segunda-feira, 24 de outubro de 2011

«O único computador com alma que existiu»

Cadilho

Tinha a razão tão à flor da pele que, no seu caso, podia dizer-se que o pensamento era uma faculdade dermatológica.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Sexta-feira

O meu avô acordou.

domingo, 16 de outubro de 2011

Robinson Crusoe

Acorda, avô. Já chega de dormir. Quero ver os teus olhos verde-água, paraíso, irrequietos como a vida num coral cheio de saúde, à deriva da poluição e do aquecimento global. Eu sei que estás cansado, mas agora deves acordar. Olha para ti, nu, quente, corado debaixo de um lençol. Falo-te, mas não me respondes. Apertas-me a mão e forças as pálpebras, como quem diz "deixa-me dormir". Acorda, avô. Esses cabelos brancos desgrenhados, essa barba de náufrago velhinho, alva como neve — és o nosso Pai Natal, lembras-te? —, precisam de aprumo. Quero ver-te outra vez puxar os suspensórios para longe da barriga, olhar para mim com esse ar alucinado a dizer-me "quem és tu?!", coisa que só fazes quando até sabes quem sou. Quero voltar a ter sete anos e ver-te mostrar-me a nossa família no zoológico, ruminar pipocas no cinema esquecendo que o Bambi é órfão, dizer-te que a tua sopa de couves de Bruxelas está óptima quando não é bem assim, tu só sabes cozinhar caril de caranguejo, dizer-te que sim, que acredito que foste tu que inventaste o catembe, ver-te forrar os meus livros da escola com precisão milimétrica e um mar de material de escritório sobre a secretária, voltar a oferecer-te uma bíblia de palavras cruzadas e uma caneta boa nos teus anos, tão próximos dos meus; quero voltar a pensar que és incapaz de moderar o volume da tua voz, do teu riso, falar de qualquer governo, sobretudo se de esquerda, sem exagerar no palavreado, quero voltar a adormecer dentro do teu dois cavalos a caminho das Caldas, quero que grites comigo por ter pintado as paredes e enchido os teus discos de corrector, quero ouvir-te dizer Nheco, ver-te comer uma mousse de chocolate ou uma baba de camelo com sofreguidão, admirar a tua beleza sem idade, cada vez maior, quero ver-te acordado. Por favor, avô: acorda.

sábado, 15 de outubro de 2011

Empresa

O que mais me chateava na empresa era sentir que cada um estava sempre a olhar por si, em primeiro lugar, e a cumprir depois os objectivos da organização. (Resquícios do meu comunismo, dirás.) Sou, já to disse muitas vezes, tradicional. A ideia de que estamos sós não me corre nas veias nem me cobre a carne. Que raio de solidão é esta, se eu preciso de ti, se tu precisas de mim, se precisamos todos uns dos outros, nem que seja de um sorriso, de uma respiração mais forte no meio do silêncio de caras fechadas deste autocarro? A partir de dois tudo se complica: é preciso um projecto comum, mesmo que seja a felicidade de cada um. Estamos, portanto, de costas voltadas: tu ostentas a tua felicidade como eu a minha tristeza. Não sei quem é mais feliz com isto: se tu, com o teu projecto de tristeza, se eu, com o meu de felicidade.

Dependência

Há dias assim, nos quais parece que a única verdade no mundo és tu. São demasiados dias desde que te conheci. Foram, aliás, todos menos aqueles nos quais estiveste presente, aqueles nos quais a tua presença deixava que outras verdades existissem. Por exemplo, quando andávamos de mão dada na rua ou tinhas o teu braço sobre o meu ombro e eu o meu à volta da tua cintura e, volta e meia, tínhamos de nos afastar para deixar passar um poste. Aí o mundo era leve e as coisas existiam, apenas, limitavam-se a ser. Agora não. Apercebo-me, a cada dia, de que a tua presença (palpável, terrena) é imprescindível para a dura tarefa de te relativizar. Não creio que a dependência se diagnostique na privação, mas sim na abundância. Um homem sensato, independente, é aquele que come pouco em tempos de abundância ou aquele que se agarra com sofreguidão ao pão quando pressente que ele vai faltar? Um homem não é um urso, mas isso são coisas das quais não sei falar, porque hoje não é um daqueles dias. Tu até poderias querer ser a única verdade no mundo e eu conseguiria, decerto, ver-te assim, mas nota: há pessoas que colam os macacos que tiram do nariz debaixo dos assentos das cadeiras.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Breve maltratado das coisas que não existem [53]

Quando deixarão de ser novas as novas tecnologias?

