sábado, 13 de outubro de 2007

Breve maltratado das coisas que não existem [34]

Não concordo com a atribuição do prémio Nobel da Paz a alguém que se preocupa com as alterações climáticas e todos os problemas que elas provocam no Planeta. A ausência de riscos ambientais não é paz, é sossego.

azinheira spoken world

No irmão lúcia há hoje uma espécie de gala que conta com a participação exacta de mais ou menos 13 bloggers. Subscrevo um desses bloggers quando diz que são 12 boas razões, enfim, mais ou menos 12, para aparecer por lá. Até agora, quase tudo me pareceu bastante além do muito bom. Acabo de ouvir no telejornal que estiveram hoje, em Fátima, 300 mil fiéis. A respeito disto só vos digo uma coisa: que se fodam os intelectuais.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Este blogue diz "blogue". Um "blog" não sei o que é; não sei o que é um "blog". Só se for to write posts.

Diário das Descobertas - 12 de Outubro de 2007

Abraão Zacuto apaixonou-se por uma sefardita. Só pensava em beijar-lhe os astrolábios.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Coisas que foram parar à caixa de spam do autor do Abrupto













A generosidade está, desde a manhã de ontem, à beira de um canteiro da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (e o sapato esquerdo tem um bilhete de metro dentro).

Não dá conta do seu cérebro? Vá buscar um novo.

No entanto,

piaçá | s. m.

piaçá


s. m., Bot.,
nome de duas palmeiras que produzem fibras empregadas no fabrico de vassouras;
vassoura de piaçaba.

Números

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Os números, às vezes, também são palavras.

Ouço as pessoas muito inteligentes falar sobre matemática e associo, sem pestanejar, o conhecimento da matemática a um conhecimento metafísico superior. Não sei se isto me vem daqueles dizeres que se liam à entrada da academia de Platão («não entre aqui quem não for geómetra» ou coisa que o valha), se me vem da injustiça e impaciência com que me trataram, quase invariavelmente, todas as professoras de matemática que tive. A associação histórica e comprovada entre a matemática e a filosofia fascina-me de tal forma que, seguindo à risca Platão e os pitagóricos, me acho incapaz de perceber alguma coisa de filosofia, já que não entendo nada de matemática. Já devo ter dito uma vez, e se não disse pensei, que a filosofia não se entende, sente-se. É mentira. A gente só sente o que entende e só entende o que não consegue explicar por palavras, daí a beleza dos números.

Matemática

Sobre sexo, sobre escrita e sobre pensamento

Há, outrossim, a relação da escrita com o pensamento. É uma relação que eu pressinto inevitável, fatal. Ainda não encontrei, apesar dos esforços e da aproximação iminente de muitos dos meus observados a esse ideal estratégico, alguém que escrevesse como se vivesse. Mas encontrei quem escrevesse como se pensasse e quem vivesse como se pensasse, o que invalida completamente o último período deste texto. Se associarmos a inevitabilidade da nossa vida à inevitabilidade do casamento da Dona Escrita com o Senhor Pensamento, muito mais invalida e muito mais vai invalidar. Há pensamentos interessantes e desinteressantes sobre sexo, como há pensamentos interessantes e desinteressantes sobre tudo. Em princípio, gosta-se mais dos pensamentos interessantes. Haverá, talvez, quem nunca tenha pensado ser possível que algo desinteressante pudesse ser ainda considerado um pensamento. E aqui, onde é que está o sexo? É fácil: se o desinteressante não é pensamento, é bem capaz de ser vida. E a vida é mais sexo do que a escrita, isto é, a vida contém, como se de um recipiente se tratasse, a possibilidade indelével do sexo bem feito. Porquê a possibilidade? Porque a vida também pode ser desinteressante e, quando assim é, o sexo, mesmo desinteressante, ganha mais interesse.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Sobre sexo e sobre escrita

Evito sempre escrever e ler sobre sexo, porque o acho um tema secundário e deprimente - prefiro a política internacional. Não penso, no entanto, que tudo aquilo que se escreve sobre sexo seja ineficaz pelo facto de o sexo ser etéreo e inefável. Não, o problema de escrever sobre sexo é que o sexo também se faz quando se escreve sobre ele. E quando nós, comuns mortais ou mortais comuns, escrevemos sobre o sexo, é como se o estivéssemos a fazer mal. Como se houvesse um código e uma convenção para o fazermos na escrita. Como, se não os há na vida? Há um conflito pouco evidente entre o sexo e a escrita: às vezes, fazer sexo não é fazer sexo (pode ser, sei lá, fazer amor, argh!), mas escrever, mesmo sobre sexo, é sempre escrever. E quando se escreve sobre sexo há cuidados higiénicos que se deve ter. Não se deve, por exemplo, cometer erros ortográficos inconfundíveis com a dislexia. Os erros de concordância - em género e número, dependendo das características particulares dos intervenientes - são inadmissíveis. A escolha do vocabulário também deve ser exigentíssima, porque um pénis e uma vagina não dão tanto tesão como um caralho e uma cona e no alfabeto não se fornica, fode-se, de preferência sem indulgência.

Espero, ansiosa e em desespero, pelo papel digital. Só me despedaça que não se possa rasgar.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Post sobre gente ou de como me esqueci de festejar o dia do animal

Teria sempre muito pouco a dizer sobre os animais. Aos oito anos assassinei, de tanta ternura, uma tartaruga chamada Horácio; divertia-me, na escola básica, com um amigo que pisava osgas ao de leve para as ver correr deixando a pele para trás; quis porque quis colocar dois peixes tropicais lutadores num aquário aconchegante; não houve gato que os meus avós acolhessem que eu não tivesse massacrado e ainda me lembro de não ter pena nenhuma de uma cadela que passou lá pelo bairro e foi envenenada pela vizinha do lado - irritava-me que ladrasse dia e noite, mas não fui eu que a matei, ainda não sabia contar até 605.

