terça-feira, 9 de outubro de 2007

Sobre sexo e sobre escrita

Evito sempre escrever e ler sobre sexo, porque o acho um tema secundário e deprimente - prefiro a política internacional. Não penso, no entanto, que tudo aquilo que se escreve sobre sexo seja ineficaz pelo facto de o sexo ser etéreo e inefável. Não, o problema de escrever sobre sexo é que o sexo também se faz quando se escreve sobre ele. E quando nós, comuns mortais ou mortais comuns, escrevemos sobre o sexo, é como se o estivéssemos a fazer mal. Como se houvesse um código e uma convenção para o fazermos na escrita. Como, se não os há na vida? Há um conflito pouco evidente entre o sexo e a escrita: às vezes, fazer sexo não é fazer sexo (pode ser, sei lá, fazer amor, argh!), mas escrever, mesmo sobre sexo, é sempre escrever. E quando se escreve sobre sexo há cuidados higiénicos que se deve ter. Não se deve, por exemplo, cometer erros ortográficos inconfundíveis com a dislexia. Os erros de concordância - em género e número, dependendo das características particulares dos intervenientes - são inadmissíveis. A escolha do vocabulário também deve ser exigentíssima, porque um pénis e uma vagina não dão tanto tesão como um caralho e uma cona e no alfabeto não se fornica, fode-se, de preferência sem indulgência.

Espero, ansiosa e em desespero, pelo papel digital. Só me despedaça que não se possa rasgar.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Post sobre gente ou de como me esqueci de festejar o dia do animal

Teria sempre muito pouco a dizer sobre os animais. Aos oito anos assassinei, de tanta ternura, uma tartaruga chamada Horácio; divertia-me, na escola básica, com um amigo que pisava osgas ao de leve para as ver correr deixando a pele para trás; quis porque quis colocar dois peixes tropicais lutadores num aquário aconchegante; não houve gato que os meus avós acolhessem que eu não tivesse massacrado e ainda me lembro de não ter pena nenhuma de uma cadela que passou lá pelo bairro e foi envenenada pela vizinha do lado - irritava-me que ladrasse dia e noite, mas não fui eu que a matei, ainda não sabia contar até 605.

Há, no entanto, uma coisa que, se não aprecio, me surpreende muito nos animais. É uma coisa espiritual e religiosa. Cá em casa, por exemplo. Há a Bonnie e o Sheik. A Bonnie é uma Serra D'Aires despenteada e com ar de doida, o que até a faz parecer simpática. Vivia com um gato a que chamámos Clyde, que era preto e, por azar, foi atropelado por um carro a poucos metros de casa. O Sheik chegou depois da Bonnie, era o Cocker de um antigo guarda da embaixada da Arábia Saudita. É preto, tem uma coleira encarnada e é completamente maluco. De cada vez que se lhe enche o prato com ração ladra durante 25 minutos e depois come. Empoleira-se em cima de outros cães, como se os quisesse fornicar (que palavra de merda) e já comeu um soutien.

Não ligo nenhuma a nenhum dos dois e, no entanto, eles adoram-me. Não faço nada por eles, a não ser dar-lhes água quando não a têm disponível e mandá-los embora quando me vêm solicitar. Também fiz outra coisa por eles: não permiti que lhes dessem nomes de gente. Os cães não ficam ridículos com nomes de gente, mas as pessoas ficam ridículas com nomes de cães. Logo, se os cães têm nomes de gente e esses nomes de gente são nomes de cães, é meio caminho andado para a gente ser ridícula e, para isso, basta ser gente. Com os cães cá de casa é mesmo assim: não os aprecio, não os respeito, não os deixo entrar no meu quarto. E, no entanto, eles adoram-me. Que ser humano seria capaz de adorar alguém que se está cagando para ele, se não estivesse iludido, platonicamente apaixonado ou cheio de dor de cotovelo?

domingo, 7 de outubro de 2007

«I don't work with a deadly tarantula!»

sábado, 6 de outubro de 2007

Festival Europeu de Observação de Aves

Portugal está a tornar-se um país cada vez mais aborrecido com isto de tentar atrair os ingleses.

É de uma enorme desonestidade intelectual fazer copy/paste para encher chouriços.

