quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Uma mulher egoísta

não tem satisfações a dar.

Amizade

- Então, tudo bem?
- Não.

Conversa

Vamos primeiro ao que não interessa.

Cama

Foi a conversa mais produtiva que não tivemos.

Police à paisana

Ainda não vi um comentário negativo ao concerto dos The Police. Parece que vou ter de ser eu a fazê-lo. Fui, confesso, muito desconfiada para o Estádio Nacional. Sting consegue ser, em palco, um músico muito bom mas também muito chato - provou-o no Rock in Rio onde, pela primeira vez na minha vida, estive capaz de adormecer em pé, graças a uma versão de Roxanne que durou, à vontadinha, mais de 20 minutos. Várias coisas correram mal. Primeiro, os Fiction Plane. Sabia-se que Fiction Plane é a banda do filho de Sting. Não era preciso que se soubesse. O rapaz não o disse ao público nem o cantou num refrão, mas mesmo que estivesse a tocar todo encardido no metro de Moscovo, qualquer pessoa reparava que, em casa daquele rapaz, se ouve muito Sting. Apesar de não ter grande voz e de não conseguir evitar imitar o estilo do pai, pareceu-me muito bom baixista. Para alguma coisa há-de servir a técnica. Também não acho que seja bom sintoma de amizade paternal levar um filho para tocar na nossa própria digressão: sujeita a criança (de pelo menos 25 anos, no caso) a receber comentários deste género: «Vai chamar o papá!», sempre que acaba uma canção. Depois, nunca tive tanto frio na minha vida, mas isso não é culpa do Sting e nem sequer de S. Pedro, mas da minha t-shirt e do meu casaquinho de malha. Adiante, pois. Não me agrada que uma banda com grandes canções como The Police faça versões dos seus próprios temas. Uma coisa é uma interpretação ao vivo de um tema gravado - é sempre diferente e, para mim, sempre potencialmente interessante. Outra coisa é uma interpretação ao vivo soar como uma versão (uma cover, como queiram). O que eu ouvi ontem à noite, no Estádio Nacional, não foi uma grande banda a tocar os seus temas. O que eu ouvi foram as versões de Sting das músicas dos The Police - e não deve haver muita gente por aí que tenha ouvido tanto e tão obsessivamente Sting e The Police como eu. Sting tem uma voz especialíssima e, façamos justiça, muito bem conservada. É, provavelmente, o único louro giro que conheço, um baixista fabuloso e um criador inspirado e original, mas consegue monopolizar um espectáculo e exigir, com tudo aquilo que sabe, a convergência das atenções para a sua pessoa - apesar de ter referido várias vezes o nome dos colegas e de ter pedido, para eles, a atenção do público. Stewart Copeland continua um tipo divertido e um baterista brilhante e conseguiu, muitas vezes, trocar o passo para acompanhar Sting nos seus fervores monopolizantes. Andy Summers pareceu-me ter evoluído como guitarrista - comparo com os antigos concertos da banda que cheguei a ver no VH1. Os Police estiveram à paisana, com um vocalista que parecia já não se lembrar das músicas que ele mesmo inventou: Don't Stand So Close to Me, mesmo se considerarmos a deprimente versão de 86, esteve incantável. Nem a referência a Nabokov me animou. Mesmo em Every Little Thing She Does is Magic, o meu tema favorito, não houve magia. No entanto, nada disto deve ser levado a sério, pois parece que só eu é que não gostei - eu e a pessoa que arrastei para me fazer companhia. Mas o que é mesmo importante é que se salvem os índios e as florestas tropicais.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Não há nada melhor do que uma noite mal dormida. Uma pessoa acorda capaz de tudo, de dizer tudo, mesmo que não acredite no que diz, mesmo que depois se arrependa. Não confio nas pessoas que não ficam transtornadas pela falta de horas de sono. Não confio nas pessoas que não se transtornam, que evitam transtornar-se. Nem confio nas pessoas que não se arrependem. Estão demasiado conscientes da morte para viver e a consciência da morte é uma má consciência. Uma pessoa que não se esquece dos seus limites pelo menos duas vezes por dia não tem caminho por onde seguir: já é uma alma penada. É possível habituarmo-nos à ideia da morte dos outros? Talvez. E à da nossa? É, mas só até morrermos. Tenho tanto sono.

