terça-feira, 26 de julho de 2011

Jazz com Pretas [20]



(ou será Bach?)

A ponte que nos une

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Haiku para tu (3)

Cortei o cabelo.
Continuas enorme.

Haiku para tu (2)

Tartaruga verde
nunca deixes que te quebrem a carapaça!
Mas eu não sou toda a gente.

Infância

Dizes-me que a paixão é infantil. Respondo-te que a não-paixão também.

Haiku para tu (1)

Quando a lava atingir a fortaleza
mesmo tu acabarás por derreter.

Informação

Este blogue tem aquilo a que eu chamaria "demasiada informação". Os meus olhos, quando te vejo, também.

Desistência

— Desistir de ti é desistir de mim. E desistir de mim, o que é? 
— Um enorme disparate.

Protecção

As pessoas honestas atingem facilmente o estado ideal de aperfeiçoamento emocional. Enquanto as pessoas normais se protegem das pessoas desonestas, as desonestas protegem-se das honestas, ao passo que as honestas, se não se protegem umas das outras, já só têm de preocupar-se com proteger-se de si.

Transacção

Um amor pode ser tão generoso que aceite, em troca, um não amor?

Imbecil

— Não estou apaixonado por ti.
— Como? Só um perfeito imbecil não se apaixonaria por mim.
— Eu avisei-te.

Imediato

— Vais deixar-me? — perguntou. A resposta não veio imediatamente:
— Não.
No dia seguinte, deixou-a.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Bergman revisitado


Morte: Nada me escapa. Ninguém me escapa.
Antonius Block: A morte é uma cena que a mim não me assiste.

(in memoriam)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Jazz com Pretas [19]



*Nunca vos aconteceu?

Je fais ce que je peux

Tráfico de influências

O amor é que é essencial.
O sexo é só um acidente.
Pode ser igual
Ou diferente.
O homem não é um animal:
É uma carne inteligente,
Embora às vezes doente.

Fernando Pessoa

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Valores

Poucas atitudes me repugnam mais do que as de pedir de volta uma coisa que se deu ou devolver uma coisa que uma vez se aceitou. Excepto se essa coisa for o coração. Esse pode dar-se sempre de volta, e pedir-se ainda mais: mas nada – nada – o pode substituir.

Pedro Mexia

Os Smiths são a banda favorita de metade da melhor blogosfera e de um terço da pior juventude (esqueçam que isto é um blogue e considerem-me da pior juventude). Representam, entre outras coisas que posso dizer para parecer que consigo emitir opinião sobre o que quer que seja, a soberania do desejo sobre o bom-senso - e, em última análise, sobre a própria paz. Como Peter Camenzind, são quase arrogantes: pode alguém saber-se a fracção de um átomo e comportar-se como se o mundo lhe devesse satisfações? Pode, na lírica feijão-frade dos Smiths, onde um som luminoso coexiste com uma revolta absurda, daquela que só os adolescentes conhecem.

«If you're so funny
Then why are you on your own tonight?
And if you're so clever
Then why are you on your own tonight?
If you're so very entertaining
Then why are you on your own tonight?
If you're so very good-looking
Why do you sleep alone tonight?»

Perdas

Bobby McFerrin esteve cá e eu perdi-o. Pode perder-se o que nunca se teve?

Álcool

Dizes que estou assim porque não bebi o suficiente. Não terás bebido de mais?

Consensos

Nunca serei consensual, a começar por mim: tanto me detesto como me odeio.

Eles

Há um problema em fazer ou deixar de fazer coisas pelos outros: são os outros.

Auto-hetero-retrato

«Entretanto, eu tinha ainda a estranha sensação de ser uma pessoa fora do comum, que de alguma forma ficara para trás e cujos sofrimentos ninguém conhecia, compreendia ou partilhava. É o que a melancolia tem de demoníaco, o facto de tornar a pessoa não só doente, como também pretensiosa e de vistas curtas, quase arrogante. A pessoa julga-se o Atlas de mau gosto de Heine que carrega sobre os ombros todos os sofrimentos e enigmas do mundo, como se mil outros não suportassem também os mesmos sofrimentos e errassem no mesmo labirinto.»

Peter Camenzind, Herman Hesse, 1953 (tradução de Isabel de Almeida e Sousa para a Dom Quixote, 1992)

Literatura

Todos os dias tenho óptimas ideias para romances, mas depois apercebo-me de que é sempre o mesmo: o nosso, mas em bom.

