Hoje fui ao Porto e voltei, de Intercidades. Para a próxima, mesmo que demore mais tempo, vou no Regional. Não gosto de comboios silenciosos e por isso não escolhi o Alfa-Pendular. Engano. O único sítio onde num Intercidades se ouve pouca-terra-pouca-terra-uuu-uuu é no WC e, mesmo assim, o uuu-uuu está quieto e isso só acontece naqueles troços da linha que o tempo, Sacana Um Bocadinho Mais Pequeno Do Que O Outro Grande, não respeitou. Depois, os assentos do Intercidades são demasiado confortáveis e há o ar condicionado, que desgraça qualquer pessoa que goste de olhar pela janela - por falar nisso, vai uma aposta em como eu amanhã vou acordar aniquilada por dores de garganta ou de cabeça? No Intercidades há um bar e eu quero que viva o farnel. O Intercidades não pára em todas as estações, e eu não suporto passar em estações tão rapidamente que não me seja possível ler-lhes o nome. Caxarias, por exemplo. Quem nunca passou por Caxarias não percebe que está a passar por Caxarias se não conseguir ler a duzentos quilómetros por hora. Uma viagem de comboio - duas, no caso - da qual se sai sem qualquer dor no corpo não é uma viagem de comboio, é um passeio. Eu hoje fui ao Porto passear.
segunda-feira, 10 de setembro de 2007
sexta-feira, 7 de setembro de 2007
Escrevi, uma vez, uns louvores à paciência. A verdade é que não tenho nenhuma. Não posso nem consigo esperar por aquilo que quero muito. A espera consome-me, carboniza-me, traz-me cólera. Fico - sei que fico - insuportável quando tenho de esperar por aquilo que quero muito. A sexta-feira não me anima. O que eu quero é a vida, aqui e agora, real como uma fotografia por tirar. Quando um corpo faz click! não acaba, acaba de começar.
Diário das Descobertas - 8 de Setembro de 2007 (por antecipação)
Sei de uma coisa que o aio de D. Manuel I lhe disse, quando el-rei era ainda muito pequenino. Como constatamos todos os Dezembros e Janeiros, el-rei não percebeu e, como podemos constatar de Fevereiro a Novembro, acabou por perceber tudo ao contrário - pois se até se fez Bem-Aventurado! Vejam o que dizia o aio: «Meu rico menino, se a fruta cristalizada se fizesse ao mar, era um grande favor que fazia ao bolo rei.»
Diário das Descobertas - 7 de Setembro de 2007
Diogo Cão tinha pelo menos uma certeza: a de que era mamífero.
quinta-feira, 6 de setembro de 2007
Presente do Indicativo do verbo voltar em versão religiosa e com omissão da segunda pessoa do plural
Eu messia
Tu messias
Ele messia
Nós não messíamos
Eles messiam mais do que tiveram.
Breve maltratado das coisas que não existem [31]
Os inquéritos de satisfação. Nunca vi ninguém responder a um inquérito sem estar contrariado.
Melancia
Vou escrever sobre melancia, antes que o assunto fique na moda. Há duas vantagens principais na melancia: tem demasiada água para ser gente e demasiadas sementes para ser mulher. A melancia é como um homem doce que sangra diluído. Que frase de merda, dirão vocês. Está bem, eu reformulo: como um homem doce que cora e evapora, isto é, como um homem doce que evacora. Não há uma cor verde-melancia. A cor da melancia não é a cor de fora, é a cor de dentro. Nunca se quer olhar para uma melancia fechada. Melhor: nunca se quer olhar para uma melancia, a melancia quer-se sempre comer. Vi o cartaz de um filme em que a fotografia mostrava uma mulher com uma melancia a tapar-lhe a patareca, enquanto um indivíduo a observava. A fotografia estava tirada de uma maneira curiosa, talvez para que, enfim, a melancia pudesse parecer uma cona com sementes. Não parecia nada. Uma melancia parece-se sempre com uma melancia, ou seja, parece-se sempre com água. Água doce. Adoro melancia.
Diário das Descobertas - 6 de Setembro de 2007
Vera Cruz está apaixonada por Desespero Vaz de Caminha.
Sentimento de um oriental
quando, visto da Europa, um caralho teso parece um caralho que acabou de ganhar o euromilhões.
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
Chegar a uma casa depois de um dia cheio. Meter a mão ao bolso. Escolher a chave certa. Ver que a chave cabe na fechadura e sentir alívio por isso. Entrar. Entrar numa casa que não é ou não parece nossa. Querer um banho, o conforto da água. Tomar um duche razoável. Não ter fome. Ter de comer. Desejar o carinho do silêncio. Não encontrar o silêncio e estar ainda mais longe do carinho (a uns quilómetros razoáveis). O mais importante de tudo é a memória. A memória e o sono. A memória traz-nos o que foi ontem, o sono dá-nos o que vai ser amanhã. Quero sempre mais amanhã do que quis hoje, mais amanhã do que quis ontem. Mesmo que seja impossível piorar e ainda que pareça impossível melhorar. Amanhã é que é hoje. Não se admite, no entanto, que hoje, ontem e amanhã sejam o mesmo que sempre. Ainda bem que a vida não muda connosco ou que não muda tanto quanto nós mudamos. Nunca sobreviveríamos a coisas mais previsíveis do que nós mesmos. Sabemos sempre o que nos vai acontecer a seguir ou, se não sabemos, sabemos que nos vai acontecer alguma coisa a seguir - e já é uma previsão tão suficiente. Achamos que não controlamos o que nos vai acontecer a seguir, mas é tudo mentira. Escolhemos sempre e escolhemos sempre bem. Por tudo isto e por mais duas ou três coisas de muita propriedade, não respeito ninguém que nunca tenha corrido para apanhar um comboio.
segunda-feira, 3 de setembro de 2007
Algo mais sobre a Literatura
O amor tem um aspecto absolutamente repugnante: é uma fatalidade. É uma fatalidade mais religiosa do que metafísica, é uma instituição antiga, aborrecida, linear, igual em todos os lugares. O amor ora acontece, ora demora a acontecer. É uma espécie de morte onde só se vive, onde se vive mais do que a conta. Gosto de quem me trata por tu. O amor trata-me por tu, usa o primeiro e o segundo nome quando está zangado, o apelido quando quer que o escute, os nomes e apelidos todos quando brinca comigo, um diminutivo quando me quer encantar, chama-me nomes quando me quer desconcertar, não me chama nada quando sabe que isso me desconcerta. O amor tem-me em desvantagem: ele conhece-me, eu não o conheço. E é tão bom ser-se socrático.
domingo, 2 de setembro de 2007
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