Procura-se vivo ou vivo

Quem quer casar com a repórter?














Disponível aqui para download completo e legal.

domingo, 23 de setembro de 2007

Ode respeitosa à unilateralidade do pensamento

Acho, presunçosamente, todo este texto compreensível. Para mim - não resisto, por medo de represálias, a alguma subjectividade cartesiana - escrever num blogue é uma libertação imediata. Aqui, nada parece, à partida, impossível de dizer. Decido que vou escrever sobre uma coisa e, se não desistir antes, escrevo. Desistir é também uma libertação; apagar, deixar um post nos rascunhos, à espera de não ser publicado, só porque se decidiu assim. No fim, mesmo que se escreva, fica tudo por dizer, mas isso é só porque achar que se pode dizer alguma coisa também é uma presunção. O que interessa na escrita de um blogue, creio, é a fé. A fé na nossa compreensibilidade e na compreensão do outro. O desejo de sermos aceites, ao mesmo tempo, como somos e como gostaríamos de ser. Porque o que gostaríamos de ser e o que não gostaríamos de ser também é o que somos. Aliás, talvez o que somos seja sobretudo isso. Já achei embaraçoso que pessoas que me conhecem em vez ou para além da blogosfera lessem o meu blogue. Censuro-me, às vezes por mim, outras vezes por elas. Mas não deixo de escrever, muitas vezes sem me censurar. Como se fosse escrita, como se não escrevesse. O vocabulário do pensamento não tem muito que se lhe diga: é um recurso sempre disponível, uma farmácia de serviço. Acho - e aqui reside grande parte da minha presunção - que escrever num blogue, em qualquer blogue (mesmo num blogue secreto ou num diário que se descobre depois de o autor ter morrido), é um acto de coragem. Um blogue, para quem se perde e naufraga nas palavras que encontra ou que o encontram, não é muito diferente de uma mensagem na garrafa. No mar, são precisas duas fés: uma, para que alguém receba a nossa mensagem; outra, para que quem a receba a consiga entender. Na blogosfera, a probabilidade de quem nos recebe falar a nossa língua é grande, mas isso não é - e às vezes é bom que não seja - uma vantagem para a comunicação.

Avellaneda e eu

Não me beijou. Eu também não tomei a iniciativa. O rosto dela estava tenso, endurecido. De repente, sem aviso prévio, todos os seus recursos pareceram afrouxar-se, como se houvesse renunciado a uma máscara insuportável e, assim como estava, olhando para cima, com a nuca encostada à porta, começou a chorar. E não se tratava do famoso choro de felicidade. Era aquele choro que sobrevém quando nos sentimos opacamente infelizes. Quando alguém se sente brilhantemente infeliz, então sim, vale a pena chorar com acompanhamento de tremores, convulsões e, sobretudo, com público. Porém, quando para além de infelizes nos sentimos opacos, quando já não nos resta lugar para a rebeldia, o sacrifício ou o heroísmo, então há que chorar sem ruído porque ninguém nos pode ajudar e porque temos consciência de que isso passa e que por fim retomaremos o equilíbrio, a normalidade. O choro dela era assim. Nesta matéria ninguém me engana. «Posso ajudar-te?», disse eu, contudo, «posso fazer alguma coisa para remediar isto?». Perguntas vãs. Descobri ainda outra, bem no fundo das minhas dúvidas: «O que é que se passa? Queres que nos casemos?». Mas a nuvem estava longe. «Não», disse. «Choro porque é tudo uma pena.» E é tão verdade. É tudo uma pena; que não tivesse havido apagão, que eu tenha cinquenta anos, que ela seja boa rapariga, que os meus três filhos, que o seu antigo namorado, que o apartamento... Tirei o lenço e limpei-lhe os olhos. «Já passou tudo?», perguntei. «Sim, passou tudo.» Era mentira, mas ambos compreendemos que fazia bem em mentir. Com o olhar ainda convalescente, acrescentou: «Não julgues que sou sempre tão tonta.» Não julgues, disse; tenho a certeza de que disse não julgues. Tratou-me por tu, então.
A Trégua, Mario Benedetti, 2007, Cavalo de Ferro

