguma coisa havia de ser.

Notas sobre a mitologia dos gregos (9)

Cornos: o deus que não fazia nada para além de perder o seu tempo e fazer os outros perder o seu.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Jazz com Pretas [18]


(Para o L., com muito daquilo que não é tudo.)

Moral

Sou imoral ou amoral? Na verdade, não quero saber (porque já sei).

Válido no amor e no desamor

A única maneira de te ver é ao longe e, ainda por cima, a minha miopia está a aumentar.

Dúvidas

Duvido de que ninguém duvide de que toda a gente duvida. Há pessoas que sabem sempre tudo.

Prestar, Gostar

Não presto; gostava de ser diferente, mas gosto de mim assim. É preciso mais coragem para dizer o primeiro ou o segundo período? Os dois juntos. E coragem era coisa que eu não sabia que tinha. Tenho? E, já agora, a coragem sem acompanhamento serve para quê?

Entende:

nunca te menti sobre o que sou — ou o que acho que sou — tu é que andaste a enganar-nos. Quando digo o que digo acredito sempre no que digo, inclusive se o que digo for "amo-te", da mesma maneira que "não presto" — não é o mesmo que uma pessoa não gostar de si, porque pode gostar de si não prestando e gostar de outros que também não prestam (já me aconteceu). Tu dizes "não presto" sem acreditar no que dizes e, por isso, eu pergunto: qual de nós é mais desonesto, o que mente ou o que não sabe que está a mentir?

Eu, Aqui, Agora

Um excesso de confiança seguiu-se à máxima autodepreciação, como se a nova vida que levava, uma vida à procura de liberdade, justificasse tudo, incluindo a sobranceria. Afinal, era a única coisa que aspirava a justificar, a sobranceria e não a liberdade.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Perguntas, Respostas

Procuro oráculos por todo o lado. Em vez de fazer coisas, procuro oráculos que me digam se vou conseguir fazer o que tenho de fazer. Um livro muito engraçado, por exemplo, dá-me respostas - O Livro das Respostas, de Carol Bolt. A gente faz uma pergunta, abre numa página e voilà. Pergunta: Tenho de apresentar amanhã um trabalho, vai correr bem? Resposta: Talvez. Vou conseguir acabar o trabalho em tempo útil? "Vai exigir um enorme esforço." Só pergunto, ou pergunto mais, por coisas que já sei.

Actualização: A última frase vai com link porque não era minha. É estranho como algumas palavras se apoderam de nós. Hoje voltei ao blogue lincado e já não me lembrava do que lá tinha lido; ao lembrar-me, porém, do que tinha escrito, uma leve repugnância apoderou-se de mim perguntando: Tatiana, plagiaste? A Filigraana responde: sim e, de certa forma, não. Mas a Tatiana é contra o palimpsesto — a Filigraana não. Ordinárias.

domingo, 8 de maio de 2011

Michael Bolton


Se o sentido de humor não é a melhor coisa do mundo (e a que permite que aconteçam todas as coisas ainda melhores), então não sei o que é.

(Obrigada ao T.J. que anda sempre a espalhar coisas que vale a pena ver no "meu" Facebook.)

Ego boost ou, como se diz em americano, que orgulho



Actualização: Sim, é verdade, mas o vídeo está muito divertido e bem feito e eu estou farta de portugueses que só sabem dizer que este País é uma merda. É, também, por causa deles que este País é uma merda. A responsabilidade é nossa, de todos nós. Minha, tua, do Sócrates. De quem não assina o livro de reclamações quando é mal servido num restaurante ou numa repartição pública, de quem vai trabalhar todos os dias e faz o mínimo dos mínimos porque o cabrão do patrão que se lixe, de quem atira lixo para o chão e vai ao centro comercial aos domingos quando podia ir ao CCB ou ao Museu Nacional de Arte Antiga. De quem, não tendo do País aquilo que acha que merece não se atreve a ir, por exemplo, ocupar o Luxemburgo e acha que estaria melhor no Ruanda de 1994. Os italianos estão felizes com Berlusconi? Os americanos estão felizes com Obama e com soldados a voltar todos os dias estropiados do Iraque e do Afeganistão? Não me lixem.