Há, no entanto, uma coisa que, se não aprecio, me surpreende muito nos animais. É uma coisa espiritual e religiosa. Cá em casa, por exemplo. Há a Bonnie e o Sheik. A Bonnie é uma Serra D'Aires despenteada e com ar de doida, o que até a faz parecer simpática. Vivia com um gato a que chamámos Clyde, que era preto e, por azar, foi atropelado por um carro a poucos metros de casa. O Sheik chegou depois da Bonnie, era o Cocker de um antigo guarda da embaixada da Arábia Saudita. É preto, tem uma coleira encarnada e é completamente maluco. De cada vez que se lhe enche o prato com ração ladra durante 25 minutos e depois come. Empoleira-se em cima de outros cães, como se os quisesse fornicar (que palavra de merda) e já comeu um soutien.

Não ligo nenhuma a nenhum dos dois e, no entanto, eles adoram-me. Não faço nada por eles, a não ser dar-lhes água quando não a têm disponível e mandá-los embora quando me vêm solicitar. Também fiz outra coisa por eles: não permiti que lhes dessem nomes de gente. Os cães não ficam ridículos com nomes de gente, mas as pessoas ficam ridículas com nomes de cães. Logo, se os cães têm nomes de gente e esses nomes de gente são nomes de cães, é meio caminho andado para a gente ser ridícula e, para isso, basta ser gente. Com os cães cá de casa é mesmo assim: não os aprecio, não os respeito, não os deixo entrar no meu quarto. E, no entanto, eles adoram-me. Que ser humano seria capaz de adorar alguém que se está cagando para ele, se não estivesse iludido, platonicamente apaixonado ou cheio de dor de cotovelo?

domingo, 7 de outubro de 2007

«I don't work with a deadly tarantula!»

sábado, 6 de outubro de 2007

Festival Europeu de Observação de Aves

Portugal está a tornar-se um país cada vez mais aborrecido com isto de tentar atrair os ingleses.

É de uma enorme desonestidade intelectual fazer copy/paste para encher chouriços.

A reportagem

«"Uma vez, ele me telefonou e nós conversamos de dez da noite às cinco da manhã", conta o produtor musical Almir Chediak. Existe assunto para sete horas de conversa? Existe, garante Chediak. "Conversar com o João é um presente. Ele fala de música com emoção, conta histórias como ninguém e é muito criativo", elogia.
(...)
João e Almir são amigos há dez anos. Até aí, nada demais. O estranho é que os dois nunca se viram. (Não, não se trata de um erro de revisão: os dois amigos NUNCA se viram mesmo). A amizade foi sendo construída sobre intermináveis telefonemas noite adentro.
(...)
Com o passar do tempo, o amigo telefônico recebeu uma missão de rara importância: trocar as cordas do violão do homem que nesse instrumento, quatro décadas atrás, inventou a célebre batida da Bossa Nova. João acha que somente Chediak, além de Luís Bonfá, é capaz de trocar as cordas com perfeição tal que é possível usar o violão logo em seguida, seja em show ou gravação.
Como João quase não sai de casa e não é chegado a visitas, um emissário ficou encarregado de levar e buscar o violão: Manelzinho, ex-funcionário do apart-hotel onde o cantor morou, hoje transformado em secretário particular.
Quando Manelzinho não podia buscar o violão de cordas recém-trocadas, João pedia a Chediak que fosse até o apart-hotel. Chediak ia e cumpria à risca o ritual: fazia-se anunciar na recepção, subia até a cobertura, dava três batidinhas na porta do apartamento 2909, encostava o violão na parede e ia embora. Dois minutos depois, João Gilberto abria a porta e apanhava o instrumento.
Com o tempo, João passou a entreabrir a porta antes que o amigo fosse embora. Mas limitava-se a esticar o braço para fora e apanhar o violão, sem nunca ver Chediak, que também não o via. A cada vez, João criava uma justificativa: um dia, estava de pijama; no outro, esquecera de fazer a barba.
Um dia, os dois combinaram um jantar, na casa de um amigo em comum, para enfim se conhecerem. João, claro, não apareceu para comer o peixe. Ligou no dia seguinte informando que a caminho do jantar parara num posto de gasolina e o frentista, que estava no seu primeiro dia de trabalho, em vez de botar a água no radiador do Monza, botou no motor. "E o pobre rapaz ainda dizia: ‘Acelera, moço, acelera que é bom’. E eu acelerava", contou João Gilberto, que aproveitou e pediu ajuda para resgatar o veículo literalmente afogado.
Frustrado o encontro, dias depois João telefonou novamente: "Sabe Almir, eu estava pensando: acho que é melhor continuarmos amigos sem nos conhecermos. Para não quebrar o encanto".»

aqui, maravilhoso.

Eu bem vi como aquele empregado da Valentim de Carvalho do Saldanha Residence se riu quando eu lhe dei, para pagar, os dois volumes d'A Guitarra Mágica de Eurico A. Cebolo. E deve ter tido tanta pena de mim que só me registou um dos livros. Ou então, como um deles não tinha preço e a loja está tão desarrumada que não é possível descobrir nada minimamente catalogado, deixou passar. Até o meu pai me disse, quando lhe contei dos livros, que tivesse cuidado com o cheiro. No fundo, tenho pena de não ter começado a responder mais cedo, quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande, que queria ser o João Gilberto. Onde pára o Método Elementar Turuna?

O Apartamento Dourado

Os olhos e as sobrancelhas da Shirley MacLaine (e a maneira como ela baralha as cartas para a canasta), a voz do Jack Lemmon (extraordinariamente bonito, uma espécie de João-Gilberto-empregado-de-escritório), o certeiro e despretensioso Billy Wilder - que me convence, cada vez mais, de que o melhor realizador é aquele que não frequenta o filme -, a inteligência e a graça do argumento de O Apartamento deixaram-me recuperar, em DVD, do desespero que foi ver, na tela, O Capacete Dourado (boa fotografia, más interpretações, maus diálogos, mau argumento), cuja única coisa verdadeiramente boa é uma russa com ar de puta que, para jogar snooker, agarra na bola branca e a coloca, sem pré-aviso, onde bem lhe convém. Afinal, O Apartamento é que é dourado.

Este post merece link, mais pelo bobó do que pelo Wittgenstein.

Escreve-se sobre outros blogues. Já leram este post? Não? Então é favor não espinafrar.

