quarta-feira, 29 de junho de 2011

Optimismo

Isto ainda não está bem.

Senhora

Aprendi cedo que uma senhora não deve dizer palavrões. É a única coisa que me impede de ser uma senhora.

Dúvida

Como me devo referir aos animais que andam a pôr coletes-bomba em crianças? Filhos da puta ou filhos de uma grandessíssima puta?

Diagnóstico muito reservado

Faz-me impressão ver uma comunicação social em morte cerebral a falar tanto de morte cerebral. Está ligada à máquina: não cumpre funções vitais. Ou será que a máquina já é ela? Que eu saiba, o design genético ainda não está legislado em Portugal.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Mulheres, animais

Banal e irresistível, esta coisa de identificar as mulheres sensuais com felinos. Pé ante pé, com uma cautela ou um ardil que se confundem quase com meiguice. Não são: se fossem, a mulher-lontra ou a mulher-koala seriam um recurso constante na literatura – a verdadeira e a proto-pseudo-erótica. Eu cá queria ser tartaruga: ser serena e forte, ter carapaça; e ser longeva, para ver de tudo. Ou caracol, depois de cozinhada: perder o visco, ter um travozinho acre, para não aborrecer, e nunca saciar – por pequenez, não por incompetência.

Angélico

Vamos velozes na estrada-serpente. Eu, Obélix, para comer javali; tu, por Toutatis, para ver artesanato – inútil quilometragem. Tu dormitas de um certo cansaço (será de mim?) e eu arrepio-me, porque há animais mortos pelo alcatrão – lebres e coelhos, duas ou três perdizes. Naquele cruzamento pelo qual passámos três vezes, uma enorme mancha de sangue que tu nunca viste, parecia que tinham matado um porco mesmo ali para fazer chouriço. Ou talvez secretos, porque na verdade o porco nunca apareceu. Não abres os olhos para me dizer que vá mais depressa. Se é noite, exiges-me os máximos com razão. No rádio, a tua querida Pietra Montecorvino, tigreza doce-feroz que adoptou o nome de uma comune com dois mil e novecentos habitantes na província de Foggia (41°33'N 15°08'E), região de Apulia - código postal 71038. Tudo isto é novo para mim. A liberdade, a irresponsabilidade de um pé pesado no acelerador, como se a minha vida me pertencesse e a tua também, que ainda por cima vais sem cinto. E a música, que parece uma carroça conduzida por um rústico: imparável, aos solavancos. Sobreviver-te é uma sorte.


Cúmulo da subjectividade objectiva

Um anónimo usar a expressão "para mim".

Agricultura

As canções de dor de corno são infinitamente mais bonitas do que a dor de corno em si. Deve ser pelos mesmos motivos que a terra estrumada dá frutos melhores.

Ausência

Já te disse que não precisas de impor a tua presença para impor a tua presença.

Tragédia

Um diagnóstico extrovertido apaixonar-se por um prognóstico reservado.

Cansaço

– Dizes amo-te demasiadas vezes.
– Como preferes que diga?
– Menos.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

A frente

– O tempo escapa-me como areia entre os dedos. Os dedos escapam-me como areia entre o tempo. A areia escapa-me como o tempo entre os dedos.
– Cala-te, tens a vida toda pela frente.
– Pois, não tenho tempo.

sábado, 25 de junho de 2011

Revoluções

Sou sempre tentada a dizer que não percebo nada de música. Mas percebo. Porque percebo de gratidão, isto é, mostro-a quando consigo e sinto-a quando não a consigo mostrar. A música é isso e disso quase toda a gente percebe - mesmo os ingratos sabem que deviam mostrar gratidão. Neste dia, há dois anos, morria um génio absoluto como o zero absoluto: ninguém sabia o que significava ser ele, do que ele era capaz. Este blogue estava morto na morte de Michael Jackson. Com ele, aprendeu a viver: naqueles vinte segundos que vão da superfície da Lua ao Sol escaldante em bicos de pés há provas de vida extraterrestre na Terra, de aborrecimento nos anéis de Saturno, de parcimónia nos satélites de Júpiter. Vida, extravida, antevida e pós-vida, sobrevida, portanto, que é como quem diz morte, injusta, adiantada, morte enquanto adjectivo, insulto - tudo o que é previsível deve ser insultado duas ou três vezes na vida, mesmo se for bom; não é o caso, o caso da morte: há que insultá-la todos os dias.

