sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Um dia são dias

Não pretendo dar-lhes uma novidade, e muito menos ser derrotista (como diria Maggie Smith, "é muito classe média", segundo uma captura que vi há dias no Facebook). Sei lá, aliás, o que pretendo. Talvez pretenda tudo e não pretenda nada, ou vice-versa. Enfim, o habitual. O que quero dizer-lhes é que nada é como nos contaram. Não basta vir para as Caraíbas para ser feliz. Não que fosse isso que eu esperava quando, no primeiro dia do ano, aterrei em Antígua e Barbuda por amor - próprio e impróprio, embora acredite que todos os amores impróprios são próprios e todos os amores, próprios ou impróprios, são apropriados. Amar é bom. Só que amar-se é ainda melhor e se alguém descobrir como se faz o meu número de telefone é... 

É exactamente esse o problema ou, para ser menos classe média, o desafio. Amar-se. A propósito, chamar aos problemas desafios é uma invenção da literatura de auto-ajuda que ajuda. Chamando ao problema desafio ele parece-me menos problema, mais ultrapassável, do mesmo modo que, tendo problemas nas Caraíbas eles me parecem mais despropositados, mais desafios.  Como me atrevo a ser infeliz com este mar azul-Photoshop à minha frente? 

Já o escrevi aqui uma vez e, feliz ou infelizmente, ainda o penso: o inferno não são os outros, somos nós. Como se não tivesse ardido já o bastante, apanhei um escaldão no meu primeiro dia de praia. Nunca ir à praia com sono é aquilo a que eu chamaria um bom conselho. Para mim, basta uma ligeira variação, que consiste em apagar as duas últimas palavras. Eu e o sono somos sinónimos. Por enquanto, não trabalho e tenho dormido bastante. Por mais prazer que sinta a dormir (ou, melhor dizendo, a acordar de um sono bom), não consigo deixar de achar o sono uma perda de tempo. Mas consolo-me sabendo que, se estivesse acordada, não faria nada de significativo de qualquer maneira. O problema.

Escrevo e espreguiço-me à sombra de um gazebo encantador, numa espécie de hotel chamado Reef Gardens, impecavelmente mantido por uma adorável americana chamada Connie. À minha frente tenho o tal mar onde, nas minhas horas vagas, o meu amor impróprio navega. Estou a ler pela primeira vez um "livro de mar" de Jack London (O Lobo do Mar), e já invejo quem embarca, pela placidez necessária para aguentar a beleza e a adversidade que o mar contém (ou liberta?). Sei que a serenidade é muito boa, se aprende e leva tempo. Quero, por isso, aprendê-la o mais rapidamente possível. Curiosamente, é quando somos jovens que mais o tempo parece faltar-nos; é daí que vêm as asneiras, mas também, talvez, as maravilhas - por exemplo, Glenn Gould tinha 25 anos quando gravou com uma perfeição avassaladora o Livro II do Cravo Bem-Temperado. Seria sereno já? Como se explica que esta gravação se ouça com tanto prazer em qualquer lugar, numa capela em talha dourada ou numa casinha de madeira e telhados de chapa como a que tenho atrás de mim?). O paraíso são os outros.

Sei que já não sou Holden Caulfield, cresci um bocadinho, mas ainda não gosto do que sou. O que faz, afinal, uma pessoa aceitar-se? É o tempo? A vontade? O Rum punch (que é bom que se farta)? Psicoterapia? 

É o que lhes dizia: as Caraíbas não são um pó colorido dentro de um pacote com "Felicidade instantânea!" no rótulo. Tantas vezes, antes de partir, ainda sem ter decidido fazê-lo, pensei ou fui levada a pensar na sorte que era ter a possibilidade de estar aqui; que tantas vezes disse, fechada num escritório, que o que queria era estar nas Caraíbas (apesar de não gostar de praia e sempre me terem fascinado as atmosferas dickensianas). Percebo, fascinada, que muita da sabedoria popular sobre esta região é verdadeira - apesar de os entendidos serem rápidos a asseverar que todas as ilhas são bastante diferentes. Os maravilhosos anúncios do Malibu (compilei os sete que consegui encontrar) são quase paradigmáticos: nada é tão urgente que não possa ser adiado, a calma é dominadora e um sorriso luminoso, por mais nevoeiro que esteja cá dentro, não demora muito a aparecer. 

A beleza do que me rodeia e o sorriso dos outros, que puxa o meu das profundezas, torna os meus problemas, mais do que insignificantes, inefáveis. Aquilo de que não se pode falar existe? A resposta a esta pergunta entusiasma-me tanto quanto me assusta. O que sou eu sem os meus problemas? O que serei? Tudo o que é humano me é estranho, afinal. Sou um bicho do mato. 

Faço, também, parte daquele grupo de pessoas que tem tido o mau gosto de achar a felicidade desinspiradora. Porque creio que é preciso um talento especial para tornar as coisas simples e bonitas dizíveis. Eu não sei falar do que sinto quando percorro este jardim descalça, ou quando o Sol se põe à minha frente e o vejo como se fosse a primeira vez, sempre a primeira vez. Nem consigo descrever a estranheza que me provoca a enorme quantidade de galos nestas ruas, ou a maneira suicida como os pelicanos mergulham (sobre isso prometo um post detalhado), ou o medo que sinto ao andar de autocarro, "a ver a vida a andar para trás" a cada razia do motorista ou do carro que nos tenta ultrapassar. Nem prometo que consiga falar da educação amigável mas pouco efusiva de quem aqui nasceu ou explicar, com justiça, o facto de nada, absolutamente nada ser ou parecer verdadeiramente desagradável neste lugar, tal a leveza dos dias tão curtos e das noites tão boas que só por capricho deixam saudades - de tão curtas, tão dias que são. Os dias aqui são circunferências, dias O, e lembram-me uma canção que é o meu espanta-espíritos. Esta:

1 comentários:

cs disse...

Vou guardar este texto , fazer uma inspiração seguida de uma sonora expiração. Levanto-me e vou à cozinha, dou uma trinca num croissant que ali tenho e, venho reler.

Favoritando este texto :)