quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Dois minutos

Na verdade, se um dia me perguntares se fomos felizes mais que dois minutos eu serei forçada a responder que esses dois minutos ainda duram.

Infância

Molero fala das campainhas da infância e eu peço-lhe que, onde ele estiver, as faça ressoar. E me apague estes fantasmas de carvão com uma borracha robusta, que não borre e deixe o branco imaculado, pronto a colorir.

Doença

O meu amigo dá-me duas hipóteses, que no fundo são uma só: engolir, ou não, um sapo e seguir, ou não, em frente. Em todo o caso, avisa-me, tenho de ir ao médico. Ter de ir ao médico é que me preocupa. Estarei, afinal de contas, apenas doente? E se não estiver apenas doente? Não estar doente é que me preocupa. E se eu for mesmo tudo aquilo que abomino e tudo aquilo que eu abomino for mesmo eu? Mato-me? Conformo-me com ser detestável e vivo como se ser detestável não fosse, também, uma doença?

Fúria

Não existe uma coisa chamada "fúria criativa". A fúria só descria. A menos que a expressão signifique que o furioso se reinventa na sua transfiguração. Mas como? Como pode alguém recriar-se para ser aquilo que o magoa, aquilo que, decerto, não quer ser?

Ou talvez a pergunta seja mais simples e a resposta mais clínica: o que há de consciente na autodestruição?

Descompostura

Escreve, escreve, escreve e não pares. Não pares, como se, entendes?, como se estivesses quase lá. Deita, deita, deita tudo cá para fora. Fura esse teclado de raiva, vomita essa angústia, destrói o que te rói, constrói-te, faz, cria, PÁRA.

Pára um minuto. Olha para mim em silêncio. Não fales. Estragaste tudo, agora recomeça. Não chores, não mordas, recomeça. Retira o que disseste, já. Retira-o de ti, do tempo e do espaço, esquece. Não voltes a estragar tudo, por favor. Tu não tens sete vidas. Só uma e mal chega. Não chega, CHEGA.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Vergonha

domingo, 25 de setembro de 2011

Dress code

Antes de se suicidar calçou as meias finais.

Centeio

Get out of the rye. Rye now!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A espera

P. disse-me hoje a coisa mais bonita e mais útil que alguma vez me disseram: «O que precisas é de sair da merda do centeio». E vou. Vou sair da espera pelo meu próprio pé.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Cidade

— Querida, todos os dias descubro coisas novas em ti.
Espera até veres a ciclovia.

Diversidade

Todos os homens que comparam cidades a mulheres deviam ser coerentes e deixar de procurar a diversidade fora da sua metrópole.

Dormir

O meu sonho é ser Nova Iorque: a mulher que nunca dorme.

Fatalidade

A verdadeira mulher fatal é aquela que se prejudica a si própria.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Insónia

Deito-me tarde porque me tardas.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Definição

O antetítulo desta notícia é "Suplemento cultural". Haverá melhor definição de Deus?

Outro diálogo quase real*

— E o seu psicólogo ensina-a a ser cruel?
— Ainda não chegámos a essa parte, mas é para isso que lhe pago.

*Se não tivesse sido um monólogo.

Profissões

Y tem psicólogo, mas não lhe paga. Qual é o gozo de sermos ouvidos por alguém que não é pago para isso, como fazemos quase todos com quase toda a gente? Talvez tenha escolhido mal a profissão.

Diálogo quase real

X está com uma crise de identidade: todos os dias muda a foto de perfil.
E tu estás com uma crise de falta de identidade: todos os dias lá vais à procura de uma foto melhor do que a tua.

domingo, 11 de setembro de 2011

Adenda

Um jornal vespertino é um jornal que se publica de tarde. Uma edição vespertina de um jornal é uma edição de um jornal (que pode ser matutino, vespertino ou semanário, até) que se publica de tarde, não sendo essa a regra — é uma edição. Pode, ainda, haver edições matutinas de jornais vespertinos, se os acontecimentos o justificarem e o jornal tiver dinheiro para gastar. E assim sucessivamente.