A reportagem

«"Uma vez, ele me telefonou e nós conversamos de dez da noite às cinco da manhã", conta o produtor musical Almir Chediak. Existe assunto para sete horas de conversa? Existe, garante Chediak. "Conversar com o João é um presente. Ele fala de música com emoção, conta histórias como ninguém e é muito criativo", elogia.
(...)
João e Almir são amigos há dez anos. Até aí, nada demais. O estranho é que os dois nunca se viram. (Não, não se trata de um erro de revisão: os dois amigos NUNCA se viram mesmo). A amizade foi sendo construída sobre intermináveis telefonemas noite adentro.
(...)
Com o passar do tempo, o amigo telefônico recebeu uma missão de rara importância: trocar as cordas do violão do homem que nesse instrumento, quatro décadas atrás, inventou a célebre batida da Bossa Nova. João acha que somente Chediak, além de Luís Bonfá, é capaz de trocar as cordas com perfeição tal que é possível usar o violão logo em seguida, seja em show ou gravação.
Como João quase não sai de casa e não é chegado a visitas, um emissário ficou encarregado de levar e buscar o violão: Manelzinho, ex-funcionário do apart-hotel onde o cantor morou, hoje transformado em secretário particular.
Quando Manelzinho não podia buscar o violão de cordas recém-trocadas, João pedia a Chediak que fosse até o apart-hotel. Chediak ia e cumpria à risca o ritual: fazia-se anunciar na recepção, subia até a cobertura, dava três batidinhas na porta do apartamento 2909, encostava o violão na parede e ia embora. Dois minutos depois, João Gilberto abria a porta e apanhava o instrumento.
Com o tempo, João passou a entreabrir a porta antes que o amigo fosse embora. Mas limitava-se a esticar o braço para fora e apanhar o violão, sem nunca ver Chediak, que também não o via. A cada vez, João criava uma justificativa: um dia, estava de pijama; no outro, esquecera de fazer a barba.
Um dia, os dois combinaram um jantar, na casa de um amigo em comum, para enfim se conhecerem. João, claro, não apareceu para comer o peixe. Ligou no dia seguinte informando que a caminho do jantar parara num posto de gasolina e o frentista, que estava no seu primeiro dia de trabalho, em vez de botar a água no radiador do Monza, botou no motor. "E o pobre rapaz ainda dizia: ‘Acelera, moço, acelera que é bom’. E eu acelerava", contou João Gilberto, que aproveitou e pediu ajuda para resgatar o veículo literalmente afogado.
Frustrado o encontro, dias depois João telefonou novamente: "Sabe Almir, eu estava pensando: acho que é melhor continuarmos amigos sem nos conhecermos. Para não quebrar o encanto".»

aqui, maravilhoso.

Eu bem vi como aquele empregado da Valentim de Carvalho do Saldanha Residence se riu quando eu lhe dei, para pagar, os dois volumes d'A Guitarra Mágica de Eurico A. Cebolo. E deve ter tido tanta pena de mim que só me registou um dos livros. Ou então, como um deles não tinha preço e a loja está tão desarrumada que não é possível descobrir nada minimamente catalogado, deixou passar. Até o meu pai me disse, quando lhe contei dos livros, que tivesse cuidado com o cheiro. No fundo, tenho pena de não ter começado a responder mais cedo, quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande, que queria ser o João Gilberto. Onde pára o Método Elementar Turuna?

O Apartamento Dourado

Os olhos e as sobrancelhas da Shirley MacLaine (e a maneira como ela baralha as cartas para a canasta), a voz do Jack Lemmon (extraordinariamente bonito, uma espécie de João-Gilberto-empregado-de-escritório), o certeiro e despretensioso Billy Wilder - que me convence, cada vez mais, de que o melhor realizador é aquele que não frequenta o filme -, a inteligência e a graça do argumento de O Apartamento deixaram-me recuperar, em DVD, do desespero que foi ver, na tela, O Capacete Dourado (boa fotografia, más interpretações, maus diálogos, mau argumento), cuja única coisa verdadeiramente boa é uma russa com ar de puta que, para jogar snooker, agarra na bola branca e a coloca, sem pré-aviso, onde bem lhe convém. Afinal, O Apartamento é que é dourado.

Este post merece link, mais pelo bobó do que pelo Wittgenstein.

Escreve-se sobre outros blogues. Já leram este post? Não? Então é favor não espinafrar.

O que é que se escreve quando não se sabe o que escrever?

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Não gosto do positivismo, faz-me lembrar os anúncios da Colgate.

Na algibeira rota de qualquer mau estudante de ciências sociais

Queres que te Kant ou que te Comte?

Dizia Kant ao seu discípulo

Não te Descartes.

Da obstinação como condição a priori do nosso desentendimento

Insisto, logo penso.

Da obstinação como condição a priori do nosso entendimento

Penso, logo insisto.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Dúvida insistencial

De que substância é feito o acidente?

Uma má razão para não diminuir os gastos no orçamento familiar

O pacote clássico da TV-Cabo não tem o Discovery Channel nem o National Geographic Channel e nós cá em casa não passamos sem dobragens em português do Brasil. É assim desde que acabou a SIC Comédia.

Coisa que poderia ter ouvido de um ou outro velhote num fim de tarde no Arco do Cego

Tem um blogue? Não seja e-mundo.