sábado, 18 de fevereiro de 2012

Ser

«Despe a tua infelicidade e esquece-te dela no restaurante, como um guarda-chuva num dia de sol», foi o que ele me disse, ipsis verbis. No entanto, a frase não terminava aí: havia duas palavras no final que a tornavam naquilo que ela era, uma frase bonita que podia ser para uma pessoa qualquer, mas que não foi para uma pessoa qualquer. Foi para mim.

O que ele não sabia é que eu já estava nua. Depois de um dia que foram dias, os melhores que já foram e os que ainda hão-de ser, despi a minha infelicidade, mas talvez, também, a minha felicidade. Fui eu, lembrei-me do que sou esquecendo-me do que tenho sido. E quando cheguei a casa, um amigo despiu a minha nudez. Desci do autocarro e ele gritou o meu nome, do outro lado da rua. Eu corri. «Tatiana, a minha filha andou.» Primeiro o sorriso, depois o abraço, e aquela palavra no início da frase, que foi só uma, mas que podiam ter sido as duas que o meu amor me disse. 

Eu sou. Ser é uma sorte.

3 comentários:

lenço de papel; cabide de simplicidades disse...

Que maravilha! Estou fã.
Já coloquei nos favoritos este blog.
"Eu sou. Ser é uma sorte."

Obrigada Tatiana. Seja sempre!

Tatiana Vaz Pereira disse...

Obrigada, Helena. Pois sejamos todos!

Sophia disse...

Lindo. Espero que estejas bem aí, nessa costa, onde rebentam as ondas de Portugal.