O que é que se escreve quando não se sabe o que escrever?

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Não gosto do positivismo, faz-me lembrar os anúncios da Colgate.

Na algibeira rota de qualquer mau estudante de ciências sociais

Queres que te Kant ou que te Comte?

Dizia Kant ao seu discípulo

Não te Descartes.

Da obstinação como condição a priori do nosso desentendimento

Insisto, logo penso.

Da obstinação como condição a priori do nosso entendimento

Penso, logo insisto.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Dúvida insistencial

De que substância é feito o acidente?

Uma má razão para não diminuir os gastos no orçamento familiar

O pacote clássico da TV-Cabo não tem o Discovery Channel nem o National Geographic Channel e nós cá em casa não passamos sem dobragens em português do Brasil. É assim desde que acabou a SIC Comédia.

Coisa que poderia ter ouvido de um ou outro velhote num fim de tarde no Arco do Cego

Tem um blogue? Não seja e-mundo.

Manchete do próximo Avante!, desta vez com alguma razão

Trazer trabalho para casa está no 1º lugar do ranking das coisas mais imundas do mundo.

A maneira angular como algumas letras de músicas encaixam nas nossas vidas é só mais uma prova da omnisciência e da omnipresença de um ou outro Grande Sacana.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Esther Williams e a impermeabilidade

Gosto de gente com escamas.

MacGuffin deste blogue

Breve maltratado das coisas que não existem [33]

Ninguém que não veja calor no frio sabe quebrar o gelo. Respira só, eu gosto do teu silêncio.

Eu sei que aprendia mais se falasse com as pessoas. Mas eu gosto é de que sejam as pessoas a falar comigo.

901

Começar a falar do número dos posts que escrevi é uma manifestação de vergonha, não é uma manifestação de orgulho. Se eu não conhecesse casos piores, gabava-me de conseguir escrever muito sem dizer nada. Wittgenstein acha que nos devemos calar sobre aquilo de que não podemos falar; é por isso que eu tenho um blogue. Por saber que não me imponho no silêncio de ninguém e também por saber que, quando muito, só me imponho no ruído dos que, como eu, não sabem estar calados.

Post novecentos de quem nunca deu uma para a caixa

Há uma vantagem - a única, se calhar - em tratar, ao primeiro contacto, os nossos semelhantes com preconceito e desconfiança. Depois disso, tudo o que vier à rede é lucro.

Como fazer o cubo de Rubik em 5 passos

1. Atire-o contra aquela parede de pedra pela qual passa todos os dias, sempre que vai a caminho da estação dos comboios.
2. Recolha os pedaços e o centro do cubo onde encaixam os cubinhos que o formam.
3. Separe as peças por cores.
4. Escolha uma face para cada cor e comece a montar as peças. Não se esqueça de encaixar bem e de ir limpando com a camisola tudo aquilo que ficou sujo de cal.
5. Guarde em casa e diga aos amigos que o resolveu.

Ainda não descobri o meu método anticonceptual ideal.

Breve maltratado das coisas que não existem [32]

Coito interrompido. O coito que é coito tem sempre razão e fala sempre mais alto do que o resto, ou seja, é muito difícil de interromper.

Se eu fosse repórter não ia para o meio dos conflitos armados. Escrever sobre a guerra já é dar às armas o nosso consentimento; ir lá é só pra quem já faz patuscadas com a ideia de morte. Aquiescei, irmãos.

Não gosto de chegar ao fim do dia e descobrir que não fiz ninguém feliz. No fundo, do que eu não gosto é de viver.

Neste regresso às aulas, não perca uma oportunidade (nem duas, nem três) para desiludir os seus leitores.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Tempo de qualidade

É aquele que não se passa. É o tempo que se inventa, o que se fabrica. É o tempo que não se conforma com o tempo, o tempo que não quer ser tempo; o tempo que quer ser vida. Há quanto tempo não faz tempo? Espero que me tenha respondido com vergonha e rubor.

Sarilho de gravata

Honestidade com pretas

O sarilho é um homem que é jeitoso e alto, tão alto.

Jazz com Pretas [12]

Quem me dera ser do tempo em que as mulheres ficavam elegantes de fato de banho.

Se eu pudesse escolher? Seria uma sereia.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Uma mulher egoísta

não tem satisfações a dar.

Amizade

- Então, tudo bem?
- Não.

Conversa

Vamos primeiro ao que não interessa.

Cama

Foi a conversa mais produtiva que não tivemos.