Exactidão/Accuracy e o raio que parta

















Ao leitor que, em privado, me perguntou se eu tenho a certeza de que comprei edições vespertinas de jornais nos dias seguintes ao 11 de Setembro de 2001 só me ocorre uma resposta pública muito mal educada: vai à merda. E se eu guardasse jornais juraria que o DN também teve uma edição especial na tarde (as edições vespertinas saem à tarde, não é?) do dia 12 de Setembro de 2001, mas não guardo: às vezes basta a memória para sustentar a razão, ou nem isso: com amnésia ou Alzheimer não se perde necessariamente a razão. (O juízo é outra coisa, perde-se sempre e às vezes nem chega a ganhar-se.)

Primeiras páginas daqui.

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Mantém-se a lógica do Fórum Mulher e da cerveja Laurentina: enquanto uns morrem à fome ou são mortos em guerras nas quais não são tidos nem achados, outros andam à caça de pentelhos. Tudo se come.

9/11

No dia 11 de Setembro de 2001 eu tinha 13 anos e queria ser jornalista. Tinha-me vestido para sair com a minha mãe: compras e depois praia, para queimar os últimos cartuchos do Verão. Estava a ver as notícias quando o pivô interrompeu a emissão para dar conta do que se estava a passar em Nova Iorque. A cidade onde eu sempre quis ir, por causa do cinema, por causa de Frank Sinatra. A minha mãe ia-me avisando de que estava quase pronta e sairíamos dali a instantes, com a presteza que lhe é tão característica e que eu invejo porque não herdei. Já naquela altura tinha a chico-espertice que a TVCabo permite e mudei de canal para a CNN. Passaram-se alguns segundos apenas. Mãe, anda ver isto. Não podia, íamos sair de casa, íamos já. Mãe, tu TENS de ver isto. Ela veio, refilona, e ficou como eu, a olhar incrédula para o televisor Nokia enorme, acabado de comprar, que nos proporcionava uma vista privilegiada sobre aquela atrocidade. Ficámos assim uns minutos, sem saber o que pensar. Não tínhamos almoço e precisávamos mesmo de ir às compras. Fomos, mas estava assente que voltaríamos para casa e não iríamos à praia. Enquanto a minha mãe nos abastecia, eu ocupava os corredores do Jumbo de Cascais a escrever SMS ao meu amigo Filipe no meu primeiro telemóvel. Ele respondia-me, ia-me informando — estava em casa, frente à TV. Nessa tarde comprei um jornal. E nos dias seguintes também, muitos, edições matutinas e vespertinas. Queria perceber. No dia 11 de Setembro eu tinha 13 anos e queria ser jornalista. Ainda quero. Mas não para perceber. Há coisas que jamais perceberei.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Basslines for Dummies

Uma playlist de quatro horas e um minuto com malhas históricas, ou apenas inconfundíveis, daquelas que põem menires e estátuas da Ilha da Páscoa a dançar (ou mesmo o Bob Dylan). Feita com carinho.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Família

Adão e Eva eram do tempo em que uma costeleta dava para uma mesa de dez.

Adão e Eva

— O que se passa, querida, é que as tuas qualidades não ofuscam as das outras mulheres...
— Mas há outras mulheres?

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Breve maltratado das coisas que não existem [52]

Em que consistirão os segundos socorros?

Vida, outra vez

Em geral, quando escrevo não estou a viver. Em particular, quando estou a viver não escrevo. Se sem escrever não consigo viver — e ainda por cima gosto de viver —, então o melhor é escrever. Pode ser que assim sobreviva.

Parricida/Matricida

É alguém que não gosta do seu nome.

Juízo

Um dia, no apogeu da nossa leveza, escreveste-me do ar. Li-te vezes sem conta, obsessivamente: palavras impróprias que me fizeram estremecer em locais impróprios, que eu mastiguei até decorar, que hoje leio como se visse um retrato de um rosto familiar — sem a devida dedicação, porque toda a dedicação devida foi dada.

Quando me escreveste do ar tinhas acabado de partir, mas enquanto te lia nunca tinhas partido, estavas presente como o ar que sopras de ti para mim quando o calor. Pffffffffffffffffff. Hoje não me escreveste e eu penso, naturalmente, no que mudou. E no que mudou naturalmente. Em ambos os casos, o que mudou foi o medo: é, ao mesmo tempo, maior e mais pequeno. Muito maior e muito mais pequeno. Quando é mais pequeno é maior e quando é maior é mais pequeno.

Mas tu não és o medo. Há uma expressão idiomática em inglês, creio que americano, Fulano de Tal grows on me, que se traduz literalmente: cresces em mim. És maior, cada vez maior. E eu? Tento não confundir volume com capacidade. Como pode uma coisa que mirra conter uma que cresce? Ou estarei, também eu, a crescer num recipiente qualquer que mirra ou cresce ou se mantém?