Existem músicas e artistas que nos parecem banais porque não lhes conhecemos uma história, um contexto. Conhecer Michael Jackson - coisa que só comecei a fazer há dois anos, na sua morte - exigiu de mim escutar com ouvidos que não tinha. Mandei fazer uns de propósito, que uso para ouvir as revoluções. As que só se percebem quando estão a acontecer. Como Billie Jean, como a bossa nova. Quem diria que João Gilberto, que acaba de fazer oitenta anos, obrigava, nos anos cinquenta, professores de guitarra a virar a cabeça para baixo para ver como ele tocava o que ele tocava? O melhor do mundo é isto: nem tudo ser o que parece e, ao mesmo tempo, tudo nos parecer tão familiar.


sexta-feira, 24 de junho de 2011

Maturidade

É um alívio descobrir que o mundo não gira à nossa volta.

Górgias (workflow)

Há um exercício retórico ao qual me dedico amiúde e que surge sempre sem eu querer:

1. Indigno-me com alguma coisa e começo a escrever sobre ela, argumentando ao sabor da minha indignação - tanto que, grande parte das vezes, não estou a escrever sobre o que me indignou, mas sobre a indignação em si.
2. Mais ou menos a meio do texto apercebo-me de que a minha posição é indefensável.
3. Mais por prazer do que por orgulho ou teimosia continuo a defender a minha posição indefensável.
4. Limo o texto, usando de subterfúgios pseudo-estilísticos banais e de uma lógica aparente (e aparentemente lógica).
5. Quando estou satisfeita com a minha fraude, releio-a várias vezes, com prazer.
6. Se a cadência e a fluidez do que escrevi me conseguirem fazer esquecer as minhas mentiras, retiro-me do texto.
7. Se me acontece voltar ao texto, muito tempo depois, penso: que bem que eu escrevia, que diletante que sou.

Forte

O sofrimento não é o meu fraco.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Masoquismo

Uma coisa que continuará sempre a intrigar-me é a razão pela qual as pessoas perdem tempo com aquilo de que não gostam, a menos, é claro, que tirem disso algum benefício. Por exemplo, todos os dias me apetece mandar calar imbecis com voz pública e, em nome da liberdade (a minha, pensando a médio prazo, e a deles), não o faço. Porque eu posso desligar a televisão quando um imbecil aparece, posso não ler o artigo de jornal, não visitar o blogue ou a casa de um imbecil. Posso dizer a um imbecil: "discordo de si" ou "o senhor está convencido de que é muito bom, mas eu não acho"; no entanto, não o procuro para lhe dizer isso, porque a vida já é escandalosamente curta para o prazer, quanto mais para o dissabor. A voz pública de um imbecil nunca limitou a minha liberdade. Limitou, isso sim, a minha paciência, insultou a minha inteligência (por limitada que seja). Mandar calar, mandar mudar certos imbecis com voz pública é uma imbecilidade. Porque eles só nos invadem, só nos fazem perder tempo se deixarmos. Masoquismo não, obrigada. Para isso, basta a morte. Sempre tão perto, sempre tão longe.

Interiores

Rejeitado por todos, até os halls por onde passava eram sempre de saída.

Pressão

Farto da sua profissão, o mergulhador mandou fazer uma cama hiperbárica para descomprimir.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Ficções

A única morte que tenho mais presente do que a minha, do que a nossa, é a do dinheiro: já está gasto quando o ganho e, mesmo quando o tenho, é breve. Não passa de uma ficção.

Eu, todos

O autocentrismo não é tão mau como o pintam, é um centrismo como outro qualquer. Mais certo, até: sem mim, não tenho a certeza de que os outros existam.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Gaba-te

Nada como ser cesto para saber lidar com a ráfia.

Cesto

Para Nietzsche a humildade era uma pretensão. Para mim também.

Vista (II)

Sou toda boa, sobretudo vista de dentro.

Vista

Era toda boa, sobretudo vista de fora.

Bacalhau basta

Prometo compensar cada muito mau post com um post francamente mau. Se não conseguir é porque são todos bons.

Impossível

Continuo sem conseguir falar sobre a actualidade, sobre aquilo de que se fala. Prova disso é que comecei por escrever, em vez de aquilo de que se fala, aquilo que nos move. Estava errada, corrigi. Aquilo que nos move não é, felizmente, aquilo de que se fala. Fala-se pouco sobre o tempo (o que passa e o clima, que também passa, mas custa menos a passar), por exemplo, sobre as coisas simples. Porque das coisas simples talvez haja pouco para dizer: elas vivem-se, se tivermos sorte, e aprendem-se, se passarmos a ter sorte depois de termos tido azar, ou seja, se tivermos sorte. Falar pouco é uma sorte, sinal de que se usa o tempo de falar para viver. A actualidade é inesgotável, igual todos os dias porque se reinventa todos os dias para nos surpreender - e é esse ser, na essência, sempre igual que nos surpreende. Já o que nos move esgota-se no nosso movimento; e torna-se, com isso, inesgotável. Porque, quer queiramos ou não, não nos esgotamos no nosso esgotamento: reinventamo-nos nele. Invariavelmente, pioramos. O que nos move, felizmente, não. Se não melhorasse, nenhum de nós melhorava. É melhor, para todos, que melhore, que alguns de nós melhorem. Melhor do que isto é impossível.