Police à paisana

Ainda não vi um comentário negativo ao concerto dos The Police. Parece que vou ter de ser eu a fazê-lo. Fui, confesso, muito desconfiada para o Estádio Nacional. Sting consegue ser, em palco, um músico muito bom mas também muito chato - provou-o no Rock in Rio onde, pela primeira vez na minha vida, estive capaz de adormecer em pé, graças a uma versão de Roxanne que durou, à vontadinha, mais de 20 minutos. Várias coisas correram mal. Primeiro, os Fiction Plane. Sabia-se que Fiction Plane é a banda do filho de Sting. Não era preciso que se soubesse. O rapaz não o disse ao público nem o cantou num refrão, mas mesmo que estivesse a tocar todo encardido no metro de Moscovo, qualquer pessoa reparava que, em casa daquele rapaz, se ouve muito Sting. Apesar de não ter grande voz e de não conseguir evitar imitar o estilo do pai, pareceu-me muito bom baixista. Para alguma coisa há-de servir a técnica. Também não acho que seja bom sintoma de amizade paternal levar um filho para tocar na nossa própria digressão: sujeita a criança (de pelo menos 25 anos, no caso) a receber comentários deste género: «Vai chamar o papá!», sempre que acaba uma canção. Depois, nunca tive tanto frio na minha vida, mas isso não é culpa do Sting e nem sequer de S. Pedro, mas da minha t-shirt e do meu casaquinho de malha. Adiante, pois. Não me agrada que uma banda com grandes canções como The Police faça versões dos seus próprios temas. Uma coisa é uma interpretação ao vivo de um tema gravado - é sempre diferente e, para mim, sempre potencialmente interessante. Outra coisa é uma interpretação ao vivo soar como uma versão (uma cover, como queiram). O que eu ouvi ontem à noite, no Estádio Nacional, não foi uma grande banda a tocar os seus temas. O que eu ouvi foram as versões de Sting das músicas dos The Police - e não deve haver muita gente por aí que tenha ouvido tanto e tão obsessivamente Sting e The Police como eu. Sting tem uma voz especialíssima e, façamos justiça, muito bem conservada. É, provavelmente, o único louro giro que conheço, um baixista fabuloso e um criador inspirado e original, mas consegue monopolizar um espectáculo e exigir, com tudo aquilo que sabe, a convergência das atenções para a sua pessoa - apesar de ter referido várias vezes o nome dos colegas e de ter pedido, para eles, a atenção do público. Stewart Copeland continua um tipo divertido e um baterista brilhante e conseguiu, muitas vezes, trocar o passo para acompanhar Sting nos seus fervores monopolizantes. Andy Summers pareceu-me ter evoluído como guitarrista - comparo com os antigos concertos da banda que cheguei a ver no VH1. Os Police estiveram à paisana, com um vocalista que parecia já não se lembrar das músicas que ele mesmo inventou: Don't Stand So Close to Me, mesmo se considerarmos a deprimente versão de 86, esteve incantável. Nem a referência a Nabokov me animou. Mesmo em Every Little Thing She Does is Magic, o meu tema favorito, não houve magia. No entanto, nada disto deve ser levado a sério, pois parece que só eu é que não gostei - eu e a pessoa que arrastei para me fazer companhia. Mas o que é mesmo importante é que se salvem os índios e as florestas tropicais.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Não há nada melhor do que uma noite mal dormida. Uma pessoa acorda capaz de tudo, de dizer tudo, mesmo que não acredite no que diz, mesmo que depois se arrependa. Não confio nas pessoas que não ficam transtornadas pela falta de horas de sono. Não confio nas pessoas que não se transtornam, que evitam transtornar-se. Nem confio nas pessoas que não se arrependem. Estão demasiado conscientes da morte para viver e a consciência da morte é uma má consciência. Uma pessoa que não se esquece dos seus limites pelo menos duas vezes por dia não tem caminho por onde seguir: já é uma alma penada. É possível habituarmo-nos à ideia da morte dos outros? Talvez. E à da nossa? É, mas só até morrermos. Tenho tanto sono.

Procura-se vivo ou vivo

Quem quer casar com a repórter?














Disponível aqui para download completo e legal.

domingo, 23 de setembro de 2007

Ode respeitosa à unilateralidade do pensamento

Acho, presunçosamente, todo este texto compreensível. Para mim - não resisto, por medo de represálias, a alguma subjectividade cartesiana - escrever num blogue é uma libertação imediata. Aqui, nada parece, à partida, impossível de dizer. Decido que vou escrever sobre uma coisa e, se não desistir antes, escrevo. Desistir é também uma libertação; apagar, deixar um post nos rascunhos, à espera de não ser publicado, só porque se decidiu assim. No fim, mesmo que se escreva, fica tudo por dizer, mas isso é só porque achar que se pode dizer alguma coisa também é uma presunção. O que interessa na escrita de um blogue, creio, é a fé. A fé na nossa compreensibilidade e na compreensão do outro. O desejo de sermos aceites, ao mesmo tempo, como somos e como gostaríamos de ser. Porque o que gostaríamos de ser e o que não gostaríamos de ser também é o que somos. Aliás, talvez o que somos seja sobretudo isso. Já achei embaraçoso que pessoas que me conhecem em vez ou para além da blogosfera lessem o meu blogue. Censuro-me, às vezes por mim, outras vezes por elas. Mas não deixo de escrever, muitas vezes sem me censurar. Como se fosse escrita, como se não escrevesse. O vocabulário do pensamento não tem muito que se lhe diga: é um recurso sempre disponível, uma farmácia de serviço. Acho - e aqui reside grande parte da minha presunção - que escrever num blogue, em qualquer blogue (mesmo num blogue secreto ou num diário que se descobre depois de o autor ter morrido), é um acto de coragem. Um blogue, para quem se perde e naufraga nas palavras que encontra ou que o encontram, não é muito diferente de uma mensagem na garrafa. No mar, são precisas duas fés: uma, para que alguém receba a nossa mensagem; outra, para que quem a receba a consiga entender. Na blogosfera, a probabilidade de quem nos recebe falar a nossa língua é grande, mas isso não é - e às vezes é bom que não seja - uma vantagem para a comunicação.

Avellaneda e eu

Não me beijou. Eu também não tomei a iniciativa. O rosto dela estava tenso, endurecido. De repente, sem aviso prévio, todos os seus recursos pareceram afrouxar-se, como se houvesse renunciado a uma máscara insuportável e, assim como estava, olhando para cima, com a nuca encostada à porta, começou a chorar. E não se tratava do famoso choro de felicidade. Era aquele choro que sobrevém quando nos sentimos opacamente infelizes. Quando alguém se sente brilhantemente infeliz, então sim, vale a pena chorar com acompanhamento de tremores, convulsões e, sobretudo, com público. Porém, quando para além de infelizes nos sentimos opacos, quando já não nos resta lugar para a rebeldia, o sacrifício ou o heroísmo, então há que chorar sem ruído porque ninguém nos pode ajudar e porque temos consciência de que isso passa e que por fim retomaremos o equilíbrio, a normalidade. O choro dela era assim. Nesta matéria ninguém me engana. «Posso ajudar-te?», disse eu, contudo, «posso fazer alguma coisa para remediar isto?». Perguntas vãs. Descobri ainda outra, bem no fundo das minhas dúvidas: «O que é que se passa? Queres que nos casemos?». Mas a nuvem estava longe. «Não», disse. «Choro porque é tudo uma pena.» E é tão verdade. É tudo uma pena; que não tivesse havido apagão, que eu tenha cinquenta anos, que ela seja boa rapariga, que os meus três filhos, que o seu antigo namorado, que o apartamento... Tirei o lenço e limpei-lhe os olhos. «Já passou tudo?», perguntei. «Sim, passou tudo.» Era mentira, mas ambos compreendemos que fazia bem em mentir. Com o olhar ainda convalescente, acrescentou: «Não julgues que sou sempre tão tonta.» Não julgues, disse; tenho a certeza de que disse não julgues. Tratou-me por tu, então.
A Trégua, Mario Benedetti, 2007, Cavalo de Ferro

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Missa cantada

Ufana nas alturas.