White Fang

Estou a ler o meu primeiro Jack London e é-me aborrecido como a vida: tudo demora muito tempo para acontecer e quando finalmente acontece demora pouco tempo a acontecer. Não há itálicos nem semelhantes paneleirices: com uma ou outra imagem que ajude à compreensão da realidade, tudo é imediato – nem Deus, parece, é mais omnisciente do que o narrador. Até aqui, não há nenhum problema: um livro, uma ementa, um título de transporte bem escritos serão sempre uma bênção. Os efeitos da realidade, ou da verosimilhança na literatura é que são perigosos, como os do sono num automobilista: ou acorda por si, ou é provável que não volte a acordar.

Recados

É feio mandar recados pelo blogue, disseram-me uma vez. É por isso que estou a guardá-los no blogue: para não os mandar.

(Este estilo foi inaugurado por Pedro Mexia, que continua a ser o único blogger a executá-lo com mestria. Talvez porque os seus recados sejam ficções, ou porque as suas ficções sejam recados. Nunca o saberemos. No meu caso, os meus recados são recados. A Caras e a Hola!, por exemplo, vendem por cusquice e não por mestria. Só tenho um objectivo: enriquecer. À tua custa, se for preciso.)

Teia

Todos os seres livres correm o risco de se encarcerar na sua liberdade. Mas primeiro, quase sempre sem querer, prendem os outros nela. Sejamos todos livres, então, para ver no que dá.

∞ ∞

A. disse-me, como tu, que todos os amores são desequilibrados: há sempre um que ama e outro que se deixa amar. Como resolver isto se nenhum de nós aceita menos do que a sua própria noção de infinito?

Elis

A característica de Elis que Maria Rita, brilhante, não herdou – apesar da semelhança fantasmagórica dos seus timbres – e que faz Elis ser quem é – única, irrepetível – é tão simples de sentir e explicar que quem tenta explicar devia ser punido por altivez: não ter vergonha de falhar. Elis falhava; mas antes de falhar já sabia que ia falhar; mesmo assim não tinha medo e, sobretudo, não tinha vergonha de falhar. Porque era sublime mesmo quando falhava, até porque sabia que ia falhar. Tudo isto nos levaria, claro, a uma metafísica do falhanço: como defini-lo? Por oposição? Postulando, primeiro, a competência e a perfeição? De uma música de Elis não se diz: é bonita. É pouco – antes não se dissesse nada. E daí, talvez não – não se deve ter vergonha de falhar.



«putz... q comentário idiota ¬¬
Maria Rita é Maria Rita
Elis é Elis
as duas são ótimas. compara-las é assinar atestado de idiotice...
»
fabioestacio há 1 ano 25

«Disparado, o melhor visual da Elis: as gengivas em flor sobre dentes de iogurte, o pescoço acetinado, bem encaixado, o sorriso do olhinhos com lindos cílios, os lábios.
A coisa é tão bem feita que o cabelo caiu fora, por desnecessário.
»
marcelodomar há 1 ano 21

[Daqui.]

terça-feira, 12 de julho de 2011

Especiarias

A justiça mostarda mas não falha.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

África

- Não estarás a ver tudo um pouco negro?
- Estamos na Guiné.

O centro das atenções

- O que é que ganhas em atacar-te tanto?
- Assunto.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

LoboTomia

Luta

Uns olhos bonitos não justificam tudo. Mas luta, isso dão.

Existo: desculpa.

Peço sempre por favor; peço sempre desculpa. Até por existir. Quando é que isto acaba, se não consigo parar de pedir desculpa, se não posso deixar de existir?

Pergunta

Porque é que quem fala verdade - e não merece castigo - é sempre tão castigado?

Visível

Não acerto com o aspecto do blogue, isto é, com o blogue.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Tu

Chamas-me autodepreciativa. Devias tirar o auto: eu não existo.

AC/DC

Estou ligada à corrente, mas Deus insiste em guardar as electrocussões para os outros condenados.

Repetições

Dizes-me e vejo que escreves com o desvelo de não repetir palavras. Eu não: repito sempre as palavras para me dar a sensação de que não me repito a mim.

Otorrinolaringologia

Se eu um dia escrever alguma coisa que fique, aqui está como gostaria de ser lembrada: escrevia com a garganta. Porque não escrevo nada que não possa ser lido em voz alta, da garganta, e é da garganta que me saem as palavras. A angústia não. A angústia é o que fica.

