sábado, 19 de novembro de 2011

Fenda, fresta, racha, Leonard Cohen

— O que é mais embaraçoso: comunicar a tristeza ou a alegria?
— Não compreender nenhuma das duas quando no-las comunicam.

Silêncio

Há pessoas que vêem abismos no silêncio. Outras, sabem que o silêncio é, em si, o abismo. E há ainda as que, por menos que digam, nunca se calam.

(«Ninguém pode não comunicar.»)

Verbos

Está-se morto? Não: é-se morto. Estar significa que há uma possibilidade de não estar, daí que seja absurda a expressão "fulano de tal ainda é vivo". Se fulano de tal ainda é vivo é porque nunca esteve vivo.

Comunicação

Quando Watzlawic escreveu que «ninguém pode não comunicar» referia-se, como é evidente, também à morte, mensagem pura — o morto não precisa de ser correspondido quando se mostra, ele é o facto inegável, a única verdade, mesmo para os que lhe sobrevivem, que lhe correspondem sabendo que um dia também eles serão mortos.

Há uma certa ironia nisto: um morto diz-nos, apenas, "um dia, este que já não sou, que já não é nada senão o que foi, serás tu", e essa mensagem não só é pessoal como, uma vez apreendida, se torna intransmissível. Para comunicá-la é preciso morrer.

domingo, 13 de novembro de 2011

Mrs Dalloway

Acabo de ver "As Horas" e estou lavada em lágrimas. Ganho sempre o campeonato mundial de "suspensão da crítica": além de chorar, devo ter demorado 40 minutos a perceber que Nicole Kidman era Virginia Woolf e, quando percebi, saltei da cadeira. Meryl Streep é sempre perfeita. E viver é sempre bom, até deixar de ser. A vida é como a música extraordinária de Philip Glass neste filme (e, a bem dizer, em tudo o que dele conheço): hipnótica. Quando se dá por isso, quando se percebe aquilo que a vida é, a morte parece solucionar o absurdo da repetição. Mas não soluciona, porque o absurdo é a morte, não a vida. A vida é absurda por causa da morte e a morte por causa da vida. Quando morremos, o absurdo continua a repetir-se. O suicídio é um desespero ou uma sobranceria, porque pensa sempre que consegue resolver alguma coisa. Não: os outros vivem para além da nossa morte, os outros morrem para além da nossa vida.

Somos todos Mrs Dalloway.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Terramoto

Hoje disseram-me «estás a desmoronar a ideia que tinha de ti». Isso só prova que, afinal, eu não sou a ideia que os outros fazem de mim. Isto é uma alegria para quem sonha ser mais do que um macaco.