No princípio era o Verbo. Sem o Verbo nem teria havido princípio. Quando vamos além do princípio e tudo parece já ter sido dito, o Verbo falta-nos como nos faltava a carne quando só havia Verbo. Não sabemos o que queremos a não ser o que nos falta. O que nos falta?

Bricolage

Falas-me de Cristo sozinho na cruz. Falo-te de Cristo deixado sozinho na cruz. Há quem não deixe ninguém na cruz. Eu sei: isso também é uma cruz.

Pretas (sem jazz)

As mulheres moçambicanas com tempo estão indignadas com um anúncio à cerveja Laurentina, que classificam de racista e sexista: «Esta preta foi de boa para melhor». A imagem da garrafa da Laurentina, que acompanha a frase, é um corpo de mulher literalmente sem pés nem cabeça, e com o rótulo no lugar onde devia estar uma parra, biblicamente falando. O Fórum Mulher, uma ONG com um papel muito importante em Moçambique na defesa dos direitos civis, diz que o anúncio promove a imagem da mulher como mero objecto sexual. Discordo: por um lado, as mulheres nunca precisaram de anúncios de cerveja para serem vistas como meros objectos sexuais, bastou-lhes sempre passar por baixo de um andaime; por outro lado, se eu fosse homem não quereria levar um torso para a cama, mas o que dá interesse ao mundo são as inúmeras interpretações da realidade e da ficção que encerra ou, para mal de alguns dos nossos pecados, liberta.

O anúncio é mau e só tem graça porque, sendo a uma cerveja preta moçambicana, tem nele a palavra preta na outra acepção. Os pretos que falam da sua cor como os brancos não são capazes de falar - tirando quando estão mais pálidos do que o habitual porque não vão à praia há dois anos (se houvesse ONGs de mortos adoraria assistir a discussões sobre termos como "lividez") — sempre me fizeram rir. No outro dia, um preto chamou racista a um dos brancos mais pretos que conheço e também isso me fez rir. O problema é que há demasiada gente escura no mundo — dizer "preta" seria restringir a escuridão aos pretos, e não me parece justo: há brancos muito mais escuros do que os pretos mais escuros que existem.

O sentido de humor ou o saudável não-se-levar-a-sério andam, geralmente, de mãos dadas com o esclarecimento — no sentido voltairiano do termo: Voltaire era iluminista, como toda a gente sabe; tinha uma fábrica de lâmpadas, pelo que não se podia dizer que fosse escuro, ainda que pudesse ser preto. É por isso que não entendo, no "mundo desenvolvido" (cuidado, vêm aí aspas a mais), a falta de esclarecimento. Quando é que a virgindade ofendida se tornou no bastião do primeiromundismo? E com que direito se tornou numa das mais frequentes marcas de "avanço civilizacional" a fazer polémica nos países "em desenvolvimento"?

Tirando práticas que não reconheço dentro do género humano (o único, preferencialmente), como a mutilação genital feminina em geral e a violência doméstica, urbana, bélica e verbal em particular (sim, eu sei, o particular era no geral e o geral no particular, mas eu gosto assim), sou muito pouco sensível a manifestações inflamadas de feminismo nos dias que correm (ou até de pró-palestinianismo, pró-tonycarreirismo ou mesmo qualquer coisa acabada em ismo, desde que não seja, por exemplo, ellafitzgeraldismo, um ismo que aceito muito bem e com o qual até sou capaz de acompanhar uma refeição). Sou assim por motivos rudes e sobranceiros: 1) porque sempre quis ser um homem, embora sem grande sucesso; 2) porque sei pouco sobre o feminismo e, sobretudo, 3) porque talvez sinta que os meus direitos estão conquistados - acontece muito à juventude.

Mesmo com tanta sobranceria deste lado, o caso é simples: o Fórum Mulher, nenhuma instituição ou pessoa esclarecida devia dedicar tempo precioso, de mudanças e batalhas necessárias, a polémicas sem swing. Enquanto houver desemprego e quem ampute clítoris, não vale a pena falar de cerveja. Se não houvesse mercado para a boçalidade aparente, que seria dos criativos da Super-Bock-Wonderbeer-Like-a-Virgin?