Felicidade

Dizem os ricos que o dinheiro não traz felicidade. A verdade é que também não a tira.

Imortalidade

Acredito na imortalidade de quem usa fraldas descartáveis: não são recicláveis e, como tudo o que não presta, hão-de perpetuar-se indefinidamente.

Até ver

Como pessimista, sou tentada a dizer que há situações sem solução. Lamentavelmente para o meu pessimismo tudo tem solução: a morte resolve tudo (pelo menos para quem morre).

Soluções

As criaturas que resolvem tudo enervam-me. Porque, exactamente, resolvem tudo - e eu, por orgulho, não costumo deixar que me resolvam.

Homens

Era tão seguro de si que frequentemente se despedia com "Adeus ex machina".

sábado, 2 de julho de 2011

Tecnologia

Toda a minha realidade é diminuída. Emprestas-me uma lupa?

Vergonha

Uma pessoa encontrou este blogue pelo termo de pesquisa "belos broches". Não sei o que me envergonha mais: ter sido encontrada por isso ou estar a contribuir, com um novo post, para mais uma ocorrência.

Grilhetas d'leituras

O Luís e o Samuel passaram-me a corrente (se bem que eu não sou Faia, mas Viena é aqui). Não li nada, por isso vou responder: não quero esconder quem sou.

1. Existe um livro que relerias várias vezes?
Todos. Ganho muito, muito tempo a reler livros - não é tempo perdido.

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Muitos. Lembro-me, de repente, de A Escrava Instruída, sobre o qual tenho um dilema de tesão-nojo indescritível. Por falar nisso, vou tentar recomeçar outra vez.

3. Se escolhesses um livro para ler no resto da tua vida, qual seria?
Não querendo copiar ninguém, mas copiando toda a gente: todos os que não li. Se só pudesse ser um, ou se como em Fahrenheit 451 tivesse de decorar um livro para sê-lo seria O Último Justo. (Já sou.)

4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Todos. Mais precisamente: Bíblia, Moby Dick, Ulisses, Guerra e Paz e Cosmos, por exemplo (todos na estante, à espera).

5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?
Os Maias, manual de vida, graça, pensamento, gramática e pontuação: "Falhámos a vida, menino!"

6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Os Cinco eram os meus favoritos. Também lia Tintins, comme il faut, Robert Louis Stevenson, Agatha Christie, Erle Stanley Gardner, muito Eça de Queirós e O Amor é Fodido, que o meu pai me ofereceu precocemente achando-o adequado para me ajudar a compreender uma primeira paixoneta. Depois leu-o e arrependeu-se - devia tê-lo lido antes. Foi o primeiro livro adulto contemporâneo que li, isto é, tinha sido escrito há menos de um século e o autor ainda está vivo.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
O Capital, por convicção e amor a um comunista - que acabariam por se dissipar com a ajuda de outro livro, brilhante, por sinal: Porquê Ler Marx Hoje. Curiosamente, foi esse amor comunista que mo ofereceu - contributo para uma definição de "contraproducente". A Crítica da Razão Pura também é uma seca, apesar de brilhante e empolgante em algumas passagens.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Todos adolescentemente convencionais, clássicos, mas bons em qualquer parte do mundo: O Livro do Desassossego, Lolita, A Metamorfose, O Último Justo outra vez, Uma Agulha no Palheiro (a tradução mais livre do magnífico Catcher in The Rye), O Crime do Padre Amaro, Górgias, O Retrato de Dorian Gray, 1984, O Que Diz Molero, Bartleby, A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua, A Trégua, qualquer coisa escrita pelo Luís Fernando Veríssimo - mesmo que seja uma lista de compras -, O Professor e o Louco e uma deliciosa descoberta recente: O Café Debaixo do Mar.

9. Que livro estás a ler?
Presa Branca - e a seguir vou para O Lobo das Estepes, para não sair da espécie.

10. Indica dez amigos para responderem a este inquérito.
Amigos ou amigos do Facebook? De tudo um pouco: o meu bibliotecário favorito, a minha poeta favorita, o Nuno, só para o ver dar sinal de vida, a minha rival favorita (se bem, temo, não vai muito em correntes), o Luís Miguel Oliveira e, em pack, a Mónica Marques e o Pedro Vieira: porque são divertidos, escrevem livros e isso é uma coisa corajosa. Chega.

E agora um miminho: A melhor resposta de sempre a esta corrente e a todas as que ainda hão-de ser inventadas.