Está bem: a vela latina não é latina, a letra do nosso hino é tão feia que bem podíamos fazer dela uma Marselhesa à Gainsbourg (Aux Armes et cætera), não demos uma coça ao Napoleão, há mais quem coma tripas, mas porra: isto podia ser um país do caraças! Não temos Eça de Queiroz, nem Pessoa, nem Camões? Qual destes três, de leitura obrigatória nas escolas (e, por algum motivo, ainda de leitura obrigatória depois do Estado Novo) se atreveu a dizer de Portugal aquilo que vocês andam para aí a dizer?

Postagem de Digestão [1]

Segunda-feira (02 de Maio)
«Astrólogos da actualidade noticiosa, oráculos diplomados, filósofos com mais internet e menos metafísica, os especialistas libertaram-nos da opressão do pensamento próprio.» - Sinusite Crónica
«Não quero deitar fora a herança que recebi de mão beijada em nome de um estafermo morto na guerra.» - Pedro Rolo Duarte

Terça-feira (03 de Maio)

A morte de Bin Laden em cartoons - Bitaites
Cansaço/outros cansaços - Ana de Amsterdam

Quarta-feira (04 de Maio)

«Um livro meu foi apresentado por um amigo que garantiu que o não tinha lido, o que é de uma honestidade desarmante e fatal.» - A Origem das Espécies
A foto encenada de Obama (ou como o jornalismo norte-americano ainda se pensa a si mesmo) - Ponto Media

Quinta-feira (05 de Maio)

«(...)por exemplo» - then come the ashes
«A teimosia e irresponsabilidade do primeiro-ministro custaram muitos milhares de milhões de euros ao País e devíamos ter pedido ajuda há, pelo menos um ano.» - Corta-fitas
Boas e más notícias (resumo honesto do "Memorando de Entendimento" com o FMI, o BCE e a CE) - Da Literatura

Sexta-feira (06 de Maio)

«Tudo começa e acaba na humilhação mas o que importa é a humildade que a derrota nos traz.» - then come the ashes
«Dito isto, a quarta chamada, de um ouvinte que é da "escola de Frankfurt desde pequenino",  tem uma frase absolutamente hilariante: "... há pessoas que dizem que não há habermasianos na Rinchoa mas isso é mentira...".» - Ouriquense

Sábado (07 de Maio)

A fúria dos ayatollahs e o afecto das mães - Cabra de Serviço

Domingo (hoje)

«E é a ti que volto, a que sempre voltei. Não à minha vida mas a ti, que a conténs. E odeio-te por isso, e amo-te por isso, minha puta» - Sinusite Crónica
«vertigem trendy» e a Feira do Livro vista pelo mal - A Natureza do Mal
«Provavelmente a única pessoa que uma franja melhorou.» - Ouriquense

sábado, 7 de maio de 2011

Interrupção

Quando deixei este blogue quase me repugnava a ideia de nele estar a escrever. Agora, é curioso e incoerente, sinto-me como se nunca o tivesse interrompido. Interrompi-me, não é a mesma coisa.

Ciúme, Cobiça

«Oh the jealousy, the greed is the unraveling
It's the unraveling
And it undoes all the joy that could be»
É tão fácil destruir o amor. Basta ser humano, agir com a estupidez, perpétua ou ocasional, que caracteriza todos os seres humanos. Uma estupidez biológica, cerebral (o cérebro é um vegetal fremente), de macaco nu. Quero ser alegre, quero ser feliz. Querer é tudo, mas tentar é ainda mais. E eu prometo que vou tentar.