Um homem bonito de sorriso impossível e uma mulher impossível de sorriso bonito

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Belleville Rendez-Vous

ou Les Triplettes de Belleville é um belíssimo (absolutamente genial e encantador) filme de animação canadiano. Está a uns 5 euros na FNAC. Achei, durante os primeiros momentos do filme, que o DVD estava avariado, porque as legendas não funcionavam. Percebi, mais tarde, que não era necessário haver legendas, uma vez que as personagens falavam muito pouco. E espantei-me de morte quando percebi que o máximo que no filme se fala ou, melhor, se canta, é em português. Gosto muito de língua nenhuma.

*Atenção à Josephine Baker e ao Fred Astaire.

Este mundo é cão. E eu que gosto tanto de pessoas.

O Luís Filipe McCann,

cá para mim, deu um murro na menina. Acidentalmente.

Ainda mais popular

Fui a Belas ver as belas e em Belas belas vi ,mas em Belas, dentre as belas, a mais bela eras ti.

*rectificação de um querido leitor, «p'causa da métrica».

Popular

Estavas tu, minha donzela, no alto do teu castelo; quem me dera que me contemplasses como eu te contempelo.

Não tenho disponibilidade para ter um blogue. É por isso que o meu blogue me tem.

Frase de merda

A minha capacidade de raciocínio teórico falha redondamente quando me dou conta de que não consigo analisar factos históricos sem os submeter à luz da contemporaneidade.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

O jogo das profissões (2)

É fascinante o momento em que um criminoso se entrega às autoridades. Bom dia, boa tarde ou boa noite, aqui estou eu, matei um homem, assaltei um banco, façam de mim o melhor que puderem. A reacção sistemática das autoridades, pelo menos no cinema, é a desconfiança. Tem a certeza de que matou uma pessoa? Olhe que você não tem ar de quem tenha assaltado um banco! Não é, dirão, lógico que se confie em alguém que pode ter cometido um crime; e por que razão se acredita em quem, podendo ter cometido um crime, parece não o ter feito? O criminoso que se confessa oferece-se à vontade dos outros embrulhado em verdade e é rejeitado como uma notícia de um jornal conhecido por citar fontes pouco credíveis. Como reage uma fonte oficial, uma autoridade, à solenidade emocionada de uma confissão? Não é preciso vestir fato e gravata nem usar de outras formalidades para se dizer e ser crido quando se diz: «Eu matei um homem.» Nem é necessário dizê-lo com as mãos sujas de sangue para que tenha sentido. Há alguma legitimidade no pensamento daqueles que não acreditam no homem que talvez tenha matado um homem, ou no homem que talvez tenha assaltado um banco. Ele diz que fez uma coisa que só ele sabe se fez. As palavras só valem no dicionário, quando passam de líquido a sólido, de som a registo. A confissão, para as autoridades, é um gás - explosivo e inflamável assim que se queira. A confissão é passado, está num lugar e já não se constrói; só é aviso e criação se alguém confessar: «Matei um homem de hoje a oito dias.» A verdade, essa, é uma manta de retalhos que só vale se for alinhavada com presteza e simplicidade - é de coser, não é de fiar.

O jogo das profissões

Uma mulher prevenida tem sempre um fiel de armazém.

Só eu é que acho que acho que isto não é normal vírgula asneira começada por F?

«O ex-porta-voz do Governo britânico, Clarence Mitchell, acaba de anunciar que se demitiu das suas funções e será o novo assessor de imprensa do casal McCann.»

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Hoje passei por uma pastelaria chamada Simbiose. Ou muito me engano, ou os brioches estavam no forno.

domingo, 16 de setembro de 2007

Pela estrada de tijolos amarelos

Já escrevi, decerto, sobre o fascínio que sinto pela Technicolor. É isso mesmo: um fascínio tão grande que, por mais que tente, nunca hei-de conseguir escrever sobre ela mais do que duas ou três palavras.

Chinatown
















Sou contra a criação de uma Chinatown em Lisboa. Sem o Jack Nicholson, não teria piada nenhuma.

48 horas depois - quase em Canto de Ossanha

Deus é um amigo porque se reconhece com facilidade num amigo. O único senão é saber como, na verdade, se reconhece um amigo. O querido leitor, se me diz que sabe, não sabe. Se acha que sabe, talvez saiba. Se tem um amigo e é só pelo nome que o reconhece, então sabe.

encerramento oficial do assunto divino, pelo menos durante as próximas 48 horas

Há pessoas que, como Deus, se querem revelar e não conseguem. Pessoas que, abrindo as janelas da vida toda, ficam sempre atrás da cortina, do nevoeiro. Pessoas que, como Deus, também precisam de pessoas. Deus é um amigo, não é um recurso. O recurso, o primeiro, o último e o intermédio, são as pessoas.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Aconchego

Eu cá sou dos Fonsecas
Eu cá sou dos Madureiras
De ferro e puro sangue
O que me corre nas veias
Nasci da paixão temporal
Do parto dos vendavais
Cresço no fragor da luta
Numa força bruta
P'ra além dos mortais
Mas tenho muitas saudades
Certas penas e desejos
E aquela louca ansiedade
Como um pecado
Meu amor se te não vejo
Olha o fado
Ora é tão vingativo
Ora é tão paciente
Amanhã é comedor
Hoje abstinente
Mentiroso, alcoviteiro
Doce e verdadeiro
Uma vez conquistador
Outra vez vencido
Amanhã é navegante
Hoje é desvalido
Sensual, aventureiro
Doido e bandoleiro

Somos capitães
Somos Albuquerques
Nós somos leões
Os lobos do mar
De olhos pregados nos céus
Em cima dos chapitéus

Somos capitães
Somos Albuquerques
Nós somos leões
Dos lobos dos mares
E na verdade o que vos dói
É que não queremos ser heróis

Olha o Fado,
Fausto, Por este Rio Acima - a resposta mais pertinente do mundo.