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Missa cantada

Ufana nas alturas.

Um homem bonito de sorriso impossível e uma mulher impossível de sorriso bonito

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Belleville Rendez-Vous

ou Les Triplettes de Belleville é um belíssimo (absolutamente genial e encantador) filme de animação canadiano. Está a uns 5 euros na FNAC. Achei, durante os primeiros momentos do filme, que o DVD estava avariado, porque as legendas não funcionavam. Percebi, mais tarde, que não era necessário haver legendas, uma vez que as personagens falavam muito pouco. E espantei-me de morte quando percebi que o máximo que no filme se fala ou, melhor, se canta, é em português. Gosto muito de língua nenhuma.

*Atenção à Josephine Baker e ao Fred Astaire.

Este mundo é cão. E eu que gosto tanto de pessoas.

O Luís Filipe McCann,

cá para mim, deu um murro na menina. Acidentalmente.

Ainda mais popular

Fui a Belas ver as belas e em Belas belas vi ,mas em Belas, dentre as belas, a mais bela eras ti.

*rectificação de um querido leitor, «p'causa da métrica».

Popular

Estavas tu, minha donzela, no alto do teu castelo; quem me dera que me contemplasses como eu te contempelo.

Não tenho disponibilidade para ter um blogue. É por isso que o meu blogue me tem.

Frase de merda

A minha capacidade de raciocínio teórico falha redondamente quando me dou conta de que não consigo analisar factos históricos sem os submeter à luz da contemporaneidade.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

O jogo das profissões (2)

É fascinante o momento em que um criminoso se entrega às autoridades. Bom dia, boa tarde ou boa noite, aqui estou eu, matei um homem, assaltei um banco, façam de mim o melhor que puderem. A reacção sistemática das autoridades, pelo menos no cinema, é a desconfiança. Tem a certeza de que matou uma pessoa? Olhe que você não tem ar de quem tenha assaltado um banco! Não é, dirão, lógico que se confie em alguém que pode ter cometido um crime; e por que razão se acredita em quem, podendo ter cometido um crime, parece não o ter feito? O criminoso que se confessa oferece-se à vontade dos outros embrulhado em verdade e é rejeitado como uma notícia de um jornal conhecido por citar fontes pouco credíveis. Como reage uma fonte oficial, uma autoridade, à solenidade emocionada de uma confissão? Não é preciso vestir fato e gravata nem usar de outras formalidades para se dizer e ser crido quando se diz: «Eu matei um homem.» Nem é necessário dizê-lo com as mãos sujas de sangue para que tenha sentido. Há alguma legitimidade no pensamento daqueles que não acreditam no homem que talvez tenha matado um homem, ou no homem que talvez tenha assaltado um banco. Ele diz que fez uma coisa que só ele sabe se fez. As palavras só valem no dicionário, quando passam de líquido a sólido, de som a registo. A confissão, para as autoridades, é um gás - explosivo e inflamável assim que se queira. A confissão é passado, está num lugar e já não se constrói; só é aviso e criação se alguém confessar: «Matei um homem de hoje a oito dias.» A verdade, essa, é uma manta de retalhos que só vale se for alinhavada com presteza e simplicidade - é de coser, não é de fiar.