Não sei se já tinha vindo aqui

dizer que este blogue é das melhores coisas que me aconteceram nos últimos tempos. Obrigada.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Lugares-comuns

O amor não é um cacto.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Redenção

Pôr um vídeo (de produção externa) num blogue é equivalente a pôr uma canção a tocar sem aviso prévio. É um atestado de incompetência. Qualquer coisa no estilo "aí têm, estou sem inspiração nenhuma mas estou presente, desenrasquem-se". Ou de prepotência. Como se nos dissessem "estão em minha casa e comem o que eu lhes der". Neste caso não. Só vim mostrar ao amável leitor o verdadeiro significado da palavra redenção através de uma cena de um filme de que, tenho a certeza, nunca me cansarei.


Mas não muito

Quando uma criança vem ao mundo traz consigo duas palavras: "Olá" (parece uma só, mas é ela e mais outra). Nascer é entrar na festa quando a festa já está a acabar e essa epifania devia ser vedada a todos os menores de cem anos. Essa e a de que os partos são, ao mesmo tempo, milagres e assassínios qualificados; os pais, santos e pecadores; e assim sucessivamente.

A tentação de dar por encerrado o assunto da finitude neste blogue é grande, por vários motivos o mais evidente é o facto de eu ser uma jovem com a vida toda pela frente. Mas se fizer um esforço, faço-o por um mais nobre que seria, aliás, suficiente para justificar todo o meu silêncio daqui para a frente : o de que aquilo que me angustia foi descrito milhões de vezes por milhões de pessoas diferentes de milhões de maneiras melhores antes de mim:
« E não te importas com o teu futuro, rapaz?
Oh, é claro que me importo. É claro! respondi. Depois pensei durante um minuto e acrescentei: Mas não me importo muito.
Mas importar-te-ás disse o velho Spencer. Importar-te-ás, rapaz. Quando já for tarde.

Não gostei de o ouvir dizer aquilo. Era como se eu já estivesse morto, ou coisa parecida.»

Uma Agulha no Palheiro, J.D. Salinger, tradução de João Palma-Ferreira, Livros do Brasil, 1951

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Direito de Resposta: "Esta coisa de gostar de alguém"

Depois de Galileu, uma pessoa não pode ouvir alguém dizer que a Terra é o centro do Universo e ficar-se. Porém, o caso é ainda mais grave: há demasiadas pessoas - mais precisamente duas (1|2)- a desafiar a minha visão infantil e imatura do amor e isso é inadmissível.

Vamos por partes: primeiro as baixas. Gostar de alguém é querer-lhas - essas e as outras todas, aos bocadinhos e de uma vez só, «de um querer bruto e fero», como dizia o tio Garrett com a lengalenga «Não te amo/Quero-te», como se não estivesse a falar do mesmo objecto (o amor) em duas tipologias, uma de pantufas e outra de saltos agulha e nada por baixo da gabardine. Gostar de alguém é consumir-se de desejo, ser ávido, insaciável. A menos que exista uma paralisia incapacitante ou a idade não o permita (e, mesmo assim, os velhinhos do MEC tiveram grandes conversas de cama em cadeiras de rodas, ou seja, não há desculpas). É não entender uma dor de cabeça, amaldiçoar a ausência permanentemente, à noite na cama, de manhã à mesa do pequeno-almoço, à hora da sesta e ao final do dia, enquanto a sopa ferve. «É preciso um cuidado permanente, não só com o corpo, mas também com a mente, pois qualquer baixo seu a amada sente e esfria um pouco o amor», dizia o tio Vinícius. Nisto do amor somos todos sobrinhos e quem diz que sabe ou é prepotente ou está à procura de consenso. (Ou talvez seja só mais velho e mais experiente do que eu, mas excluamos para já essa hipótese, tão remota.)

