sexta-feira, 30 de março de 2012

A bênção

«A tristeza tem sempre uma esperança/De um dia não ser mais triste, não»

terça-feira, 27 de março de 2012

Breve maltratado das coisas que não existem [54]

Haverá um dia em que os gigantes da tecnologia inventarão motores de perda, para nos manter a funcionar sem aqueles que amamos. Ou, simplesmente, para esquecermos instantaneamente o que desejamos esquecer, digitando, em vez de termos de pesquisa, termos de desinformação. Pergunto-me o que fará o botão "Sinto-me com sorte" -- levar-nos-á a um substituto instantâneo daquilo que acabámos de perder, mas que ainda nos faz falta?

segunda-feira, 26 de março de 2012

Álcool

-- Bebes mais quando estás triste ou quando estás feliz?

-- Nunca pensei nisso, mas todas as razões são boas.

Tanto, tão pouco

Não é a primeira vez, e não será a última, decerto, que me farto de mim mesma. Há, nisto, um misto de me levar e de não me levar a sério, como se por um lado me preocupasse demasiado com o que sou e, por outro, me considerasse já um caso perdido e me risse disso, tal a frequência com a qual estes sentimentos me assaltam. O exaspero é um sopro que parece não ter origem. Não é como o bocejo, que vem do fundo; a falta de paciência parece estar à superfície, "à flor da pele" (um dos lugares comuns mais bonitos que alguma vez inventaram), e é por isso que é perdoável. Estar farta de mim não significa que não goste de mim, significa que não aguento mais conviver comigo mesma e que talvez o melhor seja afastar-me de mim, ir passar um fim-de-semana fora e deixar-me em casa a pensar no que fiz para me exasperar tanto. Daí que talvez tenha boas notícias para ti: o pior já passou. Hoje voltei a ser eu, eu e só eu a ocupar-me mal o pensamento, tanto que me fartei de mim. Eu, a ex-futura-super-heroína que estava mesmo quase a conseguir ser feliz, falhei, falhei uma e outra vez, mas aparentemente cada vez melhor. Talvez a felicidade seja estar-se nas tintas, porque é quase isso que sinto, e é leve como a palavra leve. Isso e uma vontade enorme de te ver e de conversar contigo e de te dizer, entre mil outras coisas que só na altura surgirão, que gosto quase tanto de ti quanto tão pouco de mim.

O Problema

Dizes que preferes a ficção à realidade, e eu digo-te que prefiro a realidade, porque também ela é uma ficção. Aquilo que tu és para mim, por exemplo, não é aquilo que és para os outros, nem o que eu sou para ti é o que sou para outros ou sequer para mim -- o que não nos torna honestos ou mentirosos; obriga, apenas, todas as ficções a serem realidades. É por isso que eu prefiro a realidade, porque a ficção não existe, é uma ficção. Saint Exupéry tem aquela frase magnífica, «Amar não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direcção», e eu acho que sim, que a nossa ficção coincide, que andamos, como meio mundo, à procura de um final feliz. O que se passa é que, além disso, me esforço por tentar ver o mundo com os teus olhos, para ver também a tua realidade, e isso só pode dar cabo dos meus.

A frase «o problema não és tu, sou eu» foi inventada para mim.

Bater com a cabeça

Lembro-me frequentemente do meu avô e da ordem que lhe dei. Aqueles dois pontos disparatados que o obrigaram a acordar. Penso, toda-poderosa, que me ouviu e me quis fazer a vontade, nem que fosse para adormecer outra vez, como acabou por fazer, sem que ninguém esperasse, já em casa e aparentemente a recuperar. Quando era pequena, o Avô Mimi, como lhe chamava, costumava cantar-me uma canção que dizia: «se uma Tatiana incomoda muita gente, duas Tatianas incomodam muito mais/ Se três Tatianas incomodam muita gente, quatro Tatianas incomodam muito mais», e assim por diante. Quando, estupidamente, volto a bater com a cabeça no porão lembro-me sempre dele e de como, também estupidamente, morreu, com o cérebro fustigado por traumatismos cranianos sistemáticos não diagnosticados. Foi a pessoa mais alegre que conheci e foi ele quem me ensinou a diferença fundamental entre alegria e felicidade. Às vezes estou tão ocupada em tentar feliz que me esqueço de ser alegre, o que é um disparate pior do que dar ordens ao avô moribundo e não ouvir os conselhos dos amigos.

Banalidade

Hoje demorei-me junto a um homem que tinha o teu perfume e surpreendi-me: não sabia que a memória do desejo podia ser mais violenta que a do amor.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Diferenças

Viver como se morre, na solidão -- dos actos, das decisões, dos pensamentos -- é para gente sábia, não é para mim: eu sou muita gente e escrevo epitáfios, se for preciso. (Ele, porém, escreve melhor.)

Saber perder


 [Eu nunca soube.]