Tudo o que quero

«Oh I hate you some, I hate you some, I love you some
Oh I love you when I forget about me»
Fazes-me esquecer quem sou e isso lembra-me quem quero ser. E quem eu quero ser é tudo o que sou.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

«Cabeça, troika e membros»

ou de como Pedro Santos Guerreiro escreve, sem a sombra da sombra de uma duvidazinha fugaz, os melhores editoriais da imprensa portuguesa.

A melhor

Estava mal habituada. A que lhe dissessem, por exemplo e sem razão: és a melhor. A mais isto, a mais aquilo. Não tinha, agora, quem lhe dissesse que era a melhor. Porque quem tinha não lhe mentia. Mas, na sua cabeça, por força do hábito, talvez, continuava a ser a melhor. E sabia, de verdade, que era a melhor: em querer ser a melhor.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Verdade, Mentira

Quanto mais falo, quanto mais digo, mais detesto dizer, mais detesto falar. As palavras são inúteis para contar a distância que nos separa — e, sobretudo, a que inventamos para nos separar. Faria um voto de silêncio para te prometer que, quando chegasses, o meu olhar te diria tudo, mas não confio no meu olhar. Como posso confiar naquilo que só tu tornas confiável com as tuas mentiras, com as nossas verdades?

Escreve-se de encomenda ou o meu memorando de entendimento

Blogger ambiciosa, de escrita limpa e espírito medíocre, oferece-se para postar de encomenda, com temática escolhida à vontade do freguês. É uma espécie de prostituição, infelizmente não de Mensa, que o meu Q.I. não é assim tão sensual. Os pedidos devem ser feitos na caixa de  comentários deste post ou, se forem demasiado ousados, remetidos para filigraana@gmail.com

O serviço é de borla, mas, se quiser retribuir, abrirei uma conta cujos depósitos reverterão a favor de uma causa maior: eu, isto é, a designar.

Nota: É tudo a sério menos a possibilidade de ser paga por obter, gratuitamente, inspiração. Peço às três pessoas que me lêem que me mandem escrever o que lhes apetecer.

Um, dez


Isto são três dedos do Chick Corea, dois do Glenn Gould, mais dois do Jacques Loussier, um do Oscar Peterson – obviamente –, um do Duke Ellington – óbvio! – e outro do Walter Wanderley a meias com o Thelonious Monk. Os pulso esquerdo é do Brad Mehldau e o direito do Herbie Hancock. Os pés logo se vê, mas porque não Dave Brubeck e João Carlos Martins side by side? O banco, esse, pode ser o Keith Jarrett.

(E, mais importante ainda, um agradecimento à M.M. por partilhar e ao Mark Zuckerberg por permitir partilhar.)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Ver o que acontece

Nem tudo é leve e simples como esta canção de Sinatra, mas tudo é leve e simples como esta canção de Sinatra. Senão vejamos: deixar que alguém acredite em nós, deixar que alguém nos dê a mão, deixar que alguém nos toque, ficar a ver o que acontece. Deixar que alguém nos ame, que alguém se preocupe e nos diga: não, não acho que sejas fria, acho que só estás com medo, e ver o que acontece. E ainda: ver a magia acontecer, acreditar — ou não, tanto faz — no delicioso excesso de confiança que só se espera dos loucos ou dos megalómanos, acreditar que vamos adorar o que quer que aconteça.



Let someone start believing in you, let him hold out his hand
Let him touch you and watch what happens
One someone who can look in your eyes, and see into your heart
Let him find you and watch what happens
Cold, no I won't believe your heart is cold
Maybe just afraid to be broken again
Let someone with a deep love to give
Give that deep love to you, and what magic you'll see
Let someone, one with a deep love to give
Give that deep love to you, and what magic you'll see
Let someone give his heart, someone who cares like me
Someone who cares like me
You're gonna love what happens...