Diz que é uma espécie de indecência.

Isto.

A Deus

Hoje, nos meus sonhos, vou estar na casa de Deus. Imagino-Te, ó Grande Sacana, num apartamento confortável e luminoso, com vista para o Tejo e para o Alto de S. João. Divertes-Te. É preciso tirar os sapatos para entrar em Tua casa. Tens uma grande sala escondida, do género de um escritoriozeco, com umas gajas giras e morenas, sentadas em secretárias arrumadas. Dactilografam com velocidade epístolas e missivas para os apóstolos em Macintoshs de última geração, branquinhos como a Tua camisa e o Teu sofá de esquina. Suponho que, no meu sonho, me vou zangar conTigo porque não Tens caixa do correio. Passas a vida a escrever aos outros e ninguém Te pode alcançar. Os génios que fulminaste - os das músicas que não esqueço, por exemplo - são meros apartados. Escrevi-Te uma carta muito bonita com a minha caneta da sorte. Espero que, no caso de não a leres, seja feita a minha vontade. É verdade quando me dizes que nunca Te falo senão para pedir favores, mas estou farta de dobrar circulares.

to ever be - to ever be

Gosto tanto de quem me faz chorar.

palavra de incentivo aos utentes da unidade de terapêutica cardiorrespiratória

É possível amar menos do que súbita e irracionalmente. Menos do que na ordem do ataque cardíaco, do infinito e dos números primos que ainda não foram descobertos. Menos do que muito. Há os amores terapêuticos, os amores poucochinhos, os que nos mantêm vivos e conversáveis, os que duram e duram, e duram e duram. Os amores de fotografia de carteira - olhe aqui, está a ver o meu repolho? Não é lindo? -, que valem a pena toda. Apetece-lhe um amor desses? Não? Então sente-se na cadeira da sala de espera. Não rasgue ainda este papel. Respire fundo, inspire tudo. Depois grite. É verdade que pagou uma pipa de massa, mas nós não temos solução. Nem Ele.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Tratemo-nos por tu ou da ousadia por alíneas

a) Miss Woody, eu não devia dizer-te isto, mas digo: acho, e tenho pena, que me vês com muito preconceito - mais humano do que intelectual, sem ter nada que ver com os trens regionais ou com a linha de Sintra. Acredito, até certo ponto (refiro-me, sobretudo, ao de ebulição), que as palavras é que nos escolhem e, por isso, não te censuro por teres sugerido que, num divã, se pode dissecar mais do que se trata. Como qualquer pessoa que vive muito e estuda pouco ou, se preferires, como qualquer pessoa que gosta muito de pessoas, não sei escrever sem o auxílio dos outros. Se conseguir, serei justa: neste aspecto tão insignificante da minha vida, tu, a Allen e a Ana de Amsterdam têm sido autênticas missionárias. Como foi Eduardo Prado Coelho, muito embora eu pudesse ter sido bastante mais simpática com ele do que sou convosco.

[Breve interrupção para apanhar a roupa da corda. Chiça, como troveja!]

b) Não acertaste totalmente nos intentos do meu tricô - eu bem sei que as agulhas de tricô não picam nada, mas são essas que costumo usar. O ténis não é, para mim, motivo de inspiração. No entanto, o teu post sobre o ténis foi inspirador, apesar de me cheirar que, no teu blogue e na verdade, ninguém consegue ser tão imprevisível como o Woody Allen de Matchpoint. Nem todos os tenistas que conheci eram betos mas, para mim, naquele tempo em que joguei ténis, eram todos betos, todos insuportáveis. Insuportáveis como foram os meus chefes dos escuteiros. Como foi o padre, que não sabia que eu ia comungar todos os domingos sem ser baptizada. E por aí em diante. Desde que ando na terapia, gosto deles todos. O tom provocatório dos meus posts é todo de propósito. Por algum motivo que transcende os limites da razão e da higiene (não os da vida), o terapia metatísica não tem livro de reclamações e nem sequer é democrático. Gosto dele por isso.

c) Já há, na blogosfera, muita gente - demasiada - a explorar as qualidades do outro. Assim, Miss Woody, não é possível melhorar. Acho o discurso do reconhecimento do mérito e do talento muito mais catalogante e universal do que o do veneno e do defeito. E aqui podes bater que é idiossincrasia: é também muito, mas muito mais divertido! Gosto do lento-rápido, do rápido-lento e de tudo o que é agridoce. E os defeitos não se atribuem; estão, quase sempre, mais à vista do que as qualidades e, no preconceito recorrente, escolhe-se sempre a coisa que parece estar escondida. Louvadas sejam as aulas do Prof. Abel Barros Baptista - lamento, mas não virá link para o blogue Bomba Inteligente, só porque não me apetece - sobre Machado de Assis. Sabias que «O leitor atento, verdadeiramente ruminante, tem quatro estômagos no cérebro, e por ele faz passar e repassar os atos e os fatos, até que deduza a verdade que estava, ou parecia estar escondida.»?

d) Voltemos à linha de Sintra: então as pessoas não são culpadas da própria vida? Ai esse existencialismo, tão mal estudado! Morre-se bem numa passagem de nível, Miss Woody, e há, por isso, que responsabilizar quem deve ser responsabilizado. Se o heterossuicídio estivesse disseminado na nossa cultura – consta que um cantor conhecido da nossa praça suicidou a mulher; ela com um revólver apontado à própria cabeça, a dizer que se matava e ele, airoso, só lhe disse «Então mata-te!» e é claro que ela se matou - eu nunca seria julgada por tal acto. E se a insignificância matasse – oxalá não mate mesmo, pelo menos à fome – eu já não estava cá. Ninguém resiste muito tempo à adolescência e, por isso mesmo, há quem se fique pela infância que, infelizmente, só tem cama que chegue para uma ou outra sesta.

e) Transfiro-te o benefício da dúvida? Se me provares, com astúcia e brevidade, que não és sempre chata e que tens sentido de humor, frito-te uma alheira, com batatas, migas e ovo a cavalo. Palavra de honra.

f) Se te sentires ofendida, risca a vermelho a alínea anterior. Nem destoa da crucificação.

g) Fausto?, para mim? Bordalo Dias, ainda por cima? Risca o post inteiro e, se te apetecer, leva daqui um abraço.

h) Com um único verso para levar a sério.

controlo logístico de precisão vocabular

Eu disse consultório, não disse manicómio, isto é, não me faça pior do que sou, que é uma injustiça para mim e uma canseira para si. E, quanto ao nome, a bola está quase do seu lado. O senão - único e, confesso, venenoso o bastante para acabar com metade da população de Hong Kong - é que eu nunca lhe disse, Miss Woody, que me podia tratar por Tatiana. Mas pode, é claro - se bem que, mesmo que não pudesse, já o tinha feito - e apesar de eu preferir a Filigraana, nenhuma das duas é uma grande obra de ourivesaria.