A confiança, já me esquecia. Pelo amor de Deus (se é que O posso invocar em vão)! Todas as mulheres sabem que há pelo menos setenta outras mulheres com quem os seus homens têm casos mal resolvidos, que os querem para comer ou para casar, sobretudo agora que estão acompanhados. E eles também sabem: que a aliança é um isco, que são mais desejados quando têm dona. A confiança é uma alucinação, porque o outro está a deixar-nos desde o momento em que nos agarra na mão pela primeira vez. Passamos pelo menos um terço da relação a antecipar o sofrimento de sermos deixados e outro a sofrer porque agora é que é, agora é que o outro não vai aguentar mais as nossas inseguranças e nos vai deixar. Quando nos deixa e temos de sofrer, aí sim, morremos - de vergonha, porque em boa verdade já esgotámos o sofrimento todo. Isto não é bonito, como dizem os demónios da serenidade, seres mais fictícios e malévolos que o olho de Sauron (e, já agora, supralincados), mas é assim: tratamos quem amamos como se nos pertencesse. Mesmo que saibamos sempre que isso não é verdade, que o outro tem livre-arbítrio, uma personalidade extraordinária, só sua, pela qual nos apaixonámos e que não vale a pena fingir que é nossa, porque não é, nunca será e em breve seremos odiados por querer ler o pensamento do outro, que como todos os pensamentos de todos os que não somos nós são preto sobre preto ou branco sobre branco (quer estejamos particularmente pessimistas ou optimistas, respectivamente).

Uma escolha, pois. Por favor (desta vez Deus nem existe)! O amor é uma fatalidade porque tudo é uma fatalidade. Ninguém se apaixona pela pessoa certa e fica casado 40 anos em paz e harmonia. Esses casais odeiam-se, de certeza, e só continuam juntos por inércia e cobardia. Porque o amor, já repararam?, nunca dá jeito. Só vem quando a vida está uma confusão (disseram-me, uma vez, que "os melhores amores começam a três". E os piores, a quantos começarão?). Às vezes isso ajuda a ver que a vida é melhor do que pensávamos, é verdade. E é uma bênção, um amor que nos dá a mão para largarmos a areia movediça; mas nunca é fácil. É preciso que o trânsito da cidade seja fluido como os mágicos do Bolshoi numa cena do "Lago dos Cisnes". Ninguém está permanentemente encantado e se desencanta por um momento - quando isso acontece o amor morre, porque um momento de desencanto nunca mais acaba, repete-se todos os dias desde que acontece até que nos cansamos dele ou o outro se cansa da nossa boa memória. É ao contrário: a luzinha do farol aparece no meio do nevoeiro e há dias em que ele é tão espesso e a luz tão fraca que parece que o fim está perto, mas afinal não, era só um percalço, afinal a luz está acesa, uf. O amor não é fácil, ponto. Mais de metade da população mundial é proveniente de amores de merda. Coisas que não deviam ter acontecido porque estavam condenadas à partida. Os opostos atraem-se e não sabem o sofrimento que isso vai causar aos seus filhos e ao mundo em geral. Desses vêm histriónicos, limítrofes, Hitlers e líderes de governos regionais. Por exemplo, o disparate que é um fã do "Preço Certo" juntar-se com alguém que aprecia ver um Wellington bem confeccionado no "Hell's Kitchen" ou quer saber como se faz uma verdadeira Waldorf Salad no "No Reservations". Ou um fã do Rão Kyao com uma maluquinha pelo Fausto Bordalo Dias. Erro. (Ninguém disse que não sabe bem errar. Antes de se saber, sabe muito bem.)

Tudo isto é mentira, claro. Enfim, quase tudo. É verdade que o amor é o que ninguém sabe e quase toda a gente sente, ou sente que sente. Se gostar de alguém não é confiar é, pelo menos, saber que devíamos confiar; é aceitar, sim, mesmo que seja difícil ou pareça impossível. O amor é um Cubo de Rubik: toda a gente sabe fazê-lo, ainda que aldrabe. Gostar de alguém é achar que se gosta, amar alguém é achar que se ama. E nada nos desconvence. Se me permite, querido leitor, desfaço as duas frases mais bonitas que li no meio desta confusão, das quais discordo escandalosamente:

«O amor é bom hoje; amanhã será melhor ainda. Se não for, não é.»
Ninguém sabe. Se soubesse, os amores nunca acabavam e aqueles casais juntos há quarenta anos não eram só figuras de cera. Temos a esperança de que o amor seja melhor amanhã e fazemos tudo por isso. O amor é tentar.

«O amor não é uma rede por baixo dos nosso medos; é um telhado por cima das nossas ousadias.»
Bonito, mas incompleto. O amor é também uma rede por baixo das nossas ousadias e um tecto por cima dos nossos medos. É o que tiver de ser quando for preciso. O amor é o MacGyver no nosso bolso (como aprendi há dias ser o substituto do Chuck Norris para um canivete suíço).

Nota: Agrada-me o facto de o post inspirador ter uma visão quase tão infantil como a minha, mas mais eloquente. Ou gozar com a minha como se valesse a pena.

Vienna waits for you

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Steve Jobs

Foi o homem que eu vi tirar um computador de um envelope. («É possível», tudo é — é o que isso quer dizer.)