(Gravada por Frank Sinatra a 24 de Fevereiro de 1969 (Reprise Records), em Hollywood, a canção é de Michel Legrand para o filme Les Parapluies de Cherbourg, de Jaques Demy; a letra em inglês é de Norman Gimbel)

Iguais

Há uma obsessão do público e da crítica com os autores. A primeira coisa que se quer saber sobre um autor é se aquilo que ele escreve é autobiográfico ou biográfico, pelo menos. Estou-me nas tintas para os autores. O que me assusta é que eles escrevam sobre uma vida que podia ser a minha. Assusta-me que me comovam. Porque, acima de tudo, isso só significa uma coisa: somos todos iguais. E é absurdo que, num mundo de iguais, nos sintamos sozinhos. Que aborrecimento. Somos iguais até na solidão.

(28 de Março de 2011)

Estupidez

Certos sentimentos, certas coisas que fazemos para reproduzi-los, fazem-nos sentir estúpidos, ridículos. Como Pessoa dizia, todas as cartas de amor são ridículas e assim por diante. Sejam. Uma vez, talvez duas ou três, fui ter contigo, aos sítios por onde andas, sem saberes, para te ver ou assim, sei lá. Dessa vez, de todas as vezes, o medo de ser ridícula paralisou-me, fez-me chorar, não de tristeza mas de vergonha. Entendo, finalmente, que os nossos sentimentos só estão certos – sim, é isto – enquanto não nos importarmos de que sejam, de nos sentirmos, [hesito sempre nesta vírgula] ridículos. Se um de nós passa a importar-se, o outro fica ridículo aos nossos olhos e exaspera-nos tentar chamá-lo à razão. Depois tudo é cansaço. Disseste-me muitas vezes, por outras palavras, que quem está cansado não consegue amar. Dou-te razão e não te quero mal por não me amares. Sabes que sou incansável.

(28 de Março de 2011)

Dois defeitos

— ou qualidades — que, sendo muito comum aparecerem juntos, não podem coexistir: ser pobre e, ao mesmo tempo, ter bom gosto.

Didascália

O abismo
colossal
que separa o beijo
do beijinho
é a morada de quem
não fode
nem sai de cima.

(24 de Março de 2011)

terça-feira, 3 de maio de 2011

Bin Laden

está morto. O regozijo com que os norte-americanos celebram a sua morte é uma coisa que, talvez, só eles possam sentir. Porque a 11 de Setembro de 2001 foram eles que levaram com dois aviões no coração e alguém lhes disse que a culpa foi do homem que agora morreu. Ou talvez tenhamos sido nós todos a levar com aqueles aviões. Sim: eu estava lá; estávamos todos lá, naquele dia e nos dias seguintes. A grandeza inquestionável daquela atrocidade, a força das imagens que produziu são capazes de unir o mundo inteiro em ódio e/ou perplexidade. O problema é a morte. Tomando como inspiração aquela frase de Estaline que toda a gente cita mal, pergunto: qual é a diferença entre matar um e matar milhares? Qual é a diferença entre matar um à socapa e milhões sob o pretexto da guerra? A legalidade tem destas coisas. Quase ninguém quer e, na verdade, ninguém pode viver num mundo sem leis. Legalmente, é uma ousadia não contemplar a guerra Kant, por exemplo, bateu-se contra a existência de exércitos permanentes, mas nunca contra a segurança; é um bem do qual não abdicamos.

Nota: Digo que alguém lhes (nos) disse que foi Osama Bin Laden o maestro do 11 de Setembro porque eu ainda não tenho a certeza por isto, por isto e por aquilo. Mas de uma coisa sei: o mundo ficou pior depois desse dia. E do dia de ontem, em que vi o Ocidente celebrar a morte de um homem. Como muitos muçulmanos dizem ter vergonha do que os terroristas fazem da sua religião, também eu digo que tenho vergonha. De chorarmos assim, celebrando a morte de um homem, a morte do mesmo número de pessoas que, todos os dias, várias vezes por dia, matamos à fome. Mas compreendo. Ou compreenderia, ao menos, o alívio e alguma satisfação.