Só para quem não vai nada bem

Azia

É por estas e por outras que eu já lhe prometi duas das minhas irmãs mais novas.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Carta da Tolerância - sem a bílis de John Locke

Isto de ter um blogue é muito divertido. Uma pessoa escreve a pensar que está só a escrever e, afinal, está a sentar-se na marquesa e a preparar o corpo (ombro esquerdo para baixo, braço direito mais para o lado, pernas ligeiramente flectidas e um meio suspiro contido) para uma sessão de psicanálise. Dra. Woody, deixe-me começar pelo início: é a primeira pessoa, em toda a minha curta cinematografia, que me chuta assim para dentro do consultório como se fosse essa a coisa de que mais precisasse. Acho mesmo que precisa e desculpe-me por ser assim, «directa como um comboio» (esta comparação, mais gélida e menos imaginativa do que a metáfora, entenda-se, é de Romana Petri em Os Pais dos Outros).

Não há dúvida de que, se ambas temos acesso a bons dicionários, a Dra. (espero que não se importe com esta promoção académica) faz muito melhor uso deles do que eu. Tive de ler os seus dizeres calorosos três vezes para me certificar de que, em primeiro lugar, não estava a ler nada tirado da Crítica da Razão Pura e, depois, para saber se seria possível responder-lhe com a mesma cordialidade com a qual se me dirigiu. Depois, e isto sei que é burrice minha, ainda estou para saber como é que descobriu que eu me chamo Tatiana - e olhe que não é a primeira pessoa a descobri-lo. Então e Teresa, Tareca, Tânia, Telma, Taís, Tamara, Teodora, não servia? Tinha de ser logo Tatiana? Está visto: garota da linha de Sintra, que prefere os regionais aos pendulares, que não percebe patavina de filosofia analítica e ainda por cima maltrata o Prof. Prado Coelho, só pode chamar-se Tatiana. Tê de Tudo bem, isso é o menos. Agora não me tratar por Tu? Miss Woody, acho indecenTe!

Ora bem, a discursividade universal. Há uma discursividade não universal? Se há, dê-me uma morada onde eu a possa arranjar e prometo, de promessa prometida, que não digo ao dealer que foi a senhora que me mandou lá. Já que estamos numa de transportes púbicos (acrescentar um L se necessário), só me consigo lembrar da discursividade limitada e aforística q.b. dos maluquinhos do trainspotting. Uma vez, o meu querido amigo Filipe obrigou-me a estar acordada até às 3 da manhã para ver, em Alfarelos, passar as Bombardiers. Das melhores noites que vivi. Ainda não tinha descoberto o sexo e o Count Basie não mudara a minha vida. Mudando de assunto, é verdade que os teóricos da comunicação têm distinguido, com muita dedicação e algum interesse, o discurso da linguagem. Não desvirtue só por isso, querida Dra., os meus serviços terapêuticos. Não são discurso, são linguagem. E só não são um peido de Leonardo da Vinci porque, tenho a certeza, cheiram muito melhor. A éter, às vezes.

E era mesmo à volatilidade que eu queria chegar. Querida Dra., se eu quisesse ser coerente, escrevia nos jornais - embora seja verdade que só não escrevo nos jornais porque os próprios jornais, coitados, não me querem (e não é por falta de espaço). Se algum dia escrever neles, se algum dia me quiserem, prometo que vou falar da vida com a mesma propriedade com a qual a senhora fala da versão neerlandesa de Ne Me Quittes Pas. Quer saber um segredo-bomba, daqueles de foda, daqueles de cama? Ando enrolada com a Sofística, mas a Filosofia não pode saber. O Grande Sacana sabe e vai-me castigando. Mas, no fundo, gosta muito de mim: vai com calma nos troços mais perigosos da linha e não se detém nos seguros. É muito bom ter amigos influentes.

Somos putas? Somos e só variamos nos preços e nos serviços prestados. Somos sérias? Podemos sê-lo, desde que não o sejamos em sentido bíblico. Eu vou-me embebedando com a hóstia e empanturrando com o vinho, beata como uma mula, graças a Deus.

A Tatiana que está prestes a vir, Mestre Woody? Então nem me perguntou a hora a que nasci e já me traçou a carta astrológica? Ou estava a referir-se ao orgasmo ascendente? Que imprecisão! Nem esperou que eu gritasse em seu auxílio. Há uma cigana, perto do Curry Cabral, que me faz isso quase todos os dias. Se continuar a chatear-me muito, não se safa de um dia levar uma marretada em nome do Santinho Padre Cruz.

«Plêiades literárias de cunho acusatório». É bonito. Nunca ninguém me tinha caracterizado a discursividade (que, afinal, de tão nefasta, já parece que se livra de ser universal) com tantas palavras com mais de três sílabas. Sou suficientemente pretensiosa – isto só para lhe fazer a vontade, que o que eu queria mesmo ser era honesta – para achar que sei o que é a beleza. Há os gordos e os magros, os altos e os baixos, os feios e os bonitos, os burros e os inteligentes. No essencial, divergem uns dos outros porque nos dão, ou não, tesão – valha-nos a Discursividade Universal, que se não fosse ela andaríamos sempre de dicionário de sinónimos em punho.