Justiça

O que é que se pode querer mais para além de tudo aquilo a que se tem direito?

domingo, 12 de junho de 2011

Controlo remoto

A trinta centímetros de mim,
distante como se no outro lado do mundo,
chegas-me a cabo, por satélite.
Vejo-te; televisão?

Está nas minhas mãos alcançar-te, mas
onde estão as minhas mãos?
Estico-me, inflexível,
onda curta — rádio, afinal.

Som sem imagem:
as palavras chegam,
sobram, são de mais.
Ouço-te, calo-me; tens razão.

Gostas de zapping?
Sintoniza-me.

Mértola


Há lugares tão fotografáveis que só um bom fotógrafo pode fazer deles uma fotografia digna desse nome. Os lugares e a luz não esperam, pelo que o fotógrafo é quem está, como eu, frente a esta luz, neste lugar. Ser é outra coisa, quando Deus nos acompanha aos lugares certos, com a sua luz e a de quem sabe (é) fotografar.

sábado, 11 de junho de 2011

Dinossauro

Tanto me acendes como me apagas; mas eu nunca me extingo.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Poesia


«For there are brighter sides to life
And I should know, because I've seen them
But not very often»

Alex (at last/again)

«Oh bliss! Bliss and heaven! Oh, it was gorgeousness and gorgeousity made flesh. It was like a bird of rarest-spun heaven metal or like silvery wine flowing in a spaceship, gravity all nonsense now. As I slooshied, I knew such lovely pictures!»

[Para a minha melhor amiga/árvore/irmã, com louvor e distinção.]

terça-feira, 7 de junho de 2011

Meteorologia

As nuvens hoje estão cheias de céu.

Prisão

Uma pessoa inteligente pode escolher ser estúpida e dar-se a ver aos outros assim. Mas de si, e da sua inteligência, nunca se conseguirá esconder.

Liberdade

É raro uma mulher apaixonar-se pela beleza de um homem. Como a minhas avós se apaixonaram pela de James Dean, Marlon Brando, Paul Newman ou Alain Delon. Como eu me apaixonei pela de Brad Pitt montado em cima de uma Harley-Davidson em The Curious Case Of Benjamin Button, lindo como Dean, Brando, Newman ou Delon - sim, é mais fácil apaixonarmo-nos pelos nossos contemporâneos.

Isto acontece porque o homem é sempre potencialmente feio, e quanto mais nu mais potencialmente feio é. No entanto, há coisas nos homens nus, mesmo os feios, que atraem as mulheres. A força personificada nuns braços ou num peito imponentes, por exemplo. Uns olhos acesos como lenha em lume. Cabelos revoltosos como cristas de algumas ondas, quase em vértice, quase lâminas. E assim por diante.

Por ser tão rara, a beleza clássica, vitruviana de um homem tem de ser substituída pela sua inteligência. Melhor dizendo, a sua inteligência torna-se na sua beleza. Quem ama a beleza tem poder: ama o que existe, porque a beleza é palpável, factual, ainda que subjectiva - isto é, é mais fácil transformar a fealdade em beleza (acho-te bonito sabendo que és feio) do que a beleza em fealdade (és muito bonito, mas acho-te feio).

Amar a inteligência, mesmo feita beleza, é mais difícil. Ninguém está livre de nascer bonito e a beleza é uma coisa que se vê sem que o seu portador precise de abrir a boca, exprimir um pensamento. Amar uma inteligência é amar uma liberdade. Ou seja, é amar o que não se pode ter. É uma luta ganha e perdida à partida. Porque não há, no Mundo inteiro, nada pior do que perder um amor; nem há, no Universo, nada mais amável do que a liberdade.

Pronto-a-vestir

X era das raras mulheres que lhe pareciam mais interessantes cobertas do que nuas, e às vezes nem isso.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Proto-auto-análise

Sou como sou, não gosto de ser assim e não faço nada para mudar. A mudança é um abismo maior do que eu, do que tu, do que a vida. Mas não sou má pessoa. Antes fosse.