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Viena

Serei muito mais feliz quando aprender a calar-me. É por isso que saio: vejo o ruído do mundo e cada bom dia que digo, cada licença que peço é um silêncio cheio de sentido, mais do que alguma coisa que alguma vez direi. Conversar não é dizer, é ver com outros olhos o mundo, o ruído.

(Con)fusão

Os microondas são capazes do impensável: acabo de beber uma caneca de leite que me soube a pesto.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Wayfarer®

Desci a avenida e ao passar no lugar onde pela primeira vez me disseste que não me amavas, uma senhora passava também, na direcção contrária, veloz como um desgosto a chegar, os olhos cheios de lágrimas e as lágrimas cheias de olhos, uns olhos tristes que nunca mais acabavam e só acabaram porque eram velozes. Pensei em mim e nas vezes que chorei na rua, como aquela mulher, a caminho de algum desgosto ou regressada de uma tragédia menor, vaidosa e ao mesmo tempo envergonhada por saber que a tristeza partilhada pode, por vezes, ser uma enorme vaidade. (Foi por isso que comecei a usar óculos escuros: substituí uma vaidade por outra e creio, como em Deus — isto é, de maneira leviana —, que a substituta me fica muito melhor.)

Que lhe terá acontecido?, perguntei-me, à medida que me aproximava do quiosque no qual, naquele dia, pedi um copo de vinho — eu, bebedora menos que social e social apenas se estiver bêbeda —, que vinha quente como nunca vi, parecia ponche, para te ouvir dizer que não me amavas; para depois, dias mais tarde, te ouvir dizer que te tinhas enganado, que afinal me amavas, lembras-te? Como te amava e amares-me de volta era o meu aqui e agora, uma espécie de zeitgeist, o meu milagre, não hesitei em dar-me, em aceitar-te. Mas sabes?, este amo-te/não te amo/amo-te ainda não cicatrizou e por mais que o digas — o último, o primeiro eu só o sinto às vezes, nos teus olhos ou na minha segurança, tão rara e reprimida. Há, no entanto, uma boa notícia. É que, finalmente, eu decidi confiar. Em ti e em toda a gente — é, aprenderás, a marca do meu optimismo e não da minha ingenuidade. Confiar em todos e suspeitar, apenas, de mim mesma.

Imagino o desconforto que te causa ler isto, aqui, mas olha, isto é meu e eu, mais que auto, sou sempre biográfica. Não se trata de me escrever a mim, mas o mundo inteiro. Escrever (que pretensão!) os que têm dores parecidas com estas. As dores infantis e desnecessárias são as piores, sabias? É por elas que se suicidam os poetas e os amantes, são elas que têm sempre razão porque o que os outros não entendem está sempre certo para nós. Estas dores que não são cancros, nem sequer abcessos, cicatrizes de série B. Os outros. Escrevo-lhes e escrevo-os escrevendo-me, essa é que é a minha psicanálise. Não tenho medo das pessoas. Daquele japonês bonito, por exemplo, que aconchega com a sua camisola o peito do filho que dorme desengonçado no carrinho de bebé. Ou daquela mulher que não chora mas vai zangada com a vida, carregada com ela em sacos, a caminho do comboio. Ou deste casal, ele jeitoso e ela tão gordinha, curvilínea, anca de Rubens para cá e para lá. Nem deste rapaz, tão mal vestido, fato de treino em nylon e sapatos de vela, que assim nunca há-de arranjar uma namorada. E há, sim, coisas que guardo para mim. A maneira como me faltas e da qual só te falarei, talvez sem palavras, quando te reencontrar; o que sinto quando, inadvertidamente, me dizes ou fazes uma coisa bonita, de cuja beleza nunca te aperceberás.

Hoje não foste tu. Ele passou por mim e disse para o homem do lado: "tão bonita!", assim, em exclamação. Não havia equívoco possível: foi para mim que olhou nos três segundos anteriores e não era suposto eu ter ouvido, estava de auscultadores, a ouvir um disco teu, uma ponte de silêncio entre uma canção e outra. "Please don't let me hit the ground/Tonight I think I'll walk alone/I'll find my soul as I go home." E andei, encontrei-me a caminho de casa, porque era preciso acreditar, é preciso acreditar quando dizes que me amas. Mas escuta: se eu tivesse acreditado quando me disseste que não me amavas, onde estávamos agora, meu amor? Eu aqui e tu aí? Onde estamos, afinal? E onde, depois de nos encontrarmos, nos vamos finalmente encontrar?