As pernas da Cyd Charisse, Miss Woody, são lá comparáveis às do estafermo da esquina! O estafermo até pode ser especialista em Wittgenstein, mas se não ficar muito bem de saltos altos e não disser, de vez em quando, umas badalhoquices de voz doce, ninguém lhe pega. Nem a menina lhe pegava. Isto não me impediu, nem a si, decerto, de amar pessoas feias, gordas, pretas, quem sabe. A minha cama é estreita mas o meu tapete terá de ter sempre uns bons metros quadrados, para se cair e saltitar como uma bola de ténis, errar bastante sem sentir frio e mandar vir medir depois os estragos na escala de Richter.

Contra si, nada tenho. Se a Allen me acha piada, ainda tenho menos contra ela. E não me leve a mal, mas vê-se mesmo que não me conhece. Nestes e nos outros meses do ano, sou toda calor e gosto até de quem não gosta de mim. Mas gosto sobretudo de quem gosta e gosto ainda mais de quem gosta muito. Se sou puta quero, ao menos, sê-lo bem - e para isso, graças a Deus, não preciso de ganhar medalhas.

Fala-se muito pouco dos homens discretos
















daqueles que se encontram num hipermercado, a uma sexta-feira à noite, misturados com a Ágata e com os AC/DC e pelos quais ninguém, no seu perfeito juízo, daria um chavo. Tradução para quem se interessa e antes que a Sonae dê cabo do paraíso: Impulse!, Verve e Decca a preços de fábrica no Carrefour Oeiras.

Como dizia o apanha-bolas

Joguei ténis durante vários anos. Cheguei a ganhar duas medalhas. Depois desisti. Para mim, aquilo era só uma cambada de betos e betas competitivos com vontade de exibir a raquete, vestir branco e ficar com pernas bonitas - tudo isto sem precisar de sair do Restelo. Pensando bem, assim num tom tão quase literário que não chega a ser filosófico, eram os limites que me desagradavam no ténis. Enquanto no baseball o que importa é transbordar - home run a perder de vista - , no ténis não entra nada que se pareça com água. Na vida, na vida a sério, na vida que algumas pessoas têm a coragem de viver - duas ou três ou quatro, é claro que eu não venho nesse pacote -, nenhuma bola cai dentro. Não se serve nem se está nunca do lado de fora. Nenhuma bola se apanha sem bater no chão pelo menos oitenta vezes, que é o mesmo que dizer que ninguém é menos estúpido do que o suficiente para errar muitas vezes o mesmo erro. A caracterização do duelo pelo olhar é muito perspicaz e acertada, mas acho as personagens de Sergio Leone de uma sujidade bem mais encantadora do que a dos jogadores de ténis. Delicio-me, agora, com o pingue-pongue. Se a brincadeira de bater umas bolas é saber da vida, então que seja mesmo como ela: veloz, divertida e, se for possível, que passe por nós sem darmos por isso.

*E escusado será falar no alívio que sinto por não precisar mais de vestir saias daquele tamanho.

Jazz com Pretas [11]


* melhor aqui, mas o autor não deixa postar; e a esta versão eu nunca resisto. Tudo isto e mais alguma coisa por recomendação divina. Em caso de dúvida, contacte o sindicato.

Educação ferroviária

Hoje fui ao Porto e voltei, de Intercidades. Para a próxima, mesmo que demore mais tempo, vou no Regional. Não gosto de comboios silenciosos e por isso não escolhi o Alfa-Pendular. Engano. O único sítio onde num Intercidades se ouve pouca-terra-pouca-terra-uuu-uuu é no WC e, mesmo assim, o uuu-uuu está quieto e isso só acontece naqueles troços da linha que o tempo, Sacana Um Bocadinho Mais Pequeno Do Que O Outro Grande, não respeitou. Depois, os assentos do Intercidades são demasiado confortáveis e há o ar condicionado, que desgraça qualquer pessoa que goste de olhar pela janela - por falar nisso, vai uma aposta em como eu amanhã vou acordar aniquilada por dores de garganta ou de cabeça? No Intercidades há um bar e eu quero que viva o farnel. O Intercidades não pára em todas as estações, e eu não suporto passar em estações tão rapidamente que não me seja possível ler-lhes o nome. Caxarias, por exemplo. Quem nunca passou por Caxarias não percebe que está a passar por Caxarias se não conseguir ler a duzentos quilómetros por hora. Uma viagem de comboio - duas, no caso - da qual se sai sem qualquer dor no corpo não é uma viagem de comboio, é um passeio. Eu hoje fui ao Porto passear.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Escrevi, uma vez, uns louvores à paciência. A verdade é que não tenho nenhuma. Não posso nem consigo esperar por aquilo que quero muito. A espera consome-me, carboniza-me, traz-me cólera. Fico - sei que fico - insuportável quando tenho de esperar por aquilo que quero muito. A sexta-feira não me anima. O que eu quero é a vida, aqui e agora, real como uma fotografia por tirar. Quando um corpo faz click! não acaba, acaba de começar.

Diário das Descobertas - 8 de Setembro de 2007 (por antecipação)

Sei de uma coisa que o aio de D. Manuel I lhe disse, quando el-rei era ainda muito pequenino. Como constatamos todos os Dezembros e Janeiros, el-rei não percebeu e, como podemos constatar de Fevereiro a Novembro, acabou por perceber tudo ao contrário - pois se até se fez Bem-Aventurado! Vejam o que dizia o aio: «Meu rico menino, se a fruta cristalizada se fizesse ao mar, era um grande favor que fazia ao bolo rei.»

Diário das Descobertas - 7 de Setembro de 2007

Diogo Cão tinha pelo menos uma certeza: a de que era mamífero.

Hoje não li os jornais. Amanhã também não.

Paradisia radugaleta voa e faz a pirueta ou de como não me agrada a caligrafia de Nabokov

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Presente do Indicativo do verbo voltar em versão religiosa e com omissão da segunda pessoa do plural

Eu messia
Tu messias
Ele messia
Nós não messíamos
Eles messiam mais do que tiveram.

Breve maltratado das coisas que não existem [31]

Os inquéritos de satisfação. Nunca vi ninguém responder a um inquérito sem estar contrariado.