segunda-feira, 26 de março de 2012

Bater com a cabeça

Lembro-me frequentemente do meu avô e da ordem que lhe dei. Aqueles dois pontos disparatados que o obrigaram a acordar. Penso, toda-poderosa, que me ouviu e me quis fazer a vontade, nem que fosse para adormecer outra vez, como acabou por fazer, sem que ninguém esperasse, já em casa e aparentemente a recuperar. Quando era pequena, o Avô Mimi, como lhe chamava, costumava cantar-me uma canção que dizia: «se uma Tatiana incomoda muita gente, duas Tatianas incomodam muito mais/ Se três Tatianas incomodam muita gente, quatro Tatianas incomodam muito mais», e assim por diante. Quando, estupidamente, volto a bater com a cabeça no porão lembro-me sempre dele e de como, também estupidamente, morreu, com o cérebro fustigado por traumatismos cranianos sistemáticos não diagnosticados. Foi a pessoa mais alegre que conheci e foi ele quem me ensinou a diferença fundamental entre alegria e felicidade. Às vezes estou tão ocupada em tentar feliz que me esqueço de ser alegre, o que é um disparate pior do que dar ordens ao avô moribundo e não ouvir os conselhos dos amigos.

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